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Arquivo da Categoria ‘Diversos’

O problema da “Espiritualidade”

Terça-feira, 9 de Março, 2010

Nota: o seguinte vem supostamente do livro “Natural Atheism”, de David Eller (2004). Não li nem tenho ainda o livro; aliás, só hoje é que ouvi falar dele, mas se isto é representativo do conteúdo do mesmo, vai provavelmente ser uma próxima aquisição. Nem tenho confirmação de que isto é do livro em questão, mas não tenho razões para duvidar disso. Vi isto num comentário (um pouco maior que o normal) no Facebook, e não resisto a copiá-lo aqui. O tema é o uso de expressões como “espiritual” e “espiritualidade” por ateus e não-crentes em geral.

Tradução minha, já agora. Não faço ideia se isto existe em português.

Eu afirmo que esse tipo de conversa é falsa, e, ainda mais do que falsa, é conversa anti-humana — o tipo de conversa que degrada e diminui os seres humanos e o mundo natural… É a atribuição da vida propriamente dita a outra realidade, outra dimensão, distinta daquela em que vivemos cada dia — e, ainda mais crucialmente, a uma realidade ou dimensão à qual não temos acesso… É como se nos ligássemos a uma fonte adicional de vida ou energia, fonte essa que só poderia ser proveniente da origem de toda a vida ou energia — fora de nós… E no entanto somos nós — seres materiais fracos e insignificantes — que temos estas experiências… O que é habitualmente descrito como espiritual é na verdade a vida, a humanidade.

Assim sendo, a espiritualidade é a maior traição da humanidade possível. Conversas sobre o espírito e o espiritual alienam a melhor parte do que é ser-se humano — literalmente, no sentido de o tornar estranho ou separado de nós próprios. Essa conversa diz: “Isto é o melhor possível, o exponente máximo do que eu consigo sentir e ser — e não sou eu.” Desta forma, minimiza e denigre o humano e o natural (como qualquer dualismo faz) e cede o melhor do que somos capazes a outro plano ou realidade. Priva-nos não só de parte da nossa humanidade, mas da melhor parte da nossa humanidade, e atribui-a a um mundo sobrenatural — e desta forma não-natural. No processo, somos diminuidos. Somos alienados de nós próprios e convencidos de que nenhum mero ser humano poderia ser a fonte de tal maravilha.

Mas nós somos a fonte. Esperiências espirituais são na verdade experiências humanas — as melhores, as mais fortes, as mais profundas experiências humanas, mas humanas na mesma. Não são uma espécie de não-humanidade, mas uma forma de ultra-humanidade. Somos enriquecidos por elas e para elas, mas empobrecemo-nos quando nos negamos — ou deixamos que nos seja negada — a nossa melhor natureza, e atribuímos essas sensações e capacidades ao não-humano, o desconhecido, e quase certamente o imaginário e irreal…

Nunca mais devemos dizer “tive uma experiência espiritual.” Em vez disso, digamos… “tive uma experiência de vida” — ou, melhor ainda, “tive uma experiência humana — e encorajemos outros a fazer o mesmo.

O regresso da vingança do FAQ

Terça-feira, 2 de Março, 2010

Sim, como já imaginava, o FAQ de Ateísmo ainda não “acabou”. Já previa que eventualmente me fosse lembrar de (ou ser confrontado com) mais perguntas / afirmações frequentemente feitas, e recentemente deparei-me com mais duas. Uma num comentário bastante parvo de um crente no Portal Ateu (num post já com meses), outra num blog agregado no Planet Atheism, e outra de que simplesmente me lembrei, mas que vi muito no passado.

Hoje estou meio ocupado, mas espero tratar disto nos próximos dias. Mas posso mencionar já as questões, por alto:

1- “O ateísmo / materialismo não explicam o amor / a amizade / o bem e o mal / a poesia / a beleza / os números irracionais na matemática / <outro exemplo de conceito humano abstracto>, logo estão errados / Deus existe!”

2- “Esse vosso ateísmo não passa de uma fase de rebelião, já que, lá no fundo, toda a gente sabe que Deus existe.” (parecido com esta entrada, mas não é bem a mesma coisa; o foco aqui é o “lá no fundo toda a gente sabe”).

3- “‘Ateu’? Não queres dizer agnóstico? Ateísmo não implica uma certeza dogmática sobre algo que não podemos saber? E não é melhor ser-se só agnóstico, ‘just in case’?”

 
Mais uma vez, se 1) como crentes, tiverem alguma questão que eu não tenha abordado no FAQ, ou 2) como ateus, se lembrarem de questões postas por crentes em conversas convosco, é só comentarem aqui.

EDIT: mais um:

4- “Os ateus hoje em dia são tão militantes e fanáticos como os crentes!”


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