A ideia dessa exclamação é em geral esta: “Deus ama-te, e tu não só o rejeitas, como te recusas sequer a admitir a sua existência!? Que ingratidão! Como é que és capaz?” Chantagem emocional, portanto.
A resposta óbvia é a habitual: “como é que sabes?”. Ou seja, sem evidências, não há razão nenhuma para acreditar naquilo que a outra pessoa me está a dizer, e muito menos para me “sentir culpado” pela minha suposta ingradidão e insensibilidade.
Mas há outra maneira de responder a essa quase-acusação: de certa forma, isso favorece a minha posição.
Se me dissesses “Deus existe, mas está-se nas tintas para ti e para todos nós”, a não-existência dele não seria tão óbvia (se bem que ainda haveria diversos argumentos contra a mesma, começando, mais uma vez, com a pergunta “como é que sabes?”). Mas ao dizeres que ele “me ama”, ou “ama toda a gente”, estás só a demonstrar que não só ele não “me ama”, como quase de certeza não existe… e ainda bem. Ao dares-lhe essa característica, estás a tornar ainda mais improvável a sua existência, a dar-me argumentos contra ela — como se o facto de não haver evidências da mesma não fosse já suficiente.
Por outras palavras, um deus que “me ama” e se esconde é ainda menos provável — e mais difícil de acreditar em — do que um deus para quem eu sou totalmente indiferente (se é que ele sabe que eu existo).
Sabes, é que “amor” não é algo que se sente apenas à distância, sem fazer qualquer tentativa de contacto. Se sinto “amor” por alguém — seja amor romântico, fraternal, de grande amizade, etc. –, quero em geral estar e conviver com esse alguém. Nunca me passaria pela cabeça ser tão doente que, em vez de procurar o contacto, nunca me revelasse, mas enviasse tipos de ar duvidoso a casa da pessoa “amada” para lhe dizerem que existo e a amo, mas que ela nunca me vai poder ver directamente, e usar a crença ou não-crença na minha existência como indicador do seu amor por mim.
“Amor” — mesmo que seja o que se sente por um familiar ou um grande amigo, por alguém com quem nos importamos e a quem desejamos o mellhor possível — não é isso. Pelo contrário, o tipo de “amor” que atribuis ao deus em que acreditas é das coisas mais doentias, mais manipuladoras e mais abusivas que já ouvi.
E não adoraria — nem sequer respeitaria no sentido mais básico da palavra — um sádico doentio desses, mesmo que ele existisse. Felizmente, as razões para acreditar em tal criatura continuam a ser nulas.
(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)
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Etiquetas: Deus, FAQ de Ateísmo


























