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FAQ: “O ateísmo causou a morte de milhões! Olhem para a Rússia Soviética!”

(Resistir… à piada óbvia… pelo menos até ao fim do post…)

Mais uma vez, não é uma pergunta, é uma acusação. A resposta óbvia é que o ateísmo não é um sistema de valores (o que é muito diferente de dizer que ateus não têm um sistema de valores), logo não há nada no ateísmo que leve a cometer qualquer acto — bom ou mau. É simplesmente a não-crença num ou mais deuses. Logo, um ateu — tal como um crente — pode ser a pessoa mais moral do mundo, ou o maior monstro.

A resposta típica de um crente aí é que aí uma relação, que o ateísmo, por uma ou mais razões, leva a massacres como esses, ou seja, que é, directamente, a causa dos mesmos. E que razões são essas?

A mais comum é que o ateu, ao não acreditar numa entidade superior que o punirá ou recompensará depois da morte, acha que “vale tudo”, que pode fazer tudo, sem consequências. Já respondi a isso em “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“, e reitero o que disse lá — que não só isso é extremamente ofensivo, como, ao sugerir isso, quem o diz está a admitir que não vê nenhuma razão para não roubar, violar e matar além da questão Céu/Inferno, e que se alguma vez perder a sua crença vai efectivamente cometer esses crimes, o que faz dele um psicopata. É esse o teu caso? Pensa lá bem.

Uma sugestão um pouco menos frequente é que o ateísmo, por não acreditar numa “alma” no sentido metafísico, que persiste depois da morte, “desvaloriza” o ser humano, tornando-o um mero conjunto de elementos químicos, e que por isso o ateu típico não dá qualquer valor à vida dos outros, considerando-os meras estatísticas.

O não dar valor à vida dos outros, no entanto, não tem nada a ver com a crença ou descrença em “almas”; é uma simples questão de egocentrismo, de falta de moralidade e de humanidade. A prova disso é que se pode ver esse mesmo comportamento em muitos crentes (Inquisição, mentiras sobre preservativos em África, protecção dos padres pedófilos, oposição a ramos da medicina, etc.), que supostamente acreditam em almas… mas isso não os impede de não dar qualquer valor à vida humana, de ver a morte de milhares ou milhões como uma mera estatística.

Na verdade, posso até argumentar que quem tem mais tendência para dar valor à vida humana são precisamente os ateus, pela simples razão de que são eles que acreditam que a vida que temos é a única, é finita, e por isso é preciosa. Ao invés disso, muitos crentes (não todos, repare-se) consideram a vida na Terra uma mera “passagem”, composta basicamente de sofrimento, cujo único propósito é determinar a salvação ou condenação da alma. Essa atitude tem o seu exemplo perfeito na célebre citação de Arnaud Amalric, que numa Cruzada em 1209, quando lhe perguntaram como distinguir os Católicos dos Catares hereges, respondeu “matem-nos todos; Deus conhecerá os seus”. É mais fácil não dar valor à vida humana quando se acredita que esta é um mero teste, que depois da morte é que começa a “verdadeira vida”, e que a única coisa que importa neste mundo é salvar almas.

Isso foi há 800 anos, dizem vocês, e as coisas mudaram? Errado. É exactamente essa mesma crença e essa mesma mentalidade que leva a que a Igreja Católica espalhe mentiras sobre os preservativos em África, entre populações que muitas vezes não têm outra fonte de informação além dos missionários, e dessa forma provoque a morte e sofrimento de milhões pela Sida. A atitude é simples: Deus detesta contraceptivos, logo mais vale sofrerem e morrerem mas terem uma hipótese de ir para o Céu, do que o contrário. A vida na Terra é vista como irrelevante, e a morte de milhões é vista como um mal menor. Isto é que é “dar valor à vida humana”?

E, como não resisto, tenho de o dizer: na Rússia Soviética, a Rússia Soviética olha para TI!! 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

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Um Comentário a “FAQ: “O ateísmo causou a morte de milhões! Olhem para a Rússia Soviética!””

  1. Ainda outra questão: há que distinguir entre crimes feitos por ateus / religiosos, e crimes feitos graças a ou em nome do ateísmo / religião. Por exemplo, o Holocausto foi feito por um religioso (Hitler, que era Católico), mas não foi feito por causa da religião. A Inquisição, por outro lado, já foi.

    Stalin, um ateu, sem dúvida que cometeu crimes hediondos. Mas crimes em nome do ateísmo, ou por causa dele, por outro lado, são inexistentes. A existirem, seriam como neste cartoon (fonte):

    Atheism has led to the greatest forms of cruelty...

    Esses seriam crimes “em nome do ateísmo”. E são todos obviamente absurdos… mas, para cada um deles, é fácil pensar no equivalente religioso, esse, sim, real.

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