(Nota: esta pergunta não é uma repetição da aparentemente semelhante “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“. Essa referia-se às pessoas “portarem-se bem” por medo de punição ou desejo de recompensa; esta aqui é sobre a crença comum da parte dos crentes (e, incrivelmente, de alguns não-crentes, também) de que as regras éticas da sociedade, a nossa moralidade, o nosso “standard” de certo e errado vêm de Deus / da religião / da Bíblia.)
Isto pode ser uma surpresa para ti, mas se és uma pessoa boa, atenciosa, altruísta no bom sentido, e que se importa com os outros, não retiraste isso da religião. Muito pelo contrário.
Se (muito comum nos países Católicos da Europa, como Portugal) a tua religião é simplesmente “acredito que Deus é como um pai que nos ama, e que quer que sejamos bons uns para os outros”, então, se por um lado és muito mais saudável e ético do que um enorme número de crentes, por outro lado inventaste essa religião. Criaste-a. Ou, em alternativa, o padre ou pastor que te instruiu sobre Deus e a religião inventou-a ele próprio.
Isto porque “simplesmente sejam bons uns para os outros” é uma filosofia que virtualmente não é suportada na Bíblia Cristã. Não é isso que o deus Cristão é retratado como sendo, ou como querendo — especialmente, mas não apenas, no Antigo Testamento. De forma alguma.
De acordo com a Bíblia — e, mais uma vez, se a ignoras, estás a inventar a tua própria religião –, Deus realmente acha que as mulheres são inferiores aos homens. Ele considera a escravatura aceitável. Ele acha que quem desobedeça a qualquer das suas muitas regras arbitrárias deve ser imediatamente morto pelos outros crentes. Ele acha que homossexuais, banqueiros, crianças desobedientes e pessoas que comam mariscos devem ser condenados à morte. E ele não tem quaisquer problemas relativamente ao genocídio — matar civilizações inteiras, incluíndo mulheres e crianças.
A maioria dos Cristãos, naturalmente, nunca tem a sua atenção dirigida (por padres, pastores, etc.) para o descrito acima. A maior parte dos que realmente são confrontados com isso são, em geral, suficientemente saudáveis mentalmente, e suficientemente morais, para repudiar esses ensinamentos (mais uma vez, criando assim a sua própria religião em “versão soft”). E aqueles que não o são tornam-se fundamentalistas: pregadores e agentes de intolerância, sofrimento e ódio, para quem tudo o que seja menos do que uma teocracia brutalmente repressiva não é aceitável.
O que eu quero dizer com isto é que, se és um crente moral, bondoso e que se importa com os outros, és assim apesar da tua religião, não graças a ela. Tens de ignorar não só a quase totalidade do teu livro sagrado, caso contrário provavelmente já estarias preso (por, por exemplo, apedrejares o teu filho até à morte por ele chegar tarde de uma festa). E além disso tens de rejeitar aquilo em que a tua igreja acreditou piamente durante quase toda a sua existência (e de certa forma ainda acredita, mas já tem alguma vergonha de o admitir): gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.
Como é que a tua moralidade pode vir da religião, se tens de ignorar quase todos os ensinamentos dessa religião para não seres um monstro?
(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)
Posts possivelmente relacionados:
- FAQ: “Vocês criticam muito a moralidade do deus da Bíblia, mas eu não me revejo nesse deus! O deus em que acredito é bom!”
- Cristianismo sem a Bíblia
- FAQ: “Vocês só são ateus porque querem fazer o que vos der na gana, sem regras e sem prestar contas a ninguém!”
- FAQ: “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?”
- FAQ: “O ateísmo não passa de mais uma religião!”
Etiquetas: Bíblia, Deus, FAQ de Ateísmo, Moralidade, Religião



























Dando continuação ao meu comentário sobre o post anterior, também em “Ética Prática”, Peter Singer basicamente fala sobre um critério de decisão moral. E então ele argumenta sobre os principais tipos de critérios éticos e chega à conclusão que o melhor sistema é o do utilitarismo de preferências.
O utilitarismo de preferências é um ramo do consequêncialismo, que diz que uma acção é boa ou má dependendo dos da quantidade de bem que provoca, “O maior bem para o maior número”. O utilitarismo de preferências diz que o maior bem nesse caso são o número de preferências e desejos realizados.
Já agora acrescento uma pequena descrição do livro. A partir deste critério ético, ele argumenta sobre uma grande quantidade de assuntos ou controvérsias actuais, a igualdade, a acção afirmativa (discriminação positiva), os direitos dos animais, o aborto, a eutanásia, o ambiente, a desobediência civil…
E chega, no final, à pergunta de que falo no meu comentário anterior, no post anterior, ao “Porque deve eu agir moralmente?”. Mais à frente, ele até chega à pergunta do sentido da vida…
Agora vou parar de falar deste livro, antes que me torne enfadonho, mas achei interessante que a questão seguinte da FAQ também fosse mais ou menos abordada pelo livro referido.
Se ser cristão passa por «gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.» isto, então nesta altura ninguém pode ser designado cristão.
No tempo dos nossos pais, avós etc, talvez pudesse-se achar pessoas que fossem mais ou menos cristãos ou até mesmo cristãos, isto acontecia, porque os tempos eram outros (como é óbvio) mas porque não havia outra alternativa, ou seja, as pessoas talvez seguissem tudo como os papas diziam, isto para ver se resultava tudo como as pessoas queriam, ou seja, tinham fé. Mas agora, pensando bem hoje as pessoas já não ligam ás religiões e cada um tem liberdade de expressão e isso pode ser algo contra os conceitos de Deus, pois se as mulheres têm que obedecer aos maridos, nesta altura já não acontece, aliás até podem contar como um crime, visto que a violação doméstica existe, mas só existe porque hoje há liberdade de expressão, mas se há violação doméstica não há paz para algumas pessoas, então era tudo morto HOJE. Aspectos possitivos nesta altura, os filhos são tratados bem…
Nos tempos antigos, está tudo bem, mas os filhos já nao são tratados bem e havia muitas guerras que ainda há hoje.
Onde é que eu quero chegar, mesmo que as pessoas queiram ser cristãs nunca irão conseguir, pois o mundo nunca aceitará isso nem as outras pessoas.