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Arquivo da Categoria ‘Moralidade’

A “Ground Zero Mosque” e a tirania dos “sentimentos”

Quarta-feira, 18 de Agosto, 2010

(aviso: este post é um pouco mais informal e “irritado” do que o habitual; começou por ser uma sequência de comentários no Facebook, e escolhi manter a “crueza” deles aqui. Só o “P.S.” é que é novo.)

A história da “mosque” no mesmo bairro do sítio do 11 de Setembro, com os sentimentos feridos destes, e as emoções magoadas daqueles, e tudo o resto… Desculpem o que vem a seguir, mas, porra, FODAM-SE OS SENTIMENTOS!

Já estou farto de ver “os meus sentimentos” ou “os sentimentos destes ou daqueles” como desculpa para exigir leis ou políticas para um estado ou um país, como desculpa para não cumprir a lei existente e sair impune, e como desculpa para oprimir outros. Como se “sentimentos feridos” tornassem algo ou alguém automaticamente certo e incriticável. Aos americanos (e não só) que se opoem a algo perfeitamente legal e legítimo porque isso lhes “fere os sentimentos”… CRESÇAM UM BOCADINHO, ok?

E, sim, isto vem de tudo o que tenho lido na última semana sobre o assunto, mas a “gota de água” foi ouvir uma pessoa — portuguesa! — dizer que concordava inteiramente com a oposição à “mosque”, porque num caso como este estamos a falar de emoções feridas, e por isso o que é legal ou não — e o que é ético ou não — é irrelevante.

Uma atitude destas mete-me nojo a todos os nívels, e só me dá vontade de responder mencionando onde este tipo de pessoas pode ir meter as suas preciosas “emoções” — feridas ou não.

P.S. – e há muito que me irrita esta ideia, pelos vistos aceite pela maioria da sociedade, de que sentimentos e emoções são as coisas mais importantes do mundo, e que qualquer posição ou acto (incluindo uma eventual atrocidade) é aceitável — e incriticável –, bastando para isso que o autor diga “eu sinto isto muito“.

Pedofilia e as desculpas repugnantes da Igreja Católica

Segunda-feira, 29 de Março, 2010

Evil Pope Com toda a polémica relativamente ao abuso de crianças por todo o mundo pela parte da Igreja Católica e o seu encobrimento pela hierarquia da igreja, naturalmente — afinal, trata-se de uma organização ainda poderosíssima e com influência em todo o mundo — tem havido quem a tente defender. Várias defesas têm sido do tipo “o Papa não sabia!”, o que parece muito improvável, mas a defesa mais incrível, mais supreendente, mais chocante é esta: “os outros também o fazem”!

“Os outros também o fazem”. Como se isso desculpasse minimamente a violação de crianças; afinal “não somos só nós”.

Mas aquilo que torna a Igreja Católica totalmente corrupta e imoral, e a hierarquia da mesma culpada de crimes hediondos pelos quais devia pagar com prisão ou pior, não é, acreditem ou não, o “mero” facto de um bom número deles violar e torturar crianças há décadas. E, sim, isto acontece em maior proporção do que na sociedade em geral — não que eles fossem minimamente desculpáveis se a proporção fosse idêntica.

Nem é “só” o facto de eles afirmarem ser a única fonte de moralidade na Terra, os representantes do criador do universo. De eles afirmarem repetidamente que são moralmente superiores aos crentes de outras religiões, já para não falar dos não-crentes.

Nem é “só” o facto de que o abuso de crianças pela parte de padres é ainda mais condenável por ser feito por quem numa posição de autoridade e confiança para com essas crianças — sendo um abuso dessa autoridade e uma traição completa dessa confiança.

Não, a parte verdadeiramente criminosa, e que condena toda a hierarquia da Igreja, incluindo o actual papa, mesmo os membros da hierarquia que nunca tenham tocado numa criança, é esta: eles tentam encobrir isto há décadas. A hierarquia Católica tem tido conhecimento de inúmeros casos de abuso de crianças pela parte de padres ao redor do mundo, e a única preocupação da mesma tem sido auto-proteger-se. Proteger a sua reputação. Não a protecção das crianças. Não a obtenção de justiça.

Nos inúmeros casos ao longo de décadas, tendo de escolher entre a protecção de crianças inocentes e a protecção da reputação da Igreja, esta escolheu sempre a segunda hipótese. Sempre que há queixas contra um padre, as queixas não chegam à polícia, nem o padre é expulso da Igreja; é simplesmente transferido para outra paróquia, onde lhe serão inocentemente confiadas novas crianças para violar. Repetir conforme necessário.

Isto é monstruoso e imperdoável. Torna toda a hierarquia Católica cúmplice das inúmeras violações de crianças. E torna a Igreja uma das organizações mais moralmente podres em todo o mundo.

FAQ: “O ateísmo / materialismo não explicam o amor / a amizade / o bem e o mal / a poesia / a beleza / os números irracionais na matemática / <outro exemplo de conceito humano abstracto>, logo estão errados / Deus existe!”

Quarta-feira, 10 de Março, 2010

Esta pergunta é, infelizmente, muito comum; tal como no caso da aposta de Pascal, a maior parte dos crentes põem esta questão com uma atitude de desafio (“responde lá a isto! aposto que não consegues!”), estando visivelmente na ilusão de que a pergunta é original, que o ateu nunca pensou nela, e que vai ser incapaz de lhe responder.

Surpresa: qualquer ateu que se interesse por discutir este tipo de temas pensou nessa questão, e detectou imediatamente vários problemas na mesma.

O primeiro problema é este: trata-se de um argumento da ignorância, já mencionado aqui e aqui. Esse argumento, neste contexto, resume-se a isto: “não sei / não entendo / não estou a ver como, logo foi Deus“. Já se trata de um péssimo argumento quando usado em relação a algo que ainda não é entendido ou explicado pela ciência (ex. a origem do universo), uma vez que não faz sentido que uma explicação sobrenatural ganhe simplesmente “por default”, mas demonstra ainda mais “tolice” quando usado relativamente a algo que já foi explicado e é entendido por muita gente, mas o crente em questão não conhece ou não entende — nem procurou conhecer ou entender — essas explicações. É como alguém nos dias de hoje pensar (como acontecia na pré-história) que uma trovoada é uma discussão entre “os deuses”.

Por outras palavras, é de uma tremenda ignorância — e preguiça intelectual — atribuir emoções ou a capacidade de alguém para o bem (ou o mal) a “Deus” quando podem ser explicadas pela evolução, psicologia, neurologia e filosofia. Mas aprender sobre tudo isso dá muito trabalho, não é?

Um segundo problema é a mentalidade dualista e anti-humana, que diz — e é assim culpada por tanto sofrimento ao longo da história — que tudo o que é profundo, marcante, importante ou “bom” tem de ter uma origem sobrenatural, exterior a nós, de um plano não alcançável pela inteligência e ciência humanas. Tal como a acusação de Keats a Newton por este ter “desvendado o arco-íris” e assim destruído a beleza e poesia do mesmo (como se só houvesse beleza e poesia na total ignorância…), essa é uma mentalidade anti-humana e anti-vida, que nos tira o melhor de nós próprios e diz que este só pode vir de um plano sobrenatural e incompreensível (seja “Deus”, seja qualquer coisa “new age” indefinida), porque se fosse compreendido e explicado em termos puramente humanos perderia assim todo o seu valor.

Isto, desculpem dizer, é absurdo. O amor de uma pessoa por outra não precisa de uma origem ou justificação externa ou sobrenatural para ter valor, para ter poesia e pureza. Pelo contrário, ao afirmarem que essas origens são necessárias, é que lhe estão a tirar valor. Aquilo que eu sinta por alguém — uma namorada, um familiar, um amigo — não precisa de justificação externa, não precisa de vir de um “plano espiritual”, não perde valor por vir “só” de mim — muito pelo contrário, perderia todo e qualquer valor se não viesse de mim, se não fosse meu.

Na verdade, o atribuir de tudo o que há de bom no ser humano a algo “extra-humano” só demonstra uma coisa: um total ódio à humanidade e a si mesmo. Algo bastante comum nas várias religiões populares, “coincidentalmente”.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Christopher Hitchens e os 10 Mandamentos

Sexta-feira, 5 de Março, 2010

Um vídeo curto, acessível e com algum humor, do sempre brilhante Hitch.

I saw you coveting right now - you have the right to remain silent.A quem ainda achar que os 10 Mandamentos da Bíblia são uma boa ideia e são (como alguns crentes costumam dizer) “a base da moralidade e da lei nos dias de hoje”, recomendo estes dois brilhantes artigos do site Ebon Musings:

The Big 10 (comentário aos 10 originais)
The New Ten Commandments (sugestão de “regras de vida” — o autor, e muito bem, não gosta do termo “mandamentos”, porque quem é qualquer um para comandar outro? –, de um ponto de vista laico e humanista)

O segundo teve a particularidade de ser citado por Richard Dawkins no livro “The God Delusion”.

Estudo liga religião a comportamento imoral

Quarta-feira, 24 de Fevereiro, 2010

Visto aqui, por exemplo. Inclui um vídeo de 2 minutos da MSNBC, e um PDF com o estudo propriamente dito.

Resumindo muito a coisa: ao contrário do que certos crentes — sobretudo nos países mais religiosos, como os EUA — esperariam, os países onde há menos crime, menos violência, menos pobreza, menos desigualdade, menos gravidezes na adolescência, e assim por diante, coincidem com os menos religiosos. Os EUA, em particular (país de “1º mundo” mais religioso) ficam bastante mal na comparação.

Agora, como qualquer pessoa com um vestígio de educação científica saberá, correlação não implica causalidade. Ou seja, o facto de “mais isto” coincidir com “mais aquilo” não implica que uma das coisas provoque a outra; pode haver uma 3ª variável desconhecida que provoque as outras duas, ou pode ser simplesmente coincidência, o que num estudo não suficientemente abrangente, detalhado e duradouro pode perfeitamente existir.

Por outras palavras, não podemos olhar para o estudo e imediatamente concluir que “a religião causa imoralidade”, ou que “a imoralidade causa o aumento da religiosidade” (ambas as hipóteses são possíveis, e devem ser consideradas; não podemos simplesmente assumir que a coisa acontece no primeiro sentido que nos vem à cabeça… caso aconteça, o que ainda está por demonstrar).

Para provar a causalidade, seria preciso muito mais dados, conseguidos ao longo de décadas — por exemplo, para cada país, verificar se aumentos ou diminuições da religiosidade se reflectem em aumentos ou diminuições da imoralidade, de forma linear. Se isso acontecer numa esmagadora maioria dos casos, e em ambos os sentidos (isto é, aumentos de uma coisa implicam aumentos de outra, e o mesmo para diminuições), então podemos aí assumir que há boas probabilidades de haver causalidade (se bem que resta investigar se não são ambas as coisas consequências de uma terceira).

(Se estão meio confusos porque é que ponho tantos “senãos” relativamente a tirar conclusões a partir de um estudo que aparentemente só favorece a minha posição, quando no meu lugar se imaginam a “abraçá-lo” imediatamente, bem-vindos ao vosso primeiro contacto com o método científico, em que quem sugere uma hipótese é o próprio a fazer tudo ao seu alcance para a falsificar, e só mantém a hipótese em aberto se não o conseguir. É por isto que a ciência não é “uma religião”, e não precisa de “fé” — ou seja, é de confiança. 😉 )

Podemos, no entanto, concluir desde já uma coisa, que considero extremamente importante: a ideia de que a religião é essencial à moralidade humana é absolutamente falsa. Muitos crentes assumem — ou foram ensinados assim e nunca o questionaram — que a religião é a única coisa que torna as pessoas morais, e que uma sociedade que a perdesse transformar-se-ia rapidamente numa orgia de violência e caos… mas está demonstrado que não é o caso; sociedades menos religiosas são tão ou mais morais. Aliás, os dados sugerem o “mais”, mas convém investigar isso melhor, como disse.

Especulando um pouco — e não me levem muito a sério aqui –, eu diria que há várias razões para a alta religiosidade estar associada à imoralidade e a problemas sociais.

Primeiro, porque a religião é uma forma de as pessoas não pensarem em moralidade, por fornecer respostas fáceis (“Deus mandou isto”). Questões como o aborto ou a eutanásia devem ser estudadas e discutidas pela sociedade, considerando os efeitos prováveis das várias políticas possíveis, sobretudo em termos de sofrimento causado ou evitado e de progresso social… mas nada disso acontece quando nos limitamos a apontar para a reedição de uns pergaminhos escritos por pastores da Idade do Bronze como sendo o fim da discussão.

Segundo, porque uma sociedade muito religiosa é necessariamente uma sociedade onde o pensamento crítico não é muito apreciado, e portanto as pessoas têm menor capacidade de tomar decisões racionais e informadas (o que leva, por exemplo, a eleger maus políticos e a exigir más políticas).

Terceiro, porque quem acredita que esta vida é só um teste para determinar a salvação da alma irá dar-lhe necessariamente menos valor — ou apreciar menos o sofrimento dos outros — do que quem acredite que a vida que temos é única e finita.

Quarto, porque há muita imoralidade na base das religiões — basta olhar para os livros sagrados.

Quinto, porque as religiões tendem a ser ultra-conservadoras, anti-ciência e anti-educação (incluindo a educação sexual, a melhor forma de evitar gravidezes adolescentes e, por conseguinte, abortos); em qualquer questão social, as igrejas estão quase sempre do lado errado (ex. aborto, educação sexual, direitos de homossexuais, ensino da evolução das espécies (isto é mais nos EUA), igualdade de direitos entre os sexos, eutanásia, etc.).

A religiosidade não existe num vácuo; procede das religiões existentes, e elas têm muita, muita “culpa no cartório”, em termos de moralidade não só de actos, mas do que promovem.

Mas isto sou só eu a supor. 🙂

FAQ: “Independentemente de Deus existir ou não, a igreja faz bem ao mundo, certo?”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Infelizmente, os factos sugerem o contrário.

Primeiro: relativamente à “igreja”, vou aqui incluir não só a igreja Católica, mas também as igrejas Protestantes em geral (muito influentes nos EUA), e as teocracias Muçulmanas.

Segundo: é importante distinguir os crimes feitos pela religião / igreja, ou por causa delas, ou em nome delas, de crimes feitos simplesmente por religiosos (ou mesmo membros dessas igrejas). Por outras palavras, não culpo o Cristianismo pelo Holocausto apesar de Hitler ter sido Católico, nem culpo a religião ou a própria igreja Católica directamente pela pedofilia dos padres — não há nada nem nos livros sagrados nem nos “estatutos” da igreja que leve a cometer tais crimes. Mas culpo a igreja em questão por dar muito mais importância à sua reputação do que à inocência e à vida de crianças inocentes, protegendo da lei os padres pedófilos e impedindo que estes sejam punidos pelos seus crimes, e movendo-os de paróquia em paróquia quando os seus actos são descobertos localmente. E, sim, culpo a igreja Católica por ter suportado em vários aspectos o regime Nazi.

Terceiro, não vou incluir aqui crimes limitados ao passado, como a Inquisição ou as Cruzadas. Faço notar apenas que a igreja Católica deixou de cometer essas atrocidades apenas quando perdeu o poder absoluto que tinha, e não por ter chegado à conclusão de que aquilo era errado e imoral. Acho que isso diz muito.

Quarto, reconheço que não é tudo mau — as várias igrejas / religiões fizeram e fazem efectivamente actos de caridade, sem dúvida louváveis, tanto em pequena como em grande escala. Qualifico isso, no entanto, com o facto de que muitas vezes trata-se mais de uma forma de espalhar a fé do que de caridade “desinteressada”, e, de qualquer forma, a religião está longe de ser necessária para se cometer actos de bondade humana.

De qualquer forma, acho que o balanço é completamente negativo.

Qual é, em termos humanos, o problema com a religião / igreja hoje em dia? Estes, para começar:

  • sexismo: desde os casos extremos nas teocracias Muçulmanas, em que as mulheres não têm acesso (sob pena de morte) a qualquer educação escolar, são elas próprias condenadas se forem violadas (muitas vezes não acontecendo nada ao violador), são demonizadas como seres “sexuais” que “tentam” os homens (inocentes, coitadinhos) e por isso são submetidas ao horror que é a mutilação genital forçada (a ideia é que, se perderem completamente a capacidade de ter prazer sexual, já não vão “seduzir” os homens…), e, fora do Islão, temos toda uma cultura ocidental conservadora que diz que o papel das mulheres é ter filhos e obedecer aos maridos… exactamente como diz na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento.
  • oposição ao uso de preservativos — incluindo através de mentiras, como “aumentam o risco de Sida” –, provocando o sofrimento e morte de milhões em África, por exemplo, já que em muitas zonas não há nenhuma fonte de informação além dos missionários. Seja por questões religiosas (“Deus odeia contraceptivos e/ou sexo por prazer”), seja por questões mais mundanas (aumentar ao máximo o número de crentes), este acto de quase genocídio é um crime imperdoável.
  • oposição (não se limitando a não o fazer eles próprios, mas tirando sempre que possível direitos aos outros) ao aborto, direitos dos homossexuais (vistos como um “mal moral”) e eutanásia
  • oposição à educação sexual — paradoxalmente, a melhor forma de reduzir o número de gravidezes indesejadas, e, por conseguinte, abortos.
  • visão do sexo (parte perfeitamente natural e saudável do que é ser-se humano) como algo “porco” e “imoral”.
  • oposição — por razões que não passam de superstição — a ramos promissores da medicina, como a investigação em células estaminais, clonagem de órgãos, etc..
  • guerras e ódios de origem religiosa — nem todos no Médio Oriente (ver Irlanda, por exemplo)
  • protecção dos padres pedófilos, que muitas vezes são simplesmente movidos de uma paróquia para outra, quando os seus actos se tornam conhecidos, demonstrando a total ausência de preocupação com as vítimas deles.
  • censura a oposições à religião, mesmo por não-crentes da mesma, devido à ideia de que a religião está acima de qualquer crítica (ex. a condenação pela parte de Cristãos (!) e até ateus (!!) à publicação dos cartoons de Maomé, quando a única condenação devia ter sido aos Muçulmanos que praticaram violência e intimidação).
  • crianças traumatizadas por descrições ultra-detalhadas do inferno.
  • atitude anti-intelectualismo, anti-educação e anti-ciência (por exemplo, a ideia de que se a razão e a fé entram em conflito, se deve preferir a fé, que a razão humana não é de confiança, e assim por diante).
  • anulação da curiosidade humana, por se dizer / achar que se tem todas as respostas (nem que estas sejam simplesmente “foi Deus”).
  • mentalidade de “morte em vida”, que diz que esta vida é só sofrimento e não é “the real thing”, que o nosso tempo neste mundo não passa de um teste para determinar a salvação ou não da nossa “alma”, que a vida a sério começa depois de morrermos, fazendo com que as pessoas aceitem a sua condição e não tentem melhorar o mundo em que vivem.
  • actos de violência e terror – sobretudo nas teocracias Muçulmanas, em que a “blasfémia” (“um crime sem vítima”, como já foi descrita) e a apostasia são punidas com a morte, mas também em países como os EUA, em que terroristas Cristãos explodem clínicas de aborto, assassinam médicos que trabalham nas mesmas, e não só.
  • mutilação do conceito de moralidade para passar a significar simplesmente “obedecer aos caprichos de um ser” — como se esse ser, caso existisse, estivesse acima da moralidade.
  • não-pagamento de impostos, tratando-se de algumas das organizações mais ricas do mundo, e estando a economia mundial como está.

FAQ: “Se não acreditas em Deus, porque é que falas tanto nele?”

Sábado, 20 de Fevereiro, 2010

Para começar, há que distinguir “falar de Deus” e “falar de religião“. Se o significado da pergunta é: porque é que eu me importo com isto, porque é que gasto tempo e esforço a criticar a religião, sugiro a leitura destes dois posts:

O mais provável é que a resposta esteja nos posts acima indicados, e provavelmente podia ficar por aqui. No entanto, se levarmos a pergunta à letra, ela não se refere a importar-me com a religião, mas sim a “falar de Deus”, sendo “Deus” provavelmente a versão mais popular nestas bandas, o deus Judaico-Cristão. A acusação implícita na pergunta é que, se falo tanto nele, se calhar é porque lá no fundo até acredito que ele existe…

Porém, quem leia realmente o que escrevo neste blog, em vez de simplesmente assumir coisas em relação a mim por me auto-declarar ateu (o nome do blog é uma boa pista…), verá que é raro falar propriamente de “Deus”, e que, quando o faço, é óbvio que estou a falar de um ser que considero fictício, tal como posso falar do Homem-Aranha num blog ou fórum sobre comics, sem que venha logo algum parvinho perguntar-me se, aos 35 anos, acredito que o Peter Parker existe…

Ao contrário do Homem-Aranha, no entanto, há realmente muita gente no mundo a acreditar no deus Cristão — cerca de dois mil milhões, ou seja, 1/3 do planeta –, gente essa que o considera real, e que vive em função dos supostos desejos (e muitas vezes caprichos) desse ser. E é a moralidade desse ser — tal como descrita nos livros sagrados, e/ou nas crenças dos crentes, se bem que estas últimas tendem a ser inventadas pelos mesmos para serem um reflexo deles próprios — que eu critico, no sentido de “vocês seguem um ser com estas características; o que é que isso diz sobre vocês? Ou nunca pensaram sequer nisso? Não têm problemas em seguir um ser que ou é 1) ciumento, inseguro, sexista, homofóbico, sádico e birrento, ou é 2) obviamente acabado de inventar por vocês?” Nada disto sugere minimamente que eu “acredite” nele de alguma forma… mas se os crentes acreditam, acho bem que sejam confrontados com a personalidade que eles próprios lhe dão.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O ateísmo causou a morte de milhões! Olhem para a Rússia Soviética!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

(Resistir… à piada óbvia… pelo menos até ao fim do post…)

Mais uma vez, não é uma pergunta, é uma acusação. A resposta óbvia é que o ateísmo não é um sistema de valores (o que é muito diferente de dizer que ateus não têm um sistema de valores), logo não há nada no ateísmo que leve a cometer qualquer acto — bom ou mau. É simplesmente a não-crença num ou mais deuses. Logo, um ateu — tal como um crente — pode ser a pessoa mais moral do mundo, ou o maior monstro.

A resposta típica de um crente aí é que aí uma relação, que o ateísmo, por uma ou mais razões, leva a massacres como esses, ou seja, que é, directamente, a causa dos mesmos. E que razões são essas?

A mais comum é que o ateu, ao não acreditar numa entidade superior que o punirá ou recompensará depois da morte, acha que “vale tudo”, que pode fazer tudo, sem consequências. Já respondi a isso em “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“, e reitero o que disse lá — que não só isso é extremamente ofensivo, como, ao sugerir isso, quem o diz está a admitir que não vê nenhuma razão para não roubar, violar e matar além da questão Céu/Inferno, e que se alguma vez perder a sua crença vai efectivamente cometer esses crimes, o que faz dele um psicopata. É esse o teu caso? Pensa lá bem.

Uma sugestão um pouco menos frequente é que o ateísmo, por não acreditar numa “alma” no sentido metafísico, que persiste depois da morte, “desvaloriza” o ser humano, tornando-o um mero conjunto de elementos químicos, e que por isso o ateu típico não dá qualquer valor à vida dos outros, considerando-os meras estatísticas.

O não dar valor à vida dos outros, no entanto, não tem nada a ver com a crença ou descrença em “almas”; é uma simples questão de egocentrismo, de falta de moralidade e de humanidade. A prova disso é que se pode ver esse mesmo comportamento em muitos crentes (Inquisição, mentiras sobre preservativos em África, protecção dos padres pedófilos, oposição a ramos da medicina, etc.), que supostamente acreditam em almas… mas isso não os impede de não dar qualquer valor à vida humana, de ver a morte de milhares ou milhões como uma mera estatística.

Na verdade, posso até argumentar que quem tem mais tendência para dar valor à vida humana são precisamente os ateus, pela simples razão de que são eles que acreditam que a vida que temos é a única, é finita, e por isso é preciosa. Ao invés disso, muitos crentes (não todos, repare-se) consideram a vida na Terra uma mera “passagem”, composta basicamente de sofrimento, cujo único propósito é determinar a salvação ou condenação da alma. Essa atitude tem o seu exemplo perfeito na célebre citação de Arnaud Amalric, que numa Cruzada em 1209, quando lhe perguntaram como distinguir os Católicos dos Catares hereges, respondeu “matem-nos todos; Deus conhecerá os seus”. É mais fácil não dar valor à vida humana quando se acredita que esta é um mero teste, que depois da morte é que começa a “verdadeira vida”, e que a única coisa que importa neste mundo é salvar almas.

Isso foi há 800 anos, dizem vocês, e as coisas mudaram? Errado. É exactamente essa mesma crença e essa mesma mentalidade que leva a que a Igreja Católica espalhe mentiras sobre os preservativos em África, entre populações que muitas vezes não têm outra fonte de informação além dos missionários, e dessa forma provoque a morte e sofrimento de milhões pela Sida. A atitude é simples: Deus detesta contraceptivos, logo mais vale sofrerem e morrerem mas terem uma hipótese de ir para o Céu, do que o contrário. A vida na Terra é vista como irrelevante, e a morte de milhões é vista como um mal menor. Isto é que é “dar valor à vida humana”?

E, como não resisto, tenho de o dizer: na Rússia Soviética, a Rússia Soviética olha para TI!! 🙂

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês só são ateus porque querem fazer o que vos der na gana, sem regras e sem prestar contas a ninguém!”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

A pergunta afirmação é ofensiva por várias razões, e talvez não merecesse uma resposta. Mas, como já fiz antes, vou ser generoso, e assumir que não acreditas realmente no que acabaste de dizer, e que estás simplesmente a repetir sem pensar algo que te disseram. E, sinceramente, se fosse a ti afastava-me de quem te disse tal coisa, porque não é, de certeza, uma pessoa honesta e de confiança, mas, pelo contrário, não tem quaisquer problemas em mentir e caluniar em proveito próprio. E desenvolveres um bocadinho de pensamento crítico, de forma a não acreditares em tudo o que ouves sem questionares nem pensares, também não te fazia mal nenhum.

Já comentei antes, neste FAQ, que o medo do castigo ou desejo de recompensa são péssimas razões para se ser moral (e sugere coisas nada simpáticas sobre quem acha essas razões válidas), e que a nossa moralidade não vem da religião, muito pelo contrário. Mas nesta entrada vou responder à implicação propriamente dita.

Essa implicação é a seguinte: que os ateus no fundo “sabem” que Deus existe, mas escolhem “fingir que não acreditam nele” para não terem de aceitar um ser superior, obedecer a regras de moralidade, etc..

Há tanta estupidez e tanta malícia nessa implicação que uma pessoa nem sabe por onde começar.

Primeiro, é sugerido que os ateus são desonestos, já que é implicado que a existência de Deus é auto-evidente e óbvia para todos, e portanto os ateus estão a mentir quando afirmam ter chegado ao ateísmo por falta de evidências a suportar as afirmações dos crentes. A acusação sugere que os ateus, no fundo, “sabem” que Deus existe (e é sempre o deus em que o acusador acredita, é claro, e nenhum outro), mas fingem não o saber; ou seja, que no fundo não são realmente ateus.

Segundo, é sugerido que os ateus são imorais, já que “escolhem” o ateísmo para não ter de obedecer a ninguém, ter regras de moralidade, etc., bem como para não “ter” ninguém superior a eles.

Terceiro, é sugerido que os ateus são completamente estúpidos, já que, se lá “bem no fundo” “soubessem” que existe um deus que impõe regras morais e pune quem não as segue, não faria qualquer sentido declarar-se ateus, já que isso não os livraria, de forma alguma, da eventual punição divina.

Tudo isto não é apenas falso, é intencionalmente falso (também conhecido por “desonesto”) e insultuoso.

A existência do teu deus não é óbvia (caso contrário, entre outras coisas, não haveria outras religiões, nem seria necessário haver apologistas religiosos — como houve em toda a História, e continuam a haver — a tentar “demonstrar” que Deus existe).

Ateus não “escolhem” ser ateus por quaisquer segundas intenções. Não acontece com todos, mas muitos de nós somo-lo porque foi a conclusão a que chegámos racionalmente, depois de olharmos para as evidências e para o mundo em que vivemos.

Ateus são tão ou mais morais, em média, do que crentes de qualquer religião. Sobretudo porque somos os únicos que não fazemos o bem à espera de ganharmos alguma coisa com isso depois de morrermos. E o “moral” é o escolhido, não o obedecido; a moralidade nunca pode vir simplesmente da obediência a determinado ser, ou do seguimento de determinadas regras, mas sim de escolhas de um ser consciente.

E ateus não são tão idiotas que acreditem na existência de algum deus, mas achem que o podem enganar fingindo não acreditar nele (!). Logo, se achaste que a afirmação no título desta entrada fazia sentido, espero que te estejas a sentir bastante envergonhado, neste momento.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O ateísmo não passa de mais uma religião!”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

Isso não é uma pergunta. 🙂 Mas, respondendo, essa acusação (e, sim, é uma acusação — e um crente que a faça devia pensar um pouco no facto de ter acabado de usar “religião” como um insulto…) pode ter vários significados diferentes. Um deles é o comum “os ateus adoram / idolatram a ciência / Satanás / Darwin / a eles próprios”, que vai ser tratado numa entrada seguinte do FAQ.

Outra alternativa é que não acreditar em nenhum deus — isto é, acreditar num universo 100% natural, sem um criador — requer tanta fé como o Cristianismo ou qualquer outra religião. Isso também fica para uma entrada futura.

Finalmente, há o significado a ser abordado agora: que o ateísmo é uma religião no sentido em que é algo em que a pessoa acredita, com fé, com dogma a seguir, com “fiéis”, uma hierarquia, e afins.

O que é que define uma “religião”? Basicamente, uma religião é um sistema de crença, que inclui regras de comportamento, rituais, em muitos casos (não todos) um elemento sobrenatural (ex. milagres), afirmações sobre a origem do universo, sobre a razão de existirmos, o nosso propósito no mundo, e o que acontece depois de morrermos. Há normalmente também uma hierarquia, sobretudo no Catolicismo.

Bem, o ateísmo puro não inclui nada disso. O ateísmo é apenas a falta de crença num deus ou deuses; não há regras de conduta, rituais, afirmações sobre porque é que estamos aqui, ou sobre o que devemos fazer. Nem faz sentido falar de “crenças ateias”, porque a única coisa que os ateus têm em comum é que não acreditam em algo em que muita gente acredita. Na verdade, como já foi sugerido antes, a palavra “ateu” nem devia existir, já que não temos — ou precisamos de — palavras que signifiquem “pessoa que não acredita em astrologia” ou “pessoa que não acredita no Pai Natal”.

Enquanto as religiões, em geral, geram alguma homogeneidade entre os crentes de cada uma (por haver um livro sagrado comum, um conjunto de crenças em comum, um fundador, e assim por diante), o ateísmo não é nada assim. Alguns ateus (mas não todos) são cépticos, e chegam ao ateísmo simplesmente por não verem qualquer evidência da existência de qualquer deus. Outros terão outras razões (incluindo nunca terem pensado no assunto, o chamado “apateísmo”). Mas, fora essa não-crença, não temos realmente nada em comum. Da mesma forma que toda a gente que não colecciona selos não forma um grupo.

P.S. – se estás aqui a pensar algo como “ah, apanhei-te, acabaste de admitir que os ateus não têm qualquer código de conduta, de moralidade, etc.”, não foi isso que eu disse. Eu disse que o ateísmo não o tem, não que os ateus não o têm. O ateísmo é simplesmente uma não-crença em algo, não é suposto ser um sistema de moralidade. Não acreditar em Deus (por exemplo, no deus Cristão) não nos diz como agir no mundo, assim como não acreditar no coelhinho da Páscoa não nos dá regras morais… logo, temos de as ir buscar a outros sítios. O humanismo secular, do qual quero falar mais no futuro, é o sistema moral provavelmente mais comum entre os ateus (incluindo o autor deste blog), mas está longe de ser o único. E, sim, é possível ser um ateu e ser um monstro… tal como o crente mais devoto do mundo em qualquer religião (incluindo a tua) o pode ser.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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