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Arquivo da Categoria ‘Cepticismo’

Porque não acredito em “Teorias de Conspiração”

Segunda-feira, 18 de Abril, 2011

As yet, the Ultimate Evil remains largely unmanifest, and its powers and exact intentions are still a bit obscure, since it lurks just outside the range of even the most sensitive, long-range detectors, which we feel gives conclusive evidence as to the Ultimate Evil’s nefarious intent.

— Fwiffo, Star Control II

A ideia de que vivemos num mundo caótico, sem um “plano” único e deliberado, e em que os nossos “líderes” — governantes de países e gestores de empresas multinacionais — não sabem, em grande parte, o que estão a fazer, é, para muita gente, do mais assustador que pode haver. É, de certa forma, o equivalente a uma criança pequena aperceber-se pela primeira vez na vida de que os seus pais são imperfeitos, que não têm todas as respostas, e que muitas vezes nem estão em sintonia um com o outro. Que não há ninguém absolutamente competente a cuidar de nós. É um terror básico, que não desaparece totalmente pelo simples facto de chegarmos à idade adulta. O ser humano, em certos aspectos, nunca cresce totalmente: continuamos a necessitar, em diversos graus, de nos sentir seguros, de sentir que há ordem no universo, de que há um plano, de que há uma espécie de “pai” que cuida de nós — mesmo que muitas vezes não o entendamos, os seus objectivos nos sejam em grande parte incompreensíveis, e ele nos pareça por vezes até cruel.

Não, não estou, neste caso, a falar de religião, se bem que tudo o que escrevi acima é perfeitamente aplicável também aí. 🙂 Refiro-me, sim, a quem acredita em teorias de conspiração (chamemos-lhes “teóricos de conspiração”, se bem que isso não soa nada bem — mas sempre é melhor do que os “conspiradores teóricos” que apareceram em legendas portuguesas, em tempos…): a ideia de que há certos “powers that be”, normalmente sob a forma de uma organização ultra-secreta — tão secreta que a maioria das pessoas nem nunca ouviu falar dela — que controlam, a partir das sombras, o avanço e o destino da humanidade, estando acima de presidentes e outros líderes “visíveis”. E que isto é assim há séculos, ou mesmo milénios.

Para um teórico de conspiração, tudo o que acontece — os resultados de uma eleição, um golpe de estado, uma crise económica, uma celebridade assassinada, ou mesmo um avanço científico –, acontece porque eles assim o decidiram, e de acordo com o seu plano. Eles controlam tudo, são absolutamente competentes, e é virtualmente impossível frustrar os seus planos — sobretudo porque a maioria dos “carneiros” desconhece que eles sequer existem, vivendo feliz na sua ignorância. E eles são, obviamente, muito eficientes a fazer desaparecer evidências… ou pessoas. Afinal, fazem-no há centenas de anos. E todos os eventos registados na História têm um significado diferente, quando interpretados sob este ponto de vista.

Mais incrivelmente, quando confrontados com a falta de evidência para justificar a sua crença de que os Illuminati, a Maçonaria, os Bilderberg e afins controlam o destino da humanidade, os teóricos de conspiração têm na ponta da língua a resposta, a seu ver, perfeita: isto só prova que eles são absolutamente competentes a manter oculta a sua influência, e em certos casos a sua existência. Tal como na citação no início do post, a prova de que eles existem é que não os conseguimos detectar. A prova de que controlam tudo é que não conseguimos sequer ver esse controlo. E a explicação para tanta “furtividade”? Intenções sinistras, é claro.

É uma lógica curiosa: quanto menos evidências deixam, mais competentes e malignos são; logo, se há zero evidências, então são supremamente competentes e malignos. A ideia de que zero evidências também pode, sei lá, quem sabe, indicar que realmente não existem (ou, em casos como a Maçonaria, não têm o poder nem fazem as coisas que lhes são atribuídas) nem lhes parece passar pela cabeça…

Possivelmente, alguns teóricos de conspiração até se consideram cépticos — isto é, não acreditam cegamente, dizem eles, na “versão comum” da História, da política, de como a humanidade se gere e progride. Mas isto é um erro. O verdadeiro cepticismo baseia-se em escolher e escalar as nossas crenças de acordo com as evidências disponíveis, e não em rejeitar toda e qualquer evidência contrária a uma crença pré-assumida — ou, pior ainda, em reinterpretar a ausência de evidência a favor dessa crença como “prova” de que ela é válida (!). E é isto que um teórico de conspiração efectivamente faz. Depois de construir a sua crença, não há evidências contra essa crença que surtam qualquer efeito; tudo pode ser reinterpretado como “isso é o que eles querem que pensemos!“. Por outro lado, qualquer ponto aparentemente a favor dessa crença, por muito “rebuscado” que seja, serve-lhe de confirmação — mais do que suficiente, para ele — de que a mesma é legítima. Isto, como espero ser óbvio, não é uma forma nem científica, nem céptica, nem intelectualmente honesta de ver as coisas.

E com isto lanço um desafio a qualquer teórico de conspiração que leia isto e não concorde com a minha posição. O desafio é este: há alguma coisa, algum tipo de evidência, que te fizesse admitir que estás errado/a, que as tuas crenças sobre conspirações e organizações ultra-secretas são infundadas, que o mundo realmente é caótico, os nossos “líderes” são na sua maioria mais ou menos incompetentes, e não há qualquer “plano” a ser mantido cuidadosamente por um grupo sombrio?

Se não há, se qualquer possível evidência que te fornecessem seria imediatamente reinterpretada como “isso é o que eles querem que se pense” (confirmando, dessa forma, ainda mais a tua posição), se a tua crença é completamente imune à realidade, então de onde é que ela realmente vem? Será de um medo de viveres num mundo caótico onde as coisas acontecem muitas vezes sem explicação, sem fazerem parte de um plano? Ou é simplesmente porque sabe bem sentires-te “especial”, ao seres o único, ou dos pouquíssimos únicos, que sabe a “verdade” por detrás das coisas, enquanto o resto da humanidade não passa de  “carneiros” iludidos? Pensa lá bem. É que acabaste de demonstrar que não procede de factos, de evidências, ou de uma observação honesta do mundo… o que faz de ti o oposto de um “céptico”: um crente dogmático, que escolhe e mantém determinadas crenças apenas porque isso o faz sentir-se bem.

O céptico na sala (música)

Quarta-feira, 30 de Março, 2011

Isto está lindo. 🙂 Grande letra, e grandes exemplos.

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Adoro o optimismo da conclusão, também. Já várias pessoas me perguntaram, por eu escrever sobre estes assuntos (se bem que o tenho feito menos nos últimos tempos, em parte por andar mais ocupado com o meu novo blog de temas “geeky”, Winterdrake), se eu acho (por vezes com uma atitude de “serás assim tão ingénuo?”) que o que escrevo neste blog, e o que já escrevia noutros no passado, alguma vez vai fazer alguém mudar de ideias, já que 1) as pessoas em geral não o fazem, ponto, 2) religiosos são especialmente difíceis e dogmáticos, tratando em geral as suas crenças como “tabu”, e 3) se eles próprios admitem que não é pelo uso da razão que têm as suas crenças, não são argumentos racionais que alguma vez os vão afectar.

Tudo isso é, em grande parte, verdade. Mas, sim, se sem dúvida não dá para atingir os fundamentalistas fanáticos, também há crentes “on the fence”, que começaram a duvidar das crenças em que foram educados desde bebés, mas que mesmo assim não fazem ideia de que livrar-se completamente delas é uma opção, que é possível ser-se um ateu (ou qualquer forma de “não-crente”) sem que isso faça de nós a) monstros imorais, e b) pessoas deprimidas, com vidas frias, cinzentas e sem objectivo. Às vezes, um mero exemplo pode fazer a diferença. Outras vezes, pode ser um argumento.

Da mesma forma, é possível que passem por aqui crentes que acham que chegaram à sua fé de uma forma racional, que respeitam o raciocínio e a lógica1. Infelizmente, em mais de um ano de existência deste blog, continuo à espera.), e que talvez reconsiderem as suas crenças se confrontados com o facto de que o raciocínio e a lógica são incompatíveis com tais crenças. Sim, sem dúvida que muitos aí escolherão rejeitar o raciocínio e lógica, rejeitar a mente… mas é possível que nem todos o façam. E uma pessoa libertar-se das suas crenças (coisa que me disseram que já aconteceu, noutro blog, anos atrás) já é bom, já fez tudo valer a pena.

  1. aliás, adorava um dia ter aqui comentários de algum crente capaz de argumentar com factos e lógica, em vez de simplesmente “pregar”, citar a Bíblia EM MAIÚSCULAS (o que obviamente é mais convincente), ameaçar-me com a Aposta de Pascal, ou tentar psicanalisar-me por eu falar destes assuntos (“obviamente, precisas de te sentir superior… ah, e és ateu porque odeias Deus por causa de uma má experiência na infância!”) []

9 Perguntas a um Ateu

Segunda-feira, 8 de Novembro, 2010

Fizeram-me ontem as seguintes perguntas, às quais achei piada responder:

1) Tu não acreditas em Deus(es) ou não acreditas em religião?
2) Estás convencido que não existe qualquer hipótese de existir um Deus/ forma de energia?
3) Acreditar, pensamento positivo e ter fé não fazem as coisas acontecerem?
4) Esta vida é a única que existe ou existiu ou existirá?
5) Não há destino nem almas gémeas nem déjà vu?
6) Não existe karma?
7) Mitologia e simbologia são assuntos aborrecidos?
8) Não existem realidades alternativas?
9) Faz sentido pensar no significado da vida?

Respostas a seguir:
(mais…)

Cectic: webcomic de cepticismo

Quinta-feira, 8 de Julho, 2010

Cectic é um webcomic que já acabou há uns anos (se bem que o autor fez 2 novos comics mais recentemente) cujo tema é, como o nome sugere, o cepticismo. Tudo com algum humor, é claro.

Alguns dos meus preferidos:

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Prayer Failure – algo que gostava que médicos e familiares fizessem a doentes destes, para abrirem um pouco os olhos.

 

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The Tides of Crime – Um exemplo perfeito da falácia habitualmente descrita como “counting the hits and ignoring the misses”. Obviamente a lua cheia não faz qualquer diferença, mas isso não impede o polícia em questão de acreditar que faz… porque inconscientemente ignora todas as vezes em que a sua teoria é contrariada.

 

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The day Mom found religion – É muito mais fácil (e cobarde) inventar “bichos papões” do que realmente ensinar moralidade e ética aos filhos. Quando ficam maduros demais para o Pai Natal, é altura de lhes introduzir uma versão um pouco menos infantil… e muito mais nefasta.

 

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Aspirin Versus Prayer – Quando se interpreta todos os resultados segundo uma visão distorcida da realidade, todos esses resultados parecem confirmar essa visão. Em último caso, há sempre o “Deus tem um plano”.

 

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Conclusive Proof – Já ouviram falar em “double standards”? Eis um exemplo dos mesmos. Para quem é tão irracional e intelectualmente desonesto que as suas crenças existem de acordo com os seus desejos e não com a sua observação, não custa nada ser-se incrivelmente “céptico” relativamente a algo em que não se quer acreditar, e em simultâneo ser-se o maior dos crédulos em relação a algo em que se quer.

 

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An Atheist’s Endearment – Ocasionalmente, este comic consegue ser “tocante”; este é um exemplo. A ideia de que a nossa vida, as nossas relações e os nossos sentimentos são insignificantes só por a nossa vida ser finita é absolutamente repugnante, e insulta tudo o que já sentimos, fizemos e somos.

 

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Vocations – E ocasionalmente ele é “poético”. O universo em que vivemos é maravilhoso — mas reduzir tudo a “foideus” ou “diznabíblia” é do mais limitado — e estúpido, e desperdício de oxigénio — que se pode imaginar.

 

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Sense of Mystery – uma boa resposta para quem é tão cego e ignorante que julga que é preciso existir o “paranormal” para o universo ser fascinante. Só pensa tal barbaridade quem não sabe nada de nada. Bónus por incluir uma cena do último episódio do Star Trek: The Next Generation (“All Good Things…”). 🙂

Resposta a duas críticas

Terça-feira, 11 de Maio, 2010

Recebi, ontem e hoje, duas críticas relativamente a este blog através do Twitter, às quais já respondi, precisando de uns 7 tweets. Mas quero responder-lhes aqui também, com um pouco mais de espaço comparativamente ao Twitter, e de forma a que as respostas fiquem disponíveis no blog, já que é possível que as críticas em questão façam sentido para outros visitantes no futuro.

A primeira é esta: que o nome do site é incorrecto, porque ateísmo é apenas a ausência de crença em um deus ou deuses, e o que eu faço aqui é “activismo anti-religião”.

Relativamente a isso, sim, é um facto que a definição estrita de ateísmo é essa, mas também é válido ver-se a coisa de uma forma mais lacta. Para mim, bem como para muitos, o ateísmo está associado ao cepticismo, ao humanismo e à racionalidade, e o site dedica-se (entre outras coisas) a promover esses conceitos. “www.ateismo-humanismo-cepticismo-e-racionalidade-pt.com” seria demasiado longo 🙂 , além de que a ideia do nome de um site não é ser descritivo, é apenas um título, uma “marca”, uma designação.

A segunda crítica é que “uma coisa é criticar os actos feitos em nome de uma religião, ou através dela, mas pôr tudo dentro do mesmo saco é errado.”

Acho que aqui o autor da crítica está a confundir 1) críticas minhas a actos e instituições, onde claramente critico apenas os autores dos actos e/ou membros das instituições em questão, com 2) argumentação lógica contra crenças religiosas propriamente ditas, irracionalidade, “wishful thinking”, etc., em que, sim, estou a criticar as crenças de muita gente que nunca fez mal a ninguém por causa delas, mas criticar crenças — por muito “íntimas” que sejam — não é um ataque! Não é, sequer, uma condenação. É um simples “estás errado, porque…”, que para qualquer outro tema seria aceite (concordando ou discordando) sem problemas.

Quando argumento contra a “lógica” de determinadas crenças ou argumentos religiosos (por exemplo, “tem de existir Deus, caso contrário como é que o universo existe”, ou a Aposta de Pascal, ou menciono o facto de a crença de 99% dos crentes ser apenas produto de um acidente geográfico, ou critico a falta de cepticismo e racionalidade de alguém), não estou a “atacar” ou condenar ninguém, estou apenas a criticar ideias que considero erradas, justificando a minha crítica com factos e lógica (que podem muito bem estar errados, note-se). Da mesma forma que aceito perfeitamente que me digam que estou errado nalguma coisa.

O que não aceito é que as crenças religiosas exijam para si próprias uma posição especial, intocável, acima de qualquer crítica, ou que se torne essas crenças inseparáveis dos próprios crentes, de tal forma que qualquer crítica a uma crença ou ideia é vista como um ataque pessoal a todos os seus crentes. Isso não só não faz sentido, como é cobarde — é, de certa forma, uma admissão de que as crenças e ideias religiosas não são capazes de “ir à luta”, de se demonstrar logicamente coerentes, de competir no mercado de ideias, e que por isso precisam de protecção especial, quase criminalizando (em teocracias muçulmanas tira-se o “quase”) o mero acto de as questionar ou criticar.

E para aos crentes que estejam sempre prontos a ofender-se pessoalmente com uma simples crítica às suas crenças e ideias: se estivessem realmente confiantes relativamente às mesmas, não reagiriam assim. Pelo contrário, estariam prontos a “ir à luta” de ideias, confiantes em ter os factos e a lógica do vosso lado, não tendo necessidade de exigir protecção ou “respeito” especiais para as vossas crenças pelo simples facto de serem crenças religiosas. E isto devia fazer-vos pensar um pouco…

“Mentes fechadas” e cepticismo

Segunda-feira, 6 de Abril, 2009

Este vídeo, que saiu há uma semana, é brilhante, e acho que toda a gente – sobretudo quem confunde “cepticismo” e “espírito crítico” com “ter a mente fechada” – o devia, sem falta, ver.

Se uma árvore cai numa floresta sem ninguém por perto, faz um som?

Segunda-feira, 9 de Fevereiro, 2009

Claro que faz. A realidade não é subjectiva, e o universo não é apenas uma alucinação nossa.

DoesATreeMakeASound

E é por eu pensar assim – e o dizer – que os místicos zen / new age não gostam de mim. 🙂 Se bem que a comparação da ciência a um “designated driver” da humanidade é genial, e nunca tinha pensado nela. Parabéns ao autor.


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