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FAQ: “Vocês ateus são tão fanáticos e dogmáticos como qualquer crente. ‘Acreditam’ no ateísmo, e nada vos faria mudar de ideias.”

Tal como em “O ateísmo não passa de mais uma religião!“, a acusação no título desta entrada usa conceitos como “religião”, “fé” ou “crença” como um insulto, o que acaba por ser uma admissão de que o acusador reconhece que a racionalidade está a um nível superior à religião, e tenta reduzir o ateísmo a apenas mais uma destas últimas. Dá que pensar.

Para esta entrada, como não acredito em “reinventar a roda”, vou fazer uso de um artigo de Adam Lee, The Theist’s Guide to Converting Atheists. Parte das ideias que vou usar vêm de lá, parte são minhas.

Primeiro, começo por devolver a pergunta / acusação: o que é que te faria a ti, ou a qualquer crente que conheças, convencer-se de que a sua fé está errada e que Deus não existe? A não ser que sejas um num milhão, aposto que a resposta será algo do género de “nada; eu tenho fé no meu Deus”, ou “nada; eu acredito e pronto”. Isto é ser dogmático; curiosamente este tipo de atitude encontra-se mesmo nos crentes mais liberais, os chamados “não praticantes”; mesmo que a religião não afecte realmente em nada as suas vidas, que nunca ponham um pé numa igreja excepto em baptizados, casamentos e funerais, mesmo assim reponderão à pergunta “o que te convenceria de que estás errado” com um “nada”. Ou seja, ao contrário do que seria de esperar, não é preciso ser fundamentalista para ser dogmático e irracional, para ter crenças “invulneráveis” à realidade (muitas vezes pelo simples facto de serem confortáveis).

E se és dos tais “um num milhão”, e tens efectivamente uma resposta para essa pergunta, o mais provável é que não fiques crente por muito mais tempo (e não, não quero dizer que seja por leres este blog; é, sim, porque depois de se abrir a porta à racionalidade, é muito difícil voltar a fechá-la).

A diferença entre um ateu e um crente típico, aquilo que faz com que não sejamos dogmáticos, que não “acreditemos” simplesmente no ateísmo “e pronto”, é que somos capazes de responder à pergunta. Vou aqui usar uma versão resumida do artigo acima linkado, já que concordo com tudo o que o autor diz ali.

Categoria 1: coisas que me convenceriam de que Deus existe

  • Profecias concretas, correctas, e de origem verificável. Isto exclui:
    • Profecias vagas, abstractas e com inúmeras interpretações possíveis (ex. Nostradamus).
    • Profecias triviais (ex. “no próximo inverno vai estar frio” ou “esta seca eventualmente passará”).
    • Profecias “obrigatórias” (ex: qualquer “profeta” a trabalhar para um rei não vai, de certeza, prever que ele vai ser um cruel tirano, mas vai elogiá-lo — e algum rei no meio de muitos vai realmente ser um bom governante).
    • Profecias “auto-cumpríveis” (isto é, a existência da própria profecia faz com que a tentem concretizar por acharem que é essa a vontade de Deus; ex. a Bíblia dizia que os Judeus voltariam eventualmente a Israel, e eles realmente voltaram… para seguir a Bíblia).
    • Profecias que possam ter sido feitas depois de o evento acontecer (isto é, não seja possível provar que a profecia é anterior ao evento).
    • Profecias cujos eventos não sejam independentemente confirmáveis, e possam ter sido relatados precisamente para condizer com as profecias (ex. os autores dos Evangelhos tinham acesso às profecias do Antigo Testamento sobre o Messias, e podem ter inventado eventos na suposta vida de Jesus para condizer com elas).
    • Profecias que sejam o único sucesso entre mil fracassos; qualquer um pode prever e prever e prever coisas até que uma esteja correcta.
  • Conhecimento científico nos livros sagrados que não estivesse disponível na altura (de forma concreta e clara); coisas que podem ser interpretadas assim de forma muito “rebuscada” não contam.
  • Milagres reais, especialmente se obtidos a partir de oração. Note-se que coincidências não servem de exemplo, a não ser que realmente aconteçam de forma repetida e repetível. Por exemplo, se só ateus fossem atingidos por relâmpagos, ou se crentes se curassem de doenças com muito mais frequência, incluindo doenças incuráveis e membros amputados.
  • Manifestação directa e incontestável do “divino” (coisa que acontecia muito na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, e a multidões, não apenas a uma pessoa, o que poderia ser explicável em termos psicológicos).
  • Extraterrestres exactamente com a mesma religião.

Categoria 2: coisas que me inclinariam nessa direcção, mas não constituiriam por si só uma prova

  • Um livro sagrado genuinamente perfeito, consistente e sem erros ou contradições.
  • Uma religião sem disputas internas ou múltiplas facções.
  • Uma religião cujos aderentes nunca tenham cometido atrocidades.
  • Uma religião que tenha ganho todas as suas “guerras santas”.

E, finalmente,

Categoria 3: coias que não me convenceriam, de forma alguma

  • Falar em “línguas” ou outros pseudo-milagres, seja por serem explicáveis psicologicamente (ex. estados emocionais extremos), seja pela nossa tendência a ver padrões onde eles não existem (ex. a “cara de Jesus” numa torrada).
  • Histórias pessoais de conversão (incluindo da parte de ex-ateus; toda a gente pode ter um momento de fraqueza em que se deixa levar pelas emoções — sobretudo o medo — e “wishful thinking”).
  • Experiências subjectivas (ex. “sinto Deus no meu coração”).
  • “Códigos da Bíblia” e outras brincadeiras com numerologia.
  • Criacionismo e outras pseudociências.

Mais uma vez, desafio qualquer leitor crente a dizer o que é que te convenceria de que não existe qualquer deus e os ateus estão correctos… se fores capaz.

E se não fores, considerando que os ateus são, diz-me outra vez quem é o “dogmático”. 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

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Um Comentário a “FAQ: “Vocês ateus são tão fanáticos e dogmáticos como qualquer crente. ‘Acreditam’ no ateísmo, e nada vos faria mudar de ideias.””

  1. exercicios de portugues

    FAQ: "Vocês ateus são tão fanáticos e dogmáticos como qualquer crente. 'Acreditam' no ateísmo, e nada vos faria mudar de ideias."

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