Novo/a no Ateísmo-PT? Começa por aqui.

9 Perguntas a um Ateu

Fizeram-me ontem as seguintes perguntas, às quais achei piada responder:

1) Tu não acreditas em Deus(es) ou não acreditas em religião?
2) Estás convencido que não existe qualquer hipótese de existir um Deus/ forma de energia?
3) Acreditar, pensamento positivo e ter fé não fazem as coisas acontecerem?
4) Esta vida é a única que existe ou existiu ou existirá?
5) Não há destino nem almas gémeas nem déjà vu?
6) Não existe karma?
7) Mitologia e simbologia são assuntos aborrecidos?
8) Não existem realidades alternativas?
9) Faz sentido pensar no significado da vida?

Respostas a seguir:

1) Tu não acreditas em Deus(es) ou não acreditas em religião?

Não acredito em nenhum dos deuses apresentados pela humanidade até hoje, pela mesma razão que não acredito na Unicórnia Invisível Cor-de-Rosa ou no Monstro Voador de Esparguete: absolutely zero evidence for it. Além de que os deuses das várias religiões são claramente “humanos em ponto grande”, com todos os defeitos e inseguranças da humanidade que os inventou. Se existir algum tipo de “deus” realmente cósmico, “cujos sonhos são constelações” (Robert Ingersoll), ele aproximar-se-á da ideia que menciono no ponto 8), da “simulação perfeita”: será para todos os efeitos virtualmente incompreensível por nós, e indistinguível de um universo 100% natural. Ou seja, pode ser interessante de investigar, mas de certeza que não sabe que existimos, não está preocupado com a nossa moralidade ou com o que fazemos com os nossos genitais, e não somos de forma alguma a razão do universo existir (como as várias religiões afirmam).

Seguindo esta linha de pensamento, acredito que todas as religiões humanas estão erradas. Note-se que uma “religião” que não inclua deuses ou o sobrenatural não é uma religião, mas sim uma filosofia (que, para concordar ou discordar, terá de ser estudada e julgada separadamente).

2) Estás convencido que não existe qualquer hipótese de existir um Deus/ forma de energia?

Acho que respondi a isso na anterior: os deuses das várias religiões humanas são tão obviamente inventados que até dói. Um deus cósmico “a sério” merecerá investigação quando e se houver qualquer evidência para o mesmo. Quanto a “energias”, aceito perfeitamente que haja muitas que ainda não conseguimos detectar, mas daí até alguma funcionar da forma que os “místicos” acreditam e/ou estar relacionada com as nossas crenças e/ou moralidade… acho isso muito antropomórfico e egocêntrico (para não dizer infantil) da nossa parte; é muito semelhante à ideia das várias religiões de que a razão de ser do universo é a raça humana.

3) Acreditar, pensamento positivo e ter fé não fazem as coisas acontecerem?

Não de uma forma “sobrenatural”, tipo atrairmos a sorte, como certos best-sellers afirmam. Mas há vantagens do ponto de vista psicológico: ver Realismo como alternativa ao “pensamento positivo”.

4) Esta vida é a única que existe ou existiu ou existirá?

Aparentemente, sim. Há evidências fortes (ex. lobotomias, acidentes cranianos) a apontar no sentido de que a consciência está inteiramente no cérebro, e não numa alma imortal separada do mesmo. Se não há consciência sem o cérebro, não há vida depois da morte (ou antes da criação do cérebro no embrião).

5) Não há destino nem almas gémeas nem déjà vu?

“Destino” só podemos testar se o soubermos previamente, o que não acontece. “Almas gémeas” de uma forma não-sobrenatural, talvez; às vezes “clickamos” com outra pessoa de uma forma que na altura não conseguimos explicar… mas não me parece que isso tenha a ver com “almas” no sentido religioso da palavra (algo que é independente do corpo e persiste depois da morte), porque, uma vez mais, não há qualquer evidência da existência destas. Quanto a déjà vu, já foi há umas décadas, mas li em algum lado que essa sensação é explicável psicologicamente: de uma forma ultra-simplificada, vês algo inconscientemente e isso entra-te na memória uma fracção de segundo antes de olhares para esse algo conscientemente, e por isso dá-te a ideia de que já “viste” isso antes. Mesmo que esta explicação esteja completamente errada (a minha memória não é perfeita, e não sou psicólogo), continua-me a parecer muito mais credível uma explicação psicológica do que uma sobrenatural (da mesma forma que hoje em dia já não se vê a epilepsia como possessão demoníaca: uma explicação sobrenatural deu lugar a uma natural. O oposto, sabe-se lá porquê, nunca acontece).

6) Não existe karma?

Infelizmente, tudo indica que não, pelo menos durante a vida, já que o mundo está cheio de injustiças e mais injustiças. Quanto a existir para além da vida, isso depende da existência da reencarnação, para a qual — mais uma vez — as evidências são zero.

7) Mitologia e simbologia são assuntos aborrecidos?

Não; são fascinantes. Digo-o sem qualquer ironia. Adoro ler e aprender sobre isso, assim como adoro ficção científica, fantasia e “comics” de super-heróis. (Aliás, uma das razões — não a única, nem sequer das maiores — para rejeitar as várias religiões monoteístas é que os deuses que elas promovem como sendo O Criador Supremo De Tudo O Que Existe são muito mais humanos (no mau sentido da palavra) e muito menos “cósmicos” do que vários personagens da Marvel que poderia aqui citar…)

8) Não existem realidades alternativas?

Se estamos a falar de simulações tipo “Matrix”, numa simulação imperfeita (mesmo que de forma quase ínfima), notar-se-iam falhas e isso seria detectável (e provavelmente já o teria sido); uma simulação 100% perfeita, por outro lado, é, por definição, totalmente indistinguível da realidade (incluindo a questão de o universo ser “entendível” racionalmente e não haver “milagres”) e não temos forma de o descobrir. É interessante pensar nisso, e é até interessante pensar em formas de detectarmos essa simulação caso ela afinal não seja 100% perfeita, mas, até haver algum sinal de que tal coisa acontece, só faz sentido A) vivermos as nossas vidas na assumpção de que elas são reais e as únicas que temos (e, por isso, preciosas), e B) não tratarmos uma ideia com imensas evidências a favor e outra completamente desprovida das mesmas como sendo igualmente prováveis.

9) Faz sentido pensar no significado da vida?

Sim, já que esse significado não tem de vir de fora (agradar a um deus, aumentar o karma, etc.); podemos (e devemos — é a única atitude responsável e corajosa) ser nós a criá-lo.

Comentar


Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 Portugal
This work by Dehumanizer is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 Portugal.