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FAQ: “Se não podemos provar a existência ou não-existência de um deus, não faz mais sentido auto-descrevermo-nos como ‘agnósticos’ em vez de ‘ateus’?”

Sexta-feira, 30 de Março, 2012

(Nota aos leitores habituais do blog: como esta questão já foi várias vezes abordada aqui, a maior parte do conteúdo desta entrada do FAQ vem de posts anteriores.)

Por vezes esta pergunta é feita de outro modo: “se não se pode ter a certeza absoluta, então não estarão os ateus a ser tão fanáticos e dogmáticos como os crentes, e não será a única posição racional o agnosticismo?”

A questão aqui é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não afirma nem pensa ter um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus1, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” (ou gnósticos) são os crentes fundamentalistas ultra-fanáticos que nunca tenham quaisquer dúvidas; nem os crentes “normais” (a esmagadora maioria deles) nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima. Sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que foi abordado nesta entrada do FAQ até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”. E, frequentemente, inclui também a insinuação de que “os ateus são tão fanáticos como os crentes”, e que só os agnósticos como ele é que têm uma posição racional.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”2). Da mesma forma, o típico “agnóstico” não tem dúvidas de que amanhã 2+2 continuarão a ser 4, apesar de não o poder provar. Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe” ou “não sei explicar algo que me aconteceu, logo foi Deus“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. É como dizer que, se há imensas evidências para A e nenhumas para B, então A e B são igualmente prováveis. Daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

Por último, há outra possibilidade. Para quem tenha sofrido consequências do fundamentalismo religioso, estará sempre presente na sua memória como tais crentes estavam completamente certos daquilo em que acreditavam, sem alguma vez questionarem essas crenças. Ao escapar de tal fundamentalismo, é natural que se passe a desconfiar da própria ideia de se ter certezas absolutas e dogmáticas, imunes a qualquer facto ou argumento. E, pensará uma pessoa nesta situação, não será o ateísmo simplesmente a outra face da mesma moeda — a “certeza absoluta e dogmática” de que não existem deuses? Não serão os ateus vítimas (ou culpados) exactamente do mesmo erro? Se não temos (e nem devemos ter) uma crença 100% inalterável e perfeita, não fará mais sentido uma pessoa “manter a mente aberta” e descrever-se como agnóstica?

A resposta é “não”, por uma simples razão: há aí um erro de definições. O ateísmo não é a “certeza absoluta e dogmática” de que não existe nenhum deus; é, sim, a ausência de crença em um deus ou deuses. É tratar “deus” como se trata “fadas” ou “duendes”: uma pessoa não precisa de ter estar “absoluta e dogmaticamente” certa de que essas criaturas não existem, basta não acreditar nelas, não ter nenhuma crença nelas.

Não é preciso ter-se um conhecimento perfeito do universo (omnisciência), ou “provas” absolutas da não-existência de um deus, para se ser ateu. Basta o seguinte: escalar as crenças segundo as evidências, o que é de qualquer forma a posição racional a ter-se. Note-se que um crente assumidamente não escala as suas crenças de acordo com as evidências; o que ele faz, pelo contrário, é afirmar que crenças sem evidências (isto é, “fé”) são uma virtude. (Curiosamente, o mesmo crente tipicamente não aplicará isso às crenças de outras religiões, que para ele estarão obviamente erradas…)

Mas para quem prefira, racionalmente, que as suas crenças escalem de acordo com as evidências, é fácil chegar-se ao ateísmo; aliás, é a única conclusão lógica. Zero evidências para algo -> zero de crença nesse algo, e “zero de crença” em um deus ou deuses é a definição de ateísmo. Não é necessária nenhuma fé, nem omnisciência, nem nenhuma certeza “absoluta e dogmática” para chegar a esta posição.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  2. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

FAQ: “Tive uma experiência que me prova que Deus existe.”

Sábado, 23 de Abril, 2011

Aviso: a tua memória dessa experiência é, quase de certeza, algo com o qual tens uma forte ligação emocional, e quaisquer argumentos contra a tua interpretação dessa experiência vão-te parecer um ataque pessoal. Não o são.

Este é um argumento relativamente comum. Há várias variantes possíveis:

  • “na altura pior da minha vida, quando nada parecia fazer sentido e não parecia haver esperança, senti a presença de Deus, o que me inspirou a endireitar a minha vida”
  • “numa altura de despero, pedi ajuda a Deus, e aconteceu algo invulgar demais para ser uma mera coincidência; acredito que foi um milagre”
  • “aconteceu algo que não consigo explicar, que não pode ter sido um fenómeno natural; logo, só pode ter sido um acto de Deus”

Possivelmente, o teu caso será igual ou semelhante a um dos acima (caso não seja, por favor conta-o, num comentário). E, mais uma vez, eu acredito que isto seja algo actualmente “especial” para ti, algo no qual tens um grande investimento emocional. Foi, possivelmente, como estares-te a afogar e sentires alguém a agarrar-te na mão e puxar-te para cima, e até hoje é a memória mais importante na tua vida. Acredites ou não, eu compreendo, melhor do que possivelmente imaginarás, como isto é importante para ti.

Mas também acredito que a realidade deve sempre estar acima de tudo; que devemos corrigir quaisquer crenças erradas que tenhamos, por muito bem que estas nos façam sentir. Estás à vontade para não concordar com isto. É um direito teu não questionares algo que te é confortável. Sendo assim, é melhor parares de ler agora.

Se ainda aí estás… peço-te que comeces por te perguntar o seguinte em relação à tua experiência: como é que sabes que a tua interpretação é a correcta? Suponho que não te aches infalível nem omnisciente, pelo que, sendo assim, te deverás indagar sobre porque é que sabes que o que se passou só pode ter origem “divina”, não sendo possível nenhuma outra explicação. Consideraste mesmo outras hipóteses? Consideraste de forma séria as possíveis explicações naturais antes de passares para uma sobrenatural? E, se não o fizeste, não achas que o devias ter feito?

“Sentir a presença de Deus” num momento de desespero — ou seja, de vulnerabilidade emocional — não é nada único, nem sequer incomum. É uma altura em que as nossas emoções estão ao de cima, e a nossa racionalidade e cepticismo estão ao mínimo; ou seja, é uma altura em que estamos desesperadamente a querer sentir algo, querer sentir uma presença, um toque confortador, sentir que, por muito que o mundo seja frio e cinzento, as pessoas não se importem, e a nossa vida esteja horrível, há “lá em cima” alguém que se importa, e que nunca nos trairá ou abandonará. Entre querer-se, desesperadamente, sentir isso, e sentir-se efectivamente isso, a distância é muito curta, não te parece?

Repara também no seguinte: os crentes de outras religiões têm sensações quase iguais. Até os não-crentes as podem ter, em determinadas situações. Isto sugere fortemente que elas não vêm de um deus específico, mas sim das nossas próprias mentes.

Relativamente a coincidências, elas acontecem frequentemente. A questão essencial, aqui, é esta: nós não nos apercebemos das vezes em que elas não acontecem. A maior parte das superstições surge de algo deste género. Por exemplo, um jogador de futebol faz um jogo bastante melhor do que o habitual, marcando vários golos e afins. No fim do desafio, ele repara no facto de (por exemplo) ter um buraco na meia direita. Imediatamente, essa torna-se a “meia da sorte” para ele. Possivelmente, já fez vários jogos medianos com essa mesma meia, mas ele esquece-se disso. Já terá tido jogos bons sem a mesma, mas não terá isso em mente. No futuro, terá jogos maus com a mesma meia, mas, mais uma vez, não reparará em tal facto. Mas, se voltar a ter um bom jogo com essa meia? “Vêem? A minha meia da sorte nunca falha!”

145.pngEm resumo: a mente humana é péssima a lidar com “coincidências”. A tendência é sempre repararmos nas vezes em que a nossa crença se parece confirmar, e ignorarmos as vezes em que ela é negada.

Por outras palavras: se um dia pediste algo possível a Deus (ex. “estou atrasado para o trabalho; Deus queira que não haja trânsito hoje”) e esse algo efectivamente acontece, lembrar-te-ás disso no futuro. Se não acontecer, esquecer-te-ás; nem sequer pensarás mais nisso. É assim que as nossas mentes funcionam, e não há que ter vergonha disso; mas, precisamente por isso, é bom prepararmo-nos para esses possíveis erros.

Finalmente, relativamente a supostos “milagres” (que não sejam meras “coincidências”, como as descritas acima), talvez o melhor seja descreveres o mesmo num comentário. Mas, mais uma vez, a mente humana é muito fácil de se enganar; visões, alucinações e sonhos “surreais” são do mais frequente que há.

Acrescento ainda que, mesmo que se demonstrasse conclusivamente que algum evento foi efectivamente sobrenatural (o que nunca aconteceu até hoje), daí apenas se poderia concluir que “o sobrenatural existe”. Nunca algo como “Deus existe”, e muito menos “o deus da religião em que fui educado existe”. Da primeira conclusão para as duas seguintes vai um salto bem maior do que provavelmente imaginas, e que não se pode logicamente dar.

Mais uma vez, se tiveste alguma experiência que não se enquadre nos 3 tipos que mencionei, ou que aches que seja possível de provar com factos e lógica (em vez de simplesmente “para mim é assim e pronto”), está à vontade para comentar.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O ateísmo / materialismo não explicam o amor / a amizade / o bem e o mal / a poesia / a beleza / os números irracionais na matemática / <outro exemplo de conceito humano abstracto>, logo estão errados / Deus existe!”

Quarta-feira, 10 de Março, 2010

Esta pergunta é, infelizmente, muito comum; tal como no caso da aposta de Pascal, a maior parte dos crentes põem esta questão com uma atitude de desafio (“responde lá a isto! aposto que não consegues!”), estando visivelmente na ilusão de que a pergunta é original, que o ateu nunca pensou nela, e que vai ser incapaz de lhe responder.

Surpresa: qualquer ateu que se interesse por discutir este tipo de temas pensou nessa questão, e detectou imediatamente vários problemas na mesma.

O primeiro problema é este: trata-se de um argumento da ignorância, já mencionado aqui e aqui. Esse argumento, neste contexto, resume-se a isto: “não sei / não entendo / não estou a ver como, logo foi Deus“. Já se trata de um péssimo argumento quando usado em relação a algo que ainda não é entendido ou explicado pela ciência (ex. a origem do universo), uma vez que não faz sentido que uma explicação sobrenatural ganhe simplesmente “por default”, mas demonstra ainda mais “tolice” quando usado relativamente a algo que já foi explicado e é entendido por muita gente, mas o crente em questão não conhece ou não entende — nem procurou conhecer ou entender — essas explicações. É como alguém nos dias de hoje pensar (como acontecia na pré-história) que uma trovoada é uma discussão entre “os deuses”.

Por outras palavras, é de uma tremenda ignorância — e preguiça intelectual — atribuir emoções ou a capacidade de alguém para o bem (ou o mal) a “Deus” quando podem ser explicadas pela evolução, psicologia, neurologia e filosofia. Mas aprender sobre tudo isso dá muito trabalho, não é?

Um segundo problema é a mentalidade dualista e anti-humana, que diz — e é assim culpada por tanto sofrimento ao longo da história — que tudo o que é profundo, marcante, importante ou “bom” tem de ter uma origem sobrenatural, exterior a nós, de um plano não alcançável pela inteligência e ciência humanas. Tal como a acusação de Keats a Newton por este ter “desvendado o arco-íris” e assim destruído a beleza e poesia do mesmo (como se só houvesse beleza e poesia na total ignorância…), essa é uma mentalidade anti-humana e anti-vida, que nos tira o melhor de nós próprios e diz que este só pode vir de um plano sobrenatural e incompreensível (seja “Deus”, seja qualquer coisa “new age” indefinida), porque se fosse compreendido e explicado em termos puramente humanos perderia assim todo o seu valor.

Isto, desculpem dizer, é absurdo. O amor de uma pessoa por outra não precisa de uma origem ou justificação externa ou sobrenatural para ter valor, para ter poesia e pureza. Pelo contrário, ao afirmarem que essas origens são necessárias, é que lhe estão a tirar valor. Aquilo que eu sinta por alguém — uma namorada, um familiar, um amigo — não precisa de justificação externa, não precisa de vir de um “plano espiritual”, não perde valor por vir “só” de mim — muito pelo contrário, perderia todo e qualquer valor se não viesse de mim, se não fosse meu.

Na verdade, o atribuir de tudo o que há de bom no ser humano a algo “extra-humano” só demonstra uma coisa: um total ódio à humanidade e a si mesmo. Algo bastante comum nas várias religiões populares, “coincidentalmente”.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não percebes nada disto!”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

Nota: estive algum tempo a hesitar entre incluir ou não esta entrada no FAQ; a ideia do mesmo é responder às mais frequentes perguntas ou afirmações razoáveis, e esta afasta-se perigosamente dessa condição. Acredito que tem de haver limites; por exemplo, nenhum FAQ vai incluir respostas a insultos, “bocas” parvas, e coisas do género. Mas onde estabelecer o limite do que é razoável e não é? Bem, ei-lo: é esta entrada. Está no limite — desculpem dizer — da estupidez: algo mais estúpido do que isto será inevitavelmente um insulto que não merece resposta. Para este caso, ainda posso dar o benefício da dúvida.

Outra razão para a incluir é a sua “popularidade” aparente: pelo que tenho visto, tanto aqui como noutros sítios, este é o argumento mais popular e mais comum da parte de quem se opõe ao ateísmo. Como infelizmente não espero que tal deixe de acontecer, sempre passo a ter uma entrada no FAQ que posso “linkar” como resposta.

A minha reacção a essa acusação só pode ser uma: “porquê?”. É que acabaste de dizer exactamente nada.

Dizer a uma pessoa que ela está errada sem justificar essa afirmação é algo que não tem qualquer valor. Não te faz ficar “bem visto”, nem faz o oponente ficar “mal visto”; ninguém com dois dedos de testa vai pensar aquilo que provavelmente querias transmitir, que é que o que a outra pessoa disse é tão absurdo, tão infantil, tão obviamente errado, que nem merece resposta.

Muito pelo contrário, a única ideia que transmite é que discordas mas não sabes lá muito bem porquê. E que lá no fundo tens consciência de que não tens “pedalada” para argumentar com a outra pessoa usando factos e lógica. Isso é bastante cobarde, sabias?

Pior ainda, pode até dar a ideia de que desconfias — ou até sabes — que não tens razão. Mas que não o és capaz de admitir. O que faz de ti uma pessoa desonesta.

Tens, ou achas que tens, argumentos a teu favor? Usa-os. Adoro quando alguém demonstra que estou errado em algum aspecto, em algum ponto. Mas se discordas e não usas argumentos, isso não vale nada.

P.S. – se respondi a um comentário teu com um link para esta entrada no FAQ, bem-vindo a um mundo onde o “porque sim” não funciona. Espero que na próxima vez — assumindo que há uma — digas como e porquê é que estou errado. Tenta. Não será assim tão difícil. 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Estás errado, porque <repetição da crença ou afirmação>.”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

Uma coisa que sempre achei frustrante relativamente à maioria dos crentes que comentam a discordar (aqui ainda houve poucos, mas já passei por muito noutros blogs) é que eles não justificam as suas afirmações, posições ou opiniões. Ou seja, muitas vezes resumem-se a dizer “estás errado” ou “não percebes nada disto” (algo que vou abordar na próxima entrada do FAQ, que deve ser a última por agora), sem especificarem porquê, sem dizerem onde é que supostamente cometi um erro factual ou lógico no que escrevi. E isto é comum noutros blogs de ateísmo; não é só comigo, obviamente.

Uma variante curiosa dessa falta de justificação é quando os crentes em questão se “justificam”… simplesmente repetindo a sua afirmação / posição / opinião inicial (caso tenham sido desafiados a justificar algo que disseram), ou citando algo em que acreditam, sem justificarem isso também. Dizem isso como se fosse um argumento válido e óbvio, como se estivessem a explicar alguma coisa dessa forma. E, obviamente, não estão.

Exemplos desses “argumentos”:

  • “Estás errado, porque Deus existe.” (este é o mais frequente)
  • “Estás errado, porque Deus ama-te.”
  • “Estás errado, porque Cristo é o caminho.”
  • “Estás errado, porque os crentes serão salvos.”
  • “Estás errado, porque eu acredito.”
  • “Estás errado, porque aceitei Jesus Cristo no meu coração.”
  • “Estás errado, porque Deus criou o universo.”
  • “Estás errado, porque Deus criou o Homem.”
  • “Estás errado, porque Deus disse que…”
  • “Estás errado, porque Deus é amor.”
  • “Estás errado, porque Deus é bom.”
  • “Estás errado, porque sou Cristão.”
  • “Estás errado, porque os ateus vão para o Inferno.”
  • “Estás errado, porque o Cristianismo está certo.”
  • “Estás errado, porque Deus prometeu-nos que…”
  • “Estás errado, porque Cristo deu a vida para que sejamos salvos.”
  • “Estás errado, porque <qualquer outra crença da sua religião>.”

Todos estes argumentos podem-se reduzir na sua essência a isto: “estás errado porque estás errado”. O incrível é que continuam a usá-los, como se eles fossem argumentos válidos e convincentes. Mas não passam de lógica circular, ou, em linguagem corrente, argumentos “porque sim”.

Não percebo, sinceramente, como é que alguém pode usar “argumentos” desse tipo e estar à espera de que eles sejam levados a sério…

Um argumento um pouco diferente, mas que acaba por ir dar ao mesmo, é este: “Estás errado, porque na Bíblia diz que…” Não é um argumento directamente circular, já que não diz “isto é assim porque isto é assim”, mas tem um problema: porquê acreditar na Bíblia? “Porque é a palavra de Deus”. Como é que sabes? “Diz na Bíblia”. Pois…

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “E se estiveres errado, e Deus existir? Isso não te preocupa?”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

(Nota: isto não é o mesmo que a pergunta já existente no FAQ, “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”. Essa entrada no FAQ é uma rejeição da Aposta de Pascal; esta aqui é uma resposta à possibilidade remota de que Deus, afinal de contas, exista.)

Esta é uma questão muitas vezes posta por crentes (especialmente Cristãos) a ateus. E se estivermos errados, se Deus afinal existir, e se depois de morrer, como se costuma dizer, nos encontrarmos com o nosso criador?

Primeiro, tenho de dizer que essa não é uma possibilidade que efectivamente me preocupe, já que tenho todas as razões para acreditar que não existe nenhum deus ou deuses. O universo aparenta ser 100% natural, e, se por um lado a ciência está longe de saber tudo, por outro lado não existe nada até hoje conhecido que absolutamente exija uma explicação sobrenatural, e que não possa — nunca — ser explicado em termos naturalísticos. Por outras palavras: uma total ausência de evidências “a favor” é, ela própria, uma evidência forte “contra” (e não é que a humanidade não tenha procurado, nos seus milénios de História), e, por isso, todas as evidências sugerem que o número de divindades no universo é zero.

Segundo, se houvesse um deus, seria mesmo assim virtualmente impossível que as religiões humanas estejam certas. Os seus deuses são pequenos, provinciais, territoriais, infantis, inseguros e tribais. E muito, muito humanos. Têm emoções humanas (incluindo uma boa dose de ciúmes, que por alguma razão neles nunca é visto como uma falha de carácter), têm um “povo escolhido”, supostamente criaram um universo que agora sabemos ser incrivelmente vasto e complexo (o que não se sabia quando as religiões apareceram), mas o nosso pequeno e insignificante planeta ainda é a única coisa que importa no universo — e as nossas vidas físicas neste mundo nem são o que realmente importa. (A ideia de um universo antigo (muito, muito mais do que a humanidade, ou mesmo que o nosso planeta), vasto e incrivelmente diverso, simplesmente como “cenário de fundo” de um teste para determinar se somos salvos ou não… é completamente estapafúrdia.) Os deuses antropomórficos das nossas religiões são tão obviamente criados por humanos, que não podem ser verdadeiros. Se houvesse “lá fora” um deus capaz de criar um universo, ele/ela seria provavelmente demasiado complexo/a para repararmos sequer nele/nela… e ele/ela de certeza que não se importaria connosco, a nossa moralidade, as nossas vidas sexuais 🙂 , nem nos julgaria e criaria lugares para irmos depois da morte. Por outras palavras, se houvesse realmente um deus num sentido cósmico, não nos afectaria de forma alguma — e seria infinitamente maior (e menos “igual a nós mas mais poderoso”) do que as divindades inseguras, birrentas e obcecadas por órgãos genitais 🙂 das nossas religiões.

Terceiro, e se, apesar de tudo o que foi dito acima, mesmo assim houvesse um deus, e ele/ela se importasse connosco, e nos julgasse de alguma forma depois das nossas mortes físicas? Bem, depende dos standards de julgamento. Talvez não se importasse com a nossa moralidade, ou com o facto de ser adorado/a ou não, mas sim com alguma coisa completamente diferente. Não temos forma de saber. Talvez, por exemplo, fosse uma divindade para quem a única coisa importante é tratarmos bem os nossos gatos de estimação (que toda a gente sabe que são divinos).

Mas vamos supor que realmente tal ser se importaria com os nossos actos, a nossa moralidade. Nesse caso, a questão final é: Deus é bom, ou mau? Rejeito desde já as corrupções habituais do significado de “bom”, tais como “aquilo que Deus quiser é por definição bom”. Tem de haver algum standard, além dos caprichos de um ser poderoso.

Desta forma:

  1. um deus bom — o que exclui o tirano inseguro e obcecado pela sexualidade no qual os três monoteísmos acreditam — recompensaria quem tivesse vivido uma boa vida, sendo em geral “fixe” para as outras pessoas, e cheio de curiosidade em descobrir e aprender coisas, seguindo as evidências disponíveis até à sua conclusão lógica. As evidências disponíveis não sugerem de forma alguma a existência de um deus, por isso, acreditar num apesar disso não é mais do que “wishful thinking” intelectualmente desonesto, o que não agradaria a tal divindade. Um deus bom recompensaria bons ateus e bons crentes, e puniria maus ateus e maus crentes — mas provavelmente ficaria um bocado decepcionado com a falta de curiosidade e honestidade da parte dos crentes (por outro lado, ele/ela teria também de se explicar — porquê esconder-se e criar o universo de forma que este implique a sua não-existência?). Um deus bom não seria inseguro ou imaturo, e não precisaria de, desejaria ou se importaria com a questão de ser adorado, ou qualquer outro tipo de massagens ao ego. Desta forma, não tenho qualquer medo de um deus bom.
  2. um deus mau — tal como Yahweh ou Alá (e se não concordas comigo, não andas a ler os teus livros sagrados, e estás a inventar “Deus” tu próprio) — seria em grande parte como um ditador brutal num regime totalitário. Ninguém está a salvo desse monstro; não vale a pena esperar justiça ou um tratamento previsível, imparcial e justo. Ele possui-te, és propriedade dele: um escravo, nada mais. “Dar-lhe graxa” pode resultar por algum tempo, mas ele pode sempre torturar-te ou matar-te por um capricho, porque, para ele, não és um ser humano com emoções, és uma ferramenta para usar, um brinquedo para brincar. Mesmo assim, “dar-lhe graxa” — isto é, adorá-lo, viver a vida em função dele, e obedecer-lhe cegamente, não importa o sofrimento causado a outros — será provavelmente a opção mais segura. É claro que tal opção, por outro lado, fará de ti um cobardezinho nojento, sem qualquer integridade moral. Esse deus é o tipo de ser que realmente criaria dois lugares para irmos depois de morrer — um para tormento eterno, o outro para lhe darmos ainda mais “graxa”. A única coisa moral a fazer na presença de tal monstro, ao sermos condenados por termos a moralidade que ele não tem, seria cuspir-lhe na cara, como acto final de desafio.

Felizmente, não acredito na existência de nada do que foi acima descrito. E isso só me faz sentir livre e vivo. 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Quem desdenha quer comprar; se criticas tanto a religião, provavelmente acreditas ou gostavas de acreditar!”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

Sem dúvida. Quem se opõe a algo é porque secretamente apoia ou cobiça esse algo. Tal como uma pessoa que participe em campanhas contra o analfabetismo no fundo, lá bem no fundo, gostava de não saber ler. Faz todo o sentido!

Next question. 😉

P.S. – não te armes em “psicólogo de bancada”, só te fica mal.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês ateus são tão fanáticos e dogmáticos como qualquer crente. ‘Acreditam’ no ateísmo, e nada vos faria mudar de ideias.”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Tal como em “O ateísmo não passa de mais uma religião!“, a acusação no título desta entrada usa conceitos como “religião”, “fé” ou “crença” como um insulto, o que acaba por ser uma admissão de que o acusador reconhece que a racionalidade está a um nível superior à religião, e tenta reduzir o ateísmo a apenas mais uma destas últimas. Dá que pensar.

Para esta entrada, como não acredito em “reinventar a roda”, vou fazer uso de um artigo de Adam Lee, The Theist’s Guide to Converting Atheists. Parte das ideias que vou usar vêm de lá, parte são minhas.

Primeiro, começo por devolver a pergunta / acusação: o que é que te faria a ti, ou a qualquer crente que conheças, convencer-se de que a sua fé está errada e que Deus não existe? A não ser que sejas um num milhão, aposto que a resposta será algo do género de “nada; eu tenho fé no meu Deus”, ou “nada; eu acredito e pronto”. Isto é ser dogmático; curiosamente este tipo de atitude encontra-se mesmo nos crentes mais liberais, os chamados “não praticantes”; mesmo que a religião não afecte realmente em nada as suas vidas, que nunca ponham um pé numa igreja excepto em baptizados, casamentos e funerais, mesmo assim reponderão à pergunta “o que te convenceria de que estás errado” com um “nada”. Ou seja, ao contrário do que seria de esperar, não é preciso ser fundamentalista para ser dogmático e irracional, para ter crenças “invulneráveis” à realidade (muitas vezes pelo simples facto de serem confortáveis).

E se és dos tais “um num milhão”, e tens efectivamente uma resposta para essa pergunta, o mais provável é que não fiques crente por muito mais tempo (e não, não quero dizer que seja por leres este blog; é, sim, porque depois de se abrir a porta à racionalidade, é muito difícil voltar a fechá-la).

A diferença entre um ateu e um crente típico, aquilo que faz com que não sejamos dogmáticos, que não “acreditemos” simplesmente no ateísmo “e pronto”, é que somos capazes de responder à pergunta. Vou aqui usar uma versão resumida do artigo acima linkado, já que concordo com tudo o que o autor diz ali.

Categoria 1: coisas que me convenceriam de que Deus existe

  • Profecias concretas, correctas, e de origem verificável. Isto exclui:
    • Profecias vagas, abstractas e com inúmeras interpretações possíveis (ex. Nostradamus).
    • Profecias triviais (ex. “no próximo inverno vai estar frio” ou “esta seca eventualmente passará”).
    • Profecias “obrigatórias” (ex: qualquer “profeta” a trabalhar para um rei não vai, de certeza, prever que ele vai ser um cruel tirano, mas vai elogiá-lo — e algum rei no meio de muitos vai realmente ser um bom governante).
    • Profecias “auto-cumpríveis” (isto é, a existência da própria profecia faz com que a tentem concretizar por acharem que é essa a vontade de Deus; ex. a Bíblia dizia que os Judeus voltariam eventualmente a Israel, e eles realmente voltaram… para seguir a Bíblia).
    • Profecias que possam ter sido feitas depois de o evento acontecer (isto é, não seja possível provar que a profecia é anterior ao evento).
    • Profecias cujos eventos não sejam independentemente confirmáveis, e possam ter sido relatados precisamente para condizer com as profecias (ex. os autores dos Evangelhos tinham acesso às profecias do Antigo Testamento sobre o Messias, e podem ter inventado eventos na suposta vida de Jesus para condizer com elas).
    • Profecias que sejam o único sucesso entre mil fracassos; qualquer um pode prever e prever e prever coisas até que uma esteja correcta.
  • Conhecimento científico nos livros sagrados que não estivesse disponível na altura (de forma concreta e clara); coisas que podem ser interpretadas assim de forma muito “rebuscada” não contam.
  • Milagres reais, especialmente se obtidos a partir de oração. Note-se que coincidências não servem de exemplo, a não ser que realmente aconteçam de forma repetida e repetível. Por exemplo, se só ateus fossem atingidos por relâmpagos, ou se crentes se curassem de doenças com muito mais frequência, incluindo doenças incuráveis e membros amputados.
  • Manifestação directa e incontestável do “divino” (coisa que acontecia muito na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, e a multidões, não apenas a uma pessoa, o que poderia ser explicável em termos psicológicos).
  • Extraterrestres exactamente com a mesma religião.

Categoria 2: coisas que me inclinariam nessa direcção, mas não constituiriam por si só uma prova

  • Um livro sagrado genuinamente perfeito, consistente e sem erros ou contradições.
  • Uma religião sem disputas internas ou múltiplas facções.
  • Uma religião cujos aderentes nunca tenham cometido atrocidades.
  • Uma religião que tenha ganho todas as suas “guerras santas”.

E, finalmente,

Categoria 3: coias que não me convenceriam, de forma alguma

  • Falar em “línguas” ou outros pseudo-milagres, seja por serem explicáveis psicologicamente (ex. estados emocionais extremos), seja pela nossa tendência a ver padrões onde eles não existem (ex. a “cara de Jesus” numa torrada).
  • Histórias pessoais de conversão (incluindo da parte de ex-ateus; toda a gente pode ter um momento de fraqueza em que se deixa levar pelas emoções — sobretudo o medo — e “wishful thinking”).
  • Experiências subjectivas (ex. “sinto Deus no meu coração”).
  • “Códigos da Bíblia” e outras brincadeiras com numerologia.
  • Criacionismo e outras pseudociências.

Mais uma vez, desafio qualquer leitor crente a dizer o que é que te convenceria de que não existe qualquer deus e os ateus estão correctos… se fores capaz.

E se não fores, considerando que os ateus são, diz-me outra vez quem é o “dogmático”. 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Mas se Deus não existir, e não persistirmos depois da morte, qual é o sentido disto tudo?”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Se realmente puseste a questão dessa forma, parabéns — é um enorme progresso em relação ao “wishful thinking” desta pergunta. 🙂 É muito mais racional e adulto dizer “se for assim, como é que fazemos?” do que dizer “não pode ser assim, porque se fosse, seria mau”. A “desejabilidade” de algo não afecta a sua veracidade.

Respondendo à pergunta, então…

Sempre achei estranha a ideia de que uma coisa com fim não tem valor. No resto da vida, em geral não agimos assim; conseguimos apreciar um bom livro ou um bom filme apesar de sabermos que inevitavelmente acabam. Porque é que a vida há de ser diferente, e perder todo o seu valor pelo simples facto de ser finita?

Pode-se, aliás, argumentar que é precisamente o facto de a vida ter um fim que a torna preciosa, única e insubstituível. Por outras palavras, ninguém que considere a vida “uma passagem” ou “um teste” ou “uma de muitas” (no caso de crentes na reincarnação) pode alguma vez dar tanto valor à vida como quem acredite que ela é a única que temos, e terá um fim — um ateu.

A vida pode ser finita, e ser um mero instante de um ponto de vista cósmico, mas não é um instante para nós. Enquanto estamos vivos, temos um mundo inteiro para descobrir, inúmeros factos para aprender, ciências para explorar, arte para saborear ou criar, pessoas para conhecer, relações para viver. Pôr de parte tudo isso simplesmente porque não será para sempre é de uma cobardia extrema, é medo de viver.

Que sentido há para a vida, de um ponto de vista ateu? Viremos a pergunta ao contrário: qual é o “sentido de vida” que um crente pode ter e que está fora do alcance de um ateu? Eu só vejo um: Deus (seja real ou fictício). Servir Deus, adorar Deus. Basicamente, viver em função de outro ser — ou seja, ser um escravo, mesmo que contente com a escravatura. Não, obrigado. Felizmente, muitos crentes — os não fundamentalistas — criam outros sentidos para as suas próprias vidas, em vez de se contentarem em ver-se a eles próprios como ratos num labirinto que não entendem nem podem alguma vez entender, como qualquer fundamentalista faz.

Mas, então, o quê? Bem, não posso dar um sentido à vida de ninguém (e fujam de quem vos disser que vos pode dar um — está a mentir), mas o que posso dizer é isto: nós criamos um sentido para as nossas vidas. Ele não vem de fora — caso viesse, seria um sentido “em segunda mão”, o que não passa de uma fuga cobarde à responsabilidade de ser um ser humano pensante e vivo. Viver é a maior das aventuras, e só o fazemos uma vez… o que é uma sorte na qual não pensamos, em geral. Citando Richard Dawkins1 em Unweaving the Rainbow (tradução minha):

Vamos morrer, e isso faz de nós os sortudos. A maior parte das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas que podiam potencialmente estar aqui no meu lugar mas que na verdade nunca vão ver a luz do dia são mais do que os grãos de areia no Sahara. De certeza que estes fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos isto porque o conjunto de pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA ultrapassa em muito o conjunto de pessoas efectivamente nascidas. Na realidade destas assombrosas probabilidades somos tu e eu, na nossa mediania, que aqui estamos.

Esta é a única vida que tens. É finita; lida com isso. E faz dela alguma coisa de jeito.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. com esta, são 2 vezes que o cito neste FAQ… vamos ver quanto tempo demoram a insinuar que o “adoro” como se fosse um deus. 🙂 []

FAQ: “Deus ama-te!”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

A ideia dessa exclamação é em geral esta: “Deus ama-te, e tu não só o rejeitas, como te recusas sequer a admitir a sua existência!? Que ingratidão! Como é que és capaz?” Chantagem emocional, portanto.

A resposta óbvia é a habitual: “como é que sabes?”. Ou seja, sem evidências, não há razão nenhuma para acreditar naquilo que a outra pessoa me está a dizer, e muito menos para me “sentir culpado” pela minha suposta ingradidão e insensibilidade.

Mas há outra maneira de responder a essa quase-acusação: de certa forma, isso favorece a minha posição.

Se me dissesses “Deus existe, mas está-se nas tintas para ti e para todos nós”, a não-existência dele não seria tão óbvia (se bem que ainda haveria diversos argumentos contra a mesma, começando, mais uma vez, com a pergunta “como é que sabes?”). Mas ao dizeres que ele “me ama”, ou “ama toda a gente”, estás só a demonstrar que não só ele não “me ama”, como quase de certeza não existe… e ainda bem. Ao dares-lhe essa característica, estás a tornar ainda mais improvável a sua existência, a dar-me argumentos contra ela — como se o facto de não haver evidências da mesma não fosse já suficiente.

Por outras palavras, um deus que “me ama” e se esconde é ainda menos provável — e mais difícil de acreditar em — do que um deus para quem eu sou totalmente indiferente (se é que ele sabe que eu existo).

Sabes, é que “amor” não é algo que se sente apenas à distância, sem fazer qualquer tentativa de contacto. Se sinto “amor” por alguém — seja amor romântico, fraternal, de grande amizade, etc. –, quero em geral estar e conviver com esse alguém. Nunca me passaria pela cabeça ser tão doente que, em vez de procurar o contacto, nunca me revelasse, mas enviasse tipos de ar duvidoso a casa da pessoa “amada” para lhe dizerem que existo e a amo, mas que ela nunca me vai poder ver directamente, e usar a crença ou não-crença na minha existência como indicador do seu amor por mim.

“Amor” — mesmo que seja o que se sente por um familiar ou um grande amigo, por alguém com quem nos importamos e a quem desejamos o mellhor possível — não é isso. Pelo contrário, o tipo de “amor” que atribuis ao deus em que acreditas é das coisas mais doentias, mais manipuladoras e mais abusivas que já ouvi.

E não adoraria — nem sequer respeitaria no sentido mais básico da palavra — um sádico doentio desses, mesmo que ele existisse. Felizmente, as razões para acreditar em tal criatura continuam a ser nulas.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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