Novo/a no Ateísmo-PT? Começa por aqui.

Porque é que a América é tão religiosa?

Esta é uma pergunta à qual muita gente já tentou responder, e agora é a minha vez de dissertar um pouco sobre o assunto. Afinal, para bem e para mal, os EUA são não só a única superpotência nos dias de hoje, mas também são o país mais influente do mundo, e o que acontece lá inevitavelmente influencia o resto do mundo, de uma forma ou de outra. Além disso, grande parte da cultura que “consumimos” (cinema, música, literatura, etc.) vem de lá.

Para quem não saiba, os EUA são — de longe — o país de “primeiro mundo” mais religioso do mundo; em geral a religiosidade de um país é inversamente proporcional ao desenvolvimento, à riqueza e ao acesso à educação no mesmo. Os Estados Unidos são a excepção, como este gráfico (fonte) mostra:

Relação entre a religiosidade e a riqueza dos diversos países

Reparem que a posição dos EUA “está a destoar” ali; tem a religiosidade que seria de esperar num país muito mais pobre e menos desenvolvido. Porque é que é assim?

Há duas explicações em geral sugeridas, e penso que a realidade é uma combinação de ambas. A primeira é que, ao contrário da maior parte dos outros países de “primeiro mundo” (Europa, Japão, etc.), os EUA não têm nem nunca tiveram uma religião oficial. Os “founding fathers” tiveram cuidado em prevenir precisamente isso — a famosa “separação entre igreja e estado” –, e é por isso que os EUA não são “um país Cristão”, pelo menos em termos oficiais, apesar de terem uma proporção de Cristãos praticantes bem maior do que, por exemplo, Portugal — oficialmente um país Cristão (na variante Católica), mas em que a esmagadora maioria do povo é não-praticante.

Isto parece contraditório, não parece? Um país fica mais religioso por não ter (nem nunca ter tido) religião oficial? Não seria de esperar o contrário?

A questão é que uma religião oficial provoca complacência, provoca conforto, torna a religião mais uma tradição que as pessoas têm, do que algo a ser levado realmente a sério.1 Em resumo, cria não-praticantes, exactamente como temos em Portugal, ou como é o caso na Inglaterra. Assume-se que toda a gente pertence à religião X (Católica, Anglicana, etc.) à nascença (ou no baptizado), e não se pensa muito mais nisso; os próprios baptizados, bem como os casamentos na igreja, são mais algo que se faz por tradição do que outra coisa (lembro-me de ir a um baptizado na família em que, estando a igreja cheia, provavelmente não havia lá nenhum crente abaixo dos 60…).

Ao invés disso, num país como os EUA, as várias religiões têm, e tiveram desde o início, de competir entre elas, aperfeiçoando ao longo das décadas os seus métodos de conquistar aderentes e de despertar paixão — em muitos casos, eu até diria fanatismo — neles. É uma espécie de evolução Darwiniana (ironicamente em quem em grande parte rejeita a realidade da mesma): as religiões que conseguiram sobreviver até hoje num ambiente tão competitivo são muito eficientes a angariar membros, e a fazê-los levar a coisa a sério.

A segunda causa é a seguinte: apesar de os EUA serem um país “rico”, os americanos são um povo que, na sua esmagadora maioria, vive com medo. Não vou entrar aqui em opiniões políticas, mas, devido ao seu conservadorismo e ao facto de serem um país muito mais “de direita” do que a maioria da Europa, os americanos são por natureza adversos a sistemas de segurança social (refiro-me aqui ao conceito, e não à Segurança Social (em maiúsculas) como serviço ou organização); uma pessoa pode muito mais facilmente ser despedida, sem “justa causa” ou indeminizações razoáveis (excepto no caso de executivos, é claro), e a qualquer momento uma pessoa pode perder tudo por causa de uma doença. E, repare-se, estou a falar da classe média, de famílias com casa e carro, não me estou a referir à verdadeira pobreza.

Sem contar com os verdadeiros “ricos”, a maior parte dos americanos vive com consciência de que pode perder tudo a qualquer momento, e por causas completamente fora do seu controlo. É natural que, vivendo sempre com certo nível de medo, incerteza e stress, as pessoas procurem segurança nalgum lado… e a ideia de uma divindade que se importa connosco, que “tem um plano para nós”, que estará lá sempre para nós mesmo que tudo o resto corra mal, é muito tentadora… e muito reconfortante.

Já dizia o vilão de “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco: sem medo, as pessoas não precisam de Deus (daí todo o “plot” para encobrir a existência de um livro de Aristóteles sobre a comédia, já que nada anula tão bem o medo como o riso). Talvez seja por isso que os elementos mais religiosos nos EUA — basicamente, o partido Republicano — se tenham sempre oposto a todo e qualquer tipo de segurança social — a Segurança Social propriamente dita em 1935 (introduzida por Franklin D. Roosevelt), o sistema Medicare em 1965 (de Lyndon B. Johnson), e agora a renovação do sistema de saúde (de Barack Obama; todos eles Democratas). Sem dúvida que grande parte da oposição é política, no sentido de prejudicar o governo Democrata de forma a este ser culpabilizado pelos problemas do país e os Republicanos ganharem votos, mas também se pode argumentar que uma sociedade em que haja muito mais segurança e estabilidade, em que as pessoas saibam que se caírem há uma “rede” que as segura, que nunca se vão totalmente abaixo e que não estão todos os dias da sua vida em risco de perder tudo aquilo pelo que trabalharam a vida inteira, é uma sociedade que “precisa” muito menos de “Deus”, e que por conseguinte terá tendência para se tornar menos religiosa com o tempo.

Aliás, é isso que eu espero que aconteça. 🙂 Daí ter ficado contente pelo sucesso — até agora — da reforma do sistema de saúde nos EUA, que tudo indica ir mesmo para a frente.

E se esta ideia — que não sou eu o primeiro a sugerir — estiver correcta, então o gráfico acima pode-se interpretar de outra forma, na qual os Estatos Unidos já não são uma excepção “estranha” à regra. A proporção inversa não é entre a religiosidade e a riqueza / desenvolvimento, mas sim entre a religiosidade e a segurança que se tem em relação à vida. Insegurança implica medo implica mais religião. Logo, esperemos que mais segurança implique menos religião, no futuro.

  1. um pequeno à-parte: em conversas com amigos e conhecidos portugueses — tanto crentes como ateus — noto frequentemente uma grande dificuldade em acreditar / conceber a forma como os americanos levam a religião a sério; ouço comentários como “sim, eles dizem isto e aquilo, mas não acreditam mesmo no que estão a dizer, pois não?” Era bom que assim fosse… []

Etiquetas:

2 Comentários a “Porque é que a América é tão religiosa?”

  1. Ednaldo diz:

    Só uma correção:Portugal é um país laico desde a Revolução dos Cravos.

  2. > This subreddit and the internet in general is pretty damn harsh on http://lawyerbusinesscards.net/item,240334464561850663 anyone who wants to shoot a wedding for the first Really? I think this sub is pretty welcoming, but realistic, to most first Much more so than the majority of photography forums out

Comentar


Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 Portugal
This work by Dehumanizer is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 Portugal.