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FAQ: “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado, não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”

A tua questão é, essencialmente, aquilo que é conhecido como Aposta de Pascal (em inglês, Pascal’s Wager). Foi sugerida por Blaise Pascal, matemático francês do século XVII, e continua a ser repetida (e repetida, e repetida) por apologistas Cristãos, muitos dos quais, aparentemente, julgam que são os primeiros a atingir essa conclusão, já que fazem essa pergunta com uma atitude de “aposto que nunca pensaste nisto!”…

À primeira vista, parece fazer sentido. Afinal, um crente que esteja errado (i.e. afinal de contas Deus não existe) não perde, aparentemente, grande coisa (perda finita), mas um não-crente que esteja errado (i.e. afinal Deus existe) será condenado a uma eternidade de sofrimento no Inferno — punição infinita, e, por isso, perda infinita. Portanto, fará sentido “jogar pelo seguro” e acreditar… certo?

Não exactamente. Lembra-te de que Pascal sugeriu isto há cerca de 350 anos, uma altura em que, basicamente, havia uma religião à volta dele: o Catolicismo. Não é bem assim, hoje em dia… há centenas, se não milhares de variantes do Cristianismo, muitas das quais afirmam ser a única versão / interpretação válida, estando os crentes de todas as outras versões tão condenados como qualquer “infiel”. E isso é só o Cristianismo; outras religiões, como o Judaísmo (com todas as suas variantes) e o Islão (com todas as suas variantes) também incluem exigências de exclusividade (e descrevem os seus deuses como “ciumentos” — palavras deles!). Devido a essa exclusividade, não é permitido escolher várias religiões / deuses em simultâneo, “por via das dúvidas”. E, claro, há outras religiões no mundo além dos três monoteísmos.

Na verdade, se formos pela Aposta de Pascal, havendo tantas religiões, as probabilidades de escolher a religião errada, e dessa forma ser condenado, são bem acima de 99%, e para todos os efeitos indistinguíveis das chances de ir para o Inferno sendo um ateu (de acordo com a Aposta).

Ou, pondo a coisa de outra forma: vamos assumir que és um Cristão. Qualquer Muçulmano vai-te dizer que irás para um “lago de fogo” por não acreditares em Alá, ou por acreditares que Deus teve um filho (parte da teologia Muçulmana é que quem tiver essa crença está condenado). Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Não estás a arriscar imenso por não acreditares em Alá? Mas se o fizeres, tens de rejeitar a divindade de Jesus Cristo (ambas as religiões exigem crenças incompatíveis), e, aí, se o Cristianismo estiver certo vais também para o Inferno.

Não podes escolher ambas. E a ideia de que “todos adoram o mesmo deus, e as várias interpretações são válidas” é um modernismo inventado recentemente, em nada suportado pelos livros sagrados, nem pela maioria dos crentes de ambas as religiões. O mesmo para a ideia de que “Deus é bom e não enviaria ninguém para um inferno”.

Há mais problemas com a Aposta de Pascal. Por exemplo, é realmente possível escolher as nossas crenças? Serias capaz de decidir amanhã que, por razões de segurança, não acreditas mais em Yahweh / Jesus, e que acreditas que Alá é o verdadeiro e único deus? Essa crença seria sincera? E, não sendo sincera, achas que algum deus realmente digno desse nome se deixaria enganar?

Também não é realmente verdade que um crente que esteja errado (isto é, acredite toda a sua vida, e afinal não exista qualquer deus) “não perde muito”. Isso será assunto para outro post neste blog, mas, resumindo muito, tal crente, em grande parte, desperdiçou a sua vida, traiu o seu intelecto e a realidade, promoveu uma mentira, combateu a educação e o avanço da ciência, provavelmente contribuiu para aumentar o sofrimento humano (crentes em geral são mais conservadores do que o resto da população, e por isso acham perfeitamente aceitável — e até virtuoso — tirar direitos básicos a outros (homossexuais, mulheres, etc.), ou propagar doenças proibindo o uso de preservativos e opondo-se à educação sexual, porque “Deus assim quer”), e aceitou a ignorância (encarnada na resposta “foi Deus”) em vez de tentar realmente entender o mundo em que vivemos. Em resumo, desperdiçou a sua vida em nome de uma mentira. O medo de admitir isto, infelizmente, mantém muitos crentes presos na sua crença, já que ninguém gosta de admitir que foi enganado e que desperdiçou anos ou décadas de uma vida que, afinal, é a única que tem.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

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