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Arquivo da Categoria ‘Estados Unidos da América’

A “Ground Zero Mosque” e a tirania dos “sentimentos”

Quarta-feira, 18 de Agosto, 2010

(aviso: este post é um pouco mais informal e “irritado” do que o habitual; começou por ser uma sequência de comentários no Facebook, e escolhi manter a “crueza” deles aqui. Só o “P.S.” é que é novo.)

A história da “mosque” no mesmo bairro do sítio do 11 de Setembro, com os sentimentos feridos destes, e as emoções magoadas daqueles, e tudo o resto… Desculpem o que vem a seguir, mas, porra, FODAM-SE OS SENTIMENTOS!

Já estou farto de ver “os meus sentimentos” ou “os sentimentos destes ou daqueles” como desculpa para exigir leis ou políticas para um estado ou um país, como desculpa para não cumprir a lei existente e sair impune, e como desculpa para oprimir outros. Como se “sentimentos feridos” tornassem algo ou alguém automaticamente certo e incriticável. Aos americanos (e não só) que se opoem a algo perfeitamente legal e legítimo porque isso lhes “fere os sentimentos”… CRESÇAM UM BOCADINHO, ok?

E, sim, isto vem de tudo o que tenho lido na última semana sobre o assunto, mas a “gota de água” foi ouvir uma pessoa — portuguesa! — dizer que concordava inteiramente com a oposição à “mosque”, porque num caso como este estamos a falar de emoções feridas, e por isso o que é legal ou não — e o que é ético ou não — é irrelevante.

Uma atitude destas mete-me nojo a todos os nívels, e só me dá vontade de responder mencionando onde este tipo de pessoas pode ir meter as suas preciosas “emoções” — feridas ou não.

P.S. – e há muito que me irrita esta ideia, pelos vistos aceite pela maioria da sociedade, de que sentimentos e emoções são as coisas mais importantes do mundo, e que qualquer posição ou acto (incluindo uma eventual atrocidade) é aceitável — e incriticável –, bastando para isso que o autor diga “eu sinto isto muito“.

História: a relação entre o Cristianismo e a democracia

Segunda-feira, 9 de Agosto, 2010

Gostei muito de ler este artigo.

O irónico é que eles (igrejas / denominações Cristãs) “suportam” a democracia nas poucas vezes que lhes convém, como na questão do casamento homossexual na Califórnia. Para quem não sabe a história, houve um referendo (na mesma altura das últimas eleições presidenciais, em 2008) para proibir o casamento homossexual nesse estado, e depois de uma campanha de mentiras muito bem financiada pela Igreja Católica e pelos Mórmons de Utah, a proibição ganhou com 52% dos votos… para agora um juiz federal determinar (e muito bem) que tal proibição é 100% anti-constitucional, é uma maioria a tirar direitos a uma minoria, e essa maioria nunca explicou apropriadamente como é que a proibição serve o bem público — criam slogans como “Protect Marriage”, mas quando — em pleno tribunal — o juiz lhes pergunta do que é que o casamento está a ser protegido, não sabem responder. Mas, com isto tudo, vêm agora reclamar que “a vontade do povo” não está a ser respeitada, que o juiz é “anti-democrático”, e afins.

Que hipocrisia suprema, considerando (ver o link inicial) como eles trataram a “democracia” ao longo da história…

Porque é que a América é tão religiosa?

Quinta-feira, 25 de Março, 2010

Esta é uma pergunta à qual muita gente já tentou responder, e agora é a minha vez de dissertar um pouco sobre o assunto. Afinal, para bem e para mal, os EUA são não só a única superpotência nos dias de hoje, mas também são o país mais influente do mundo, e o que acontece lá inevitavelmente influencia o resto do mundo, de uma forma ou de outra. Além disso, grande parte da cultura que “consumimos” (cinema, música, literatura, etc.) vem de lá.

Para quem não saiba, os EUA são — de longe — o país de “primeiro mundo” mais religioso do mundo; em geral a religiosidade de um país é inversamente proporcional ao desenvolvimento, à riqueza e ao acesso à educação no mesmo. Os Estados Unidos são a excepção, como este gráfico (fonte) mostra:

Relação entre a religiosidade e a riqueza dos diversos países

Reparem que a posição dos EUA “está a destoar” ali; tem a religiosidade que seria de esperar num país muito mais pobre e menos desenvolvido. Porque é que é assim?

Há duas explicações em geral sugeridas, e penso que a realidade é uma combinação de ambas. A primeira é que, ao contrário da maior parte dos outros países de “primeiro mundo” (Europa, Japão, etc.), os EUA não têm nem nunca tiveram uma religião oficial. Os “founding fathers” tiveram cuidado em prevenir precisamente isso — a famosa “separação entre igreja e estado” –, e é por isso que os EUA não são “um país Cristão”, pelo menos em termos oficiais, apesar de terem uma proporção de Cristãos praticantes bem maior do que, por exemplo, Portugal — oficialmente um país Cristão (na variante Católica), mas em que a esmagadora maioria do povo é não-praticante.

Isto parece contraditório, não parece? Um país fica mais religioso por não ter (nem nunca ter tido) religião oficial? Não seria de esperar o contrário?

A questão é que uma religião oficial provoca complacência, provoca conforto, torna a religião mais uma tradição que as pessoas têm, do que algo a ser levado realmente a sério.1 Em resumo, cria não-praticantes, exactamente como temos em Portugal, ou como é o caso na Inglaterra. Assume-se que toda a gente pertence à religião X (Católica, Anglicana, etc.) à nascença (ou no baptizado), e não se pensa muito mais nisso; os próprios baptizados, bem como os casamentos na igreja, são mais algo que se faz por tradição do que outra coisa (lembro-me de ir a um baptizado na família em que, estando a igreja cheia, provavelmente não havia lá nenhum crente abaixo dos 60…).

Ao invés disso, num país como os EUA, as várias religiões têm, e tiveram desde o início, de competir entre elas, aperfeiçoando ao longo das décadas os seus métodos de conquistar aderentes e de despertar paixão — em muitos casos, eu até diria fanatismo — neles. É uma espécie de evolução Darwiniana (ironicamente em quem em grande parte rejeita a realidade da mesma): as religiões que conseguiram sobreviver até hoje num ambiente tão competitivo são muito eficientes a angariar membros, e a fazê-los levar a coisa a sério.

A segunda causa é a seguinte: apesar de os EUA serem um país “rico”, os americanos são um povo que, na sua esmagadora maioria, vive com medo. Não vou entrar aqui em opiniões políticas, mas, devido ao seu conservadorismo e ao facto de serem um país muito mais “de direita” do que a maioria da Europa, os americanos são por natureza adversos a sistemas de segurança social (refiro-me aqui ao conceito, e não à Segurança Social (em maiúsculas) como serviço ou organização); uma pessoa pode muito mais facilmente ser despedida, sem “justa causa” ou indeminizações razoáveis (excepto no caso de executivos, é claro), e a qualquer momento uma pessoa pode perder tudo por causa de uma doença. E, repare-se, estou a falar da classe média, de famílias com casa e carro, não me estou a referir à verdadeira pobreza.

Sem contar com os verdadeiros “ricos”, a maior parte dos americanos vive com consciência de que pode perder tudo a qualquer momento, e por causas completamente fora do seu controlo. É natural que, vivendo sempre com certo nível de medo, incerteza e stress, as pessoas procurem segurança nalgum lado… e a ideia de uma divindade que se importa connosco, que “tem um plano para nós”, que estará lá sempre para nós mesmo que tudo o resto corra mal, é muito tentadora… e muito reconfortante.

Já dizia o vilão de “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco: sem medo, as pessoas não precisam de Deus (daí todo o “plot” para encobrir a existência de um livro de Aristóteles sobre a comédia, já que nada anula tão bem o medo como o riso). Talvez seja por isso que os elementos mais religiosos nos EUA — basicamente, o partido Republicano — se tenham sempre oposto a todo e qualquer tipo de segurança social — a Segurança Social propriamente dita em 1935 (introduzida por Franklin D. Roosevelt), o sistema Medicare em 1965 (de Lyndon B. Johnson), e agora a renovação do sistema de saúde (de Barack Obama; todos eles Democratas). Sem dúvida que grande parte da oposição é política, no sentido de prejudicar o governo Democrata de forma a este ser culpabilizado pelos problemas do país e os Republicanos ganharem votos, mas também se pode argumentar que uma sociedade em que haja muito mais segurança e estabilidade, em que as pessoas saibam que se caírem há uma “rede” que as segura, que nunca se vão totalmente abaixo e que não estão todos os dias da sua vida em risco de perder tudo aquilo pelo que trabalharam a vida inteira, é uma sociedade que “precisa” muito menos de “Deus”, e que por conseguinte terá tendência para se tornar menos religiosa com o tempo.

Aliás, é isso que eu espero que aconteça. 🙂 Daí ter ficado contente pelo sucesso — até agora — da reforma do sistema de saúde nos EUA, que tudo indica ir mesmo para a frente.

E se esta ideia — que não sou eu o primeiro a sugerir — estiver correcta, então o gráfico acima pode-se interpretar de outra forma, na qual os Estatos Unidos já não são uma excepção “estranha” à regra. A proporção inversa não é entre a religiosidade e a riqueza / desenvolvimento, mas sim entre a religiosidade e a segurança que se tem em relação à vida. Insegurança implica medo implica mais religião. Logo, esperemos que mais segurança implique menos religião, no futuro.

  1. um pequeno à-parte: em conversas com amigos e conhecidos portugueses — tanto crentes como ateus — noto frequentemente uma grande dificuldade em acreditar / conceber a forma como os americanos levam a religião a sério; ouço comentários como “sim, eles dizem isto e aquilo, mas não acreditam mesmo no que estão a dizer, pois não?” Era bom que assim fosse… []

Paródias de placards de igrejas nos EUA

Quinta-feira, 11 de Março, 2010

Fiz isto em 2007, para outro blog, usando o Church Sign Generator. Acho que se mantêm actuais. 🙂

God exists because the Bible says so. Do you doubt the word of God?

Eating shrimp is an abomination -- put them to death! Leviticus 11:9-12

All your base are belong to us. You are on the way to destruction.

In Soviet Russia, God prays to you!!

E se os acham absurdos demais (pelo menos os primeiros dois, já que os seguintes têm mais a ver com cultura popular internetiana do que religião propriamente dita), dou-vos dois exemplos reais que não são propriamente mais “sãos” do que os acima: um aqui, e outro no Portal Ateu.

Ateus: a minoria mais detestada nos EUA

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

The Atheist - Godless Atheists threaten Christian civilizationQuem vive em países maioritariamente compostos por crentes “não praticantes”, como é o caso de Portugal, provavelmente não faz qualquer ideia do que acontece num certo país, que não é o Irão, a Arábia Saudita ou o Afeganistão, mas sim os Estados Unidos da América. Uma nação supostamente laica, que, ao contrário da maioria dos países da Europa (todos?), não tem sequer religião oficial, estatal… e, no entanto, a religiosidade — maioritariamente Cristãos Protestantes, mas há de tudo — é a mais alta entre países de “1º mundo”, e inquérito após inquérito continua a demonstrar que os ateus — cerca de 10% do país — são a minoria mais odiada, mais considerada “anti-Americana” e mais considerada não confiável. Um candidato (assumidamente) ateu a qualquer cargo político é virtualmente inelegível, e ateus sofrem discriminação na escola, no trabalho e nas próprias vizinhanças — por vezes chegando a vandalismo e violência física.

Mas não vão pelo que eu digo (afinal, nunca lá estive, apesar de ler diariamente blogs e notícias de lá), vão pelo que Mike Clawson (blog), um Cristão (liberal, daqueles que não dizem que Deus odeia gays e que os não-Cristãos vão todos ser torturados eternamente depois da morte, mas Cristão na mesma), escreveu numa tese (link para o Google Docs) que fez para o seu seminário, sobre a situação dos ateus nos EUA. São umas 20 páginas, mas o texto é em letras relativamente grandes e bastante espaçado, pelo que se lê facilmente em menos de 5 minutos.

A sério, vale a pena.

Depois pensem, se quiserem, um pouco sobre a legitimidade de discriminar, ostracizar, demonizar, insultar constantemente e maltratar — às vezes chegando à violência — uma parte significativa da população simplesmente por não terem as mesmas crenças do que eles. E pensem também no que isso diz sobre a “superior” moralidade Cristã.

O facto de ter sido um Cristão a escrever aquilo, e tê-lo feito depois de falar com ateus no blog Friendly Atheist (tipicamente, isso não acontece — como ele diz no texto, crentes dizem — mesmo na TV — impunemente barbaridades sobre ateus, sem haver sequer um destes presente para poder responder), é no entanto um alívio reconfortante: é possível Cristãos ultrapassarem os seus preconceitos — e grande parte da “moralidade” da Bíblia, também. É um princípio…

(via: Friendly Atheist)

Americanos e o serviço militar: “Gays e lésbicas sim, homossexuais não.”

Sexta-feira, 12 de Fevereiro, 2010

Se estás a pensar que o título não faz sentido, dêem um doce ao rapaz. 🙂

Gays e lésbicas sim, homossexuais não

Porém, é isso que se pode deduzir das respostas a um inquérito recente (visto aqui): se a pergunta mencionar “gays e lésbicas” em vez de “homossexuais”, a taxa de aceitação passa de 44% para 58%.

Os comentários no link anterior também são interessantes. Um sugere uma explicação:

“Homosexuals” has the word “sex” in it. Josh, sex is bad. Unless you’re married, then it’s tolerable (as long as birth control isn’t involved).

E outro diz algo que eu já disse aqui por mais palavras (ênfase meu):

My comment just reminded me of something my friend said about the anti-abortion crowd. He said to me that he thought the entire abortion debate was about punishing people (specifically young women) for having sex. Which explains why the focus is on outlawing abortion and not finding ways to reduce unwanted pregnancy.

I think it’s the same when you get into the gay marriage/don’t ask don’t tell debate. Some Americans want to punish people for having sex they don’t understand.


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