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Arquivo da Categoria ‘Lógica’

Os dois tipos de “agnosticismo”

Quarta-feira, 10 de Novembro, 2010

Sim, o meu último post, Definição de Agnosticismo, é intencionalmente provocativo. Mas alguém que por acaso tenha lido todos os posts neste blog (sim, eu gosto de imaginar que existe alguém assim) pode, talvez, lembrar-se de um post mais antigo, importado do blog pessoal, que se refere a um conceito de “agnosticismo” bastante diferente.

O que se passa, então? Estou-me a contradizer completamente? Mudei de ideias no último ano?

Nope. O que se passa é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Pequeno “à-parte”: acontece algo parecido com o termo “teoria”: em linguagem corrente, dá a ideia de uma hipótese que levantámos entre a 3ª e a 4ª cerveja da noite, numa conversa de amigos. Cientificamente, é algo muito mais detalhado e formal, que é suposto 1) poder fazer previsões confirmáveis, e 2) ser desprovável1, mas não ter factos que a “desprovem”. Assim, quando um criacionista diz que “a evolução é só uma teoria”, ele está a ser ignorante (confundindo significados) ou, mais provavelmente, desonesto (já que de certeza que alguém já o esclareceu sobre o significado científico de “teoria”, mas ele continua intencionalmente a confundir as coisas).

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não reivindica um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus2, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” são crentes fundamentalistas fanáticos; nem os crentes “normais” nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima; sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que estive a falar neste post até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”3). Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como eu disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. Daí a minha última definição. E daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

  1. “foi Deus” não é desprovável, logo nunca pode ser uma teoria científica. []
  2. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  3. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

Resposta a duas críticas

Terça-feira, 11 de Maio, 2010

Recebi, ontem e hoje, duas críticas relativamente a este blog através do Twitter, às quais já respondi, precisando de uns 7 tweets. Mas quero responder-lhes aqui também, com um pouco mais de espaço comparativamente ao Twitter, e de forma a que as respostas fiquem disponíveis no blog, já que é possível que as críticas em questão façam sentido para outros visitantes no futuro.

A primeira é esta: que o nome do site é incorrecto, porque ateísmo é apenas a ausência de crença em um deus ou deuses, e o que eu faço aqui é “activismo anti-religião”.

Relativamente a isso, sim, é um facto que a definição estrita de ateísmo é essa, mas também é válido ver-se a coisa de uma forma mais lacta. Para mim, bem como para muitos, o ateísmo está associado ao cepticismo, ao humanismo e à racionalidade, e o site dedica-se (entre outras coisas) a promover esses conceitos. “www.ateismo-humanismo-cepticismo-e-racionalidade-pt.com” seria demasiado longo 🙂 , além de que a ideia do nome de um site não é ser descritivo, é apenas um título, uma “marca”, uma designação.

A segunda crítica é que “uma coisa é criticar os actos feitos em nome de uma religião, ou através dela, mas pôr tudo dentro do mesmo saco é errado.”

Acho que aqui o autor da crítica está a confundir 1) críticas minhas a actos e instituições, onde claramente critico apenas os autores dos actos e/ou membros das instituições em questão, com 2) argumentação lógica contra crenças religiosas propriamente ditas, irracionalidade, “wishful thinking”, etc., em que, sim, estou a criticar as crenças de muita gente que nunca fez mal a ninguém por causa delas, mas criticar crenças — por muito “íntimas” que sejam — não é um ataque! Não é, sequer, uma condenação. É um simples “estás errado, porque…”, que para qualquer outro tema seria aceite (concordando ou discordando) sem problemas.

Quando argumento contra a “lógica” de determinadas crenças ou argumentos religiosos (por exemplo, “tem de existir Deus, caso contrário como é que o universo existe”, ou a Aposta de Pascal, ou menciono o facto de a crença de 99% dos crentes ser apenas produto de um acidente geográfico, ou critico a falta de cepticismo e racionalidade de alguém), não estou a “atacar” ou condenar ninguém, estou apenas a criticar ideias que considero erradas, justificando a minha crítica com factos e lógica (que podem muito bem estar errados, note-se). Da mesma forma que aceito perfeitamente que me digam que estou errado nalguma coisa.

O que não aceito é que as crenças religiosas exijam para si próprias uma posição especial, intocável, acima de qualquer crítica, ou que se torne essas crenças inseparáveis dos próprios crentes, de tal forma que qualquer crítica a uma crença ou ideia é vista como um ataque pessoal a todos os seus crentes. Isso não só não faz sentido, como é cobarde — é, de certa forma, uma admissão de que as crenças e ideias religiosas não são capazes de “ir à luta”, de se demonstrar logicamente coerentes, de competir no mercado de ideias, e que por isso precisam de protecção especial, quase criminalizando (em teocracias muçulmanas tira-se o “quase”) o mero acto de as questionar ou criticar.

E para aos crentes que estejam sempre prontos a ofender-se pessoalmente com uma simples crítica às suas crenças e ideias: se estivessem realmente confiantes relativamente às mesmas, não reagiriam assim. Pelo contrário, estariam prontos a “ir à luta” de ideias, confiantes em ter os factos e a lógica do vosso lado, não tendo necessidade de exigir protecção ou “respeito” especiais para as vossas crenças pelo simples facto de serem crenças religiosas. E isto devia fazer-vos pensar um pouco…

“O ónus da prova pertence aos ateus”?

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

Uma coisa a que acho piada fazer relativamente aos sites que mantenho é olhar para as estatísticas e ver que termos (palavras ou frases) as pessoas estão a introduzir nos motores de busca de forma a vir parar aqui. Uma em que reparei ontem é esta: “o ônus da prova pertence aos ateus” (dizia “ônus” por ser em Português do Brasil; cá em Portugal seria “ónus”).

Não há forma de saber se era uma pergunta ou uma afirmação, já que mesmo tratando-se do primeiro caso em geral um utilizador típico não introduz sinais de pontuação nas pesquisas que faz. Mas já vi essa mesma afirmação ser feita mais que uma vez, e por isso quero aqui responder-lhe.

Para começar, a resposta “standard”, que já mencionei no FAQ: quem sugere algo, quem diz que algo existe, é que tem o ónus da prova. Ou seja, se eu digo que existe um monstro voador de esparguete que criou o universo e adora piratas, sou eu que tenho de apresentar evidências e provas disso, não és tu que terás a responsabilidade de o “desprovar”. Se dizes que Deus existe — seja qual for a versão dele em que acreditas — é tua responsabilidade prová-lo, ou pelo menos fornecer evidências suficientes para a probabilidade do “existe” ser superior à do “não existe”. Se estivermos a falar de questões criminais, isto chama-se “inocente até prova da culpa”, que, terás de admitir, faz todo o sentido. Quem afirma (e não, não tentes dar a volta com algo tipo “estás a afirmar a não-existência!”) é que tem de apresentar evidências “para além da dúvida razoável”.

Uma resposta que alguns crentes dão aqui é esta: tu é que estás a afirmar a existência de algo muito mais fantástico para mim: um universo 100% natural, sem um criador ou uma criação sobrenatural, que de alguma forma surgiu a partir do nada, e apareceram estrelas, planetas, e vida pelo menos no nosso. Tudo naturalmente. Como? Explica-o. Prova-o.”

Parece fazer sentido. Até se pôr por palavras a lógica inerente a esse tipo de raciocínio, que é a seguinte: para não acreditar em Deus, um ateu tem de explicar tudo em detalhe, como a origem do universo, evolução, etc., e qualquer vestígio de “isto ainda não sabemos” torna imediatamente essa explicação inválida e “prova” o “foi Deus”. Ou seja, mesmo que o ateu — ou a ciência — explique 99%, a falta de explicação neste momento para o 1% restante imediatamente “prova” que não pode ter sido como o ateu está a sugerir, “prova” que o universo não pode ser 100% natural, e “foi Deus” “ganha” “por default”. (3 coisas seguidas entre aspas; tenho mesmo uma mente estranha…)

Porquê esse “default”? Porque é que o ateu tem de explicar tudo e provar tudo, e, se falhar na mais pequena coisa, o crente “ganha” automaticamente, sem ter de explicar ele próprio nada? Eu suponho que seja por uma questão de hábito: quem tenha aprendido desde criança que Deus existe e criou tudo e que isso é auto-evidente, verá tudo isso como algo perfeitamente normal e óbvio, e uma explicação alternativa que vá contra aquilo em que sempre acreditou — mesmo sendo uma explicação que não envolva seres sobrenaturais e “milagres” — vai-lhe parecer totalmente estranha, absurda e surreal.

Além disso, o crente está habituado a uma explicação aparentemente perfeita e final: “foi Deus”. A ciência está em constante evolução, e não tem problemas em admitir que há muita coisa ainda por explicar, muito ainda por entender. Logo, o crente sentirá — e isso é compreensível — que os ateus lhe estão a pedir que substitua uma explicação simples, completa e (para ele) óbvia por uma explicação complexa, incompleta e (para ele) fantástica.

O problema é que “foi Deus” não explica absolutamente nada, simplesmente move o mistério um degrau para cima. Ou seja, a ciência tenta explicar, por exemplo, a origem do universo de uma forma natural, mas ainda não o consegue fazer completamente, se bem que há várias hipóteses em aberto. O crente aí retorque: “ah, vocês não sabem, mas eu sei: foi Deus”. Mas não explica como, como é que ele o sabe, nem qual Deus, e nem o mais importante de tudo: de onde vem Deus? Quem criou Deus? A resposta “ninguém, Deus sempre existiu” é um “special pleading“: porque é que Deus há de ser uma excepção à regra de que tem de haver um criador para tudo? Se Deus não precisa de um criador, então porque não considerar que talvez o universo não precise de um criador? Se Deus sempre existiu, porque não o universo? E assim por diante.

Por outras palavras, se explicas algo como “foi magia”, então ou explicas essa magia (degrau seguinte), ou isso não é de todo uma explicação. Como os crentes nunca explicam — nem têm formas de explicar — “a magia” / Deus, no fundo não explicam absolutamente nada, enquanto a ciência o faz — a pouco e pouco, mas faz. E a ideia de que a ciência tem de ser perfeita e completa ou “foi Deus” “ganha” automaticamente não faz qualquer sentido; é o equivalente a, numa investigação criminal, dizer-se a um detective que este tem de arranjar provas completas, finais e perfeitas de que o criminoso é X, caso contrário o criminoso é Y… mesmo sem qualquer vestígio de evidência a apontar para Y.

FAQ: “Tem de existir Deus; caso contrário, qual é o sentido da vida, uma vez que morremos e tudo acaba?”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Nota: esta resposta não aborda a questão de as consequências serem ou não correctas (isto é, se, não havendo um deus, a vida (única e finita) faz ou não sentido, e assim por diante). Isso fica para uma entrada futura no FAQ.

Em vez disso, esta parte do FAQ destina-se a demonstrar como a questão propriamente dita implica um erro de lógica, e, assim sendo, constitui um argumento completamente inválido.

Resumindo-a à sua essência, a afirmação implícita na pergunta diz o seguinte:

– se Deus não existe, <algo mau>. Logo, Deus tem de existir.

O que é que há de errado com isso? Apenas isto: mesmo que as consequências fossem absolutamente correctas (não são, como demonstrarei futuramente neste FAQ), ou seja, mesmo que o resultado de “Deus não existe” fosse realmente mau, isso não afectaria de forma alguma a veracidade da proposição. Por outras palavras, a “desejabilidade” de uma possibilidade não tem qualquer influência sobre ela ser verdadeira ou não. As coisas ou são, ou não são, independentemente das consequências.

Mesmo que fosse absolutamente 100% verdade que “Deus não existe” significa “a vida não faz sentido”, isso teria um efeito nulo sobre a existência ou não-existência de Deus.

O erro de acreditar que algo é verdade só porque “caso contrário seria mau” é uma falácia lógica chamada apelo às consequências, uma forma comum de “wishful thinking”. As nossas crenças devem ser formadas tentando ver e entender a realidade até ao limite das nossas capacidades — e não simplesmente acreditando naquilo que queremos que seja verdade, que nos é confortável.

Mais uma vez, não estou de forma alguma a concordar com a premissa de que as supostas consequências são verdadeiras. A vida não deixa de fazer sentido por não existirem deuses, existe na mesma uma base para a moralidade, e assim por diante. A questão aqui é que mesmo que essas consequências fossem verdadeiras (e há outras consequências que efectivamente o são, como “somos apenas animais evoluídos”, ou “não existe vida depois da morte”, ou “não somos especiais no universo”), isso não teria qualquer influência na existência ou não-existência de um deus ou deuses.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Como é que podes ser ateu? Não consegues provar que Deus não existe!”

Segunda-feira, 15 de Fevereiro, 2010

Posso responder a essa pergunta de duas formas diferentes, e qualquer delas é suficiente.

1- Não é a mim que compete fazê-lo.

Provavelmente já ouviste ou leste em algum lado o termo “ónus da prova”. Neste contexto, funciona assim: quando alguém afirma algo novo, é responsabilidade dele provar esse algo, ou pelo menos fornecer evidências suficientes para esse algo ser, tanto quanto se sabe, mais provável do que o oposto. Não são os outros que têm de desprovar a afirmação. Por outras palavras, o ónus da prova pertence a quem faz a afirmação — sobretudo se for uma afirmação invulgar ou extraordinária.

Imagina que alguém te acusa de seres um extraterrestre disfarçado de humano. Irias sentir que tens obrigação de provar a ele e ao mundo que és um humano normal? É claro que não. É a outra pessoa que tem de provar o que afirmou, que tem de providenciar evidências para a sua afirmação. O mesmo para quem te acuse de teres cometido um crime.

Também é assim no caso de afirmações como “existe um deus, e ele é exactamente como eu acredito que ele é”. Quem faz a afirmação é que tem o ónus da prova. Uma pergunta como “podes provar que isto não aconteceu?” só funciona em filmes do Ed Wood. 🙂

2- Podes provar que X não existe, então?

Outra forma de nulificar a afirmação “não podes provar que Deus não existe” é responder com a mesma pergunta. Consegues provar que Zeus não existe? Afrodite? Odin? Thor? Alá? Kali? Nanabozho?

Terás de admitir que não consegues. E mais, poderias dedicar o resto da tua vida a tentar provar que qualquer um deles não existe, e irias falhar miseravelmente. Devo, então, assumir que acreditas em todos eles? Ou pelo menos que os consideras tão prováveis de existir como o deus em que acreditas?

Não? Então porque não? Acreditar em determinado deus porque não é possível provar que ele não existe, mas não aplicar a mesma lógica a todos os outros deuses, é um exemplo clássico de “standard duplo”… a atitude intelectualmente honesta seria aplicar o mesmo “standard” a qualquer tipo de deus… ou crença.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Crenças, evidências e “wishful thinking”

Segunda-feira, 15 de Fevereiro, 2010

Consideremos as seguintes proposições:

  1. As evidências para a existência de um deus — qualquer deus — são zero.
  2. A crença em algo deve escalar de acordo com as evidências para esse algo. Logo, para zero evidências, zero crença. Tudo o resto é “wishful thinking”: acreditar em algo apenas porque queremos muito que isso seja verdade.
  3. Assim sendo, o ateísmo é a única posição racional; qualquer tipo de crença é “wishful thinking”.

Quando confrontados com este argumento, os crentes normalmente respondem com um dos seguintes argumentos, ou ambos:

  • “As evidências para a existência de um deus (normalmente, do meu deus, ao invés de todos os outros) não são zero.”
    Isto é em geral composto por argumentos da ignorância: “não tenho nenhuma explicação, logo foi Deus” (referente, por exemplo, à origem / existência do universo). Por vezes, também incluem experiências pessoais subjectivas (“sinto Deus no meu coração”, “rezei para conseguir algo e consegui”, etc.). Desculpem lá, mas nada disto constitui “evidências”. Uma prova disso é que não aceitam o mesmo tipo de “evidências” como razões válidas para acreditar noutras religiões.
  • “As crenças não devem escalar com as evidências.”
    Nunca ouviram um crente dizer isto? Então que tal a versão mais comum: “a fé é uma virtude”?
    Nenhuma religião actual promove o cepticismo, ou o vê como uma virtude — apesar de alguns crentes mais sofisticados alegarem o oposto. Pelo contrário, há um enorme conjunto de explicações / racionalizações para a existência de um deus ou deuses não ser óbvia, em geral todas à volta do “livre arbítrio”: se Deus provasse a sua existência, toda a gente acreditaria nele, e por qualquer razão não é isso que ele quer. O “teste”, portanto, é conseguir acreditar sem evidências — ou, melhor ainda, na presença de evidências em contrário.
    Porém, não escalar as crenças com as evidências é uma péssima ideia: é esse “escalanço” que nos protege de sermos enganados e roubados por vigaristas, por exemplo; e é também o que nos permite abrir os olhos, e ver e entender o mundo tal como ele é. Mais uma vez, a maior parte dos crentes (infelizmente, não todos) não pratica a credulidade em relação a coisas “terrenas”… ou, se o faz, rapidamente acaba na pobreza, já que é vulnerável ao primeiro vigarista que lhe apareça à frente.

Escapou-me algum? Opiniões?

Contra-argumentar é "não dar ouvidos"?

Quarta-feira, 16 de Dezembro, 2009

Uma que ouvi recentemente:

“Sempre que te dou uma opinião acerca de algo em ti, tu tens sempre resposta, tens sempre um contra-argumento. Estás completamente fechado a outras opiniões, nunca ouves realmente nada do que te digo.”

Fiquei a pensar nisso. O que é que para a pessoa em questão (e já ouvi variantes disto muitas vezes, de pessoas completamente diferentes, não se trata de um caso isolado) seria “ouvi-la”? Se contra-argumentar — isto é, dizer-lhe que não concordo, que acho que ela está errada naquilo que disse, e, mais importante, porquê — é “não lhe dar ouvidos”, que hipóteses restam?

Eu só vejo duas:

  1. Concordar;
  2. Fingir que concordo.

Será isto que a humanidade em geral faz? Como eu assumo que as pessoas não concordam totalmente umas com as outras na maioria das vezes, estou a imaginar que seja a 2ª hipótese a mais frequente… e que isso seja conhecido e aceite como normal por toda a gente que não seja um geek meio anti-social como eu. Talvez isso até seja visto como desejável para as pessoas poderem viver em sociedade sem conflitos — ou necessidade de pensar — constantes.

Já mencionei aqui várias vezes que, para mim, dizer a outra pessoa que ela está errada em algo é a maior demonstração de respeito que lhe podemos dar (significa que a ouvimos e que pensámos no que ela nos disse), e que não entendo como é que as pessoas se magoam e/ou ofendem por isso. Aqui é algo parecido: a única forma de se “dar ouvidos” a alguém é concordar com a pessoa, ou fingi-lo? É assim que a sociedade em geral age?

Não. Não me vou render a isso. Não me vou forçar a concordar com algo no qual vejo problemas lógicos, nem vou, muito menos, mentir, ter aquela atitude repugnante do “simsimtábem” que me irrita tanto quando a vejo noutras pessoas. Se contra-argumento, contra-contra-argumentem. Digam-me onde é que a minha objecção ao vosso argumento inicial está errada, se forem capazes. Não esperem que concorde “porque sim” ou porque “é justo, da outra vez deste-me tu razão”1, não esperem que seja condescendente e vos trate como inferiores mentais — isso, sim, seria uma tremenda falta de respeito. Digam-me onde é que o meu contra-argumento falha, e até vos agradeço. Mas acusarem-me de estar a ser “dogmático” ou “fechado” pelo simples facto de ter um contra-argumento, em vez de aceitar a vossa opinião cegamente? Please.

  1. se há uma ideia mais estúpida e absurda no universo do que esta última, não a estou a ver neste momento… []

O problema de “Deus existe porque o universo existe”

Quarta-feira, 9 de Dezembro, 2009

Um argumento muito usado por apologistas religiosos quando confrontados com a necessidade de apresentar provas ou pelo menos evidências da existência da divindade em que acreditam, e não conseguem de outra forma citar nenhuma, é o seguinte: “a prova é só isto: o universo existe, e nós existimos nele. Logo, como é que existe algo em vez de nada? Deus!”

Espero com este post demonstrar porque é que esse argumento é falacioso e, pura e simplesmente, inválido.

  1. Trata-se de um argumento da ignorância, uma falácia lógica infelizmente muito comum. Dizer “não sei/sabemos explicar, logo foi Deus” (ou qualquer outra explicação sobrenatural) é, desculpem dizer, um argumento parvo, impensado e infantil. Pode ser difícil para quem tenha problemas em admitir que não tem todas as respostas ou em viver num mundo em que não há respostas simples para tudo, mas, se não sabemos algo, a única coisa correcta e honesta a dizer é “não sei/sabemos”. Mais nada. Caso contrário, não somos diferentes de homens das cavernas que inventavam constantemente explicações sobrenaturais para fenómenos (ex. uma tempestade é sinal de que “os deuses / espíritos estão zangados” (e o melhor é sacrificar alguém para os apaziguar)) hoje em dia perfeitamente explicados como naturais. Outro nome para este caso específico de argumento da ignorância é “god of the gaps” (o deus dos buracos); ou seja: “põe-se” (ou esconde-se) Deus nos “buracos” de conhecimento existentes… com o problema de que esses “buracos” vão constantemente diminuindo à medida que a ciência e o conhecimento humano progridem, e chega-se a um ponto em que já não resta praticamente nada para “Deus” fazer.
  2. Dizer “nada pode existir sem uma causa, logo o universo tem de ter uma, que foi Deus” tem o pequeno problema que é óbvio muitas vezes até para crianças na catequese ou outro tipo de aulas religiosas (e as faz fazer perguntas inconvenientes): então qual é a causa de Deus? Quem criou Deus? Argumentar, sem qualquer justificação para isso, que Deus é, sabe-se lá como, uma excepção à sua própria regra (de que tudo tem de ter uma causa) é obviamente intelectualmente desonesto: quem é o apologista para “decidir” que o universo requer uma causa, mas Deus já não?
  3. Finalmente, mesmo que as questões acima não existissem, ainda resta um problema: qual deus? Porque é que “tem de ter havido algo sobrenatural na origem do universo” (errado, como já referi, devido aos pontos anteriores) há de implicar “o deus mais popular na minha zona geográfica do planeta”, ou “o deus em cuja crença fui educado”? Porque é que não há de ser um deus completamente diferente, seja ele o de outra religião actual (mais ou menos popular), seja ele o de uma religião do passado, seja ele algo nunca concebido em toda a história da humanidade?
    Porquê um deus, e não vários? Porquê deus(es), e não algum outro tipo de criatura sobrenatural? Porquê necessariamente sobrenatural, e não algum tipo de tecnologia que ultrapasse o tempo e o espaço tais como os entendemos? E porque é que tal ser (ou seres) exigiria a nossa adoração, ou se importaria com o nosso comportamento, a nossa alimentação ou a nossa sexualidade?
    Não há nenhum caminho lógico entre “tem de ter havido uma causa sobrenatural para a existência do universo” e “Deus é assim e assado, e quer isto e aquilo de nós”. Por outras palavras, “tem de haver uma origem sobrenatural para o universo” não implica de forma alguma “o deus Cristão existe” (ou qualquer outro). Quem parta da primeira implicação e chegue de alguma forma à segunda, não o faz por nenhuma razão lógica, mas apenas cultural. E devia, seriamente, pensar um pouco sobre o facto de a sua crença não ser mais do que um acidente geográfico…

Agora já sabem como responder a alguém que vos diga, ingenuamente, “claro que Deus é real; caso contrário como é que tudo isto existe?”, como se isso fosse um argumento contra o qual não há resposta… 🙂

(Nota: comentários tipo “apesar de este ser o teu blog, não podes falar nele dos assuntos que quiseres”, ou tipo “estás obviamente errado, mas não te vou dizer como”, serão apagados. Os comentários existem para responder ao post… ou, claro, estão à vontade para o/me ignorar. 🙂 )


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