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FAQ: “E se estiveres errado, e Deus existir? Isso não te preocupa?”

(Nota: isto não é o mesmo que a pergunta já existente no FAQ, “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”. Essa entrada no FAQ é uma rejeição da Aposta de Pascal; esta aqui é uma resposta à possibilidade remota de que Deus, afinal de contas, exista.)

Esta é uma questão muitas vezes posta por crentes (especialmente Cristãos) a ateus. E se estivermos errados, se Deus afinal existir, e se depois de morrer, como se costuma dizer, nos encontrarmos com o nosso criador?

Primeiro, tenho de dizer que essa não é uma possibilidade que efectivamente me preocupe, já que tenho todas as razões para acreditar que não existe nenhum deus ou deuses. O universo aparenta ser 100% natural, e, se por um lado a ciência está longe de saber tudo, por outro lado não existe nada até hoje conhecido que absolutamente exija uma explicação sobrenatural, e que não possa — nunca — ser explicado em termos naturalísticos. Por outras palavras: uma total ausência de evidências “a favor” é, ela própria, uma evidência forte “contra” (e não é que a humanidade não tenha procurado, nos seus milénios de História), e, por isso, todas as evidências sugerem que o número de divindades no universo é zero.

Segundo, se houvesse um deus, seria mesmo assim virtualmente impossível que as religiões humanas estejam certas. Os seus deuses são pequenos, provinciais, territoriais, infantis, inseguros e tribais. E muito, muito humanos. Têm emoções humanas (incluindo uma boa dose de ciúmes, que por alguma razão neles nunca é visto como uma falha de carácter), têm um “povo escolhido”, supostamente criaram um universo que agora sabemos ser incrivelmente vasto e complexo (o que não se sabia quando as religiões apareceram), mas o nosso pequeno e insignificante planeta ainda é a única coisa que importa no universo — e as nossas vidas físicas neste mundo nem são o que realmente importa. (A ideia de um universo antigo (muito, muito mais do que a humanidade, ou mesmo que o nosso planeta), vasto e incrivelmente diverso, simplesmente como “cenário de fundo” de um teste para determinar se somos salvos ou não… é completamente estapafúrdia.) Os deuses antropomórficos das nossas religiões são tão obviamente criados por humanos, que não podem ser verdadeiros. Se houvesse “lá fora” um deus capaz de criar um universo, ele/ela seria provavelmente demasiado complexo/a para repararmos sequer nele/nela… e ele/ela de certeza que não se importaria connosco, a nossa moralidade, as nossas vidas sexuais 🙂 , nem nos julgaria e criaria lugares para irmos depois da morte. Por outras palavras, se houvesse realmente um deus num sentido cósmico, não nos afectaria de forma alguma — e seria infinitamente maior (e menos “igual a nós mas mais poderoso”) do que as divindades inseguras, birrentas e obcecadas por órgãos genitais 🙂 das nossas religiões.

Terceiro, e se, apesar de tudo o que foi dito acima, mesmo assim houvesse um deus, e ele/ela se importasse connosco, e nos julgasse de alguma forma depois das nossas mortes físicas? Bem, depende dos standards de julgamento. Talvez não se importasse com a nossa moralidade, ou com o facto de ser adorado/a ou não, mas sim com alguma coisa completamente diferente. Não temos forma de saber. Talvez, por exemplo, fosse uma divindade para quem a única coisa importante é tratarmos bem os nossos gatos de estimação (que toda a gente sabe que são divinos).

Mas vamos supor que realmente tal ser se importaria com os nossos actos, a nossa moralidade. Nesse caso, a questão final é: Deus é bom, ou mau? Rejeito desde já as corrupções habituais do significado de “bom”, tais como “aquilo que Deus quiser é por definição bom”. Tem de haver algum standard, além dos caprichos de um ser poderoso.

Desta forma:

  1. um deus bom — o que exclui o tirano inseguro e obcecado pela sexualidade no qual os três monoteísmos acreditam — recompensaria quem tivesse vivido uma boa vida, sendo em geral “fixe” para as outras pessoas, e cheio de curiosidade em descobrir e aprender coisas, seguindo as evidências disponíveis até à sua conclusão lógica. As evidências disponíveis não sugerem de forma alguma a existência de um deus, por isso, acreditar num apesar disso não é mais do que “wishful thinking” intelectualmente desonesto, o que não agradaria a tal divindade. Um deus bom recompensaria bons ateus e bons crentes, e puniria maus ateus e maus crentes — mas provavelmente ficaria um bocado decepcionado com a falta de curiosidade e honestidade da parte dos crentes (por outro lado, ele/ela teria também de se explicar — porquê esconder-se e criar o universo de forma que este implique a sua não-existência?). Um deus bom não seria inseguro ou imaturo, e não precisaria de, desejaria ou se importaria com a questão de ser adorado, ou qualquer outro tipo de massagens ao ego. Desta forma, não tenho qualquer medo de um deus bom.
  2. um deus mau — tal como Yahweh ou Alá (e se não concordas comigo, não andas a ler os teus livros sagrados, e estás a inventar “Deus” tu próprio) — seria em grande parte como um ditador brutal num regime totalitário. Ninguém está a salvo desse monstro; não vale a pena esperar justiça ou um tratamento previsível, imparcial e justo. Ele possui-te, és propriedade dele: um escravo, nada mais. “Dar-lhe graxa” pode resultar por algum tempo, mas ele pode sempre torturar-te ou matar-te por um capricho, porque, para ele, não és um ser humano com emoções, és uma ferramenta para usar, um brinquedo para brincar. Mesmo assim, “dar-lhe graxa” — isto é, adorá-lo, viver a vida em função dele, e obedecer-lhe cegamente, não importa o sofrimento causado a outros — será provavelmente a opção mais segura. É claro que tal opção, por outro lado, fará de ti um cobardezinho nojento, sem qualquer integridade moral. Esse deus é o tipo de ser que realmente criaria dois lugares para irmos depois de morrer — um para tormento eterno, o outro para lhe darmos ainda mais “graxa”. A única coisa moral a fazer na presença de tal monstro, ao sermos condenados por termos a moralidade que ele não tem, seria cuspir-lhe na cara, como acto final de desafio.

Felizmente, não acredito na existência de nada do que foi acima descrito. E isso só me faz sentir livre e vivo. 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

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3 Comentários a “FAQ: “E se estiveres errado, e Deus existir? Isso não te preocupa?””

  1. Bom dia.

    completamente espatafúrdia???????

    • Sim; é algo que fazia sentido para pastores na idade do Bronze numa região do Médio Oriente, que pensavam que o mundo era o centro do universo, com as estrelas apenas “pontos luminosos” numa redoma negra. Agora que se tem uma ideia da vastidão e idade do universo — e que o nosso mundo não está no centro dele — é ridículo continuar a pensar que tudo isto foi criado somente como “pano de fundo” para nós, para determinar se somos salvos ou não.

      • Lovie diz:

        Wow Ben and Erin, you guys are really hardcore. I dread offwidth, and probably would have picked a different route just to avoid that pitch. You now equal my he!o-sreRobert

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