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FAQ: “Mas se Deus não existir, e não persistirmos depois da morte, qual é o sentido disto tudo?”

Se realmente puseste a questão dessa forma, parabéns — é um enorme progresso em relação ao “wishful thinking” desta pergunta. 🙂 É muito mais racional e adulto dizer “se for assim, como é que fazemos?” do que dizer “não pode ser assim, porque se fosse, seria mau”. A “desejabilidade” de algo não afecta a sua veracidade.

Respondendo à pergunta, então…

Sempre achei estranha a ideia de que uma coisa com fim não tem valor. No resto da vida, em geral não agimos assim; conseguimos apreciar um bom livro ou um bom filme apesar de sabermos que inevitavelmente acabam. Porque é que a vida há de ser diferente, e perder todo o seu valor pelo simples facto de ser finita?

Pode-se, aliás, argumentar que é precisamente o facto de a vida ter um fim que a torna preciosa, única e insubstituível. Por outras palavras, ninguém que considere a vida “uma passagem” ou “um teste” ou “uma de muitas” (no caso de crentes na reincarnação) pode alguma vez dar tanto valor à vida como quem acredite que ela é a única que temos, e terá um fim — um ateu.

A vida pode ser finita, e ser um mero instante de um ponto de vista cósmico, mas não é um instante para nós. Enquanto estamos vivos, temos um mundo inteiro para descobrir, inúmeros factos para aprender, ciências para explorar, arte para saborear ou criar, pessoas para conhecer, relações para viver. Pôr de parte tudo isso simplesmente porque não será para sempre é de uma cobardia extrema, é medo de viver.

Que sentido há para a vida, de um ponto de vista ateu? Viremos a pergunta ao contrário: qual é o “sentido de vida” que um crente pode ter e que está fora do alcance de um ateu? Eu só vejo um: Deus (seja real ou fictício). Servir Deus, adorar Deus. Basicamente, viver em função de outro ser — ou seja, ser um escravo, mesmo que contente com a escravatura. Não, obrigado. Felizmente, muitos crentes — os não fundamentalistas — criam outros sentidos para as suas próprias vidas, em vez de se contentarem em ver-se a eles próprios como ratos num labirinto que não entendem nem podem alguma vez entender, como qualquer fundamentalista faz.

Mas, então, o quê? Bem, não posso dar um sentido à vida de ninguém (e fujam de quem vos disser que vos pode dar um — está a mentir), mas o que posso dizer é isto: nós criamos um sentido para as nossas vidas. Ele não vem de fora — caso viesse, seria um sentido “em segunda mão”, o que não passa de uma fuga cobarde à responsabilidade de ser um ser humano pensante e vivo. Viver é a maior das aventuras, e só o fazemos uma vez… o que é uma sorte na qual não pensamos, em geral. Citando Richard Dawkins1 em Unweaving the Rainbow (tradução minha):

Vamos morrer, e isso faz de nós os sortudos. A maior parte das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas que podiam potencialmente estar aqui no meu lugar mas que na verdade nunca vão ver a luz do dia são mais do que os grãos de areia no Sahara. De certeza que estes fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos isto porque o conjunto de pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA ultrapassa em muito o conjunto de pessoas efectivamente nascidas. Na realidade destas assombrosas probabilidades somos tu e eu, na nossa mediania, que aqui estamos.

Esta é a única vida que tens. É finita; lida com isso. E faz dela alguma coisa de jeito.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. com esta, são 2 vezes que o cito neste FAQ… vamos ver quanto tempo demoram a insinuar que o “adoro” como se fosse um deus. 🙂 []

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9 Comentários a “FAQ: “Mas se Deus não existir, e não persistirmos depois da morte, qual é o sentido disto tudo?””

  1. Niktus diz:

    EXcelente post! Alias toda a serie tem sido excelente!
    Parabens.
    D

  2. Mordidela diz:

    Mas será mesmo assim? Essa “enorme cobardia” de que falas, imagino que não te atinja a ti porque és ateu, certo? Vives a tua vida a 100% porque não tens um maluco de “um Deus” a controlar o que fazes…sim?
    Por outras palavras, o que é preferível: uma pessoa que se sente inspirada e encorajada pelas palavras de um padre para (por exemplo) sair do seu país para ir construir uma aldeia na Conchichina, e vai e vive uma aventura que poucos conhecerão; ou o ateu que SABE que não o vai fazer para ser uma pessoa melhor nem para receber uma recompensa no “after-life” mas que não vai porque pura e simplesmente não tem coragem para conviver com a familia, quanto mais ir para a Conchichina?
    Eu digo, se a crença em “seja-lá-o-que-for” te ajudar a ter mais coragem para viveres o teu dia a dia, quem sou eu para ta negar???

    • Porque acho que nos devemos importar com o que é real e o que não é.

      E porque se fazemos como dizes, estamos a deixar que algo externo decida as nossas vidas. Esse algo pode calhar ser positivo na altura, nesse caso específico, mas isso não é garantido para as vezes futuras, e não nos livra da responsabilidade moral de pensarmos por nós próprios e fazer as nossas escolhas.

      A moralidade é o escolhido, não é o obedecido.

      • Mordidela diz:

        Mas ninguém falou em obedecido, foi uma escolha! A rapariga do exemplo vai ajudar a tal aldeia porque acha que o deve fazer.Tudo bem, obteve “ajuda” de um padre mas, não foi exactamente lavagem cerebral, em último caso, é ela que decide.
        Estás sempre a referir que a religião é uma “desculpa” para se fazer muitas coisas más, mas também é para m,uitas coisas boas.
        E o “não ter religião” também é desculpa para porcarias e vice-versa…vocês, como já exemplificaste muitas vezes, fazem as coisas pelo bem comum, não pelo medo do castigo do tipo lá de cima…mas quantos se mexem mesmo, quer para o bem comum, quer para o bem próprio?

        • Desculpa, mas o “não ter religião” não é uma desculpa para absolutamente nada. Não acreditar em Deus, tal como não acreditar no Pai Natal, não é um sistema de valores, é apenas a ausência de uma crença em algo específico. Um ateu pode ter qualquer sistema de valores, bom ou mau, mas não é o “ateísmo” que o leva a fazer seja o que for.

          Da mesma forma, não somos um “grupo” ou uma “organização”, logo não somos responsáveis uns pelos outros. Mas somos responsáveis por nós próprios, e não desculpamos os nossos actos dizendo que “é a vontade de Deus”.

          Se há ateus que não fazem nada de jeito, ou até só fazem “porcaria”? Claro que há. Mas ainda não estou a perceber qual é o teu “point”; se é que os ateus não são perfeitos e que crentes podem fazer o bem — e podem fazê-lo inspirados no que pensam que o seu deus quer –, eu concordo perfeitamente, nunca o contestei.

          Isso não invalida, no entanto, que seja errado 1) não nos importarmos com o que é real e não é (cobardia e preguiça intelectual), e 2) reduzirmos a nossa moralidade à obediência (que não tem de ser “por nos apontarem uma pistola”, mas é obediência na mesma) a determinado ser (cobardia e preguiça morais). Acredito que é da nossa responsabilidade entender o mundo tanto quanto possível, e pensar no que é certo e errado por nós próprios.

          • Mordidela diz:

            Desculpa, falar com um padre (que podia ser um amigo ou familiar) para nos ajudar a tomar uma decisão não é obediência…por muito que dês a volta à situação e batas com os pezinhos no chão!
            É o mesmo tipo de aconselhamento que podias obter de qualquer um dos exemplos que dei.É um aconselhamento influenciado por crenças “dele”? Pode ser, mas por muito que te custe a acreditar há muitos padres que discordam da religião enquanto “organização”mas que preferem manter-se nos seus postos e causar a mudança através do interior E ainda conseguir manter os seus “postos” de ajuda à sua comunidade.
            Os teus amigos (se tiveres alguns) também são influenciados por milhentos factores quando falam contigo.
            Definitivamente que temos de entender o Mundo, mas esse entendimento não vem de estar em frente a um computador o dia todo nem de jogar o jogo X ou Y até à perfeição. Vem de estar com pessoas reais e ver essas pessoas.
            E definitivamente não vem de se querer alterar alguma coisa, como a religião, apenas com um punhado de argumentos aprendidos nos livrinhos que se lêem e memorizam para citar na altura apropriada para se parecer inteligente…
            Mas continua, por favor, com estes posts…desenvolve o tema da cobardia, por exemplo, pareces ter conhecimento vasto sobre esse…

            • Já estás a entrar em insultos e “bocas” parvas. Não me conheces de lado nenhum — mesmo que penses conhecer — e agradeço que não te armes em “psicólogo de bancada”, como já disse noutro post.

              É curioso que faças dois comentários sem insultos e depois recorras a eles. Ficaste sem argumentos, foi?

              Se queres (e consegues) argumentar com factos e lógica, força. Se a única forma ao teu alcance são insinuações cobardes sobre mim e os meus objectivos, é melhor ficares por aqui.

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