Aviso: a tua memória dessa experiência é, quase de certeza, algo com o qual tens uma forte ligação emocional, e quaisquer argumentos contra a tua interpretação dessa experiência vão-te parecer um ataque pessoal. Não o são.
Este é um argumento relativamente comum. Há várias variantes possíveis:
- “na altura pior da minha vida, quando nada parecia fazer sentido e não parecia haver esperança, senti a presença de Deus, o que me inspirou a endireitar a minha vida”
- “numa altura de despero, pedi ajuda a Deus, e aconteceu algo invulgar demais para ser uma mera coincidência; acredito que foi um milagre”
- “aconteceu algo que não consigo explicar, que não pode ter sido um fenómeno natural; logo, só pode ter sido um acto de Deus”
Possivelmente, o teu caso será igual ou semelhante a um dos acima (caso não seja, por favor conta-o, num comentário). E, mais uma vez, eu acredito que isto seja algo actualmente “especial” para ti, algo no qual tens um grande investimento emocional. Foi, possivelmente, como estares-te a afogar e sentires alguém a agarrar-te na mão e puxar-te para cima, e até hoje é a memória mais importante na tua vida. Acredites ou não, eu compreendo, melhor do que possivelmente imaginarás, como isto é importante para ti.
Mas também acredito que a realidade deve sempre estar acima de tudo; que devemos corrigir quaisquer crenças erradas que tenhamos, por muito bem que estas nos façam sentir. Estás à vontade para não concordar com isto. É um direito teu não questionares algo que te é confortável. Sendo assim, é melhor parares de ler agora.
Se ainda aí estás… peço-te que comeces por te perguntar o seguinte em relação à tua experiência: como é que sabes que a tua interpretação é a correcta? Suponho que não te aches infalível nem omnisciente, pelo que, sendo assim, te deverás indagar sobre porque é que sabes que o que se passou só pode ter origem “divina”, não sendo possível nenhuma outra explicação. Consideraste mesmo outras hipóteses? Consideraste de forma séria as possíveis explicações naturais antes de passares para uma sobrenatural? E, se não o fizeste, não achas que o devias ter feito?
“Sentir a presença de Deus” num momento de desespero — ou seja, de vulnerabilidade emocional — não é nada único, nem sequer incomum. É uma altura em que as nossas emoções estão ao de cima, e a nossa racionalidade e cepticismo estão ao mínimo; ou seja, é uma altura em que estamos desesperadamente a querer sentir algo, querer sentir uma presença, um toque confortador, sentir que, por muito que o mundo seja frio e cinzento, as pessoas não se importem, e a nossa vida esteja horrível, há “lá em cima” alguém que se importa, e que nunca nos trairá ou abandonará. Entre querer-se, desesperadamente, sentir isso, e sentir-se efectivamente isso, a distância é muito curta, não te parece?
Repara também no seguinte: os crentes de outras religiões têm sensações quase iguais. Até os não-crentes as podem ter, em determinadas situações. Isto sugere fortemente que elas não vêm de um deus específico, mas sim das nossas próprias mentes.
Relativamente a coincidências, elas acontecem frequentemente. A questão essencial, aqui, é esta: nós não nos apercebemos das vezes em que elas não acontecem. A maior parte das superstições surge de algo deste género. Por exemplo, um jogador de futebol faz um jogo bastante melhor do que o habitual, marcando vários golos e afins. No fim do desafio, ele repara no facto de (por exemplo) ter um buraco na meia direita. Imediatamente, essa torna-se a “meia da sorte” para ele. Possivelmente, já fez vários jogos medianos com essa mesma meia, mas ele esquece-se disso. Já terá tido jogos bons sem a mesma, mas não terá isso em mente. No futuro, terá jogos maus com a mesma meia, mas, mais uma vez, não reparará em tal facto. Mas, se voltar a ter um bom jogo com essa meia? “Vêem? A minha meia da sorte nunca falha!”
Em resumo: a mente humana é péssima a lidar com “coincidências”. A tendência é sempre repararmos nas vezes em que a nossa crença se parece confirmar, e ignorarmos as vezes em que ela é negada.
Por outras palavras: se um dia pediste algo possível a Deus (ex. “estou atrasado para o trabalho; Deus queira que não haja trânsito hoje”) e esse algo efectivamente acontece, lembrar-te-ás disso no futuro. Se não acontecer, esquecer-te-ás; nem sequer pensarás mais nisso. É assim que as nossas mentes funcionam, e não há que ter vergonha disso; mas, precisamente por isso, é bom prepararmo-nos para esses possíveis erros.
Finalmente, relativamente a supostos “milagres” (que não sejam meras “coincidências”, como as descritas acima), talvez o melhor seja descreveres o mesmo num comentário. Mas, mais uma vez, a mente humana é muito fácil de se enganar; visões, alucinações e sonhos “surreais” são do mais frequente que há.
Acrescento ainda que, mesmo que se demonstrasse conclusivamente que algum evento foi efectivamente sobrenatural (o que nunca aconteceu até hoje), daí apenas se poderia concluir que “o sobrenatural existe”. Nunca algo como “Deus existe”, e muito menos “o deus da religião em que fui educado existe”. Da primeira conclusão para as duas seguintes vai um salto bem maior do que provavelmente imaginas, e que não se pode logicamente dar.
Mais uma vez, se tiveste alguma experiência que não se enquadre nos 3 tipos que mencionei, ou que aches que seja possível de provar com factos e lógica (em vez de simplesmente “para mim é assim e pronto”), está à vontade para comentar.
(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)






