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FAQ: “Se não podemos provar a existência ou não-existência de um deus, não faz mais sentido auto-descrevermo-nos como ‘agnósticos’ em vez de ‘ateus’?”

(Nota aos leitores habituais do blog: como esta questão já foi várias vezes abordada aqui, a maior parte do conteúdo desta entrada do FAQ vem de posts anteriores.)

Por vezes esta pergunta é feita de outro modo: “se não se pode ter a certeza absoluta, então não estarão os ateus a ser tão fanáticos e dogmáticos como os crentes, e não será a única posição racional o agnosticismo?”

A questão aqui é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não afirma nem pensa ter um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus1, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” (ou gnósticos) são os crentes fundamentalistas ultra-fanáticos que nunca tenham quaisquer dúvidas; nem os crentes “normais” (a esmagadora maioria deles) nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima. Sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que foi abordado nesta entrada do FAQ até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”. E, frequentemente, inclui também a insinuação de que “os ateus são tão fanáticos como os crentes”, e que só os agnósticos como ele é que têm uma posição racional.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”2). Da mesma forma, o típico “agnóstico” não tem dúvidas de que amanhã 2+2 continuarão a ser 4, apesar de não o poder provar. Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe” ou “não sei explicar algo que me aconteceu, logo foi Deus“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. É como dizer que, se há imensas evidências para A e nenhumas para B, então A e B são igualmente prováveis. Daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

Por último, há outra possibilidade. Para quem tenha sofrido consequências do fundamentalismo religioso, estará sempre presente na sua memória como tais crentes estavam completamente certos daquilo em que acreditavam, sem alguma vez questionarem essas crenças. Ao escapar de tal fundamentalismo, é natural que se passe a desconfiar da própria ideia de se ter certezas absolutas e dogmáticas, imunes a qualquer facto ou argumento. E, pensará uma pessoa nesta situação, não será o ateísmo simplesmente a outra face da mesma moeda — a “certeza absoluta e dogmática” de que não existem deuses? Não serão os ateus vítimas (ou culpados) exactamente do mesmo erro? Se não temos (e nem devemos ter) uma crença 100% inalterável e perfeita, não fará mais sentido uma pessoa “manter a mente aberta” e descrever-se como agnóstica?

A resposta é “não”, por uma simples razão: há aí um erro de definições. O ateísmo não é a “certeza absoluta e dogmática” de que não existe nenhum deus; é, sim, a ausência de crença em um deus ou deuses. É tratar “deus” como se trata “fadas” ou “duendes”: uma pessoa não precisa de ter estar “absoluta e dogmaticamente” certa de que essas criaturas não existem, basta não acreditar nelas, não ter nenhuma crença nelas.

Não é preciso ter-se um conhecimento perfeito do universo (omnisciência), ou “provas” absolutas da não-existência de um deus, para se ser ateu. Basta o seguinte: escalar as crenças segundo as evidências, o que é de qualquer forma a posição racional a ter-se. Note-se que um crente assumidamente não escala as suas crenças de acordo com as evidências; o que ele faz, pelo contrário, é afirmar que crenças sem evidências (isto é, “fé”) são uma virtude. (Curiosamente, o mesmo crente tipicamente não aplicará isso às crenças de outras religiões, que para ele estarão obviamente erradas…)

Mas para quem prefira, racionalmente, que as suas crenças escalem de acordo com as evidências, é fácil chegar-se ao ateísmo; aliás, é a única conclusão lógica. Zero evidências para algo -> zero de crença nesse algo, e “zero de crença” em um deus ou deuses é a definição de ateísmo. Não é necessária nenhuma fé, nem omnisciência, nem nenhuma certeza “absoluta e dogmática” para chegar a esta posição.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  2. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

5 Comentários a “FAQ: “Se não podemos provar a existência ou não-existência de um deus, não faz mais sentido auto-descrevermo-nos como ‘agnósticos’ em vez de ‘ateus’?””

  1. Hugo Castro diz:

    No livro “A Desilusão de Deus” Richard Dawkins fala bastante sobre essa separação de conceitos.

    Pela primeira vez consegui explicar à minha namorada/companheira porque sou ateu e não agnóstico. A escala de 1 a 7 é bastante esclarecedora.

    E por isto “O ateísmo não é a “certeza absoluta e dogmática” de que não existe nenhum deus;” é que Richard Dawkins se encaixa no nivel 6,9. 🙂

    O nivel 7 seria um extremo de certeza de que nenhum ateu se deveria orgulhar.

    Gosto de pensar em probabilidades. A NÃO existência de um ser superior é muito mais provável do que o contrário.

    Considero-me um iniciante nestas andanças. Nunca tive uma discussão aberta sobre estes assuntos com ninguém crente e quando a tiver não sei se me irei lembrar dos inúmeros argumentos inerentes à minha ideologia. Pode ser que com o passar do tempo o poder da palavra aumente, para já contento-me com o facto de saber o que sei e que tenho a “verdade” em mim enquanto nada mais me mostrar o contrário (com evidências!).

    Abraço e boa escrita!

  2. José Pedro diz:

    Falando numa tangente, o “Evil God Challenge” do Stephen Law é óptimo a dar um exemplo claro de como a crença num deus teísta é frágil. A ideia é que o conceito, ideia e argumentos a favor e contra um deus todo o poderoso que é benéfico e um deus todo poderoso maléfico são de tal modo semelhantes que a “quantidade” de crença que se tem em cada um apesar de não ser igual é muito próxima, e que se uma pessoa não acha a ideia de um deus maléfico convincente então o deus benéfico é igualmente pouco convincente.

  3. Lucas diz:

    Achei seu blog interessante, pela maneira que argumenta sem ofender ou banalizar.

    Sei que seu texto foi publicado em março, mas se possível me responda:

    Quando você disserta sobre o assunto “…É como dizer que, se há imensas evidências para A e nenhumas para B, então A e B são igualmente prováveis. Daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.”

    Tais evidências a que se refere são evidências da ciência desmascarando o deus bíblico, criado por Judeus, com a característica de um pai que pune e interfere em nossas vidas (de forma sobrenatural).
    Porém creio que muitos creem em um deus criador do universo e não necessariamente este deus que a ciência realmente já desmascarou. Isto não levaria “A e B” continuarem equivalentes e o agnóstico continuar agnóstico?

    Desculpe se algo em minha escrita está estranho, pois sou do Brasil.

    Obrigado.

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    FAQ: “Se não podemos provar a existência ou não-existência de um deus, não faz mais sentido auto-descrevermo-nos como ‘agnósticos’ em vez de ‘ateus’?”

  5. a diz:

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    FAQ: "Se não podemos provar a existência ou não-existência de um deus, não faz mais sentido auto-descrevermo-nos como 'agnósticos' em vez de 'ateus'?"

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