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Arquivo da Categoria ‘Discriminação de ateus’

Ouvidos delicados

Quarta-feira, 12 de Maio, 2010

Até parece combinado, não é? Depois desta questão, e desta, e desta resposta às mesmas (à qual já respondi, no blog em questão), o sempre delicioso Jesus and Mo demonstra claramente a situação absurda actual…

Jesus and Mo - "Ears"

… em que qualquer crítica a uma crença religiosa é “estridente”, “militante”, “intolerante” e “pessoalmente ofensiva”, coisa que não aconteceria para qualquer outro assunto.

A religião em geral, cada religião individualmente, e cada crença religiosa especificamente, não passam de ideias, e não há nenhuma razão válida para estarem numa posição privilegiada acima de críticas, nem os crentes têm qualquer justificação para igualar críticas às suas crenças a ataques pessoais… ou direito de o fazer. É altura de retirar as crenças religiosas do “colo da mamã” onde continuam a ser injustamente protegidas e privilegiadas, e trazê-las para o mundo real, o “mundo dos crescidos”, onde todas as outras ideias já vivem há muito tempo.

P.S. – para não dizerem que “ponho tudo no mesmo saco”, se és crente mas não consideras que criticar crenças religiosas (tanto a tua como outras) é “blasfémia”, nem achas que tais crenças devam estar privilegiadamente acima de críticas, 1) obviamente, este post não te está a criticar a ti, e 2) parabéns, é pena a maioria dos crentes não ser como tu, neste aspecto. 🙂

Resposta a duas críticas

Terça-feira, 11 de Maio, 2010

Recebi, ontem e hoje, duas críticas relativamente a este blog através do Twitter, às quais já respondi, precisando de uns 7 tweets. Mas quero responder-lhes aqui também, com um pouco mais de espaço comparativamente ao Twitter, e de forma a que as respostas fiquem disponíveis no blog, já que é possível que as críticas em questão façam sentido para outros visitantes no futuro.

A primeira é esta: que o nome do site é incorrecto, porque ateísmo é apenas a ausência de crença em um deus ou deuses, e o que eu faço aqui é “activismo anti-religião”.

Relativamente a isso, sim, é um facto que a definição estrita de ateísmo é essa, mas também é válido ver-se a coisa de uma forma mais lacta. Para mim, bem como para muitos, o ateísmo está associado ao cepticismo, ao humanismo e à racionalidade, e o site dedica-se (entre outras coisas) a promover esses conceitos. “www.ateismo-humanismo-cepticismo-e-racionalidade-pt.com” seria demasiado longo 🙂 , além de que a ideia do nome de um site não é ser descritivo, é apenas um título, uma “marca”, uma designação.

A segunda crítica é que “uma coisa é criticar os actos feitos em nome de uma religião, ou através dela, mas pôr tudo dentro do mesmo saco é errado.”

Acho que aqui o autor da crítica está a confundir 1) críticas minhas a actos e instituições, onde claramente critico apenas os autores dos actos e/ou membros das instituições em questão, com 2) argumentação lógica contra crenças religiosas propriamente ditas, irracionalidade, “wishful thinking”, etc., em que, sim, estou a criticar as crenças de muita gente que nunca fez mal a ninguém por causa delas, mas criticar crenças — por muito “íntimas” que sejam — não é um ataque! Não é, sequer, uma condenação. É um simples “estás errado, porque…”, que para qualquer outro tema seria aceite (concordando ou discordando) sem problemas.

Quando argumento contra a “lógica” de determinadas crenças ou argumentos religiosos (por exemplo, “tem de existir Deus, caso contrário como é que o universo existe”, ou a Aposta de Pascal, ou menciono o facto de a crença de 99% dos crentes ser apenas produto de um acidente geográfico, ou critico a falta de cepticismo e racionalidade de alguém), não estou a “atacar” ou condenar ninguém, estou apenas a criticar ideias que considero erradas, justificando a minha crítica com factos e lógica (que podem muito bem estar errados, note-se). Da mesma forma que aceito perfeitamente que me digam que estou errado nalguma coisa.

O que não aceito é que as crenças religiosas exijam para si próprias uma posição especial, intocável, acima de qualquer crítica, ou que se torne essas crenças inseparáveis dos próprios crentes, de tal forma que qualquer crítica a uma crença ou ideia é vista como um ataque pessoal a todos os seus crentes. Isso não só não faz sentido, como é cobarde — é, de certa forma, uma admissão de que as crenças e ideias religiosas não são capazes de “ir à luta”, de se demonstrar logicamente coerentes, de competir no mercado de ideias, e que por isso precisam de protecção especial, quase criminalizando (em teocracias muçulmanas tira-se o “quase”) o mero acto de as questionar ou criticar.

E para aos crentes que estejam sempre prontos a ofender-se pessoalmente com uma simples crítica às suas crenças e ideias: se estivessem realmente confiantes relativamente às mesmas, não reagiriam assim. Pelo contrário, estariam prontos a “ir à luta” de ideias, confiantes em ter os factos e a lógica do vosso lado, não tendo necessidade de exigir protecção ou “respeito” especiais para as vossas crenças pelo simples facto de serem crenças religiosas. E isto devia fazer-vos pensar um pouco…

“Ateus são tão fanáticos e militantes como os crentes que criticam!”

Segunda-feira, 10 de Maio, 2010

Hoje voltei a ouvir (bem, ler) esta, num tweet de alguém cujas opiniões em geral até respeito (afinal, sigo-o no Twitter), e… apesar de ser incrivelmente comum, não consigo deixar de ficar surpreendido pelo facto de alguém ser capaz de afirmar — ou pensar — isso.

O que os ateus que criticam a religião fazem, em geral, divide-se em dois aspectos: 1) crítica a actos praticados por instituições religiosas ou em nome da religião (ex. propagação da SIDA em África devido à oposição aos preservativos, encobrimento institucionalizado da pedofilia1, opressão das mulheres em países muçulmanos, terrorismo religioso, anti-intelectualismo e oposição à ciência, etc.), e 2) crítica às crenças religiosas e ao pensamento religioso propriamente ditos, no âmbito da promoção da racionalidade e pensamento científico, no sentido de tornar o mundo melhor, em oposição a uma humanidade presa a crenças sobrenaturais que acabam por nunca passar de “wishful thinking”. Todos estes actos resumem-se a críticas — críticas de actos, críticas de pessoas, e críticas de ideias. Isto é que é “fanatismo miltante”?

A ideia das pessoas que fazem afirmações destas parece ser a seguinte: quem critica um acto condenável é “tão mau” como o autor desse acto, devido meramente ao acto da crítica.

Quem critique um político corrupto é tão condenável como ele. Quem exija justiça para um violador ou pedófilo é tão criminoso como se tivesse violado ou abusado de crianças. Quem chame a polícia a reportar um roubo é tão culpado como o ladrão. Quem se revolte com o racismo é tão condenável como o maior racista.

Isto faz algum sentido? É claro que não. É completamente absurdo para os exemplos acima, e é-o para qualquer outro exemplo em que possamos pensar.

Excepto a religião.

Já há muito que isto se faz notar, e muitos já o disseram no passado: é historicamente tão incomum criticar-se de alguma forma a religião — e, no caso de países como Portugal, a Igreja Católica –, e mesmo até há muito pouco tempo era tão invulgar que alguém o fizesse, que o mais leve sussurro soa a um grito estridente. E soa dessa forma até mesmo para quem não seja ele próprio crente.

Nada mais explica porque é que, independentemente dos abusos e até atrocidades feitos por organizações religiosas, ou feitos em nome da religião, a simples crítica em oposição aos mesmos seja absurdamente equiparada a esses abusos e atrocidades.

A quem diz coisas como no título do post, a minha sugestão é: pensa um pouco nesta questão. Porque é que a religião — sejas ou não crente — deve estar num pedestal especial, acima de qualquer crítica? E se não achas que deva estar, porque é que ages como se devesse?

  1. reparem que não os culpo da pedofilia propriamente dita; aí a culpa é só do indivíduo em questão, e não é preciso ser religioso para se ser pedófilo. Mas o crime do encobrimento e violação de outras crianças no futuro graças a esse encobrimento — em nome da “reputação da igreja universal” — é 100% culpável à Igreja Católica e à hierarquia da mesma. []

Ateus: a minoria mais detestada nos EUA

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

The Atheist - Godless Atheists threaten Christian civilizationQuem vive em países maioritariamente compostos por crentes “não praticantes”, como é o caso de Portugal, provavelmente não faz qualquer ideia do que acontece num certo país, que não é o Irão, a Arábia Saudita ou o Afeganistão, mas sim os Estados Unidos da América. Uma nação supostamente laica, que, ao contrário da maioria dos países da Europa (todos?), não tem sequer religião oficial, estatal… e, no entanto, a religiosidade — maioritariamente Cristãos Protestantes, mas há de tudo — é a mais alta entre países de “1º mundo”, e inquérito após inquérito continua a demonstrar que os ateus — cerca de 10% do país — são a minoria mais odiada, mais considerada “anti-Americana” e mais considerada não confiável. Um candidato (assumidamente) ateu a qualquer cargo político é virtualmente inelegível, e ateus sofrem discriminação na escola, no trabalho e nas próprias vizinhanças — por vezes chegando a vandalismo e violência física.

Mas não vão pelo que eu digo (afinal, nunca lá estive, apesar de ler diariamente blogs e notícias de lá), vão pelo que Mike Clawson (blog), um Cristão (liberal, daqueles que não dizem que Deus odeia gays e que os não-Cristãos vão todos ser torturados eternamente depois da morte, mas Cristão na mesma), escreveu numa tese (link para o Google Docs) que fez para o seu seminário, sobre a situação dos ateus nos EUA. São umas 20 páginas, mas o texto é em letras relativamente grandes e bastante espaçado, pelo que se lê facilmente em menos de 5 minutos.

A sério, vale a pena.

Depois pensem, se quiserem, um pouco sobre a legitimidade de discriminar, ostracizar, demonizar, insultar constantemente e maltratar — às vezes chegando à violência — uma parte significativa da população simplesmente por não terem as mesmas crenças do que eles. E pensem também no que isso diz sobre a “superior” moralidade Cristã.

O facto de ter sido um Cristão a escrever aquilo, e tê-lo feito depois de falar com ateus no blog Friendly Atheist (tipicamente, isso não acontece — como ele diz no texto, crentes dizem — mesmo na TV — impunemente barbaridades sobre ateus, sem haver sequer um destes presente para poder responder), é no entanto um alívio reconfortante: é possível Cristãos ultrapassarem os seus preconceitos — e grande parte da “moralidade” da Bíblia, também. É um princípio…

(via: Friendly Atheist)


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