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FAQ: “Se não podemos provar a existência ou não-existência de um deus, não faz mais sentido auto-descrevermo-nos como ‘agnósticos’ em vez de ‘ateus’?”

30 de Março, 2012

(Nota aos leitores habituais do blog: como esta questão já foi várias vezes abordada aqui, a maior parte do conteúdo desta entrada do FAQ vem de posts anteriores.)

Por vezes esta pergunta é feita de outro modo: “se não se pode ter a certeza absoluta, então não estarão os ateus a ser tão fanáticos e dogmáticos como os crentes, e não será a única posição racional o agnosticismo?”

A questão aqui é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não afirma nem pensa ter um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus1, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” (ou gnósticos) são os crentes fundamentalistas ultra-fanáticos que nunca tenham quaisquer dúvidas; nem os crentes “normais” (a esmagadora maioria deles) nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima. Sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que foi abordado nesta entrada do FAQ até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”. E, frequentemente, inclui também a insinuação de que “os ateus são tão fanáticos como os crentes”, e que só os agnósticos como ele é que têm uma posição racional.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”2). Da mesma forma, o típico “agnóstico” não tem dúvidas de que amanhã 2+2 continuarão a ser 4, apesar de não o poder provar. Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe” ou “não sei explicar algo que me aconteceu, logo foi Deus“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. É como dizer que, se há imensas evidências para A e nenhumas para B, então A e B são igualmente prováveis. Daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

Por último, há outra possibilidade. Para quem tenha sofrido consequências do fundamentalismo religioso, estará sempre presente na sua memória como tais crentes estavam completamente certos daquilo em que acreditavam, sem alguma vez questionarem essas crenças. Ao escapar de tal fundamentalismo, é natural que se passe a desconfiar da própria ideia de se ter certezas absolutas e dogmáticas, imunes a qualquer facto ou argumento. E, pensará uma pessoa nesta situação, não será o ateísmo simplesmente a outra face da mesma moeda — a “certeza absoluta e dogmática” de que não existem deuses? Não serão os ateus vítimas (ou culpados) exactamente do mesmo erro? Se não temos (e nem devemos ter) uma crença 100% inalterável e perfeita, não fará mais sentido uma pessoa “manter a mente aberta” e descrever-se como agnóstica?

A resposta é “não”, por uma simples razão: há aí um erro de definições. O ateísmo não é a “certeza absoluta e dogmática” de que não existe nenhum deus; é, sim, a ausência de crença em um deus ou deuses. É tratar “deus” como se trata “fadas” ou “duendes”: uma pessoa não precisa de ter estar “absoluta e dogmaticamente” certa de que essas criaturas não existem, basta não acreditar nelas, não ter nenhuma crença nelas.

Não é preciso ter-se um conhecimento perfeito do universo (omnisciência), ou “provas” absolutas da não-existência de um deus, para se ser ateu. Basta o seguinte: escalar as crenças segundo as evidências, o que é de qualquer forma a posição racional a ter-se. Note-se que um crente assumidamente não escala as suas crenças de acordo com as evidências; o que ele faz, pelo contrário, é afirmar que crenças sem evidências (isto é, “fé”) são uma virtude. (Curiosamente, o mesmo crente tipicamente não aplicará isso às crenças de outras religiões, que para ele estarão obviamente erradas…)

Mas para quem prefira, racionalmente, que as suas crenças escalem de acordo com as evidências, é fácil chegar-se ao ateísmo; aliás, é a única conclusão lógica. Zero evidências para algo -> zero de crença nesse algo, e “zero de crença” em um deus ou deuses é a definição de ateísmo. Não é necessária nenhuma fé, nem omnisciência, nem nenhuma certeza “absoluta e dogmática” para chegar a esta posição.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  2. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

Back in business

29 de Março, 2012

Tenho andado afastado deste blog (para ser exacto, de blogs em geral) há um bom tempo, mas tem-me estado a apetecer voltar… e já vi que tenho muito para fazer, em relação a comentários, já que o blog parece estar cheio de comentários:

- copy & pastes de coisas tangencionalmente (ou nada) relacionadas com o assunto do post

- insultos e acusações parvas (ex. “vocês são mas é uns satânicos!”)

- anti-semitismos (!)

Vou ter de gastar algum tempo a tratar desses comentários. A maioria será simplesmente apagada, mas posso deixar alguns — com a devida resposta — para exemplificar a mentalidade de certas pessoas.

Vou também ver se actualizo as regras para comentários, em especial relativamente a copy & pastes gigantescos — muitas vezes feitos por quem nem entende o conteúdo dos mesmos, e não é capaz de responder a perguntas sobre eles. Não é que este tipo de comentadores olhe para regras, mas pode, raramente, haver excepções. :)

Imagino que esteja apenas a gastar os dedos, mas, please, aprendam a comentar. Respondam aos posts, ou a outros comentários. Ponham dúvidas, ou peçam explicações. Digam onde é que eu (ou o autor do comentário ao qual respondem) estou/está errado, e porquê. E deixem-se da imbecilidade de fazer copy & paste de monstruosidades sem sentido, muitas vezes nem sequer relacionadas com o post onde comentam. Ajam como adultos racionais, em vez de parecerem tipos de barba, com roupas sujas e rasgadas, em cima de caixas de madeira, com um megafone na mão.

FAQ: “Tive uma experiência que me prova que Deus existe.”

23 de Abril, 2011

Aviso: a tua memória dessa experiência é, quase de certeza, algo com o qual tens uma forte ligação emocional, e quaisquer argumentos contra a tua interpretação dessa experiência vão-te parecer um ataque pessoal. Não o são.

Este é um argumento relativamente comum. Há várias variantes possíveis:

  • “na altura pior da minha vida, quando nada parecia fazer sentido e não parecia haver esperança, senti a presença de Deus, o que me inspirou a endireitar a minha vida”
  • “numa altura de despero, pedi ajuda a Deus, e aconteceu algo invulgar demais para ser uma mera coincidência; acredito que foi um milagre”
  • “aconteceu algo que não consigo explicar, que não pode ter sido um fenómeno natural; logo, só pode ter sido um acto de Deus”

Possivelmente, o teu caso será igual ou semelhante a um dos acima (caso não seja, por favor conta-o, num comentário). E, mais uma vez, eu acredito que isto seja algo actualmente “especial” para ti, algo no qual tens um grande investimento emocional. Foi, possivelmente, como estares-te a afogar e sentires alguém a agarrar-te na mão e puxar-te para cima, e até hoje é a memória mais importante na tua vida. Acredites ou não, eu compreendo, melhor do que possivelmente imaginarás, como isto é importante para ti.

Mas também acredito que a realidade deve sempre estar acima de tudo; que devemos corrigir quaisquer crenças erradas que tenhamos, por muito bem que estas nos façam sentir. Estás à vontade para não concordar com isto. É um direito teu não questionares algo que te é confortável. Sendo assim, é melhor parares de ler agora.

Se ainda aí estás… peço-te que comeces por te perguntar o seguinte em relação à tua experiência: como é que sabes que a tua interpretação é a correcta? Suponho que não te aches infalível nem omnisciente, pelo que, sendo assim, te deverás indagar sobre porque é que sabes que o que se passou só pode ter origem “divina”, não sendo possível nenhuma outra explicação. Consideraste mesmo outras hipóteses? Consideraste de forma séria as possíveis explicações naturais antes de passares para uma sobrenatural? E, se não o fizeste, não achas que o devias ter feito?

“Sentir a presença de Deus” num momento de desespero — ou seja, de vulnerabilidade emocional — não é nada único, nem sequer incomum. É uma altura em que as nossas emoções estão ao de cima, e a nossa racionalidade e cepticismo estão ao mínimo; ou seja, é uma altura em que estamos desesperadamente a querer sentir algo, querer sentir uma presença, um toque confortador, sentir que, por muito que o mundo seja frio e cinzento, as pessoas não se importem, e a nossa vida esteja horrível, há “lá em cima” alguém que se importa, e que nunca nos trairá ou abandonará. Entre querer-se, desesperadamente, sentir isso, e sentir-se efectivamente isso, a distância é muito curta, não te parece?

Repara também no seguinte: os crentes de outras religiões têm sensações quase iguais. Até os não-crentes as podem ter, em determinadas situações. Isto sugere fortemente que elas não vêm de um deus específico, mas sim das nossas próprias mentes.

Relativamente a coincidências, elas acontecem frequentemente. A questão essencial, aqui, é esta: nós não nos apercebemos das vezes em que elas não acontecem. A maior parte das superstições surge de algo deste género. Por exemplo, um jogador de futebol faz um jogo bastante melhor do que o habitual, marcando vários golos e afins. No fim do desafio, ele repara no facto de (por exemplo) ter um buraco na meia direita. Imediatamente, essa torna-se a “meia da sorte” para ele. Possivelmente, já fez vários jogos medianos com essa mesma meia, mas ele esquece-se disso. Já terá tido jogos bons sem a mesma, mas não terá isso em mente. No futuro, terá jogos maus com a mesma meia, mas, mais uma vez, não reparará em tal facto. Mas, se voltar a ter um bom jogo com essa meia? “Vêem? A minha meia da sorte nunca falha!”

145.pngEm resumo: a mente humana é péssima a lidar com “coincidências”. A tendência é sempre repararmos nas vezes em que a nossa crença se parece confirmar, e ignorarmos as vezes em que ela é negada.

Por outras palavras: se um dia pediste algo possível a Deus (ex. “estou atrasado para o trabalho; Deus queira que não haja trânsito hoje”) e esse algo efectivamente acontece, lembrar-te-ás disso no futuro. Se não acontecer, esquecer-te-ás; nem sequer pensarás mais nisso. É assim que as nossas mentes funcionam, e não há que ter vergonha disso; mas, precisamente por isso, é bom prepararmo-nos para esses possíveis erros.

Finalmente, relativamente a supostos “milagres” (que não sejam meras “coincidências”, como as descritas acima), talvez o melhor seja descreveres o mesmo num comentário. Mas, mais uma vez, a mente humana é muito fácil de se enganar; visões, alucinações e sonhos “surreais” são do mais frequente que há.

Acrescento ainda que, mesmo que se demonstrasse conclusivamente que algum evento foi efectivamente sobrenatural (o que nunca aconteceu até hoje), daí apenas se poderia concluir que “o sobrenatural existe”. Nunca algo como “Deus existe”, e muito menos “o deus da religião em que fui educado existe”. Da primeira conclusão para as duas seguintes vai um salto bem maior do que provavelmente imaginas, e que não se pode logicamente dar.

Mais uma vez, se tiveste alguma experiência que não se enquadre nos 3 tipos que mencionei, ou que aches que seja possível de provar com factos e lógica (em vez de simplesmente “para mim é assim e pronto”), está à vontade para comentar.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Richard Dawkins, e ateísmo vs. agnosticismo

21 de Abril, 2011

Richard Dawkins na Global Atheist Convention 2010, na Austrália:

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Excelente, recomendo vivamente, etc. etc.. É mais sobre biologia / evolução do que propriamente ateísmo ou religião, mas vale a pena.

Mas este post, além de se dedicar a partilhar o vídeo, foca-se numa pergunta, na secção Q&A no fim do vídeo, e respectiva resposta. A pergunta é:

Auto-descrevo-me como agnóstico, porque, apesar de achar que não existe nenhum deus, não tenho a certeza absoluta; há sempre uma pequena, minúscula hipótese. Ao descreverem-se como ateus, vocês não correm o risco de ser tão dogmáticos como os crentes?

A resposta do Dawkins foi boa: tecnicamente somos todos agnósticos em relação a tudo aquilo em que não acreditamos (ex. fadas, lobisomens), já que não é possível provar-se que algo não existe. Referiu a escala de crença que já tinha usado para explicar esta questão no The God Delusion, em que 1 é “eu sei que existe um deus” e 7 é “eu sei que não existe”, e descreveu-se a ele próprio como um 6.9. Mas acho que ele podia também ter ido por outro lado.

De certa forma, eu compreendo a preocupação do tipo que fez a pergunta. Para quem tenha sofrido consequências do fundamentalismo religioso, estará sempre presente na sua memória como tais crentes estavam completamente certos daquilo em que acreditavam, sem alguma vez questionarem essas crenças. Ao escapar de tal fundamentalismo, é natural que se passe a desconfiar da própria ideia de se ter certezas absolutas e dogmáticas, imunes a qualquer facto ou argumento. E, pensará uma pessoa nesta situação, não será o ateísmo simplesmente a outra face da mesma moeda — a “certeza absoluta e dogmática” de que não existem deuses? Não serão os ateus vítimas (ou culpados) exactamente do mesmo erro? Se não é possível ter-se 100% de certeza, não fará mais sentido uma pessoa descrever-se como agnóstica?

A resposta é “não”, por uma simples razão: há aí um erro de definições. O ateísmo não é a “certeza absoluta e dogmática” de que não existe nenhum deus; é, sim, a ausência de crença em um deus ou deuses. É, como o Dawkins mencionou, tratar “deus” como se trata “fadas” ou “duendes”: uma pessoa não precisa de ter estar “absoluta e dogmaticamente” certa de que essas criaturas não existem, basta não acreditar nelas, não ter nenhuma crença nelas.

Como já argumentei no passado, não é preciso ter-se um conhecimento perfeito do universo (omnisciência), ou “provas” absolutas da não-existência de um deus, para se ser ateu. Basta o seguinte: escalar as crenças segundo as evidências, o que é de qualquer forma a posição racional a ter-se. Note-se que um crente assumidamente não escala as suas crenças de acordo com as evidências; o que ele faz, pelo contrário, é afirmar que crenças sem evidências (isto é, “fé”) são uma virtude. (Curiosamente, o mesmo crente tipicamente não aplicará isso às crenças de outras religiões, que para ele estarão obviamente erradas…)

Mas para quem prefira, racionalmente, que as suas crenças escalem de acordo com as evidências, é fácil chegar-se ao ateísmo; aliás, é a única conclusão lógica. Zero evidências para algo -> zero crença nesse algo, e “zero crença” em um deus ou deuses é a definição de ateísmo. Não é necessária nenhuma fé, nem omnisciência, nem nenhuma certeza “absoluta e dogmática” para chegar a esta posição. Afinal, se um dia *aparecesse* qualquer evidência, eu (como qualquer ateu racional) reconsideraria a minha posição…

Porque não acredito em “Teorias de Conspiração”

18 de Abril, 2011

As yet, the Ultimate Evil remains largely unmanifest, and its powers and exact intentions are still a bit obscure, since it lurks just outside the range of even the most sensitive, long-range detectors, which we feel gives conclusive evidence as to the Ultimate Evil’s nefarious intent.

– Fwiffo, Star Control II

A ideia de que vivemos num mundo caótico, sem um “plano” único e deliberado, e em que os nossos “líderes” — governantes de países e gestores de empresas multinacionais — não sabem, em grande parte, o que estão a fazer, é, para muita gente, do mais assustador que pode haver. É, de certa forma, o equivalente a uma criança pequena aperceber-se pela primeira vez na vida de que os seus pais são imperfeitos, que não têm todas as respostas, e que muitas vezes nem estão em sintonia um com o outro. Que não há ninguém absolutamente competente a cuidar de nós. É um terror básico, que não desaparece totalmente pelo simples facto de chegarmos à idade adulta. O ser humano, em certos aspectos, nunca cresce totalmente: continuamos a necessitar, em diversos graus, de nos sentir seguros, de sentir que há ordem no universo, de que há um plano, de que há uma espécie de “pai” que cuida de nós — mesmo que muitas vezes não o entendamos, os seus objectivos nos sejam em grande parte incompreensíveis, e ele nos pareça por vezes até cruel.

Não, não estou, neste caso, a falar de religião, se bem que tudo o que escrevi acima é perfeitamente aplicável também aí. :) Refiro-me, sim, a quem acredita em teorias de conspiração (chamemos-lhes “teóricos de conspiração”, se bem que isso não soa nada bem — mas sempre é melhor do que os “conspiradores teóricos” que apareceram em legendas portuguesas, em tempos…): a ideia de que há certos “powers that be”, normalmente sob a forma de uma organização ultra-secreta — tão secreta que a maioria das pessoas nem nunca ouviu falar dela — que controlam, a partir das sombras, o avanço e o destino da humanidade, estando acima de presidentes e outros líderes “visíveis”. E que isto é assim há séculos, ou mesmo milénios.

Para um teórico de conspiração, tudo o que acontece — os resultados de uma eleição, um golpe de estado, uma crise económica, uma celebridade assassinada, ou mesmo um avanço científico –, acontece porque eles assim o decidiram, e de acordo com o seu plano. Eles controlam tudo, são absolutamente competentes, e é virtualmente impossível frustrar os seus planos — sobretudo porque a maioria dos “carneiros” desconhece que eles sequer existem, vivendo feliz na sua ignorância. E eles são, obviamente, muito eficientes a fazer desaparecer evidências… ou pessoas. Afinal, fazem-no há centenas de anos. E todos os eventos registados na História têm um significado diferente, quando interpretados sob este ponto de vista.

Mais incrivelmente, quando confrontados com a falta de evidência para justificar a sua crença de que os Illuminati, a Maçonaria, os Bilderberg e afins controlam o destino da humanidade, os teóricos de conspiração têm na ponta da língua a resposta, a seu ver, perfeita: isto só prova que eles são absolutamente competentes a manter oculta a sua influência, e em certos casos a sua existência. Tal como na citação no início do post, a prova de que eles existem é que não os conseguimos detectar. A prova de que controlam tudo é que não conseguimos sequer ver esse controlo. E a explicação para tanta “furtividade”? Intenções sinistras, é claro.

É uma lógica curiosa: quanto menos evidências deixam, mais competentes e malignos são; logo, se há zero evidências, então são supremamente competentes e malignos. A ideia de que zero evidências também pode, sei lá, quem sabe, indicar que realmente não existem (ou, em casos como a Maçonaria, não têm o poder nem fazem as coisas que lhes são atribuídas) nem lhes parece passar pela cabeça…

Possivelmente, alguns teóricos de conspiração até se consideram cépticos — isto é, não acreditam cegamente, dizem eles, na “versão comum” da História, da política, de como a humanidade se gere e progride. Mas isto é um erro. O verdadeiro cepticismo baseia-se em escolher e escalar as nossas crenças de acordo com as evidências disponíveis, e não em rejeitar toda e qualquer evidência contrária a uma crença pré-assumida — ou, pior ainda, em reinterpretar a ausência de evidência a favor dessa crença como “prova” de que ela é válida (!). E é isto que um teórico de conspiração efectivamente faz. Depois de construir a sua crença, não há evidências contra essa crença que surtam qualquer efeito; tudo pode ser reinterpretado como “isso é o que eles querem que pensemos!“. Por outro lado, qualquer ponto aparentemente a favor dessa crença, por muito “rebuscado” que seja, serve-lhe de confirmação — mais do que suficiente, para ele — de que a mesma é legítima. Isto, como espero ser óbvio, não é uma forma nem científica, nem céptica, nem intelectualmente honesta de ver as coisas.

E com isto lanço um desafio a qualquer teórico de conspiração que leia isto e não concorde com a minha posição. O desafio é este: há alguma coisa, algum tipo de evidência, que te fizesse admitir que estás errado/a, que as tuas crenças sobre conspirações e organizações ultra-secretas são infundadas, que o mundo realmente é caótico, os nossos “líderes” são na sua maioria mais ou menos incompetentes, e não há qualquer “plano” a ser mantido cuidadosamente por um grupo sombrio?

Se não há, se qualquer possível evidência que te fornecessem seria imediatamente reinterpretada como “isso é o que eles querem que se pense” (confirmando, dessa forma, ainda mais a tua posição), se a tua crença é completamente imune à realidade, então de onde é que ela realmente vem? Será de um medo de viveres num mundo caótico onde as coisas acontecem muitas vezes sem explicação, sem fazerem parte de um plano? Ou é simplesmente porque sabe bem sentires-te “especial”, ao seres o único, ou dos pouquíssimos únicos, que sabe a “verdade” por detrás das coisas, enquanto o resto da humanidade não passa de  “carneiros” iludidos? Pensa lá bem. É que acabaste de demonstrar que não procede de factos, de evidências, ou de uma observação honesta do mundo… o que faz de ti o oposto de um “céptico”: um crente dogmático, que escolhe e mantém determinadas crenças apenas porque isso o faz sentir-se bem.

O céptico na sala (música)

30 de Março, 2011

Isto está lindo. :) Grande letra, e grandes exemplos.

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Adoro o optimismo da conclusão, também. Já várias pessoas me perguntaram, por eu escrever sobre estes assuntos (se bem que o tenho feito menos nos últimos tempos, em parte por andar mais ocupado com o meu novo blog de temas “geeky”, Winterdrake), se eu acho (por vezes com uma atitude de “serás assim tão ingénuo?”) que o que escrevo neste blog, e o que já escrevia noutros no passado, alguma vez vai fazer alguém mudar de ideias, já que 1) as pessoas em geral não o fazem, ponto, 2) religiosos são especialmente difíceis e dogmáticos, tratando em geral as suas crenças como “tabu”, e 3) se eles próprios admitem que não é pelo uso da razão que têm as suas crenças, não são argumentos racionais que alguma vez os vão afectar.

Tudo isso é, em grande parte, verdade. Mas, sim, se sem dúvida não dá para atingir os fundamentalistas fanáticos, também há crentes “on the fence”, que começaram a duvidar das crenças em que foram educados desde bebés, mas que mesmo assim não fazem ideia de que livrar-se completamente delas é uma opção, que é possível ser-se um ateu (ou qualquer forma de “não-crente”) sem que isso faça de nós a) monstros imorais, e b) pessoas deprimidas, com vidas frias, cinzentas e sem objectivo. Às vezes, um mero exemplo pode fazer a diferença. Outras vezes, pode ser um argumento.

Da mesma forma, é possível que passem por aqui crentes que acham que chegaram à sua fé de uma forma racional, que respeitam o raciocínio e a lógica1. Infelizmente, em mais de um ano de existência deste blog, continuo à espera.), e que talvez reconsiderem as suas crenças se confrontados com o facto de que o raciocínio e a lógica são incompatíveis com tais crenças. Sim, sem dúvida que muitos aí escolherão rejeitar o raciocínio e lógica, rejeitar a mente… mas é possível que nem todos o façam. E uma pessoa libertar-se das suas crenças (coisa que me disseram que já aconteceu, noutro blog, anos atrás) já é bom, já fez tudo valer a pena.

  1. aliás, adorava um dia ter aqui comentários de algum crente capaz de argumentar com factos e lógica, em vez de simplesmente “pregar”, citar a Bíblia EM MAIÚSCULAS (o que obviamente é mais convincente), ameaçar-me com a Aposta de Pascal, ou tentar psicanalisar-me por eu falar destes assuntos (“obviamente, precisas de te sentir superior… ah, e és ateu porque odeias Deus por causa de uma má experiência na infância!”) []

Sam Harris: “‘Ateísmo’ é um termo que nem devia existir”

28 de Janeiro, 2011
Sam Harris: 'Ateismo' é um termo que nem devia existir

Fonte: The Jewmanist

Beta Ray Bill, o ateu

30 de Dezembro, 2010

Não posso resistir a partilhar o seguinte (obrigado, André):

I am alone. I look at the heavens and think them empty. And if not empty, I find the idea of worshipping whatever dwells there obscene.

(fonte: Beta Ray Bill: The Green of Eden)

Em 3 quadradinhos e com pouco diálogo, resume não só o ateísmo — incluindo a ideia de que, mesmo que algo existisse, “adorar-se” automaticamente esse algo seria de um rastejar cobarde e repugnante –, como tambem o humanismo — fazer o “bem” não por medo de castigo ou desejo de recompensa, mas porque é a coisa certa a fazer, porque este universo é, tanto quanto sabemos, o único que temos, e, se o podemos influenciar de alguma forma, que seja de uma forma boa.

Ao maluquinho do 189.69.21.176 …

9 de Dezembro, 2010

… por favor, deixe de fazer comentários completamente insanos e “divagantes”, cheios de longos parágrafos em maiúsculas, totalmente desprovidos de conteúdo, e sem ser relacionados com o tema dos posts. E 8 em menos de um dia.

É óbvio que tais comentários serão apagados, uma vez que 1) violam as regras para comentários, e 2) não dizem absolutamente nada (e repare-se que não digo “nada de interesse” ou “nada correcto”; é nada mesmo). Mas são incómodos.

Continuo à espera, neste blog, do primeiro comentário minimamente coerente da parte de algum crente. “Coerente”, aqui, significa apresentar a sua posição e justificá-la. Isso é assim tão difícil? Dizer “estás errado em X, porque Y”, ou mesmo “acredito em X, porque Y”? Bolas, no blog em inglês aparecia algum assim de tempos a tempos. O que se passa com os crentes portugueses e brasileiros? São assim tão obcecados pelo copy & paste de diarreias verbais bizarras? :(

Os dois tipos de “agnosticismo”

10 de Novembro, 2010

Sim, o meu último post, Definição de Agnosticismo, é intencionalmente provocativo. Mas alguém que por acaso tenha lido todos os posts neste blog (sim, eu gosto de imaginar que existe alguém assim) pode, talvez, lembrar-se de um post mais antigo, importado do blog pessoal, que se refere a um conceito de “agnosticismo” bastante diferente.

O que se passa, então? Estou-me a contradizer completamente? Mudei de ideias no último ano?

Nope. O que se passa é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Pequeno “à-parte”: acontece algo parecido com o termo “teoria”: em linguagem corrente, dá a ideia de uma hipótese que levantámos entre a 3ª e a 4ª cerveja da noite, numa conversa de amigos. Cientificamente, é algo muito mais detalhado e formal, que é suposto 1) poder fazer previsões confirmáveis, e 2) ser desprovável1, mas não ter factos que a “desprovem”. Assim, quando um criacionista diz que “a evolução é só uma teoria”, ele está a ser ignorante (confundindo significados) ou, mais provavelmente, desonesto (já que de certeza que alguém já o esclareceu sobre o significado científico de “teoria”, mas ele continua intencionalmente a confundir as coisas).

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não reivindica um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus2, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” são crentes fundamentalistas fanáticos; nem os crentes “normais” nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima; sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que estive a falar neste post até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”3). Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como eu disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. Daí a minha última definição. E daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

  1. “foi Deus” não é desprovável, logo nunca pode ser uma teoria científica. []
  2. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  3. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

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