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Arquivo da Categoria ‘Humanidade’

História: a relação entre o Cristianismo e a democracia

Segunda-feira, 9 de Agosto, 2010

Gostei muito de ler este artigo.

O irónico é que eles (igrejas / denominações Cristãs) “suportam” a democracia nas poucas vezes que lhes convém, como na questão do casamento homossexual na Califórnia. Para quem não sabe a história, houve um referendo (na mesma altura das últimas eleições presidenciais, em 2008) para proibir o casamento homossexual nesse estado, e depois de uma campanha de mentiras muito bem financiada pela Igreja Católica e pelos Mórmons de Utah, a proibição ganhou com 52% dos votos… para agora um juiz federal determinar (e muito bem) que tal proibição é 100% anti-constitucional, é uma maioria a tirar direitos a uma minoria, e essa maioria nunca explicou apropriadamente como é que a proibição serve o bem público — criam slogans como “Protect Marriage”, mas quando — em pleno tribunal — o juiz lhes pergunta do que é que o casamento está a ser protegido, não sabem responder. Mas, com isto tudo, vêm agora reclamar que “a vontade do povo” não está a ser respeitada, que o juiz é “anti-democrático”, e afins.

Que hipocrisia suprema, considerando (ver o link inicial) como eles trataram a “democracia” ao longo da história…

O problema da “Espiritualidade”

Terça-feira, 9 de Março, 2010

Nota: o seguinte vem supostamente do livro “Natural Atheism”, de David Eller (2004). Não li nem tenho ainda o livro; aliás, só hoje é que ouvi falar dele, mas se isto é representativo do conteúdo do mesmo, vai provavelmente ser uma próxima aquisição. Nem tenho confirmação de que isto é do livro em questão, mas não tenho razões para duvidar disso. Vi isto num comentário (um pouco maior que o normal) no Facebook, e não resisto a copiá-lo aqui. O tema é o uso de expressões como “espiritual” e “espiritualidade” por ateus e não-crentes em geral.

Tradução minha, já agora. Não faço ideia se isto existe em português.

Eu afirmo que esse tipo de conversa é falsa, e, ainda mais do que falsa, é conversa anti-humana — o tipo de conversa que degrada e diminui os seres humanos e o mundo natural… É a atribuição da vida propriamente dita a outra realidade, outra dimensão, distinta daquela em que vivemos cada dia — e, ainda mais crucialmente, a uma realidade ou dimensão à qual não temos acesso… É como se nos ligássemos a uma fonte adicional de vida ou energia, fonte essa que só poderia ser proveniente da origem de toda a vida ou energia — fora de nós… E no entanto somos nós — seres materiais fracos e insignificantes — que temos estas experiências… O que é habitualmente descrito como espiritual é na verdade a vida, a humanidade.

Assim sendo, a espiritualidade é a maior traição da humanidade possível. Conversas sobre o espírito e o espiritual alienam a melhor parte do que é ser-se humano — literalmente, no sentido de o tornar estranho ou separado de nós próprios. Essa conversa diz: “Isto é o melhor possível, o exponente máximo do que eu consigo sentir e ser — e não sou eu.” Desta forma, minimiza e denigre o humano e o natural (como qualquer dualismo faz) e cede o melhor do que somos capazes a outro plano ou realidade. Priva-nos não só de parte da nossa humanidade, mas da melhor parte da nossa humanidade, e atribui-a a um mundo sobrenatural — e desta forma não-natural. No processo, somos diminuidos. Somos alienados de nós próprios e convencidos de que nenhum mero ser humano poderia ser a fonte de tal maravilha.

Mas nós somos a fonte. Esperiências espirituais são na verdade experiências humanas — as melhores, as mais fortes, as mais profundas experiências humanas, mas humanas na mesma. Não são uma espécie de não-humanidade, mas uma forma de ultra-humanidade. Somos enriquecidos por elas e para elas, mas empobrecemo-nos quando nos negamos — ou deixamos que nos seja negada — a nossa melhor natureza, e atribuímos essas sensações e capacidades ao não-humano, o desconhecido, e quase certamente o imaginário e irreal…

Nunca mais devemos dizer “tive uma experiência espiritual.” Em vez disso, digamos… “tive uma experiência de vida” — ou, melhor ainda, “tive uma experiência humana — e encorajemos outros a fazer o mesmo.

FAQ: “Independentemente de Deus existir ou não, a igreja faz bem ao mundo, certo?”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Infelizmente, os factos sugerem o contrário.

Primeiro: relativamente à “igreja”, vou aqui incluir não só a igreja Católica, mas também as igrejas Protestantes em geral (muito influentes nos EUA), e as teocracias Muçulmanas.

Segundo: é importante distinguir os crimes feitos pela religião / igreja, ou por causa delas, ou em nome delas, de crimes feitos simplesmente por religiosos (ou mesmo membros dessas igrejas). Por outras palavras, não culpo o Cristianismo pelo Holocausto apesar de Hitler ter sido Católico, nem culpo a religião ou a própria igreja Católica directamente pela pedofilia dos padres — não há nada nem nos livros sagrados nem nos “estatutos” da igreja que leve a cometer tais crimes. Mas culpo a igreja em questão por dar muito mais importância à sua reputação do que à inocência e à vida de crianças inocentes, protegendo da lei os padres pedófilos e impedindo que estes sejam punidos pelos seus crimes, e movendo-os de paróquia em paróquia quando os seus actos são descobertos localmente. E, sim, culpo a igreja Católica por ter suportado em vários aspectos o regime Nazi.

Terceiro, não vou incluir aqui crimes limitados ao passado, como a Inquisição ou as Cruzadas. Faço notar apenas que a igreja Católica deixou de cometer essas atrocidades apenas quando perdeu o poder absoluto que tinha, e não por ter chegado à conclusão de que aquilo era errado e imoral. Acho que isso diz muito.

Quarto, reconheço que não é tudo mau — as várias igrejas / religiões fizeram e fazem efectivamente actos de caridade, sem dúvida louváveis, tanto em pequena como em grande escala. Qualifico isso, no entanto, com o facto de que muitas vezes trata-se mais de uma forma de espalhar a fé do que de caridade “desinteressada”, e, de qualquer forma, a religião está longe de ser necessária para se cometer actos de bondade humana.

De qualquer forma, acho que o balanço é completamente negativo.

Qual é, em termos humanos, o problema com a religião / igreja hoje em dia? Estes, para começar:

  • sexismo: desde os casos extremos nas teocracias Muçulmanas, em que as mulheres não têm acesso (sob pena de morte) a qualquer educação escolar, são elas próprias condenadas se forem violadas (muitas vezes não acontecendo nada ao violador), são demonizadas como seres “sexuais” que “tentam” os homens (inocentes, coitadinhos) e por isso são submetidas ao horror que é a mutilação genital forçada (a ideia é que, se perderem completamente a capacidade de ter prazer sexual, já não vão “seduzir” os homens…), e, fora do Islão, temos toda uma cultura ocidental conservadora que diz que o papel das mulheres é ter filhos e obedecer aos maridos… exactamente como diz na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento.
  • oposição ao uso de preservativos — incluindo através de mentiras, como “aumentam o risco de Sida” –, provocando o sofrimento e morte de milhões em África, por exemplo, já que em muitas zonas não há nenhuma fonte de informação além dos missionários. Seja por questões religiosas (“Deus odeia contraceptivos e/ou sexo por prazer”), seja por questões mais mundanas (aumentar ao máximo o número de crentes), este acto de quase genocídio é um crime imperdoável.
  • oposição (não se limitando a não o fazer eles próprios, mas tirando sempre que possível direitos aos outros) ao aborto, direitos dos homossexuais (vistos como um “mal moral”) e eutanásia
  • oposição à educação sexual — paradoxalmente, a melhor forma de reduzir o número de gravidezes indesejadas, e, por conseguinte, abortos.
  • visão do sexo (parte perfeitamente natural e saudável do que é ser-se humano) como algo “porco” e “imoral”.
  • oposição — por razões que não passam de superstição — a ramos promissores da medicina, como a investigação em células estaminais, clonagem de órgãos, etc..
  • guerras e ódios de origem religiosa — nem todos no Médio Oriente (ver Irlanda, por exemplo)
  • protecção dos padres pedófilos, que muitas vezes são simplesmente movidos de uma paróquia para outra, quando os seus actos se tornam conhecidos, demonstrando a total ausência de preocupação com as vítimas deles.
  • censura a oposições à religião, mesmo por não-crentes da mesma, devido à ideia de que a religião está acima de qualquer crítica (ex. a condenação pela parte de Cristãos (!) e até ateus (!!) à publicação dos cartoons de Maomé, quando a única condenação devia ter sido aos Muçulmanos que praticaram violência e intimidação).
  • crianças traumatizadas por descrições ultra-detalhadas do inferno.
  • atitude anti-intelectualismo, anti-educação e anti-ciência (por exemplo, a ideia de que se a razão e a fé entram em conflito, se deve preferir a fé, que a razão humana não é de confiança, e assim por diante).
  • anulação da curiosidade humana, por se dizer / achar que se tem todas as respostas (nem que estas sejam simplesmente “foi Deus”).
  • mentalidade de “morte em vida”, que diz que esta vida é só sofrimento e não é “the real thing”, que o nosso tempo neste mundo não passa de um teste para determinar a salvação ou não da nossa “alma”, que a vida a sério começa depois de morrermos, fazendo com que as pessoas aceitem a sua condição e não tentem melhorar o mundo em que vivem.
  • actos de violência e terror – sobretudo nas teocracias Muçulmanas, em que a “blasfémia” (“um crime sem vítima”, como já foi descrita) e a apostasia são punidas com a morte, mas também em países como os EUA, em que terroristas Cristãos explodem clínicas de aborto, assassinam médicos que trabalham nas mesmas, e não só.
  • mutilação do conceito de moralidade para passar a significar simplesmente “obedecer aos caprichos de um ser” — como se esse ser, caso existisse, estivesse acima da moralidade.
  • não-pagamento de impostos, tratando-se de algumas das organizações mais ricas do mundo, e estando a economia mundial como está.

Mais aborto… agora, outras opiniões

Terça-feira, 23 de Janeiro, 2007

Do meu lado, acho que não vou acrescentar muito mais à questão. Já fui insultado por ter a minha opinião, por ter pensado nela, e por estar certo da mesma, quando hoje em dia é considerado “arrogante” ter uma opinão forte baseada no pensamento; só se aceita uma opinião forte baseada em emoções. Ou em autoridade, ou em religião, ou… Bah.

De qualquer forma, se alguém quiser comentar os meus posts anteriores, e, para variar, quiser responder ao que eu escrevi (em vez de se limitar a dizer que “sou muito agressivo”), tal será apreciado.

Neste post, vou apenas mencionar o que outros disseram (fora deste blog) sobre esta questão.

Primeiro, um post da namorada, chamado A Interrupção Voluntária da Gravidez…. É um bocado mais detalhado do que os meus, e acho que mostra bem os dois lados da questão. Vá, leiam e comentem. 🙂 Inclui argumentos como este:

Para quem não sabe, até às 10 semanas há muitas mulheres que nem têm uma gravidez confirmada e que têm aborto espontâneo sem que soubessem que estavam grávidas. O próprio corpo se encarrega de “expulsar” fetos com problemas graves, é parte da “selecção natural” de Darwin, a não-sobrevivência dos fracos, dos inviáveis.

Logo, segundo a moralidade dos “nãos” (que confundem um ser humano com um aglomerado de células que é um potencial ser humano), quase todas as mulheres com vida sexual são “mass murderers” e nem o sabem…

Depois, quero mostrar um post que considero ser totalmente ridículo. Vem de um partido americano, “America First Party”, que é basicamente mais republicano do que os Republicanos. O post chama-se… wait for it… Abortion Leads to Nuclear War. Sim, parece que a Madre Teresa (que pode ter sido muitas coisas, mas não era, de certeza, uma pessoa inteligente ou culta – ou então era muito mentirosa, porque sem dúvida dizia grandes disparates) disse algo desse género, e os fanáticos de todo o mundo pegam nisso. Portanto, já sabem – não querem ver cogumelos enormes no horizonte, não abortem. Ah, e…

It is abhorrent that abortion supporters choose to hide behind the term ‘choice’ to mask their goal of destroying unborn children and promoting immoral behavior without responsibility

Destruir crianças! Que horror! Que tipo de monstro desumano e cruel quereria alguma vez fazer tal acto hediondo? 😯

É claro que as coisas não são bem assim. Sugiro-vos esta alternativa… deixem se ser um aglomerado irracional e disforme de emoções, e sejam humanos: pensem um pouco. Como este post, em resposta ao comunicado anterior, diz,

nuclear bombs have been used once in war, and I seriously doubt the bombing of Hiroshima and Nagasaki had anything to do with abortion, considering it wasn’t legal in the US in 1945.

E, em resposta à idiotice de “destruir crianças” citada anteriormente,

Let me tell you right now, no one wants to destroy children. It’s just that sometimes an abortion is the only option a mother may have to keep from ruining her life or the lives of her future children. Life is not always fair or simple. That’s the way it is. I wish we could all live in a dream world of magic, but we don’t, and trying to legislate it into reality won’t make it so.

Não teria dito melhor.

Os "Bons Velhos Tempos"

Segunda-feira, 30 de Outubro, 2006

É comum ouvir-se comentários em relação aos Bons Velhos Tempos ™. O comentário em si varia, mas, no fundo, todos se resumem a isto: antigamente as coisas eram melhores.

Isto deve-se em parte à nostalgia, e em parte ao medo da mudança. E, por vezes, deve-se também a uma má memória: a tendência é lembrarmo-nos das coisas boas, e esquecermos as más.

Para todos os que dizem que “antigamente é que era”, deixo-vos aqui duas páginas de uma publicação (americana) de 1955. Cliquem na imagem abaixo para a verem no seu tamanho original.

The Good Wife's Guide

Apesar de agora dar vontade de rir, isto, na altura, não era comédia. Era real. O mundo era assim. As mentalidades eram assim. As pessoas eram assim.

E agora digam-me que “nada melhorou”, que as coisas “antigamente eram melhores”. Digam-me que a raça humana, apesar de todos os seus defeitos, não evoluiu, e não evolui. Digam-me que “está tudo na mesma, ou pior”. Digam-me que “estamos cada vez mais imorais”. Que a solução para os problemas da humanidade era “voltar aos valores do passado”.


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