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Porque não acredito em “Teorias de Conspiração”

As yet, the Ultimate Evil remains largely unmanifest, and its powers and exact intentions are still a bit obscure, since it lurks just outside the range of even the most sensitive, long-range detectors, which we feel gives conclusive evidence as to the Ultimate Evil’s nefarious intent.

— Fwiffo, Star Control II

A ideia de que vivemos num mundo caótico, sem um “plano” único e deliberado, e em que os nossos “líderes” — governantes de países e gestores de empresas multinacionais — não sabem, em grande parte, o que estão a fazer, é, para muita gente, do mais assustador que pode haver. É, de certa forma, o equivalente a uma criança pequena aperceber-se pela primeira vez na vida de que os seus pais são imperfeitos, que não têm todas as respostas, e que muitas vezes nem estão em sintonia um com o outro. Que não há ninguém absolutamente competente a cuidar de nós. É um terror básico, que não desaparece totalmente pelo simples facto de chegarmos à idade adulta. O ser humano, em certos aspectos, nunca cresce totalmente: continuamos a necessitar, em diversos graus, de nos sentir seguros, de sentir que há ordem no universo, de que há um plano, de que há uma espécie de “pai” que cuida de nós — mesmo que muitas vezes não o entendamos, os seus objectivos nos sejam em grande parte incompreensíveis, e ele nos pareça por vezes até cruel.

Não, não estou, neste caso, a falar de religião, se bem que tudo o que escrevi acima é perfeitamente aplicável também aí. 🙂 Refiro-me, sim, a quem acredita em teorias de conspiração (chamemos-lhes “teóricos de conspiração”, se bem que isso não soa nada bem — mas sempre é melhor do que os “conspiradores teóricos” que apareceram em legendas portuguesas, em tempos…): a ideia de que há certos “powers that be”, normalmente sob a forma de uma organização ultra-secreta — tão secreta que a maioria das pessoas nem nunca ouviu falar dela — que controlam, a partir das sombras, o avanço e o destino da humanidade, estando acima de presidentes e outros líderes “visíveis”. E que isto é assim há séculos, ou mesmo milénios.

Para um teórico de conspiração, tudo o que acontece — os resultados de uma eleição, um golpe de estado, uma crise económica, uma celebridade assassinada, ou mesmo um avanço científico –, acontece porque eles assim o decidiram, e de acordo com o seu plano. Eles controlam tudo, são absolutamente competentes, e é virtualmente impossível frustrar os seus planos — sobretudo porque a maioria dos “carneiros” desconhece que eles sequer existem, vivendo feliz na sua ignorância. E eles são, obviamente, muito eficientes a fazer desaparecer evidências… ou pessoas. Afinal, fazem-no há centenas de anos. E todos os eventos registados na História têm um significado diferente, quando interpretados sob este ponto de vista.

Mais incrivelmente, quando confrontados com a falta de evidência para justificar a sua crença de que os Illuminati, a Maçonaria, os Bilderberg e afins controlam o destino da humanidade, os teóricos de conspiração têm na ponta da língua a resposta, a seu ver, perfeita: isto só prova que eles são absolutamente competentes a manter oculta a sua influência, e em certos casos a sua existência. Tal como na citação no início do post, a prova de que eles existem é que não os conseguimos detectar. A prova de que controlam tudo é que não conseguimos sequer ver esse controlo. E a explicação para tanta “furtividade”? Intenções sinistras, é claro.

É uma lógica curiosa: quanto menos evidências deixam, mais competentes e malignos são; logo, se há zero evidências, então são supremamente competentes e malignos. A ideia de que zero evidências também pode, sei lá, quem sabe, indicar que realmente não existem (ou, em casos como a Maçonaria, não têm o poder nem fazem as coisas que lhes são atribuídas) nem lhes parece passar pela cabeça…

Possivelmente, alguns teóricos de conspiração até se consideram cépticos — isto é, não acreditam cegamente, dizem eles, na “versão comum” da História, da política, de como a humanidade se gere e progride. Mas isto é um erro. O verdadeiro cepticismo baseia-se em escolher e escalar as nossas crenças de acordo com as evidências disponíveis, e não em rejeitar toda e qualquer evidência contrária a uma crença pré-assumida — ou, pior ainda, em reinterpretar a ausência de evidência a favor dessa crença como “prova” de que ela é válida (!). E é isto que um teórico de conspiração efectivamente faz. Depois de construir a sua crença, não há evidências contra essa crença que surtam qualquer efeito; tudo pode ser reinterpretado como “isso é o que eles querem que pensemos!“. Por outro lado, qualquer ponto aparentemente a favor dessa crença, por muito “rebuscado” que seja, serve-lhe de confirmação — mais do que suficiente, para ele — de que a mesma é legítima. Isto, como espero ser óbvio, não é uma forma nem científica, nem céptica, nem intelectualmente honesta de ver as coisas.

E com isto lanço um desafio a qualquer teórico de conspiração que leia isto e não concorde com a minha posição. O desafio é este: há alguma coisa, algum tipo de evidência, que te fizesse admitir que estás errado/a, que as tuas crenças sobre conspirações e organizações ultra-secretas são infundadas, que o mundo realmente é caótico, os nossos “líderes” são na sua maioria mais ou menos incompetentes, e não há qualquer “plano” a ser mantido cuidadosamente por um grupo sombrio?

Se não há, se qualquer possível evidência que te fornecessem seria imediatamente reinterpretada como “isso é o que eles querem que se pense” (confirmando, dessa forma, ainda mais a tua posição), se a tua crença é completamente imune à realidade, então de onde é que ela realmente vem? Será de um medo de viveres num mundo caótico onde as coisas acontecem muitas vezes sem explicação, sem fazerem parte de um plano? Ou é simplesmente porque sabe bem sentires-te “especial”, ao seres o único, ou dos pouquíssimos únicos, que sabe a “verdade” por detrás das coisas, enquanto o resto da humanidade não passa de  “carneiros” iludidos? Pensa lá bem. É que acabaste de demonstrar que não procede de factos, de evidências, ou de uma observação honesta do mundo… o que faz de ti o oposto de um “céptico”: um crente dogmático, que escolhe e mantém determinadas crenças apenas porque isso o faz sentir-se bem.

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8 Comentários a “Porque não acredito em “Teorias de Conspiração””

  1. Já agora, só para não haver confusões: eu não estou a dizer que conspirações não existem. É claro que existem. Os EUA armam em segredo os rebeldes de um país de terceiro mundo porque o líder actual é demasiado comunista para eles e/ou não lhes dá acesso ao petróleo? Sem dúvida que isso acontece, e já aconteceu várias vezes no passado. E isso é uma conspiração. E, como esta, há muitas. Mas há enormes diferenças entre estas conspirações reais e as imaginadas pelos teóricos de conspiração. Estas:

    – em geral descobrem-se, na altura ou poucos anos depois;
    – têm origem num governo de determinado país, e não numa sociedade ultra-secreta que é mais poderosa do que governantes, e controla tudo das sombras;
    – têm um objectivo relativamente óbvio, em vez de algo misterioso e insondável;
    – duram meses ou poucos anos, em vez de séculos ou milénios; e
    – não são executadas com uma competência absoluta — muito pelo contrário.

  2. Vi isto num comentário noutro blog:

    To a conspiracy theorist, evidence disproving the conspiracy theory is just proof that the conspiracy is more powerful and devious than was previously thought.

    Excelente síntese. 🙂

    • E outra, brilhante:

      No, you’re allowed to question anyone you want, but inherent in your questioning must also be the possibilty that your questioning can be satisfied, else you’re just the annoying little kid who asks “why” in response to every answer. The problem with the birthers, really, is the same problem with all conspiracy theorists: the only proof they’ll accept is the proof that they’re right. Anything else must be a lie.

      “Birthers”, aqui, refere-se aos nada-racistas-não-senhor membros da extrema direita americana (i.e. Republicanos) e a sua teoria de que o Obama nasceu no Kenya.

      A fonte destas duas citações é os comentários a este post do Peter David.

  3. Murilo Rocha diz:

    Caí aqui através de uma busca por Greta Christina+Illuminati. Acredito em Deus, único e eterno, a verdade. E, acho, que infelizmente o mundo é governado sim por um seleto grupo de pessoas que enganam a humanidade através dos tempos, guiados por satanás. Há várias passagens na nossa existência que provam isso, basta procurar. Estamos nas últimas dores de parto do anticristo. Que Deus os ilumine.

    • Esse comentário é mais propaganda do que outra coisa… mas enfim. Sem ter qualquer esperança de obter resposta: como é que sabes que:
      1- “o mundo é governado por um seleto grupo de pessoas que egnagan a humanidade através dos tempos”;
      2- os anteriores são “guiados por satanás”
      3- que “passagens na nossa existência” provam isso?
      e 4- “estamos nas últimas dores de parto do anticristo”?

      P.S. – responder com copy & pastes não vale. 🙂

  4. roberto diz:

    [Disparates anti-semitas apagados. Mas estará tudo louco?!? – Dehumanizer]

  5. Há sim uma “sabedoria milenar secreta” que só muito poucos sabem. (muito poucos???já foi.)
    Por exemplo: A construção das Pirâmides, principalmente a tal de Queóps no Egito. Alguém acredita mesmo que não existe na face deste planeta ninguém que não saiba como e quando ela foi contruída? Eu posso não saber você também não, nem os grandes matemáticos e historiadores o sabem, mas, MAS, ela foi construída no PASSADO remoto e está lá para que todos a vejam. Qual é a lógica?
    Se ela foi construida no passado remoto e hoje, HOJE, os mais conceituados arquitetos não pederiam fazer outra igual, o que aconteceu com nossa “inteligência”? Regrediu?
    Ou alguém “superior” quiz deliberadamente nos mostrar que mesmo as espécies como a nossa depois de atingir certo avanço tecnológico CONTINUA IGNORANTE para certos conhecimentos, ou preferimos também deliberadamente não saber porque nossas sociedade está de salto alto???
    Resposta oficial: A pirâmide é apenas um túmulo, nada mais. hahahahahahahahahahahahaha.

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