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FAQ: “Vocês só são ateus porque querem fazer o que vos der na gana, sem regras e sem prestar contas a ninguém!”

A pergunta afirmação é ofensiva por várias razões, e talvez não merecesse uma resposta. Mas, como já fiz antes, vou ser generoso, e assumir que não acreditas realmente no que acabaste de dizer, e que estás simplesmente a repetir sem pensar algo que te disseram. E, sinceramente, se fosse a ti afastava-me de quem te disse tal coisa, porque não é, de certeza, uma pessoa honesta e de confiança, mas, pelo contrário, não tem quaisquer problemas em mentir e caluniar em proveito próprio. E desenvolveres um bocadinho de pensamento crítico, de forma a não acreditares em tudo o que ouves sem questionares nem pensares, também não te fazia mal nenhum.

Já comentei antes, neste FAQ, que o medo do castigo ou desejo de recompensa são péssimas razões para se ser moral (e sugere coisas nada simpáticas sobre quem acha essas razões válidas), e que a nossa moralidade não vem da religião, muito pelo contrário. Mas nesta entrada vou responder à implicação propriamente dita.

Essa implicação é a seguinte: que os ateus no fundo “sabem” que Deus existe, mas escolhem “fingir que não acreditam nele” para não terem de aceitar um ser superior, obedecer a regras de moralidade, etc..

Há tanta estupidez e tanta malícia nessa implicação que uma pessoa nem sabe por onde começar.

Primeiro, é sugerido que os ateus são desonestos, já que é implicado que a existência de Deus é auto-evidente e óbvia para todos, e portanto os ateus estão a mentir quando afirmam ter chegado ao ateísmo por falta de evidências a suportar as afirmações dos crentes. A acusação sugere que os ateus, no fundo, “sabem” que Deus existe (e é sempre o deus em que o acusador acredita, é claro, e nenhum outro), mas fingem não o saber; ou seja, que no fundo não são realmente ateus.

Segundo, é sugerido que os ateus são imorais, já que “escolhem” o ateísmo para não ter de obedecer a ninguém, ter regras de moralidade, etc., bem como para não “ter” ninguém superior a eles.

Terceiro, é sugerido que os ateus são completamente estúpidos, já que, se lá “bem no fundo” “soubessem” que existe um deus que impõe regras morais e pune quem não as segue, não faria qualquer sentido declarar-se ateus, já que isso não os livraria, de forma alguma, da eventual punição divina.

Tudo isto não é apenas falso, é intencionalmente falso (também conhecido por “desonesto”) e insultuoso.

A existência do teu deus não é óbvia (caso contrário, entre outras coisas, não haveria outras religiões, nem seria necessário haver apologistas religiosos — como houve em toda a História, e continuam a haver — a tentar “demonstrar” que Deus existe).

Ateus não “escolhem” ser ateus por quaisquer segundas intenções. Não acontece com todos, mas muitos de nós somo-lo porque foi a conclusão a que chegámos racionalmente, depois de olharmos para as evidências e para o mundo em que vivemos.

Ateus são tão ou mais morais, em média, do que crentes de qualquer religião. Sobretudo porque somos os únicos que não fazemos o bem à espera de ganharmos alguma coisa com isso depois de morrermos. E o “moral” é o escolhido, não o obedecido; a moralidade nunca pode vir simplesmente da obediência a determinado ser, ou do seguimento de determinadas regras, mas sim de escolhas de um ser consciente.

E ateus não são tão idiotas que acreditem na existência de algum deus, mas achem que o podem enganar fingindo não acreditar nele (!). Logo, se achaste que a afirmação no título desta entrada fazia sentido, espero que te estejas a sentir bastante envergonhado, neste momento.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

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