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FAQ: “Se não podemos provar a existência ou não-existência de um deus, não faz mais sentido auto-descrevermo-nos como ‘agnósticos’ em vez de ‘ateus’?”

Sexta-feira, 30 de Março, 2012

(Nota aos leitores habituais do blog: como esta questão já foi várias vezes abordada aqui, a maior parte do conteúdo desta entrada do FAQ vem de posts anteriores.)

Por vezes esta pergunta é feita de outro modo: “se não se pode ter a certeza absoluta, então não estarão os ateus a ser tão fanáticos e dogmáticos como os crentes, e não será a única posição racional o agnosticismo?”

A questão aqui é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não afirma nem pensa ter um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus1, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” (ou gnósticos) são os crentes fundamentalistas ultra-fanáticos que nunca tenham quaisquer dúvidas; nem os crentes “normais” (a esmagadora maioria deles) nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima. Sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que foi abordado nesta entrada do FAQ até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”. E, frequentemente, inclui também a insinuação de que “os ateus são tão fanáticos como os crentes”, e que só os agnósticos como ele é que têm uma posição racional.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”2). Da mesma forma, o típico “agnóstico” não tem dúvidas de que amanhã 2+2 continuarão a ser 4, apesar de não o poder provar. Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe” ou “não sei explicar algo que me aconteceu, logo foi Deus“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. É como dizer que, se há imensas evidências para A e nenhumas para B, então A e B são igualmente prováveis. Daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

Por último, há outra possibilidade. Para quem tenha sofrido consequências do fundamentalismo religioso, estará sempre presente na sua memória como tais crentes estavam completamente certos daquilo em que acreditavam, sem alguma vez questionarem essas crenças. Ao escapar de tal fundamentalismo, é natural que se passe a desconfiar da própria ideia de se ter certezas absolutas e dogmáticas, imunes a qualquer facto ou argumento. E, pensará uma pessoa nesta situação, não será o ateísmo simplesmente a outra face da mesma moeda — a “certeza absoluta e dogmática” de que não existem deuses? Não serão os ateus vítimas (ou culpados) exactamente do mesmo erro? Se não temos (e nem devemos ter) uma crença 100% inalterável e perfeita, não fará mais sentido uma pessoa “manter a mente aberta” e descrever-se como agnóstica?

A resposta é “não”, por uma simples razão: há aí um erro de definições. O ateísmo não é a “certeza absoluta e dogmática” de que não existe nenhum deus; é, sim, a ausência de crença em um deus ou deuses. É tratar “deus” como se trata “fadas” ou “duendes”: uma pessoa não precisa de ter estar “absoluta e dogmaticamente” certa de que essas criaturas não existem, basta não acreditar nelas, não ter nenhuma crença nelas.

Não é preciso ter-se um conhecimento perfeito do universo (omnisciência), ou “provas” absolutas da não-existência de um deus, para se ser ateu. Basta o seguinte: escalar as crenças segundo as evidências, o que é de qualquer forma a posição racional a ter-se. Note-se que um crente assumidamente não escala as suas crenças de acordo com as evidências; o que ele faz, pelo contrário, é afirmar que crenças sem evidências (isto é, “fé”) são uma virtude. (Curiosamente, o mesmo crente tipicamente não aplicará isso às crenças de outras religiões, que para ele estarão obviamente erradas…)

Mas para quem prefira, racionalmente, que as suas crenças escalem de acordo com as evidências, é fácil chegar-se ao ateísmo; aliás, é a única conclusão lógica. Zero evidências para algo -> zero de crença nesse algo, e “zero de crença” em um deus ou deuses é a definição de ateísmo. Não é necessária nenhuma fé, nem omnisciência, nem nenhuma certeza “absoluta e dogmática” para chegar a esta posição.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  2. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

Richard Dawkins, e ateísmo vs. agnosticismo

Quinta-feira, 21 de Abril, 2011

Richard Dawkins na Global Atheist Convention 2010, na Austrália:

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Excelente, recomendo vivamente, etc. etc.. É mais sobre biologia / evolução do que propriamente ateísmo ou religião, mas vale a pena.

Mas este post, além de se dedicar a partilhar o vídeo, foca-se numa pergunta, na secção Q&A no fim do vídeo, e respectiva resposta. A pergunta é:

Auto-descrevo-me como agnóstico, porque, apesar de achar que não existe nenhum deus, não tenho a certeza absoluta; há sempre uma pequena, minúscula hipótese. Ao descreverem-se como ateus, vocês não correm o risco de ser tão dogmáticos como os crentes?

A resposta do Dawkins foi boa: tecnicamente somos todos agnósticos em relação a tudo aquilo em que não acreditamos (ex. fadas, lobisomens), já que não é possível provar-se que algo não existe. Referiu a escala de crença que já tinha usado para explicar esta questão no The God Delusion, em que 1 é “eu sei que existe um deus” e 7 é “eu sei que não existe”, e descreveu-se a ele próprio como um 6.9. Mas acho que ele podia também ter ido por outro lado.

De certa forma, eu compreendo a preocupação do tipo que fez a pergunta. Para quem tenha sofrido consequências do fundamentalismo religioso, estará sempre presente na sua memória como tais crentes estavam completamente certos daquilo em que acreditavam, sem alguma vez questionarem essas crenças. Ao escapar de tal fundamentalismo, é natural que se passe a desconfiar da própria ideia de se ter certezas absolutas e dogmáticas, imunes a qualquer facto ou argumento. E, pensará uma pessoa nesta situação, não será o ateísmo simplesmente a outra face da mesma moeda — a “certeza absoluta e dogmática” de que não existem deuses? Não serão os ateus vítimas (ou culpados) exactamente do mesmo erro? Se não é possível ter-se 100% de certeza, não fará mais sentido uma pessoa descrever-se como agnóstica?

A resposta é “não”, por uma simples razão: há aí um erro de definições. O ateísmo não é a “certeza absoluta e dogmática” de que não existe nenhum deus; é, sim, a ausência de crença em um deus ou deuses. É, como o Dawkins mencionou, tratar “deus” como se trata “fadas” ou “duendes”: uma pessoa não precisa de ter estar “absoluta e dogmaticamente” certa de que essas criaturas não existem, basta não acreditar nelas, não ter nenhuma crença nelas.

Como já argumentei no passado, não é preciso ter-se um conhecimento perfeito do universo (omnisciência), ou “provas” absolutas da não-existência de um deus, para se ser ateu. Basta o seguinte: escalar as crenças segundo as evidências, o que é de qualquer forma a posição racional a ter-se. Note-se que um crente assumidamente não escala as suas crenças de acordo com as evidências; o que ele faz, pelo contrário, é afirmar que crenças sem evidências (isto é, “fé”) são uma virtude. (Curiosamente, o mesmo crente tipicamente não aplicará isso às crenças de outras religiões, que para ele estarão obviamente erradas…)

Mas para quem prefira, racionalmente, que as suas crenças escalem de acordo com as evidências, é fácil chegar-se ao ateísmo; aliás, é a única conclusão lógica. Zero evidências para algo -> zero crença nesse algo, e “zero crença” em um deus ou deuses é a definição de ateísmo. Não é necessária nenhuma fé, nem omnisciência, nem nenhuma certeza “absoluta e dogmática” para chegar a esta posição. Afinal, se um dia *aparecesse* qualquer evidência, eu (como qualquer ateu racional) reconsideraria a minha posição…

Sam Harris: “‘Ateísmo’ é um termo que nem devia existir”

Sexta-feira, 28 de Janeiro, 2011
Sam Harris: 'Ateismo' é um termo que nem devia existir

Fonte: The Jewmanist

Beta Ray Bill, o ateu

Quinta-feira, 30 de Dezembro, 2010

Não posso resistir a partilhar o seguinte (obrigado, André):

I am alone. I look at the heavens and think them empty. And if not empty, I find the idea of worshipping whatever dwells there obscene.

(fonte: Beta Ray Bill: The Green of Eden)

Em 3 quadradinhos e com pouco diálogo, resume não só o ateísmo — incluindo a ideia de que, mesmo que algo existisse, “adorar-se” automaticamente esse algo seria de um rastejar cobarde e repugnante –, como tambem o humanismo — fazer o “bem” não por medo de castigo ou desejo de recompensa, mas porque é a coisa certa a fazer, porque este universo é, tanto quanto sabemos, o único que temos, e, se o podemos influenciar de alguma forma, que seja de uma forma boa.

Os dois tipos de “agnosticismo”

Quarta-feira, 10 de Novembro, 2010

Sim, o meu último post, Definição de Agnosticismo, é intencionalmente provocativo. Mas alguém que por acaso tenha lido todos os posts neste blog (sim, eu gosto de imaginar que existe alguém assim) pode, talvez, lembrar-se de um post mais antigo, importado do blog pessoal, que se refere a um conceito de “agnosticismo” bastante diferente.

O que se passa, então? Estou-me a contradizer completamente? Mudei de ideias no último ano?

Nope. O que se passa é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Pequeno “à-parte”: acontece algo parecido com o termo “teoria”: em linguagem corrente, dá a ideia de uma hipótese que levantámos entre a 3ª e a 4ª cerveja da noite, numa conversa de amigos. Cientificamente, é algo muito mais detalhado e formal, que é suposto 1) poder fazer previsões confirmáveis, e 2) ser desprovável1, mas não ter factos que a “desprovem”. Assim, quando um criacionista diz que “a evolução é só uma teoria”, ele está a ser ignorante (confundindo significados) ou, mais provavelmente, desonesto (já que de certeza que alguém já o esclareceu sobre o significado científico de “teoria”, mas ele continua intencionalmente a confundir as coisas).

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não reivindica um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus2, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” são crentes fundamentalistas fanáticos; nem os crentes “normais” nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima; sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que estive a falar neste post até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”3). Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como eu disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. Daí a minha última definição. E daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

  1. “foi Deus” não é desprovável, logo nunca pode ser uma teoria científica. []
  2. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  3. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

9 Perguntas a um Ateu

Segunda-feira, 8 de Novembro, 2010

Fizeram-me ontem as seguintes perguntas, às quais achei piada responder:

1) Tu não acreditas em Deus(es) ou não acreditas em religião?
2) Estás convencido que não existe qualquer hipótese de existir um Deus/ forma de energia?
3) Acreditar, pensamento positivo e ter fé não fazem as coisas acontecerem?
4) Esta vida é a única que existe ou existiu ou existirá?
5) Não há destino nem almas gémeas nem déjà vu?
6) Não existe karma?
7) Mitologia e simbologia são assuntos aborrecidos?
8) Não existem realidades alternativas?
9) Faz sentido pensar no significado da vida?

Respostas a seguir:
(mais…)

Anne Rice: a saga continua

Sexta-feira, 30 de Julho, 2010

Mencionei ontem as actualizações de Anne Rice na página dela no Facebook, e, infelizmente, o que sugeri confirma-se: ela continua a ser tão crente como foi nos últimos anos, continua tão presa a superstições e “wishful thinking” como antes; simplesmente quer distanciar-se do ultra-conservadorismo que (sobretudo, mas não só, nos EUA) caracteriza tanto o Cristianismo.

Basta ver que, depois das duas actualizações citadas no post anterior, as seguintes foram simplesmente… citações da Bíblia. Não é exactamente um sinal de racionalidade ou clareza mental…

E ela continua a ser “Cristã” — “seguidora de Cristo” quer dizer exactamente isso. E aqui dou razão ao Hemant: o que ela fez é equivalente a um ateu conhecido dizer algo como: “eu era ateu, mas não concordo com as atitudes e posições políticas e sociais da maioria dos ateus (por exemplo, acho que são demasiado liberais, e sou contra os direitos dos homossexuais, não por causa de questões religiosas, mas apenas porque eles me enojam e porque negar-lhes direitos básicos faz-me sentir poderoso)… logo, a partir de hoje, já não sou ateu. Mas continuo a não ter qualquer tipo de crença num deus ou deuses.” Hmm, não. Não acreditas em deuses, logo és um ateu. É essa a definição do termo. Podes ser um ateu irracional, homofóbico, ultra-conservador… em resumo, um completo imbecil. Mas continuas a ser um ateu.

A última (à hora deste post) actualização dela também revela muito (ênfase meu):

My faith in Christ is central to my life. My conversion from a pessimistic atheist lost in a world I didn’t understand, to an optimistic believer in a universe created and sustained by a loving God is crucial to me. But following Christ does not mean following His followers. Christ is infinitely more important than Christianity and always will be, no matter what Christianity is, has been, or might become.

Aqui, senhoras e senhores, temos um exemplo clássico de “wishful thinking”. Ela acredita porque quer que seja verdade, não por ter evidências de que (provavelmente) o seja. A crença 1 fazia-la infeliz, a crença 2 fá-la sentir-se bem, logo isto é, para ela, motivo mais do que suficiente para ter a crença 2. A questão de qual é mais provavelmente a que corresponde à realidade não lhe interessa. A realidade “que se lixe”. Ela acredita no que lhe faz sentir bem, e pronto — um entorpecer da mente e do sentido de realidade não muito diferente do de um alcóolico ou um toxicodependente, que bebe ou droga-se para não ter de lidar com “a world I didn’t understand”.

E, por muito sofisticada que uma religião seja, por muito sofisticadas as palavras de um apologista, a religião nunca passa disto. Não há religião, nem ninguém é religioso, sem a desonestidade intelectual que é o “wishful thinking”.

Anne Rice “deixa” de ser cristã

Quinta-feira, 29 de Julho, 2010

Da sua página no Facebook:

For those who care, and I understand if you don’t: Today I quit being a Christian. I’m out. I remain committed to Christ as always but not to being “Christian” or to being part of Christianity. It’s simply impossible for me to “belong” to this quarrelsome, hostile, disputatious, and deservedly infamous group. For ten years, I’ve tried. I’ve failed. I’m an outsider. My conscience will allow nothing else.

… e, depois:

As I said below, I quit being a Christian. I’m out. In the name of Christ, I refuse to be anti-gay. I refuse to be anti-feminist. I refuse to be anti-artificial birth control. I refuse to be anti-Democrat. I refuse to be anti-secular humanism. I refuse to be anti-science. I refuse to be anti-life. In the name of Christ, I quit Christianity and being Christian. Amen.

Infelizmente, não voltou propriamente ao ateísmo — continua a praticar “wishful thinking” (acreditar em algo sem evidências só porque quer que seja verdade e/ou a crença lhe é confortável), a acreditar na parte “sobrenatural” da sua religião (nascimento a partir de uma virgem, milagres, ressurreição, etc.), a auto-declarar-se “seguidora de Jesus”, e essas coisas todas. Mas ao rejeitar o Cristianismo propriamente dito devido a todos os seus males (ela lista um bom número deles), ao deixar de se auto-descrever como “cristã”, e ao dizer ao mundo — e aos seus milhões de fãs — exactamente porque é que o faz, talvez “leve” outros com ela. Sem dúvida que o mundo estaria bem melhor se uma boa percentagem de cristãos se convertesse a uma versão mais “soft”, menos conservadora e anti-progresso, mais “vive e deixa viver” da sua religião.

E rejeitar a sua religião (mesmo continuando a “acreditar”) é muitas vezes um óptimo primeiro passo para uma vida racional e livre de “wishful thinking”. Talvez um dia ela e outros atinjam um nível suficiente de honestidade para admitir que estão a fazer isto, e que não é intelectualmente honesto fazê-lo.

Resposta a duas críticas

Terça-feira, 11 de Maio, 2010

Recebi, ontem e hoje, duas críticas relativamente a este blog através do Twitter, às quais já respondi, precisando de uns 7 tweets. Mas quero responder-lhes aqui também, com um pouco mais de espaço comparativamente ao Twitter, e de forma a que as respostas fiquem disponíveis no blog, já que é possível que as críticas em questão façam sentido para outros visitantes no futuro.

A primeira é esta: que o nome do site é incorrecto, porque ateísmo é apenas a ausência de crença em um deus ou deuses, e o que eu faço aqui é “activismo anti-religião”.

Relativamente a isso, sim, é um facto que a definição estrita de ateísmo é essa, mas também é válido ver-se a coisa de uma forma mais lacta. Para mim, bem como para muitos, o ateísmo está associado ao cepticismo, ao humanismo e à racionalidade, e o site dedica-se (entre outras coisas) a promover esses conceitos. “www.ateismo-humanismo-cepticismo-e-racionalidade-pt.com” seria demasiado longo 🙂 , além de que a ideia do nome de um site não é ser descritivo, é apenas um título, uma “marca”, uma designação.

A segunda crítica é que “uma coisa é criticar os actos feitos em nome de uma religião, ou através dela, mas pôr tudo dentro do mesmo saco é errado.”

Acho que aqui o autor da crítica está a confundir 1) críticas minhas a actos e instituições, onde claramente critico apenas os autores dos actos e/ou membros das instituições em questão, com 2) argumentação lógica contra crenças religiosas propriamente ditas, irracionalidade, “wishful thinking”, etc., em que, sim, estou a criticar as crenças de muita gente que nunca fez mal a ninguém por causa delas, mas criticar crenças — por muito “íntimas” que sejam — não é um ataque! Não é, sequer, uma condenação. É um simples “estás errado, porque…”, que para qualquer outro tema seria aceite (concordando ou discordando) sem problemas.

Quando argumento contra a “lógica” de determinadas crenças ou argumentos religiosos (por exemplo, “tem de existir Deus, caso contrário como é que o universo existe”, ou a Aposta de Pascal, ou menciono o facto de a crença de 99% dos crentes ser apenas produto de um acidente geográfico, ou critico a falta de cepticismo e racionalidade de alguém), não estou a “atacar” ou condenar ninguém, estou apenas a criticar ideias que considero erradas, justificando a minha crítica com factos e lógica (que podem muito bem estar errados, note-se). Da mesma forma que aceito perfeitamente que me digam que estou errado nalguma coisa.

O que não aceito é que as crenças religiosas exijam para si próprias uma posição especial, intocável, acima de qualquer crítica, ou que se torne essas crenças inseparáveis dos próprios crentes, de tal forma que qualquer crítica a uma crença ou ideia é vista como um ataque pessoal a todos os seus crentes. Isso não só não faz sentido, como é cobarde — é, de certa forma, uma admissão de que as crenças e ideias religiosas não são capazes de “ir à luta”, de se demonstrar logicamente coerentes, de competir no mercado de ideias, e que por isso precisam de protecção especial, quase criminalizando (em teocracias muçulmanas tira-se o “quase”) o mero acto de as questionar ou criticar.

E para aos crentes que estejam sempre prontos a ofender-se pessoalmente com uma simples crítica às suas crenças e ideias: se estivessem realmente confiantes relativamente às mesmas, não reagiriam assim. Pelo contrário, estariam prontos a “ir à luta” de ideias, confiantes em ter os factos e a lógica do vosso lado, não tendo necessidade de exigir protecção ou “respeito” especiais para as vossas crenças pelo simples facto de serem crenças religiosas. E isto devia fazer-vos pensar um pouco…

Convenção Global Ateísta

Terça-feira, 16 de Março, 2010

Via Portal Ateu: aparentemente a Convenção Global Ateísta foi não só um sucesso (esgotou completamente) como um espectáculo. O post acima refere um artigo no The Australian que resume bem a convenção, e, mais importante, não faz juízos de valor, nem insulta os ateus, como certos outros jornais repugnantes fazem.

Algumas citações do artigo do The Australian:

Sobre a convenção:

“But what will you talk about – nothing?” someone had asked David Nicholls, president of the Atheist Foundation of Australia and co-convener of the conference. Far from it: most sessions ended before the audience was ready to let the speaker go.

Sobre o Islão:

The Bangladeshi writer and women’s rights activist, who was exiled from her homeland 14 years ago, then physically attacked in India when she sought refuge in Bengal, placed under house arrest and finally hounded out of there too, still has several fatwas hanging over her and a price on her head. India, the country that likes to think of itself as the largest democracy in the world, she pointed out, placed the religious rights of its Muslim minority above her freedom of expression.

She recalled her doubts about religion as a child, and how she troubled her mother with questions: why do we have to pray in Arabic – if God is omniscient, can’t he understand our prayers in Bengali?

She was six when her mother told her her tongue would fall off if she said anything against God. Already the empirical scientist (she is a doctor), she locked herself in the bathroom, said “God is a son of a bitch”, “God is a pig” and other choice Bengali epithets, and then waited in front of the mirror. After a few minutes, she knew that what her mother said wasn’t true.

She saw through the inconsistencies in the Koran, she said, the first time she read it, in translation in Bengali. “All religion, but particularly Islam, is for the interests and comfort of men,” she said, “Why would women believe in any religion?”

Sobre o absurdo de se achar que a Bíblia Cristã foi inspirada por um ser omnisciente:

Myers took issue with the notion of a good and all-knowing God, suggesting that if “God is so powerful he refuses to be bound by some arbitrary demand like he make a goddamn difference in the world”, couldn’t he have given us some useful suggestions at least? “Like `Wash your hands’? We waited till the 19th century for doctors to learn that. Instead we got in the Bible a detailed order to snip off the ends of our penises.”

Sobre a ideia de que crentes são mais morais, importam-se mais com o próximo, e fazem mais pelos pobres:

As for the more rigorous rules of the New Testament, such as the order that the rich give away their possessions to the poor, there are a lot of very rich Christians around who are clearly giving little thought to the future of their souls, he said. Americans who, according to polling, are far more religious than Europeans, don’t even approach the welfare measures largely secular Scandinavian societies take to protect the vulnerable in their society.

Singer also pointed out that three of the four great philanthropists of the 20th century were professed atheists: Bill Gates, Warren Buffet and Andrew Carnegie. (The exception was Nelson D. Rockefeller, a Protestant.)

E, por último, sobre o financiamento da convenção:

Speaking of money, no tier of government funded the conference: the organisers and speakers worked gratis and depended on the charity of well-wishers for the unavoidable costs. Much was made of this by some speakers: the federal government gave $20 million towards the Catholic World Youth Day last year, and the Victorian government gave $4.5m towards the Parliament of World Religions – but in this supposedly secular society, requests for funding an atheist conference were turned down.

Esta última parte, já agora, é absolutamente revoltante: governos supostamente laicos usam milhões de dólares do dinheiro de contribuintes — independentemente da crença ou não-crença destes — para financiar eventos religiosos, mas não contribuem um cêntimo para um evento pró-racionalismo e pró-realidade. Não quero com isto dizer que o governo tivesse obrigação de financiar seja o que for, mas se o faz a uns, devia fazê-lo a todos…

Para terminar, Richard Dawkins sobre o Islão (para aqueles que dizem que ele só critica o Cristianismo):

As for dialogue with Islamists, he said it was “a remarkably effective tactic to say `If you try to argue against me, I’ll cut your head off’ “, but that the argument came from a position of intellectual weakness.

“I don’t think we should go out of our way to insult Islam because it doesn’t do any good to get your head cut off,” he continued. “But we should always say that I may refrain from publishing a cartoon of the Prophet Mohammed, but it’s because I fear you. Don’t for one moment think it’s because I respect you.”


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