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Estudo liga religião a comportamento imoral

Visto aqui, por exemplo. Inclui um vídeo de 2 minutos da MSNBC, e um PDF com o estudo propriamente dito.

Resumindo muito a coisa: ao contrário do que certos crentes — sobretudo nos países mais religiosos, como os EUA — esperariam, os países onde há menos crime, menos violência, menos pobreza, menos desigualdade, menos gravidezes na adolescência, e assim por diante, coincidem com os menos religiosos. Os EUA, em particular (país de “1º mundo” mais religioso) ficam bastante mal na comparação.

Agora, como qualquer pessoa com um vestígio de educação científica saberá, correlação não implica causalidade. Ou seja, o facto de “mais isto” coincidir com “mais aquilo” não implica que uma das coisas provoque a outra; pode haver uma 3ª variável desconhecida que provoque as outras duas, ou pode ser simplesmente coincidência, o que num estudo não suficientemente abrangente, detalhado e duradouro pode perfeitamente existir.

Por outras palavras, não podemos olhar para o estudo e imediatamente concluir que “a religião causa imoralidade”, ou que “a imoralidade causa o aumento da religiosidade” (ambas as hipóteses são possíveis, e devem ser consideradas; não podemos simplesmente assumir que a coisa acontece no primeiro sentido que nos vem à cabeça… caso aconteça, o que ainda está por demonstrar).

Para provar a causalidade, seria preciso muito mais dados, conseguidos ao longo de décadas — por exemplo, para cada país, verificar se aumentos ou diminuições da religiosidade se reflectem em aumentos ou diminuições da imoralidade, de forma linear. Se isso acontecer numa esmagadora maioria dos casos, e em ambos os sentidos (isto é, aumentos de uma coisa implicam aumentos de outra, e o mesmo para diminuições), então podemos aí assumir que há boas probabilidades de haver causalidade (se bem que resta investigar se não são ambas as coisas consequências de uma terceira).

(Se estão meio confusos porque é que ponho tantos “senãos” relativamente a tirar conclusões a partir de um estudo que aparentemente só favorece a minha posição, quando no meu lugar se imaginam a “abraçá-lo” imediatamente, bem-vindos ao vosso primeiro contacto com o método científico, em que quem sugere uma hipótese é o próprio a fazer tudo ao seu alcance para a falsificar, e só mantém a hipótese em aberto se não o conseguir. É por isto que a ciência não é “uma religião”, e não precisa de “fé” — ou seja, é de confiança. 😉 )

Podemos, no entanto, concluir desde já uma coisa, que considero extremamente importante: a ideia de que a religião é essencial à moralidade humana é absolutamente falsa. Muitos crentes assumem — ou foram ensinados assim e nunca o questionaram — que a religião é a única coisa que torna as pessoas morais, e que uma sociedade que a perdesse transformar-se-ia rapidamente numa orgia de violência e caos… mas está demonstrado que não é o caso; sociedades menos religiosas são tão ou mais morais. Aliás, os dados sugerem o “mais”, mas convém investigar isso melhor, como disse.

Especulando um pouco — e não me levem muito a sério aqui –, eu diria que há várias razões para a alta religiosidade estar associada à imoralidade e a problemas sociais.

Primeiro, porque a religião é uma forma de as pessoas não pensarem em moralidade, por fornecer respostas fáceis (“Deus mandou isto”). Questões como o aborto ou a eutanásia devem ser estudadas e discutidas pela sociedade, considerando os efeitos prováveis das várias políticas possíveis, sobretudo em termos de sofrimento causado ou evitado e de progresso social… mas nada disso acontece quando nos limitamos a apontar para a reedição de uns pergaminhos escritos por pastores da Idade do Bronze como sendo o fim da discussão.

Segundo, porque uma sociedade muito religiosa é necessariamente uma sociedade onde o pensamento crítico não é muito apreciado, e portanto as pessoas têm menor capacidade de tomar decisões racionais e informadas (o que leva, por exemplo, a eleger maus políticos e a exigir más políticas).

Terceiro, porque quem acredita que esta vida é só um teste para determinar a salvação da alma irá dar-lhe necessariamente menos valor — ou apreciar menos o sofrimento dos outros — do que quem acredite que a vida que temos é única e finita.

Quarto, porque há muita imoralidade na base das religiões — basta olhar para os livros sagrados.

Quinto, porque as religiões tendem a ser ultra-conservadoras, anti-ciência e anti-educação (incluindo a educação sexual, a melhor forma de evitar gravidezes adolescentes e, por conseguinte, abortos); em qualquer questão social, as igrejas estão quase sempre do lado errado (ex. aborto, educação sexual, direitos de homossexuais, ensino da evolução das espécies (isto é mais nos EUA), igualdade de direitos entre os sexos, eutanásia, etc.).

A religiosidade não existe num vácuo; procede das religiões existentes, e elas têm muita, muita “culpa no cartório”, em termos de moralidade não só de actos, mas do que promovem.

Mas isto sou só eu a supor. 🙂

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