Arquivo da Categoria ‘Ateísmo’

Anne Rice: a saga continua

Sexta-feira, 30 de Julho, 2010

Mencionei ontem as actualizações de Anne Rice na página dela no Facebook, e, infelizmente, o que sugeri confirma-se: ela continua a ser tão crente como foi nos últimos anos, continua tão presa a superstições e “wishful thinking” como antes; simplesmente quer distanciar-se do ultra-conservadorismo que (sobretudo, mas não só, nos EUA) caracteriza tanto o Cristianismo.

Basta ver que, depois das duas actualizações citadas no post anterior, as seguintes foram simplesmente… citações da Bíblia. Não é exactamente um sinal de racionalidade ou clareza mental…

E ela continua a ser “Cristã” — “seguidora de Cristo” quer dizer exactamente isso. E aqui dou razão ao Hemant: o que ela fez é equivalente a um ateu conhecido dizer algo como: “eu era ateu, mas não concordo com as atitudes e posições políticas e sociais da maioria dos ateus (por exemplo, acho que são demasiado liberais, e sou contra os direitos dos homossexuais, não por causa de questões religiosas, mas apenas porque eles me enojam e porque negar-lhes direitos básicos faz-me sentir poderoso)… logo, a partir de hoje, já não sou ateu. Mas continuo a não ter qualquer tipo de crença num deus ou deuses.” Hmm, não. Não acreditas em deuses, logo és um ateu. É essa a definição do termo. Podes ser um ateu irracional, homofóbico, ultra-conservador… em resumo, um completo imbecil. Mas continuas a ser um ateu.

A última (à hora deste post) actualização dela também revela muito (ênfase meu):

My faith in Christ is central to my life. My conversion from a pessimistic atheist lost in a world I didn’t understand, to an optimistic believer in a universe created and sustained by a loving God is crucial to me. But following Christ does not mean following His followers. Christ is infinitely more important than Christianity and always will be, no matter what Christianity is, has been, or might become.

Aqui, senhoras e senhores, temos um exemplo clássico de “wishful thinking”. Ela acredita porque quer que seja verdade, não por ter evidências de que (provavelmente) o seja. A crença 1 fazia-la infeliz, a crença 2 fá-la sentir-se bem, logo isto é, para ela, motivo mais do que suficiente para ter a crença 2. A questão de qual é mais provavelmente a que corresponde à realidade não lhe interessa. A realidade “que se lixe”. Ela acredita no que lhe faz sentir bem, e pronto — um entorpecer da mente e do sentido de realidade não muito diferente do de um alcóolico ou um toxicodependente, que bebe ou droga-se para não ter de lidar com “a world I didn’t understand”.

E, por muito sofisticada que uma religião seja, por muito sofisticadas as palavras de um apologista, a religião nunca passa disto. Não há religião, nem ninguém é religioso, sem a desonestidade intelectual que é o “wishful thinking”.

Anne Rice “deixa” de ser cristã

Quinta-feira, 29 de Julho, 2010

Da sua página no Facebook:

For those who care, and I understand if you don’t: Today I quit being a Christian. I’m out. I remain committed to Christ as always but not to being “Christian” or to being part of Christianity. It’s simply impossible for me to “belong” to this quarrelsome, hostile, disputatious, and deservedly infamous group. For ten years, I’ve tried. I’ve failed. I’m an outsider. My conscience will allow nothing else.

… e, depois:

As I said below, I quit being a Christian. I’m out. In the name of Christ, I refuse to be anti-gay. I refuse to be anti-feminist. I refuse to be anti-artificial birth control. I refuse to be anti-Democrat. I refuse to be anti-secular humanism. I refuse to be anti-science. I refuse to be anti-life. In the name of Christ, I quit Christianity and being Christian. Amen.

Infelizmente, não voltou propriamente ao ateísmo — continua a praticar “wishful thinking” (acreditar em algo sem evidências só porque quer que seja verdade e/ou a crença lhe é confortável), a acreditar na parte “sobrenatural” da sua religião (nascimento a partir de uma virgem, milagres, ressurreição, etc.), a auto-declarar-se “seguidora de Jesus”, e essas coisas todas. Mas ao rejeitar o Cristianismo propriamente dito devido a todos os seus males (ela lista um bom número deles), ao deixar de se auto-descrever como “cristã”, e ao dizer ao mundo — e aos seus milhões de fãs — exactamente porque é que o faz, talvez “leve” outros com ela. Sem dúvida que o mundo estaria bem melhor se uma boa percentagem de cristãos se convertesse a uma versão mais “soft”, menos conservadora e anti-progresso, mais “vive e deixa viver” da sua religião.

E rejeitar a sua religião (mesmo continuando a “acreditar”) é muitas vezes um óptimo primeiro passo para uma vida racional e livre de “wishful thinking”. Talvez um dia ela e outros atinjam um nível suficiente de honestidade para admitir que estão a fazer isto, e que não é intelectualmente honesto fazê-lo.

Resposta a duas críticas

Terça-feira, 11 de Maio, 2010

Recebi, ontem e hoje, duas críticas relativamente a este blog através do Twitter, às quais já respondi, precisando de uns 7 tweets. Mas quero responder-lhes aqui também, com um pouco mais de espaço comparativamente ao Twitter, e de forma a que as respostas fiquem disponíveis no blog, já que é possível que as críticas em questão façam sentido para outros visitantes no futuro.

A primeira é esta: que o nome do site é incorrecto, porque ateísmo é apenas a ausência de crença em um deus ou deuses, e o que eu faço aqui é “activismo anti-religião”.

Relativamente a isso, sim, é um facto que a definição estrita de ateísmo é essa, mas também é válido ver-se a coisa de uma forma mais lacta. Para mim, bem como para muitos, o ateísmo está associado ao cepticismo, ao humanismo e à racionalidade, e o site dedica-se (entre outras coisas) a promover esses conceitos. “www.ateismo-humanismo-cepticismo-e-racionalidade-pt.com” seria demasiado longo :) , além de que a ideia do nome de um site não é ser descritivo, é apenas um título, uma “marca”, uma designação.

A segunda crítica é que “uma coisa é criticar os actos feitos em nome de uma religião, ou através dela, mas pôr tudo dentro do mesmo saco é errado.”

Acho que aqui o autor da crítica está a confundir 1) críticas minhas a actos e instituições, onde claramente critico apenas os autores dos actos e/ou membros das instituições em questão, com 2) argumentação lógica contra crenças religiosas propriamente ditas, irracionalidade, “wishful thinking”, etc., em que, sim, estou a criticar as crenças de muita gente que nunca fez mal a ninguém por causa delas, mas criticar crenças — por muito “íntimas” que sejam — não é um ataque! Não é, sequer, uma condenação. É um simples “estás errado, porque…”, que para qualquer outro tema seria aceite (concordando ou discordando) sem problemas.

Quando argumento contra a “lógica” de determinadas crenças ou argumentos religiosos (por exemplo, “tem de existir Deus, caso contrário como é que o universo existe”, ou a Aposta de Pascal, ou menciono o facto de a crença de 99% dos crentes ser apenas produto de um acidente geográfico, ou critico a falta de cepticismo e racionalidade de alguém), não estou a “atacar” ou condenar ninguém, estou apenas a criticar ideias que considero erradas, justificando a minha crítica com factos e lógica (que podem muito bem estar errados, note-se). Da mesma forma que aceito perfeitamente que me digam que estou errado nalguma coisa.

O que não aceito é que as crenças religiosas exijam para si próprias uma posição especial, intocável, acima de qualquer crítica, ou que se torne essas crenças inseparáveis dos próprios crentes, de tal forma que qualquer crítica a uma crença ou ideia é vista como um ataque pessoal a todos os seus crentes. Isso não só não faz sentido, como é cobarde — é, de certa forma, uma admissão de que as crenças e ideias religiosas não são capazes de “ir à luta”, de se demonstrar logicamente coerentes, de competir no mercado de ideias, e que por isso precisam de protecção especial, quase criminalizando (em teocracias muçulmanas tira-se o “quase”) o mero acto de as questionar ou criticar.

E para aos crentes que estejam sempre prontos a ofender-se pessoalmente com uma simples crítica às suas crenças e ideias: se estivessem realmente confiantes relativamente às mesmas, não reagiriam assim. Pelo contrário, estariam prontos a “ir à luta” de ideias, confiantes em ter os factos e a lógica do vosso lado, não tendo necessidade de exigir protecção ou “respeito” especiais para as vossas crenças pelo simples facto de serem crenças religiosas. E isto devia fazer-vos pensar um pouco…

Convenção Global Ateísta

Terça-feira, 16 de Março, 2010

Via Portal Ateu: aparentemente a Convenção Global Ateísta foi não só um sucesso (esgotou completamente) como um espectáculo. O post acima refere um artigo no The Australian que resume bem a convenção, e, mais importante, não faz juízos de valor, nem insulta os ateus, como certos outros jornais repugnantes fazem.

Algumas citações do artigo do The Australian:

Sobre a convenção:

“But what will you talk about – nothing?” someone had asked David Nicholls, president of the Atheist Foundation of Australia and co-convener of the conference. Far from it: most sessions ended before the audience was ready to let the speaker go.

Sobre o Islão:

The Bangladeshi writer and women’s rights activist, who was exiled from her homeland 14 years ago, then physically attacked in India when she sought refuge in Bengal, placed under house arrest and finally hounded out of there too, still has several fatwas hanging over her and a price on her head. India, the country that likes to think of itself as the largest democracy in the world, she pointed out, placed the religious rights of its Muslim minority above her freedom of expression.

She recalled her doubts about religion as a child, and how she troubled her mother with questions: why do we have to pray in Arabic – if God is omniscient, can’t he understand our prayers in Bengali?

She was six when her mother told her her tongue would fall off if she said anything against God. Already the empirical scientist (she is a doctor), she locked herself in the bathroom, said “God is a son of a bitch”, “God is a pig” and other choice Bengali epithets, and then waited in front of the mirror. After a few minutes, she knew that what her mother said wasn’t true.

She saw through the inconsistencies in the Koran, she said, the first time she read it, in translation in Bengali. “All religion, but particularly Islam, is for the interests and comfort of men,” she said, “Why would women believe in any religion?”

Sobre o absurdo de se achar que a Bíblia Cristã foi inspirada por um ser omnisciente:

Myers took issue with the notion of a good and all-knowing God, suggesting that if “God is so powerful he refuses to be bound by some arbitrary demand like he make a goddamn difference in the world”, couldn’t he have given us some useful suggestions at least? “Like `Wash your hands’? We waited till the 19th century for doctors to learn that. Instead we got in the Bible a detailed order to snip off the ends of our penises.”

Sobre a ideia de que crentes são mais morais, importam-se mais com o próximo, e fazem mais pelos pobres:

As for the more rigorous rules of the New Testament, such as the order that the rich give away their possessions to the poor, there are a lot of very rich Christians around who are clearly giving little thought to the future of their souls, he said. Americans who, according to polling, are far more religious than Europeans, don’t even approach the welfare measures largely secular Scandinavian societies take to protect the vulnerable in their society.

Singer also pointed out that three of the four great philanthropists of the 20th century were professed atheists: Bill Gates, Warren Buffet and Andrew Carnegie. (The exception was Nelson D. Rockefeller, a Protestant.)

E, por último, sobre o financiamento da convenção:

Speaking of money, no tier of government funded the conference: the organisers and speakers worked gratis and depended on the charity of well-wishers for the unavoidable costs. Much was made of this by some speakers: the federal government gave $20 million towards the Catholic World Youth Day last year, and the Victorian government gave $4.5m towards the Parliament of World Religions – but in this supposedly secular society, requests for funding an atheist conference were turned down.

Esta última parte, já agora, é absolutamente revoltante: governos supostamente laicos usam milhões de dólares do dinheiro de contribuintes — independentemente da crença ou não-crença destes — para financiar eventos religiosos, mas não contribuem um cêntimo para um evento pró-racionalismo e pró-realidade. Não quero com isto dizer que o governo tivesse obrigação de financiar seja o que for, mas se o faz a uns, devia fazê-lo a todos…

Para terminar, Richard Dawkins sobre o Islão (para aqueles que dizem que ele só critica o Cristianismo):

As for dialogue with Islamists, he said it was “a remarkably effective tactic to say `If you try to argue against me, I’ll cut your head off’ “, but that the argument came from a position of intellectual weakness.

“I don’t think we should go out of our way to insult Islam because it doesn’t do any good to get your head cut off,” he continued. “But we should always say that I may refrain from publishing a cartoon of the Prophet Mohammed, but it’s because I fear you. Don’t for one moment think it’s because I respect you.”

FAQ: “O ateísmo / materialismo não explicam o amor / a amizade / o bem e o mal / a poesia / a beleza / os números irracionais na matemática / <outro exemplo de conceito humano abstracto>, logo estão errados / Deus existe!”

Quarta-feira, 10 de Março, 2010

Esta pergunta é, infelizmente, muito comum; tal como no caso da aposta de Pascal, a maior parte dos crentes põem esta questão com uma atitude de desafio (“responde lá a isto! aposto que não consegues!”), estando visivelmente na ilusão de que a pergunta é original, que o ateu nunca pensou nela, e que vai ser incapaz de lhe responder.

Surpresa: qualquer ateu que se interesse por discutir este tipo de temas pensou nessa questão, e detectou imediatamente vários problemas na mesma.

O primeiro problema é este: trata-se de um argumento da ignorância, já mencionado aqui e aqui. Esse argumento, neste contexto, resume-se a isto: “não sei / não entendo / não estou a ver como, logo foi Deus“. Já se trata de um péssimo argumento quando usado em relação a algo que ainda não é entendido ou explicado pela ciência (ex. a origem do universo), uma vez que não faz sentido que uma explicação sobrenatural ganhe simplesmente “por default”, mas demonstra ainda mais “tolice” quando usado relativamente a algo que já foi explicado e é entendido por muita gente, mas o crente em questão não conhece ou não entende — nem procurou conhecer ou entender — essas explicações. É como alguém nos dias de hoje pensar (como acontecia na pré-história) que uma trovoada é uma discussão entre “os deuses”.

Por outras palavras, é de uma tremenda ignorância — e preguiça intelectual — atribuir emoções ou a capacidade de alguém para o bem (ou o mal) a “Deus” quando podem ser explicadas pela evolução, psicologia, neurologia e filosofia. Mas aprender sobre tudo isso dá muito trabalho, não é?

Um segundo problema é a mentalidade dualista e anti-humana, que diz — e é assim culpada por tanto sofrimento ao longo da história — que tudo o que é profundo, marcante, importante ou “bom” tem de ter uma origem sobrenatural, exterior a nós, de um plano não alcançável pela inteligência e ciência humanas. Tal como a acusação de Keats a Newton por este ter “desvendado o arco-íris” e assim destruído a beleza e poesia do mesmo (como se só houvesse beleza e poesia na total ignorância…), essa é uma mentalidade anti-humana e anti-vida, que nos tira o melhor de nós próprios e diz que este só pode vir de um plano sobrenatural e incompreensível (seja “Deus”, seja qualquer coisa “new age” indefinida), porque se fosse compreendido e explicado em termos puramente humanos perderia assim todo o seu valor.

Isto, desculpem dizer, é absurdo. O amor de uma pessoa por outra não precisa de uma origem ou justificação externa ou sobrenatural para ter valor, para ter poesia e pureza. Pelo contrário, ao afirmarem que essas origens são necessárias, é que lhe estão a tirar valor. Aquilo que eu sinta por alguém — uma namorada, um familiar, um amigo — não precisa de justificação externa, não precisa de vir de um “plano espiritual”, não perde valor por vir “só” de mim — muito pelo contrário, perderia todo e qualquer valor se não viesse de mim, se não fosse meu.

Na verdade, o atribuir de tudo o que há de bom no ser humano a algo “extra-humano” só demonstra uma coisa: um total ódio à humanidade e a si mesmo. Algo bastante comum nas várias religiões populares, “coincidentalmente”.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Richard Dawkins, estilo South Park

Terça-feira, 2 de Março, 2010

É menos de minuto e meio, por isso vê-se num instante.

E, se quiserem ver a versão original…

e ainda (parte 2 do anterior: perguntas do público e respostas)…

(se estás num agregador e não vês os vídeos, clicka aqui.)

Ateus: a minoria mais detestada nos EUA

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

The Atheist - Godless Atheists threaten Christian civilizationQuem vive em países maioritariamente compostos por crentes “não praticantes”, como é o caso de Portugal, provavelmente não faz qualquer ideia do que acontece num certo país, que não é o Irão, a Arábia Saudita ou o Afeganistão, mas sim os Estados Unidos da América. Uma nação supostamente laica, que, ao contrário da maioria dos países da Europa (todos?), não tem sequer religião oficial, estatal… e, no entanto, a religiosidade — maioritariamente Cristãos Protestantes, mas há de tudo — é a mais alta entre países de “1º mundo”, e inquérito após inquérito continua a demonstrar que os ateus — cerca de 10% do país — são a minoria mais odiada, mais considerada “anti-Americana” e mais considerada não confiável. Um candidato (assumidamente) ateu a qualquer cargo político é virtualmente inelegível, e ateus sofrem discriminação na escola, no trabalho e nas próprias vizinhanças — por vezes chegando a vandalismo e violência física.

Mas não vão pelo que eu digo (afinal, nunca lá estive, apesar de ler diariamente blogs e notícias de lá), vão pelo que Mike Clawson (blog), um Cristão (liberal, daqueles que não dizem que Deus odeia gays e que os não-Cristãos vão todos ser torturados eternamente depois da morte, mas Cristão na mesma), escreveu numa tese (link para o Google Docs) que fez para o seu seminário, sobre a situação dos ateus nos EUA. São umas 20 páginas, mas o texto é em letras relativamente grandes e bastante espaçado, pelo que se lê facilmente em menos de 5 minutos.

A sério, vale a pena.

Depois pensem, se quiserem, um pouco sobre a legitimidade de discriminar, ostracizar, demonizar, insultar constantemente e maltratar — às vezes chegando à violência — uma parte significativa da população simplesmente por não terem as mesmas crenças do que eles. E pensem também no que isso diz sobre a “superior” moralidade Cristã.

O facto de ter sido um Cristão a escrever aquilo, e tê-lo feito depois de falar com ateus no blog Friendly Atheist (tipicamente, isso não acontece — como ele diz no texto, crentes dizem — mesmo na TV — impunemente barbaridades sobre ateus, sem haver sequer um destes presente para poder responder), é no entanto um alívio reconfortante: é possível Cristãos ultrapassarem os seus preconceitos — e grande parte da “moralidade” da Bíblia, também. É um princípio…

(via: Friendly Atheist)

“O ónus da prova pertence aos ateus”?

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

Uma coisa a que acho piada fazer relativamente aos sites que mantenho é olhar para as estatísticas e ver que termos (palavras ou frases) as pessoas estão a introduzir nos motores de busca de forma a vir parar aqui. Uma em que reparei ontem é esta: “o ônus da prova pertence aos ateus” (dizia “ônus” por ser em Português do Brasil; cá em Portugal seria “ónus”).

Não há forma de saber se era uma pergunta ou uma afirmação, já que mesmo tratando-se do primeiro caso em geral um utilizador típico não introduz sinais de pontuação nas pesquisas que faz. Mas já vi essa mesma afirmação ser feita mais que uma vez, e por isso quero aqui responder-lhe.

Para começar, a resposta “standard”, que já mencionei no FAQ: quem sugere algo, quem diz que algo existe, é que tem o ónus da prova. Ou seja, se eu digo que existe um monstro voador de esparguete que criou o universo e adora piratas, sou eu que tenho de apresentar evidências e provas disso, não és tu que terás a responsabilidade de o “desprovar”. Se dizes que Deus existe — seja qual for a versão dele em que acreditas — é tua responsabilidade prová-lo, ou pelo menos fornecer evidências suficientes para a probabilidade do “existe” ser superior à do “não existe”. Se estivermos a falar de questões criminais, isto chama-se “inocente até prova da culpa”, que, terás de admitir, faz todo o sentido. Quem afirma (e não, não tentes dar a volta com algo tipo “estás a afirmar a não-existência!”) é que tem de apresentar evidências “para além da dúvida razoável”.

Uma resposta que alguns crentes dão aqui é esta: tu é que estás a afirmar a existência de algo muito mais fantástico para mim: um universo 100% natural, sem um criador ou uma criação sobrenatural, que de alguma forma surgiu a partir do nada, e apareceram estrelas, planetas, e vida pelo menos no nosso. Tudo naturalmente. Como? Explica-o. Prova-o.”

Parece fazer sentido. Até se pôr por palavras a lógica inerente a esse tipo de raciocínio, que é a seguinte: para não acreditar em Deus, um ateu tem de explicar tudo em detalhe, como a origem do universo, evolução, etc., e qualquer vestígio de “isto ainda não sabemos” torna imediatamente essa explicação inválida e “prova” o “foi Deus”. Ou seja, mesmo que o ateu — ou a ciência — explique 99%, a falta de explicação neste momento para o 1% restante imediatamente “prova” que não pode ter sido como o ateu está a sugerir, “prova” que o universo não pode ser 100% natural, e “foi Deus” “ganha” “por default”. (3 coisas seguidas entre aspas; tenho mesmo uma mente estranha…)

Porquê esse “default”? Porque é que o ateu tem de explicar tudo e provar tudo, e, se falhar na mais pequena coisa, o crente “ganha” automaticamente, sem ter de explicar ele próprio nada? Eu suponho que seja por uma questão de hábito: quem tenha aprendido desde criança que Deus existe e criou tudo e que isso é auto-evidente, verá tudo isso como algo perfeitamente normal e óbvio, e uma explicação alternativa que vá contra aquilo em que sempre acreditou — mesmo sendo uma explicação que não envolva seres sobrenaturais e “milagres” — vai-lhe parecer totalmente estranha, absurda e surreal.

Além disso, o crente está habituado a uma explicação aparentemente perfeita e final: “foi Deus”. A ciência está em constante evolução, e não tem problemas em admitir que há muita coisa ainda por explicar, muito ainda por entender. Logo, o crente sentirá — e isso é compreensível — que os ateus lhe estão a pedir que substitua uma explicação simples, completa e (para ele) óbvia por uma explicação complexa, incompleta e (para ele) fantástica.

O problema é que “foi Deus” não explica absolutamente nada, simplesmente move o mistério um degrau para cima. Ou seja, a ciência tenta explicar, por exemplo, a origem do universo de uma forma natural, mas ainda não o consegue fazer completamente, se bem que há várias hipóteses em aberto. O crente aí retorque: “ah, vocês não sabem, mas eu sei: foi Deus”. Mas não explica como, como é que ele o sabe, nem qual Deus, e nem o mais importante de tudo: de onde vem Deus? Quem criou Deus? A resposta “ninguém, Deus sempre existiu” é um “special pleading“: porque é que Deus há de ser uma excepção à regra de que tem de haver um criador para tudo? Se Deus não precisa de um criador, então porque não considerar que talvez o universo não precise de um criador? Se Deus sempre existiu, porque não o universo? E assim por diante.

Por outras palavras, se explicas algo como “foi magia”, então ou explicas essa magia (degrau seguinte), ou isso não é de todo uma explicação. Como os crentes nunca explicam — nem têm formas de explicar — “a magia” / Deus, no fundo não explicam absolutamente nada, enquanto a ciência o faz — a pouco e pouco, mas faz. E a ideia de que a ciência tem de ser perfeita e completa ou “foi Deus” “ganha” automaticamente não faz qualquer sentido; é o equivalente a, numa investigação criminal, dizer-se a um detective que este tem de arranjar provas completas, finais e perfeitas de que o criminoso é X, caso contrário o criminoso é Y… mesmo sem qualquer vestígio de evidência a apontar para Y.

FAQ: “Quem desdenha quer comprar; se criticas tanto a religião, provavelmente acreditas ou gostavas de acreditar!”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

Sem dúvida. Quem se opõe a algo é porque secretamente apoia ou cobiça esse algo. Tal como uma pessoa que participe em campanhas contra o analfabetismo no fundo, lá bem no fundo, gostava de não saber ler. Faz todo o sentido!

Next question. ;)

P.S. – não te armes em “psicólogo de bancada”, só te fica mal.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês ateus são tão fanáticos e dogmáticos como qualquer crente. ‘Acreditam’ no ateísmo, e nada vos faria mudar de ideias.”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Tal como em “O ateísmo não passa de mais uma religião!“, a acusação no título desta entrada usa conceitos como “religião”, “fé” ou “crença” como um insulto, o que acaba por ser uma admissão de que o acusador reconhece que a racionalidade está a um nível superior à religião, e tenta reduzir o ateísmo a apenas mais uma destas últimas. Dá que pensar.

Para esta entrada, como não acredito em “reinventar a roda”, vou fazer uso de um artigo de Adam Lee, The Theist’s Guide to Converting Atheists. Parte das ideias que vou usar vêm de lá, parte são minhas.

Primeiro, começo por devolver a pergunta / acusação: o que é que te faria a ti, ou a qualquer crente que conheças, convencer-se de que a sua fé está errada e que Deus não existe? A não ser que sejas um num milhão, aposto que a resposta será algo do género de “nada; eu tenho fé no meu Deus”, ou “nada; eu acredito e pronto”. Isto é ser dogmático; curiosamente este tipo de atitude encontra-se mesmo nos crentes mais liberais, os chamados “não praticantes”; mesmo que a religião não afecte realmente em nada as suas vidas, que nunca ponham um pé numa igreja excepto em baptizados, casamentos e funerais, mesmo assim reponderão à pergunta “o que te convenceria de que estás errado” com um “nada”. Ou seja, ao contrário do que seria de esperar, não é preciso ser fundamentalista para ser dogmático e irracional, para ter crenças “invulneráveis” à realidade (muitas vezes pelo simples facto de serem confortáveis).

E se és dos tais “um num milhão”, e tens efectivamente uma resposta para essa pergunta, o mais provável é que não fiques crente por muito mais tempo (e não, não quero dizer que seja por leres este blog; é, sim, porque depois de se abrir a porta à racionalidade, é muito difícil voltar a fechá-la).

A diferença entre um ateu e um crente típico, aquilo que faz com que não sejamos dogmáticos, que não “acreditemos” simplesmente no ateísmo “e pronto”, é que somos capazes de responder à pergunta. Vou aqui usar uma versão resumida do artigo acima linkado, já que concordo com tudo o que o autor diz ali.

Categoria 1: coisas que me convenceriam de que Deus existe

  • Profecias concretas, correctas, e de origem verificável. Isto exclui:
    • Profecias vagas, abstractas e com inúmeras interpretações possíveis (ex. Nostradamus).
    • Profecias triviais (ex. “no próximo inverno vai estar frio” ou “esta seca eventualmente passará”).
    • Profecias “obrigatórias” (ex: qualquer “profeta” a trabalhar para um rei não vai, de certeza, prever que ele vai ser um cruel tirano, mas vai elogiá-lo — e algum rei no meio de muitos vai realmente ser um bom governante).
    • Profecias “auto-cumpríveis” (isto é, a existência da própria profecia faz com que a tentem concretizar por acharem que é essa a vontade de Deus; ex. a Bíblia dizia que os Judeus voltariam eventualmente a Israel, e eles realmente voltaram… para seguir a Bíblia).
    • Profecias que possam ter sido feitas depois de o evento acontecer (isto é, não seja possível provar que a profecia é anterior ao evento).
    • Profecias cujos eventos não sejam independentemente confirmáveis, e possam ter sido relatados precisamente para condizer com as profecias (ex. os autores dos Evangelhos tinham acesso às profecias do Antigo Testamento sobre o Messias, e podem ter inventado eventos na suposta vida de Jesus para condizer com elas).
    • Profecias que sejam o único sucesso entre mil fracassos; qualquer um pode prever e prever e prever coisas até que uma esteja correcta.
  • Conhecimento científico nos livros sagrados que não estivesse disponível na altura (de forma concreta e clara); coisas que podem ser interpretadas assim de forma muito “rebuscada” não contam.
  • Milagres reais, especialmente se obtidos a partir de oração. Note-se que coincidências não servem de exemplo, a não ser que realmente aconteçam de forma repetida e repetível. Por exemplo, se só ateus fossem atingidos por relâmpagos, ou se crentes se curassem de doenças com muito mais frequência, incluindo doenças incuráveis e membros amputados.
  • Manifestação directa e incontestável do “divino” (coisa que acontecia muito na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, e a multidões, não apenas a uma pessoa, o que poderia ser explicável em termos psicológicos).
  • Extraterrestres exactamente com a mesma religião.

Categoria 2: coisas que me inclinariam nessa direcção, mas não constituiriam por si só uma prova

  • Um livro sagrado genuinamente perfeito, consistente e sem erros ou contradições.
  • Uma religião sem disputas internas ou múltiplas facções.
  • Uma religião cujos aderentes nunca tenham cometido atrocidades.
  • Uma religião que tenha ganho todas as suas “guerras santas”.

E, finalmente,

Categoria 3: coias que não me convenceriam, de forma alguma

  • Falar em “línguas” ou outros pseudo-milagres, seja por serem explicáveis psicologicamente (ex. estados emocionais extremos), seja pela nossa tendência a ver padrões onde eles não existem (ex. a “cara de Jesus” numa torrada).
  • Histórias pessoais de conversão (incluindo da parte de ex-ateus; toda a gente pode ter um momento de fraqueza em que se deixa levar pelas emoções — sobretudo o medo — e “wishful thinking”).
  • Experiências subjectivas (ex. “sinto Deus no meu coração”).
  • “Códigos da Bíblia” e outras brincadeiras com numerologia.
  • Criacionismo e outras pseudociências.

Mais uma vez, desafio qualquer leitor crente a dizer o que é que te convenceria de que não existe qualquer deus e os ateus estão correctos… se fores capaz.

E se não fores, considerando que os ateus são, diz-me outra vez quem é o “dogmático”. :)

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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