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Arquivo da Categoria ‘Ateísmo’

FAQ: “O ateísmo / materialismo não explicam o amor / a amizade / o bem e o mal / a poesia / a beleza / os números irracionais na matemática / <outro exemplo de conceito humano abstracto>, logo estão errados / Deus existe!”

Quarta-feira, 10 de Março, 2010

Esta pergunta é, infelizmente, muito comum; tal como no caso da aposta de Pascal, a maior parte dos crentes põem esta questão com uma atitude de desafio (“responde lá a isto! aposto que não consegues!”), estando visivelmente na ilusão de que a pergunta é original, que o ateu nunca pensou nela, e que vai ser incapaz de lhe responder.

Surpresa: qualquer ateu que se interesse por discutir este tipo de temas pensou nessa questão, e detectou imediatamente vários problemas na mesma.

O primeiro problema é este: trata-se de um argumento da ignorância, já mencionado aqui e aqui. Esse argumento, neste contexto, resume-se a isto: “não sei / não entendo / não estou a ver como, logo foi Deus“. Já se trata de um péssimo argumento quando usado em relação a algo que ainda não é entendido ou explicado pela ciência (ex. a origem do universo), uma vez que não faz sentido que uma explicação sobrenatural ganhe simplesmente “por default”, mas demonstra ainda mais “tolice” quando usado relativamente a algo que já foi explicado e é entendido por muita gente, mas o crente em questão não conhece ou não entende — nem procurou conhecer ou entender — essas explicações. É como alguém nos dias de hoje pensar (como acontecia na pré-história) que uma trovoada é uma discussão entre “os deuses”.

Por outras palavras, é de uma tremenda ignorância — e preguiça intelectual — atribuir emoções ou a capacidade de alguém para o bem (ou o mal) a “Deus” quando podem ser explicadas pela evolução, psicologia, neurologia e filosofia. Mas aprender sobre tudo isso dá muito trabalho, não é?

Um segundo problema é a mentalidade dualista e anti-humana, que diz — e é assim culpada por tanto sofrimento ao longo da história — que tudo o que é profundo, marcante, importante ou “bom” tem de ter uma origem sobrenatural, exterior a nós, de um plano não alcançável pela inteligência e ciência humanas. Tal como a acusação de Keats a Newton por este ter “desvendado o arco-íris” e assim destruído a beleza e poesia do mesmo (como se só houvesse beleza e poesia na total ignorância…), essa é uma mentalidade anti-humana e anti-vida, que nos tira o melhor de nós próprios e diz que este só pode vir de um plano sobrenatural e incompreensível (seja “Deus”, seja qualquer coisa “new age” indefinida), porque se fosse compreendido e explicado em termos puramente humanos perderia assim todo o seu valor.

Isto, desculpem dizer, é absurdo. O amor de uma pessoa por outra não precisa de uma origem ou justificação externa ou sobrenatural para ter valor, para ter poesia e pureza. Pelo contrário, ao afirmarem que essas origens são necessárias, é que lhe estão a tirar valor. Aquilo que eu sinta por alguém — uma namorada, um familiar, um amigo — não precisa de justificação externa, não precisa de vir de um “plano espiritual”, não perde valor por vir “só” de mim — muito pelo contrário, perderia todo e qualquer valor se não viesse de mim, se não fosse meu.

Na verdade, o atribuir de tudo o que há de bom no ser humano a algo “extra-humano” só demonstra uma coisa: um total ódio à humanidade e a si mesmo. Algo bastante comum nas várias religiões populares, “coincidentalmente”.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Richard Dawkins, estilo South Park

Terça-feira, 2 de Março, 2010

É menos de minuto e meio, por isso vê-se num instante.

E, se quiserem ver a versão original…

e ainda (parte 2 do anterior: perguntas do público e respostas)…

(se estás num agregador e não vês os vídeos, clicka aqui.)

Ateus: a minoria mais detestada nos EUA

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

The Atheist - Godless Atheists threaten Christian civilizationQuem vive em países maioritariamente compostos por crentes “não praticantes”, como é o caso de Portugal, provavelmente não faz qualquer ideia do que acontece num certo país, que não é o Irão, a Arábia Saudita ou o Afeganistão, mas sim os Estados Unidos da América. Uma nação supostamente laica, que, ao contrário da maioria dos países da Europa (todos?), não tem sequer religião oficial, estatal… e, no entanto, a religiosidade — maioritariamente Cristãos Protestantes, mas há de tudo — é a mais alta entre países de “1º mundo”, e inquérito após inquérito continua a demonstrar que os ateus — cerca de 10% do país — são a minoria mais odiada, mais considerada “anti-Americana” e mais considerada não confiável. Um candidato (assumidamente) ateu a qualquer cargo político é virtualmente inelegível, e ateus sofrem discriminação na escola, no trabalho e nas próprias vizinhanças — por vezes chegando a vandalismo e violência física.

Mas não vão pelo que eu digo (afinal, nunca lá estive, apesar de ler diariamente blogs e notícias de lá), vão pelo que Mike Clawson (blog), um Cristão (liberal, daqueles que não dizem que Deus odeia gays e que os não-Cristãos vão todos ser torturados eternamente depois da morte, mas Cristão na mesma), escreveu numa tese (link para o Google Docs) que fez para o seu seminário, sobre a situação dos ateus nos EUA. São umas 20 páginas, mas o texto é em letras relativamente grandes e bastante espaçado, pelo que se lê facilmente em menos de 5 minutos.

A sério, vale a pena.

Depois pensem, se quiserem, um pouco sobre a legitimidade de discriminar, ostracizar, demonizar, insultar constantemente e maltratar — às vezes chegando à violência — uma parte significativa da população simplesmente por não terem as mesmas crenças do que eles. E pensem também no que isso diz sobre a “superior” moralidade Cristã.

O facto de ter sido um Cristão a escrever aquilo, e tê-lo feito depois de falar com ateus no blog Friendly Atheist (tipicamente, isso não acontece — como ele diz no texto, crentes dizem — mesmo na TV — impunemente barbaridades sobre ateus, sem haver sequer um destes presente para poder responder), é no entanto um alívio reconfortante: é possível Cristãos ultrapassarem os seus preconceitos — e grande parte da “moralidade” da Bíblia, também. É um princípio…

(via: Friendly Atheist)

“O ónus da prova pertence aos ateus”?

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

Uma coisa a que acho piada fazer relativamente aos sites que mantenho é olhar para as estatísticas e ver que termos (palavras ou frases) as pessoas estão a introduzir nos motores de busca de forma a vir parar aqui. Uma em que reparei ontem é esta: “o ônus da prova pertence aos ateus” (dizia “ônus” por ser em Português do Brasil; cá em Portugal seria “ónus”).

Não há forma de saber se era uma pergunta ou uma afirmação, já que mesmo tratando-se do primeiro caso em geral um utilizador típico não introduz sinais de pontuação nas pesquisas que faz. Mas já vi essa mesma afirmação ser feita mais que uma vez, e por isso quero aqui responder-lhe.

Para começar, a resposta “standard”, que já mencionei no FAQ: quem sugere algo, quem diz que algo existe, é que tem o ónus da prova. Ou seja, se eu digo que existe um monstro voador de esparguete que criou o universo e adora piratas, sou eu que tenho de apresentar evidências e provas disso, não és tu que terás a responsabilidade de o “desprovar”. Se dizes que Deus existe — seja qual for a versão dele em que acreditas — é tua responsabilidade prová-lo, ou pelo menos fornecer evidências suficientes para a probabilidade do “existe” ser superior à do “não existe”. Se estivermos a falar de questões criminais, isto chama-se “inocente até prova da culpa”, que, terás de admitir, faz todo o sentido. Quem afirma (e não, não tentes dar a volta com algo tipo “estás a afirmar a não-existência!”) é que tem de apresentar evidências “para além da dúvida razoável”.

Uma resposta que alguns crentes dão aqui é esta: tu é que estás a afirmar a existência de algo muito mais fantástico para mim: um universo 100% natural, sem um criador ou uma criação sobrenatural, que de alguma forma surgiu a partir do nada, e apareceram estrelas, planetas, e vida pelo menos no nosso. Tudo naturalmente. Como? Explica-o. Prova-o.”

Parece fazer sentido. Até se pôr por palavras a lógica inerente a esse tipo de raciocínio, que é a seguinte: para não acreditar em Deus, um ateu tem de explicar tudo em detalhe, como a origem do universo, evolução, etc., e qualquer vestígio de “isto ainda não sabemos” torna imediatamente essa explicação inválida e “prova” o “foi Deus”. Ou seja, mesmo que o ateu — ou a ciência — explique 99%, a falta de explicação neste momento para o 1% restante imediatamente “prova” que não pode ter sido como o ateu está a sugerir, “prova” que o universo não pode ser 100% natural, e “foi Deus” “ganha” “por default”. (3 coisas seguidas entre aspas; tenho mesmo uma mente estranha…)

Porquê esse “default”? Porque é que o ateu tem de explicar tudo e provar tudo, e, se falhar na mais pequena coisa, o crente “ganha” automaticamente, sem ter de explicar ele próprio nada? Eu suponho que seja por uma questão de hábito: quem tenha aprendido desde criança que Deus existe e criou tudo e que isso é auto-evidente, verá tudo isso como algo perfeitamente normal e óbvio, e uma explicação alternativa que vá contra aquilo em que sempre acreditou — mesmo sendo uma explicação que não envolva seres sobrenaturais e “milagres” — vai-lhe parecer totalmente estranha, absurda e surreal.

Além disso, o crente está habituado a uma explicação aparentemente perfeita e final: “foi Deus”. A ciência está em constante evolução, e não tem problemas em admitir que há muita coisa ainda por explicar, muito ainda por entender. Logo, o crente sentirá — e isso é compreensível — que os ateus lhe estão a pedir que substitua uma explicação simples, completa e (para ele) óbvia por uma explicação complexa, incompleta e (para ele) fantástica.

O problema é que “foi Deus” não explica absolutamente nada, simplesmente move o mistério um degrau para cima. Ou seja, a ciência tenta explicar, por exemplo, a origem do universo de uma forma natural, mas ainda não o consegue fazer completamente, se bem que há várias hipóteses em aberto. O crente aí retorque: “ah, vocês não sabem, mas eu sei: foi Deus”. Mas não explica como, como é que ele o sabe, nem qual Deus, e nem o mais importante de tudo: de onde vem Deus? Quem criou Deus? A resposta “ninguém, Deus sempre existiu” é um “special pleading“: porque é que Deus há de ser uma excepção à regra de que tem de haver um criador para tudo? Se Deus não precisa de um criador, então porque não considerar que talvez o universo não precise de um criador? Se Deus sempre existiu, porque não o universo? E assim por diante.

Por outras palavras, se explicas algo como “foi magia”, então ou explicas essa magia (degrau seguinte), ou isso não é de todo uma explicação. Como os crentes nunca explicam — nem têm formas de explicar — “a magia” / Deus, no fundo não explicam absolutamente nada, enquanto a ciência o faz — a pouco e pouco, mas faz. E a ideia de que a ciência tem de ser perfeita e completa ou “foi Deus” “ganha” automaticamente não faz qualquer sentido; é o equivalente a, numa investigação criminal, dizer-se a um detective que este tem de arranjar provas completas, finais e perfeitas de que o criminoso é X, caso contrário o criminoso é Y… mesmo sem qualquer vestígio de evidência a apontar para Y.

FAQ: “Quem desdenha quer comprar; se criticas tanto a religião, provavelmente acreditas ou gostavas de acreditar!”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

Sem dúvida. Quem se opõe a algo é porque secretamente apoia ou cobiça esse algo. Tal como uma pessoa que participe em campanhas contra o analfabetismo no fundo, lá bem no fundo, gostava de não saber ler. Faz todo o sentido!

Next question. 😉

P.S. – não te armes em “psicólogo de bancada”, só te fica mal.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês ateus são tão fanáticos e dogmáticos como qualquer crente. ‘Acreditam’ no ateísmo, e nada vos faria mudar de ideias.”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Tal como em “O ateísmo não passa de mais uma religião!“, a acusação no título desta entrada usa conceitos como “religião”, “fé” ou “crença” como um insulto, o que acaba por ser uma admissão de que o acusador reconhece que a racionalidade está a um nível superior à religião, e tenta reduzir o ateísmo a apenas mais uma destas últimas. Dá que pensar.

Para esta entrada, como não acredito em “reinventar a roda”, vou fazer uso de um artigo de Adam Lee, The Theist’s Guide to Converting Atheists. Parte das ideias que vou usar vêm de lá, parte são minhas.

Primeiro, começo por devolver a pergunta / acusação: o que é que te faria a ti, ou a qualquer crente que conheças, convencer-se de que a sua fé está errada e que Deus não existe? A não ser que sejas um num milhão, aposto que a resposta será algo do género de “nada; eu tenho fé no meu Deus”, ou “nada; eu acredito e pronto”. Isto é ser dogmático; curiosamente este tipo de atitude encontra-se mesmo nos crentes mais liberais, os chamados “não praticantes”; mesmo que a religião não afecte realmente em nada as suas vidas, que nunca ponham um pé numa igreja excepto em baptizados, casamentos e funerais, mesmo assim reponderão à pergunta “o que te convenceria de que estás errado” com um “nada”. Ou seja, ao contrário do que seria de esperar, não é preciso ser fundamentalista para ser dogmático e irracional, para ter crenças “invulneráveis” à realidade (muitas vezes pelo simples facto de serem confortáveis).

E se és dos tais “um num milhão”, e tens efectivamente uma resposta para essa pergunta, o mais provável é que não fiques crente por muito mais tempo (e não, não quero dizer que seja por leres este blog; é, sim, porque depois de se abrir a porta à racionalidade, é muito difícil voltar a fechá-la).

A diferença entre um ateu e um crente típico, aquilo que faz com que não sejamos dogmáticos, que não “acreditemos” simplesmente no ateísmo “e pronto”, é que somos capazes de responder à pergunta. Vou aqui usar uma versão resumida do artigo acima linkado, já que concordo com tudo o que o autor diz ali.

Categoria 1: coisas que me convenceriam de que Deus existe

  • Profecias concretas, correctas, e de origem verificável. Isto exclui:
    • Profecias vagas, abstractas e com inúmeras interpretações possíveis (ex. Nostradamus).
    • Profecias triviais (ex. “no próximo inverno vai estar frio” ou “esta seca eventualmente passará”).
    • Profecias “obrigatórias” (ex: qualquer “profeta” a trabalhar para um rei não vai, de certeza, prever que ele vai ser um cruel tirano, mas vai elogiá-lo — e algum rei no meio de muitos vai realmente ser um bom governante).
    • Profecias “auto-cumpríveis” (isto é, a existência da própria profecia faz com que a tentem concretizar por acharem que é essa a vontade de Deus; ex. a Bíblia dizia que os Judeus voltariam eventualmente a Israel, e eles realmente voltaram… para seguir a Bíblia).
    • Profecias que possam ter sido feitas depois de o evento acontecer (isto é, não seja possível provar que a profecia é anterior ao evento).
    • Profecias cujos eventos não sejam independentemente confirmáveis, e possam ter sido relatados precisamente para condizer com as profecias (ex. os autores dos Evangelhos tinham acesso às profecias do Antigo Testamento sobre o Messias, e podem ter inventado eventos na suposta vida de Jesus para condizer com elas).
    • Profecias que sejam o único sucesso entre mil fracassos; qualquer um pode prever e prever e prever coisas até que uma esteja correcta.
  • Conhecimento científico nos livros sagrados que não estivesse disponível na altura (de forma concreta e clara); coisas que podem ser interpretadas assim de forma muito “rebuscada” não contam.
  • Milagres reais, especialmente se obtidos a partir de oração. Note-se que coincidências não servem de exemplo, a não ser que realmente aconteçam de forma repetida e repetível. Por exemplo, se só ateus fossem atingidos por relâmpagos, ou se crentes se curassem de doenças com muito mais frequência, incluindo doenças incuráveis e membros amputados.
  • Manifestação directa e incontestável do “divino” (coisa que acontecia muito na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, e a multidões, não apenas a uma pessoa, o que poderia ser explicável em termos psicológicos).
  • Extraterrestres exactamente com a mesma religião.

Categoria 2: coisas que me inclinariam nessa direcção, mas não constituiriam por si só uma prova

  • Um livro sagrado genuinamente perfeito, consistente e sem erros ou contradições.
  • Uma religião sem disputas internas ou múltiplas facções.
  • Uma religião cujos aderentes nunca tenham cometido atrocidades.
  • Uma religião que tenha ganho todas as suas “guerras santas”.

E, finalmente,

Categoria 3: coias que não me convenceriam, de forma alguma

  • Falar em “línguas” ou outros pseudo-milagres, seja por serem explicáveis psicologicamente (ex. estados emocionais extremos), seja pela nossa tendência a ver padrões onde eles não existem (ex. a “cara de Jesus” numa torrada).
  • Histórias pessoais de conversão (incluindo da parte de ex-ateus; toda a gente pode ter um momento de fraqueza em que se deixa levar pelas emoções — sobretudo o medo — e “wishful thinking”).
  • Experiências subjectivas (ex. “sinto Deus no meu coração”).
  • “Códigos da Bíblia” e outras brincadeiras com numerologia.
  • Criacionismo e outras pseudociências.

Mais uma vez, desafio qualquer leitor crente a dizer o que é que te convenceria de que não existe qualquer deus e os ateus estão correctos… se fores capaz.

E se não fores, considerando que os ateus são, diz-me outra vez quem é o “dogmático”. 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Mas se Deus não existir, e não persistirmos depois da morte, qual é o sentido disto tudo?”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Se realmente puseste a questão dessa forma, parabéns — é um enorme progresso em relação ao “wishful thinking” desta pergunta. 🙂 É muito mais racional e adulto dizer “se for assim, como é que fazemos?” do que dizer “não pode ser assim, porque se fosse, seria mau”. A “desejabilidade” de algo não afecta a sua veracidade.

Respondendo à pergunta, então…

Sempre achei estranha a ideia de que uma coisa com fim não tem valor. No resto da vida, em geral não agimos assim; conseguimos apreciar um bom livro ou um bom filme apesar de sabermos que inevitavelmente acabam. Porque é que a vida há de ser diferente, e perder todo o seu valor pelo simples facto de ser finita?

Pode-se, aliás, argumentar que é precisamente o facto de a vida ter um fim que a torna preciosa, única e insubstituível. Por outras palavras, ninguém que considere a vida “uma passagem” ou “um teste” ou “uma de muitas” (no caso de crentes na reincarnação) pode alguma vez dar tanto valor à vida como quem acredite que ela é a única que temos, e terá um fim — um ateu.

A vida pode ser finita, e ser um mero instante de um ponto de vista cósmico, mas não é um instante para nós. Enquanto estamos vivos, temos um mundo inteiro para descobrir, inúmeros factos para aprender, ciências para explorar, arte para saborear ou criar, pessoas para conhecer, relações para viver. Pôr de parte tudo isso simplesmente porque não será para sempre é de uma cobardia extrema, é medo de viver.

Que sentido há para a vida, de um ponto de vista ateu? Viremos a pergunta ao contrário: qual é o “sentido de vida” que um crente pode ter e que está fora do alcance de um ateu? Eu só vejo um: Deus (seja real ou fictício). Servir Deus, adorar Deus. Basicamente, viver em função de outro ser — ou seja, ser um escravo, mesmo que contente com a escravatura. Não, obrigado. Felizmente, muitos crentes — os não fundamentalistas — criam outros sentidos para as suas próprias vidas, em vez de se contentarem em ver-se a eles próprios como ratos num labirinto que não entendem nem podem alguma vez entender, como qualquer fundamentalista faz.

Mas, então, o quê? Bem, não posso dar um sentido à vida de ninguém (e fujam de quem vos disser que vos pode dar um — está a mentir), mas o que posso dizer é isto: nós criamos um sentido para as nossas vidas. Ele não vem de fora — caso viesse, seria um sentido “em segunda mão”, o que não passa de uma fuga cobarde à responsabilidade de ser um ser humano pensante e vivo. Viver é a maior das aventuras, e só o fazemos uma vez… o que é uma sorte na qual não pensamos, em geral. Citando Richard Dawkins1 em Unweaving the Rainbow (tradução minha):

Vamos morrer, e isso faz de nós os sortudos. A maior parte das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas que podiam potencialmente estar aqui no meu lugar mas que na verdade nunca vão ver a luz do dia são mais do que os grãos de areia no Sahara. De certeza que estes fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos isto porque o conjunto de pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA ultrapassa em muito o conjunto de pessoas efectivamente nascidas. Na realidade destas assombrosas probabilidades somos tu e eu, na nossa mediania, que aqui estamos.

Esta é a única vida que tens. É finita; lida com isso. E faz dela alguma coisa de jeito.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. com esta, são 2 vezes que o cito neste FAQ… vamos ver quanto tempo demoram a insinuar que o “adoro” como se fosse um deus. 🙂 []

FAQ: “O ateísmo causou a morte de milhões! Olhem para a Rússia Soviética!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

(Resistir… à piada óbvia… pelo menos até ao fim do post…)

Mais uma vez, não é uma pergunta, é uma acusação. A resposta óbvia é que o ateísmo não é um sistema de valores (o que é muito diferente de dizer que ateus não têm um sistema de valores), logo não há nada no ateísmo que leve a cometer qualquer acto — bom ou mau. É simplesmente a não-crença num ou mais deuses. Logo, um ateu — tal como um crente — pode ser a pessoa mais moral do mundo, ou o maior monstro.

A resposta típica de um crente aí é que aí uma relação, que o ateísmo, por uma ou mais razões, leva a massacres como esses, ou seja, que é, directamente, a causa dos mesmos. E que razões são essas?

A mais comum é que o ateu, ao não acreditar numa entidade superior que o punirá ou recompensará depois da morte, acha que “vale tudo”, que pode fazer tudo, sem consequências. Já respondi a isso em “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“, e reitero o que disse lá — que não só isso é extremamente ofensivo, como, ao sugerir isso, quem o diz está a admitir que não vê nenhuma razão para não roubar, violar e matar além da questão Céu/Inferno, e que se alguma vez perder a sua crença vai efectivamente cometer esses crimes, o que faz dele um psicopata. É esse o teu caso? Pensa lá bem.

Uma sugestão um pouco menos frequente é que o ateísmo, por não acreditar numa “alma” no sentido metafísico, que persiste depois da morte, “desvaloriza” o ser humano, tornando-o um mero conjunto de elementos químicos, e que por isso o ateu típico não dá qualquer valor à vida dos outros, considerando-os meras estatísticas.

O não dar valor à vida dos outros, no entanto, não tem nada a ver com a crença ou descrença em “almas”; é uma simples questão de egocentrismo, de falta de moralidade e de humanidade. A prova disso é que se pode ver esse mesmo comportamento em muitos crentes (Inquisição, mentiras sobre preservativos em África, protecção dos padres pedófilos, oposição a ramos da medicina, etc.), que supostamente acreditam em almas… mas isso não os impede de não dar qualquer valor à vida humana, de ver a morte de milhares ou milhões como uma mera estatística.

Na verdade, posso até argumentar que quem tem mais tendência para dar valor à vida humana são precisamente os ateus, pela simples razão de que são eles que acreditam que a vida que temos é a única, é finita, e por isso é preciosa. Ao invés disso, muitos crentes (não todos, repare-se) consideram a vida na Terra uma mera “passagem”, composta basicamente de sofrimento, cujo único propósito é determinar a salvação ou condenação da alma. Essa atitude tem o seu exemplo perfeito na célebre citação de Arnaud Amalric, que numa Cruzada em 1209, quando lhe perguntaram como distinguir os Católicos dos Catares hereges, respondeu “matem-nos todos; Deus conhecerá os seus”. É mais fácil não dar valor à vida humana quando se acredita que esta é um mero teste, que depois da morte é que começa a “verdadeira vida”, e que a única coisa que importa neste mundo é salvar almas.

Isso foi há 800 anos, dizem vocês, e as coisas mudaram? Errado. É exactamente essa mesma crença e essa mesma mentalidade que leva a que a Igreja Católica espalhe mentiras sobre os preservativos em África, entre populações que muitas vezes não têm outra fonte de informação além dos missionários, e dessa forma provoque a morte e sofrimento de milhões pela Sida. A atitude é simples: Deus detesta contraceptivos, logo mais vale sofrerem e morrerem mas terem uma hipótese de ir para o Céu, do que o contrário. A vida na Terra é vista como irrelevante, e a morte de milhões é vista como um mal menor. Isto é que é “dar valor à vida humana”?

E, como não resisto, tenho de o dizer: na Rússia Soviética, a Rússia Soviética olha para TI!! 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês só são ateus porque querem fazer o que vos der na gana, sem regras e sem prestar contas a ninguém!”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

A pergunta afirmação é ofensiva por várias razões, e talvez não merecesse uma resposta. Mas, como já fiz antes, vou ser generoso, e assumir que não acreditas realmente no que acabaste de dizer, e que estás simplesmente a repetir sem pensar algo que te disseram. E, sinceramente, se fosse a ti afastava-me de quem te disse tal coisa, porque não é, de certeza, uma pessoa honesta e de confiança, mas, pelo contrário, não tem quaisquer problemas em mentir e caluniar em proveito próprio. E desenvolveres um bocadinho de pensamento crítico, de forma a não acreditares em tudo o que ouves sem questionares nem pensares, também não te fazia mal nenhum.

Já comentei antes, neste FAQ, que o medo do castigo ou desejo de recompensa são péssimas razões para se ser moral (e sugere coisas nada simpáticas sobre quem acha essas razões válidas), e que a nossa moralidade não vem da religião, muito pelo contrário. Mas nesta entrada vou responder à implicação propriamente dita.

Essa implicação é a seguinte: que os ateus no fundo “sabem” que Deus existe, mas escolhem “fingir que não acreditam nele” para não terem de aceitar um ser superior, obedecer a regras de moralidade, etc..

Há tanta estupidez e tanta malícia nessa implicação que uma pessoa nem sabe por onde começar.

Primeiro, é sugerido que os ateus são desonestos, já que é implicado que a existência de Deus é auto-evidente e óbvia para todos, e portanto os ateus estão a mentir quando afirmam ter chegado ao ateísmo por falta de evidências a suportar as afirmações dos crentes. A acusação sugere que os ateus, no fundo, “sabem” que Deus existe (e é sempre o deus em que o acusador acredita, é claro, e nenhum outro), mas fingem não o saber; ou seja, que no fundo não são realmente ateus.

Segundo, é sugerido que os ateus são imorais, já que “escolhem” o ateísmo para não ter de obedecer a ninguém, ter regras de moralidade, etc., bem como para não “ter” ninguém superior a eles.

Terceiro, é sugerido que os ateus são completamente estúpidos, já que, se lá “bem no fundo” “soubessem” que existe um deus que impõe regras morais e pune quem não as segue, não faria qualquer sentido declarar-se ateus, já que isso não os livraria, de forma alguma, da eventual punição divina.

Tudo isto não é apenas falso, é intencionalmente falso (também conhecido por “desonesto”) e insultuoso.

A existência do teu deus não é óbvia (caso contrário, entre outras coisas, não haveria outras religiões, nem seria necessário haver apologistas religiosos — como houve em toda a História, e continuam a haver — a tentar “demonstrar” que Deus existe).

Ateus não “escolhem” ser ateus por quaisquer segundas intenções. Não acontece com todos, mas muitos de nós somo-lo porque foi a conclusão a que chegámos racionalmente, depois de olharmos para as evidências e para o mundo em que vivemos.

Ateus são tão ou mais morais, em média, do que crentes de qualquer religião. Sobretudo porque somos os únicos que não fazemos o bem à espera de ganharmos alguma coisa com isso depois de morrermos. E o “moral” é o escolhido, não o obedecido; a moralidade nunca pode vir simplesmente da obediência a determinado ser, ou do seguimento de determinadas regras, mas sim de escolhas de um ser consciente.

E ateus não são tão idiotas que acreditem na existência de algum deus, mas achem que o podem enganar fingindo não acreditar nele (!). Logo, se achaste que a afirmação no título desta entrada fazia sentido, espero que te estejas a sentir bastante envergonhado, neste momento.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O que é que os ateus adoram, então?”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

Depende do que queres dizer com “adorar”. Se te referes a admirar, respeitar, tentar emular, ou acreditar em, eu não posso responder a essa questão, já que cada ateu é diferente. Não há nada na etiqueta “ateu” que especifique nenhuma dessas coisas em relação a uma pessoa.

Se queres dizer num sentido religioso, a resposta é simples: nada.

A fonte de dúvida aqui é que muitos crentes são ensinados desde pequenos que o “adorar” é algo essencial e universal nos seres humanos; por outras palavras, que toda a gente adora alguém ou algo. Como os ateus não acreditam em deuses — e, mais especificamente, não acreditam no teu deus –, talvez te tenham ensinado, ou talvez tenhas concluído, que os ateus simplesmente adoram algo ou alguém diferente. É comum os ateus serem acusados de adorar:

  • eles próprios
  • a humanidade
  • Charles Darwin
  • o materialismo
  • o dinheiro
  • a ciência
  • a razão / a mente
  • a natureza
  • o comunismo
  • Richard Dawkins
  • o niilismo
  • outros deuses que não o teu (o que contradiz a definição de “ateu”, mas não nos vamos preocupar com isso agora…)
  • Satanás (!)

e outros.

Como é óbvio e nem devia precisar de ser mencionado, todas essas afirmações são falsas. Ateus não “adoram”, no sentido religioso. Podemos respeitar, podemos admirar, podemos até sentir reverência (e muitos de nós sentimos, por exemplo, pela natureza, ou por uma obra de arte). Mas “adoração” implica algo diferente. E o adorar de algo, tal como ter uma religião, ou ter um carro, não são uma parte essencial do que é ser um ser humano.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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