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Arquivo da Categoria ‘Deus’

“Tem de existir algum tipo de deus, logo a minha religião está 100% certa!”

Sexta-feira, 12 de Março, 2010
Tem de existir um criador, logo esta religião específica está 100% certa!

Já mencionei em O problema de “Deus existe porque o universo existe” que a ideia de que a complexidade do universo implica algum tipo de criador não se reflecte de forma alguma em “Deus é assim” ou “quer assado” ou “Jesus morreu pelos nossos pecados”1 ou qualquer outra crença ou dogma das várias religiões existentes.

“Tem de existir algum tipo de deus / criador”, se fosse correcto (não é), implicaria apenas isso — que tem de haver algum tipo de deus. Não implicaria absolutamente nada sobre ele (ela? eles?), sobre a sua história, os seus desejos, a sua moralidade, ou mesmo o facto de ainda estar “vivo”; não implicaria, de forma alguma, que esta ou aquela religião estão certas, e chegar a essa conclusão não passa de desonestidade intelectual.

O comic acima, de ontem, demonstra bem esse erro, infelizmente muito típico…

  1. isto é, Deus teve de vir ao mundo e ser torturado e morto para nos conseguir perdoar []

FAQ: “E se estiveres errado, e Deus existir? Isso não te preocupa?”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

(Nota: isto não é o mesmo que a pergunta já existente no FAQ, “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”. Essa entrada no FAQ é uma rejeição da Aposta de Pascal; esta aqui é uma resposta à possibilidade remota de que Deus, afinal de contas, exista.)

Esta é uma questão muitas vezes posta por crentes (especialmente Cristãos) a ateus. E se estivermos errados, se Deus afinal existir, e se depois de morrer, como se costuma dizer, nos encontrarmos com o nosso criador?

Primeiro, tenho de dizer que essa não é uma possibilidade que efectivamente me preocupe, já que tenho todas as razões para acreditar que não existe nenhum deus ou deuses. O universo aparenta ser 100% natural, e, se por um lado a ciência está longe de saber tudo, por outro lado não existe nada até hoje conhecido que absolutamente exija uma explicação sobrenatural, e que não possa — nunca — ser explicado em termos naturalísticos. Por outras palavras: uma total ausência de evidências “a favor” é, ela própria, uma evidência forte “contra” (e não é que a humanidade não tenha procurado, nos seus milénios de História), e, por isso, todas as evidências sugerem que o número de divindades no universo é zero.

Segundo, se houvesse um deus, seria mesmo assim virtualmente impossível que as religiões humanas estejam certas. Os seus deuses são pequenos, provinciais, territoriais, infantis, inseguros e tribais. E muito, muito humanos. Têm emoções humanas (incluindo uma boa dose de ciúmes, que por alguma razão neles nunca é visto como uma falha de carácter), têm um “povo escolhido”, supostamente criaram um universo que agora sabemos ser incrivelmente vasto e complexo (o que não se sabia quando as religiões apareceram), mas o nosso pequeno e insignificante planeta ainda é a única coisa que importa no universo — e as nossas vidas físicas neste mundo nem são o que realmente importa. (A ideia de um universo antigo (muito, muito mais do que a humanidade, ou mesmo que o nosso planeta), vasto e incrivelmente diverso, simplesmente como “cenário de fundo” de um teste para determinar se somos salvos ou não… é completamente estapafúrdia.) Os deuses antropomórficos das nossas religiões são tão obviamente criados por humanos, que não podem ser verdadeiros. Se houvesse “lá fora” um deus capaz de criar um universo, ele/ela seria provavelmente demasiado complexo/a para repararmos sequer nele/nela… e ele/ela de certeza que não se importaria connosco, a nossa moralidade, as nossas vidas sexuais 🙂 , nem nos julgaria e criaria lugares para irmos depois da morte. Por outras palavras, se houvesse realmente um deus num sentido cósmico, não nos afectaria de forma alguma — e seria infinitamente maior (e menos “igual a nós mas mais poderoso”) do que as divindades inseguras, birrentas e obcecadas por órgãos genitais 🙂 das nossas religiões.

Terceiro, e se, apesar de tudo o que foi dito acima, mesmo assim houvesse um deus, e ele/ela se importasse connosco, e nos julgasse de alguma forma depois das nossas mortes físicas? Bem, depende dos standards de julgamento. Talvez não se importasse com a nossa moralidade, ou com o facto de ser adorado/a ou não, mas sim com alguma coisa completamente diferente. Não temos forma de saber. Talvez, por exemplo, fosse uma divindade para quem a única coisa importante é tratarmos bem os nossos gatos de estimação (que toda a gente sabe que são divinos).

Mas vamos supor que realmente tal ser se importaria com os nossos actos, a nossa moralidade. Nesse caso, a questão final é: Deus é bom, ou mau? Rejeito desde já as corrupções habituais do significado de “bom”, tais como “aquilo que Deus quiser é por definição bom”. Tem de haver algum standard, além dos caprichos de um ser poderoso.

Desta forma:

  1. um deus bom — o que exclui o tirano inseguro e obcecado pela sexualidade no qual os três monoteísmos acreditam — recompensaria quem tivesse vivido uma boa vida, sendo em geral “fixe” para as outras pessoas, e cheio de curiosidade em descobrir e aprender coisas, seguindo as evidências disponíveis até à sua conclusão lógica. As evidências disponíveis não sugerem de forma alguma a existência de um deus, por isso, acreditar num apesar disso não é mais do que “wishful thinking” intelectualmente desonesto, o que não agradaria a tal divindade. Um deus bom recompensaria bons ateus e bons crentes, e puniria maus ateus e maus crentes — mas provavelmente ficaria um bocado decepcionado com a falta de curiosidade e honestidade da parte dos crentes (por outro lado, ele/ela teria também de se explicar — porquê esconder-se e criar o universo de forma que este implique a sua não-existência?). Um deus bom não seria inseguro ou imaturo, e não precisaria de, desejaria ou se importaria com a questão de ser adorado, ou qualquer outro tipo de massagens ao ego. Desta forma, não tenho qualquer medo de um deus bom.
  2. um deus mau — tal como Yahweh ou Alá (e se não concordas comigo, não andas a ler os teus livros sagrados, e estás a inventar “Deus” tu próprio) — seria em grande parte como um ditador brutal num regime totalitário. Ninguém está a salvo desse monstro; não vale a pena esperar justiça ou um tratamento previsível, imparcial e justo. Ele possui-te, és propriedade dele: um escravo, nada mais. “Dar-lhe graxa” pode resultar por algum tempo, mas ele pode sempre torturar-te ou matar-te por um capricho, porque, para ele, não és um ser humano com emoções, és uma ferramenta para usar, um brinquedo para brincar. Mesmo assim, “dar-lhe graxa” — isto é, adorá-lo, viver a vida em função dele, e obedecer-lhe cegamente, não importa o sofrimento causado a outros — será provavelmente a opção mais segura. É claro que tal opção, por outro lado, fará de ti um cobardezinho nojento, sem qualquer integridade moral. Esse deus é o tipo de ser que realmente criaria dois lugares para irmos depois de morrer — um para tormento eterno, o outro para lhe darmos ainda mais “graxa”. A única coisa moral a fazer na presença de tal monstro, ao sermos condenados por termos a moralidade que ele não tem, seria cuspir-lhe na cara, como acto final de desafio.

Felizmente, não acredito na existência de nada do que foi acima descrito. E isso só me faz sentir livre e vivo. 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Deus ama-te!”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

A ideia dessa exclamação é em geral esta: “Deus ama-te, e tu não só o rejeitas, como te recusas sequer a admitir a sua existência!? Que ingratidão! Como é que és capaz?” Chantagem emocional, portanto.

A resposta óbvia é a habitual: “como é que sabes?”. Ou seja, sem evidências, não há razão nenhuma para acreditar naquilo que a outra pessoa me está a dizer, e muito menos para me “sentir culpado” pela minha suposta ingradidão e insensibilidade.

Mas há outra maneira de responder a essa quase-acusação: de certa forma, isso favorece a minha posição.

Se me dissesses “Deus existe, mas está-se nas tintas para ti e para todos nós”, a não-existência dele não seria tão óbvia (se bem que ainda haveria diversos argumentos contra a mesma, começando, mais uma vez, com a pergunta “como é que sabes?”). Mas ao dizeres que ele “me ama”, ou “ama toda a gente”, estás só a demonstrar que não só ele não “me ama”, como quase de certeza não existe… e ainda bem. Ao dares-lhe essa característica, estás a tornar ainda mais improvável a sua existência, a dar-me argumentos contra ela — como se o facto de não haver evidências da mesma não fosse já suficiente.

Por outras palavras, um deus que “me ama” e se esconde é ainda menos provável — e mais difícil de acreditar em — do que um deus para quem eu sou totalmente indiferente (se é que ele sabe que eu existo).

Sabes, é que “amor” não é algo que se sente apenas à distância, sem fazer qualquer tentativa de contacto. Se sinto “amor” por alguém — seja amor romântico, fraternal, de grande amizade, etc. –, quero em geral estar e conviver com esse alguém. Nunca me passaria pela cabeça ser tão doente que, em vez de procurar o contacto, nunca me revelasse, mas enviasse tipos de ar duvidoso a casa da pessoa “amada” para lhe dizerem que existo e a amo, mas que ela nunca me vai poder ver directamente, e usar a crença ou não-crença na minha existência como indicador do seu amor por mim.

“Amor” — mesmo que seja o que se sente por um familiar ou um grande amigo, por alguém com quem nos importamos e a quem desejamos o mellhor possível — não é isso. Pelo contrário, o tipo de “amor” que atribuis ao deus em que acreditas é das coisas mais doentias, mais manipuladoras e mais abusivas que já ouvi.

E não adoraria — nem sequer respeitaria no sentido mais básico da palavra — um sádico doentio desses, mesmo que ele existisse. Felizmente, as razões para acreditar em tal criatura continuam a ser nulas.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Se não acreditas em Deus, porque é que falas tanto nele?”

Sábado, 20 de Fevereiro, 2010

Para começar, há que distinguir “falar de Deus” e “falar de religião“. Se o significado da pergunta é: porque é que eu me importo com isto, porque é que gasto tempo e esforço a criticar a religião, sugiro a leitura destes dois posts:

O mais provável é que a resposta esteja nos posts acima indicados, e provavelmente podia ficar por aqui. No entanto, se levarmos a pergunta à letra, ela não se refere a importar-me com a religião, mas sim a “falar de Deus”, sendo “Deus” provavelmente a versão mais popular nestas bandas, o deus Judaico-Cristão. A acusação implícita na pergunta é que, se falo tanto nele, se calhar é porque lá no fundo até acredito que ele existe…

Porém, quem leia realmente o que escrevo neste blog, em vez de simplesmente assumir coisas em relação a mim por me auto-declarar ateu (o nome do blog é uma boa pista…), verá que é raro falar propriamente de “Deus”, e que, quando o faço, é óbvio que estou a falar de um ser que considero fictício, tal como posso falar do Homem-Aranha num blog ou fórum sobre comics, sem que venha logo algum parvinho perguntar-me se, aos 35 anos, acredito que o Peter Parker existe…

Ao contrário do Homem-Aranha, no entanto, há realmente muita gente no mundo a acreditar no deus Cristão — cerca de dois mil milhões, ou seja, 1/3 do planeta –, gente essa que o considera real, e que vive em função dos supostos desejos (e muitas vezes caprichos) desse ser. E é a moralidade desse ser — tal como descrita nos livros sagrados, e/ou nas crenças dos crentes, se bem que estas últimas tendem a ser inventadas pelos mesmos para serem um reflexo deles próprios — que eu critico, no sentido de “vocês seguem um ser com estas características; o que é que isso diz sobre vocês? Ou nunca pensaram sequer nisso? Não têm problemas em seguir um ser que ou é 1) ciumento, inseguro, sexista, homofóbico, sádico e birrento, ou é 2) obviamente acabado de inventar por vocês?” Nada disto sugere minimamente que eu “acredite” nele de alguma forma… mas se os crentes acreditam, acho bem que sejam confrontados com a personalidade que eles próprios lhe dão.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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