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Arquivo da Categoria ‘Fé’

FAQ: “Independentemente de Deus existir ou não, a igreja faz bem ao mundo, certo?”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Infelizmente, os factos sugerem o contrário.

Primeiro: relativamente à “igreja”, vou aqui incluir não só a igreja Católica, mas também as igrejas Protestantes em geral (muito influentes nos EUA), e as teocracias Muçulmanas.

Segundo: é importante distinguir os crimes feitos pela religião / igreja, ou por causa delas, ou em nome delas, de crimes feitos simplesmente por religiosos (ou mesmo membros dessas igrejas). Por outras palavras, não culpo o Cristianismo pelo Holocausto apesar de Hitler ter sido Católico, nem culpo a religião ou a própria igreja Católica directamente pela pedofilia dos padres — não há nada nem nos livros sagrados nem nos “estatutos” da igreja que leve a cometer tais crimes. Mas culpo a igreja em questão por dar muito mais importância à sua reputação do que à inocência e à vida de crianças inocentes, protegendo da lei os padres pedófilos e impedindo que estes sejam punidos pelos seus crimes, e movendo-os de paróquia em paróquia quando os seus actos são descobertos localmente. E, sim, culpo a igreja Católica por ter suportado em vários aspectos o regime Nazi.

Terceiro, não vou incluir aqui crimes limitados ao passado, como a Inquisição ou as Cruzadas. Faço notar apenas que a igreja Católica deixou de cometer essas atrocidades apenas quando perdeu o poder absoluto que tinha, e não por ter chegado à conclusão de que aquilo era errado e imoral. Acho que isso diz muito.

Quarto, reconheço que não é tudo mau — as várias igrejas / religiões fizeram e fazem efectivamente actos de caridade, sem dúvida louváveis, tanto em pequena como em grande escala. Qualifico isso, no entanto, com o facto de que muitas vezes trata-se mais de uma forma de espalhar a fé do que de caridade “desinteressada”, e, de qualquer forma, a religião está longe de ser necessária para se cometer actos de bondade humana.

De qualquer forma, acho que o balanço é completamente negativo.

Qual é, em termos humanos, o problema com a religião / igreja hoje em dia? Estes, para começar:

  • sexismo: desde os casos extremos nas teocracias Muçulmanas, em que as mulheres não têm acesso (sob pena de morte) a qualquer educação escolar, são elas próprias condenadas se forem violadas (muitas vezes não acontecendo nada ao violador), são demonizadas como seres “sexuais” que “tentam” os homens (inocentes, coitadinhos) e por isso são submetidas ao horror que é a mutilação genital forçada (a ideia é que, se perderem completamente a capacidade de ter prazer sexual, já não vão “seduzir” os homens…), e, fora do Islão, temos toda uma cultura ocidental conservadora que diz que o papel das mulheres é ter filhos e obedecer aos maridos… exactamente como diz na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento.
  • oposição ao uso de preservativos — incluindo através de mentiras, como “aumentam o risco de Sida” –, provocando o sofrimento e morte de milhões em África, por exemplo, já que em muitas zonas não há nenhuma fonte de informação além dos missionários. Seja por questões religiosas (“Deus odeia contraceptivos e/ou sexo por prazer”), seja por questões mais mundanas (aumentar ao máximo o número de crentes), este acto de quase genocídio é um crime imperdoável.
  • oposição (não se limitando a não o fazer eles próprios, mas tirando sempre que possível direitos aos outros) ao aborto, direitos dos homossexuais (vistos como um “mal moral”) e eutanásia
  • oposição à educação sexual — paradoxalmente, a melhor forma de reduzir o número de gravidezes indesejadas, e, por conseguinte, abortos.
  • visão do sexo (parte perfeitamente natural e saudável do que é ser-se humano) como algo “porco” e “imoral”.
  • oposição — por razões que não passam de superstição — a ramos promissores da medicina, como a investigação em células estaminais, clonagem de órgãos, etc..
  • guerras e ódios de origem religiosa — nem todos no Médio Oriente (ver Irlanda, por exemplo)
  • protecção dos padres pedófilos, que muitas vezes são simplesmente movidos de uma paróquia para outra, quando os seus actos se tornam conhecidos, demonstrando a total ausência de preocupação com as vítimas deles.
  • censura a oposições à religião, mesmo por não-crentes da mesma, devido à ideia de que a religião está acima de qualquer crítica (ex. a condenação pela parte de Cristãos (!) e até ateus (!!) à publicação dos cartoons de Maomé, quando a única condenação devia ter sido aos Muçulmanos que praticaram violência e intimidação).
  • crianças traumatizadas por descrições ultra-detalhadas do inferno.
  • atitude anti-intelectualismo, anti-educação e anti-ciência (por exemplo, a ideia de que se a razão e a fé entram em conflito, se deve preferir a fé, que a razão humana não é de confiança, e assim por diante).
  • anulação da curiosidade humana, por se dizer / achar que se tem todas as respostas (nem que estas sejam simplesmente “foi Deus”).
  • mentalidade de “morte em vida”, que diz que esta vida é só sofrimento e não é “the real thing”, que o nosso tempo neste mundo não passa de um teste para determinar a salvação ou não da nossa “alma”, que a vida a sério começa depois de morrermos, fazendo com que as pessoas aceitem a sua condição e não tentem melhorar o mundo em que vivem.
  • actos de violência e terror – sobretudo nas teocracias Muçulmanas, em que a “blasfémia” (“um crime sem vítima”, como já foi descrita) e a apostasia são punidas com a morte, mas também em países como os EUA, em que terroristas Cristãos explodem clínicas de aborto, assassinam médicos que trabalham nas mesmas, e não só.
  • mutilação do conceito de moralidade para passar a significar simplesmente “obedecer aos caprichos de um ser” — como se esse ser, caso existisse, estivesse acima da moralidade.
  • não-pagamento de impostos, tratando-se de algumas das organizações mais ricas do mundo, e estando a economia mundial como está.

FAQ: “Para dizer que não existe nenhum deus, é preciso tanta fé como para acreditar num.”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Transformando a acusação numa pergunta (já que isto é um FAQ): não somos omniscientes, não temos meios de olhar para todo o universo. Como é que podemos afirmar com certeza que não existe um deus em todo o universo, sem recorrer à — ou seja, crença sem evidência a suportá-la?

De certa forma, a resposta depende daquilo que queres dizer com “deus”. Referes-te “àquele” deus específico, ou a “qualquer” deus, de forma indefinida?

Considerando a língua em que este blog é escrito e a minha localização geográfica, é bem provável que, quando te referes a “deus”, queiras dizer o deus Judaico-Cristão, Yahweh, tal como descrito na Bíblia. Se é assim, posso responder a isso facilmente: precisas de fé para dizer que Odin não existe?

De certeza que não. Não tens razão nenhuma para acreditares em Odin, nem vês nenhuma evidência da sua existência. Além disso, Odin e os outros deuses nórdicos são claramente antropomórficos; isto é, são exactamente como humanos, mas “maiores” e mais poderosos. Têm as mesmas emoções, tipos de personalidade e desejos que os humanos. É seguro dizer que foram inventados pelos antigos Vikings.

A questão é que tudo isso adapta-se ao teu deus, também! A forma como Yahweh é retratado é com uma personalidade absolutamente humana — e com os vários defeitos humanos, também, como ciúmes, “birras”, e “embirrações” com coisas perfeitamente inofensivas, como certos tipos de alimentos, ou actos que não prejudicam ninguém. Para não falar do facto de só conseguir “perdoar” a humanidade depois de um sacrifício de sangue — mais uma vez demonstrando uma moralidade e desejos completamente primitivos e barbáricos, mas muito comuns no início da História. A explicação óbvia é que humanos primitivos transpuseram os seus desejos primitivos para um deus que inventaram. E Jesus Cristo é um aglomerar de mitos já existentes na altura (Mithras, etc.), que já tinham histórias praticamente indistinguíveis (nascidos de uma virgem, mortos e ressuscitados depois de 3 dias, etc.).

Além disso, há vários argumentos lógicos contra a existência de uma entidade omnipotente, omnisciente e “boa”, como o deus Judaico-Cristão. Por exemplo, o paradoxo da omnipotência (pode Deus criar uma pedra tão pesada que não a consiga levantar?), ou o problema do mal (se deus é todo-poderoso e bom, como é que existe tanto mal no mundo, incluindo muito que não é culpa da humanidade e não pode ser desculpado com o “livre arbítrio”, como por exemplo catástrofes naturais que matam milhares de crianças). O primeiro é logicamente auto-contraditório; o segundo exige desculpas tão labirínticas e “esfarrapadas” que rapidamente a coisa se torna ridícula (sugiro este link para explorar essas desculpas, e respostas às mesmas).

Mas talvez não tenhas querido dizer um deus como esses. Talvez te refiras a algo bem diferente de tudo o que já foi adorado pelo Homem: um ser cósmico vasto, que não criou o universo, mas é o universo. Um ser que, por não ter sido inventado por seres humanos, não tem de todo características humanas (francamente, exigir ser adorado? ciúmes? obsessão pela nossa sexualidade? Como é que alguém pode acreditar nisso?), para quem nem a humanidade nem o nosso planeta insignificante são o centro do universo e a razão do mesmo existir, que provavelmente, mesmo sendo consciente, não está sequer ciente da existência do nosso planeta, e que não está preocupado com trivialidades (no sentido cósmico) como “oração”, “pecado” ou “vida depois da morte”.

Tal divindade (ver mais detalhes aqui), se existisse, seria completamente indetectável por nós, não iria interferir de forma alguma nas nossas vidas, ou estar preocupada connosco. Em todos os sentidos possíveis (excepto no científico: seria fascinante descobrir e estudar um ser assim), é como se esse “deus” não existisse: nada que possamos fazer o afectaria de qualquer forma. Acaba por ser equivalente a questões como “será que vivemos numa simulação perfeita”: se a simulação é perfeita, é indistinguível e indetectável, e, de certa forma, irrelevante para as nossas vidas, porque não as afecta ou altera em nada (se bem que não há mal nenhum em ter curiosidade).

Em ambos os casos descritos acima, há ainda algo definitivo contra a posição de que “é preciso fé para dizer que algo não existe”: o ónus da prova. Este está sempre do lado de quem afirma que algo existe, e é ele que tem de provar a existência desse algo. Caso não o faça, a posição lógica é dizer que a afirmação é falsa, e não é preciso qualquer “fé” para isso.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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