Esta pergunta é, infelizmente, muito comum; tal como no caso da aposta de Pascal, a maior parte dos crentes põem esta questão com uma atitude de desafio (“responde lá a isto! aposto que não consegues!”), estando visivelmente na ilusão de que a pergunta é original, que o ateu nunca pensou nela, e que vai ser incapaz de lhe responder.
Surpresa: qualquer ateu que se interesse por discutir este tipo de temas já pensou nessa questão, e detectou imediatamente vários problemas na mesma.
O primeiro problema é este: trata-se de um argumento da ignorância, já mencionado aqui e aqui. Esse argumento, neste contexto, resume-se a isto: “não sei / não entendo / não estou a ver como, logo foi Deus“. Já se trata de um péssimo argumento quando usado em relação a algo que ainda não é entendido ou explicado pela ciência (ex. a origem do universo), uma vez que não faz sentido que uma explicação sobrenatural ganhe simplesmente “por default”, mas demonstra ainda mais “tolice” quando usado relativamente a algo que já foi explicado e é entendido por muita gente, mas o crente em questão não conhece ou não entende — nem procurou conhecer ou entender — essas explicações. É como alguém nos dias de hoje pensar (como acontecia na pré-história) que uma trovoada é uma discussão entre “os deuses”.
Por outras palavras, é de uma tremenda ignorância — e preguiça intelectual — atribuir emoções ou a capacidade de alguém para o bem (ou o mal) a “Deus” quando podem ser explicadas pela evolução, psicologia, neurologia e filosofia. Mas aprender sobre tudo isso dá muito trabalho, não é?
Um segundo problema é a mentalidade dualista e anti-humana, que diz — e é assim culpada por tanto sofrimento ao longo da história — que tudo o que é profundo, marcante, importante ou “bom” tem de ter uma origem sobrenatural, exterior a nós, de um plano não alcançável pela inteligência e ciência humanas. Tal como a acusação de Keats a Newton por este ter “desvendado o arco-íris” e assim destruído a beleza e poesia do mesmo (como se só houvesse beleza e poesia na total ignorância…), essa é uma mentalidade anti-humana e anti-vida, que nos tira o melhor de nós próprios e diz que este só pode vir de um plano sobrenatural e incompreensível (seja “Deus”, seja qualquer coisa “new age” indefinida), porque se fosse compreendido e explicado em termos puramente humanos perderia assim todo o seu valor.
Isto, desculpem dizer, é absurdo. O amor de uma pessoa por outra não precisa de uma origem ou justificação externa ou sobrenatural para ter valor, para ter poesia e pureza. Pelo contrário, ao afirmarem que essas origens são necessárias, aí é que lhe estão a tirar valor. Aquilo que eu sinta por alguém — uma namorada, um familiar, um amigo — não precisa de justificação externa, não precisa de vir de um “plano espiritual”, não perde valor por vir “só” de mim — muito pelo contrário, perderia todo e qualquer valor se não viesse de mim, se não fosse meu.
Na verdade, o atribuir de tudo o que há de bom no ser humano a algo “extra-humano” só demonstra uma coisa: um total ódio à humanidade e a si mesmo. Algo bastante comum nas várias religiões populares, “coincidentalmente”.
(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)
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