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Anti-Educação Sexual: afinal, o que é que esta gente quer?

condenei ontem a atitude, os objectivos e a “moralidade” daquilo a que se podia chamar grupos pseudo-pró-vida (GPPVs, para abreviar); o “pseudo” vem do facto de eles aparentemente só se preocuparem com a vida até ao parto, e não terem problemas nenhuns com o sofrimento humano, nem com a ideia de uma “morte em vida”.

Mas eu tenho a irritante mania de querer sempre entender tudo, incluindo as posições do “inimigo”, o que é que as causa, e o que é que eles realmente querem. Neste caso, por exemplo, uma pessoa de fora pensaria que GPPVs, por serem totalmente anti-aborto, seriam os maiores apoiantes da introdução da educação sexual obrigatória às crianças! Afinal, é esta (e não a “abstinência”, que não é nem nunca foi realista), sem dúvida, a forma mais eficaz de reduzir ao máximo o número de abortos, por praticamente acabar com os possíveis motivos para estes. Se os jovens souberem o que estão a fazer, souberem como é que se engravida, e souberem como o evitar, tendo sexo de forma realmente segura, não haverá mais gravidezes indesejadas. Aliás, até poderia argumentar que se se conseguir transformar o sexo numa coisa bonita e saudável, em vez de “porca” e um bicho de sete cabeças, isso poderá diminuir o número de violações, fazendo cair ainda mais o número de abortos. Como disse, isto devia ser o que eles querem… não?

Mas não. Nem por sombras. Continuam a opor-se a todo e qualquer método contraceptivo, incluindo os tão convenientes preservativos; continuam a dizer que o sexo tem de ser só dentro do casamento e só para fins reprodutivos, nunca para prazer. Há até grupos a opor-se ao uso de preservativos dentro do casamento, mesmo sendo um dos membros do casal seropositivo. Se isto não vos choca, não sei o que chocará.

Porque é que eles agem de uma forma aparentemente tão contraditória em relação ao seu “stated goal”? Porque é que a ideia de as pessoas terem sexo por prazer, sendo isso visto como algo saudável e natural, em vez de um bicho de sete cabeças, os assusta tanto? Podia aqui armar-me em psicólogo barato e dizer que é por eles próprios não terem vida sexual (devido à educação repressiva que tiveram e à falta de carisma natural 🙂 ), e quererem forçosamente reduzir o resto do mundo ao seu nível. Isso até pode ser um factor em alguns casos, mas eu diria que as razões principais são aquelas que eu mencionei no fim do meu último post: controlo, e a criação de um Inferno na Terra.

Em “O Nome da Rosa”, o vilão opunha-se à divulgação de um livro do Aristóteles sobre a comédia, porque isso a legitimaria, e o riso afasta o medo. Sem medo, dizia ele, as pessoas não precisam de Deus (e eu acrescentaria: não precisam de religião… nem da Igreja). Logo, era importante manter as pessoas no medo, e se isso implicasse abafar a verdade de forma a manter a ignorância, ou mesmo provocar a morte de pessoas inocentes (como ele faz), que assim seja. Aqui é algo semelhante. Pessoas felizes viram-se menos para a religião do que pessoas infelizes; daí os três monoteísmos se oporem tanto ao prazer, e a formas de viver psicologicamente saudáveis. Isso não é do interesse deles. A frustração, essa, é. O sofrimento. A repressão dos nossos instintos naturais. A falta de esperança em relação à vida na Terra, transferindo essa esperança toda para uma suposta vida depois da morte. O medo. A ignorância.

E, claro, há a questão do controlo. Grande parte do controlo da religião sobre as pessoas vem do controlo – através, em grande parte, da demonização – da sexualidade. Isso já tem milhares de anos; afinal, porque é que o deus da Bíblia parece ser tão obcecado pelos nossos órgãos genitais? Porque, ao transformar algo que é naturalmente parte do ser humano num “pecado” horrível, sujo e hediondo, isso cria culpa e medo nas pessoas; e nada torna uma pessoa tão maleável ao controlo como a culpa e o medo.

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