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Arquivo da Categoria ‘Realidade’

9 Perguntas a um Ateu

Segunda-feira, 8 de Novembro, 2010

Fizeram-me ontem as seguintes perguntas, às quais achei piada responder:

1) Tu não acreditas em Deus(es) ou não acreditas em religião?
2) Estás convencido que não existe qualquer hipótese de existir um Deus/ forma de energia?
3) Acreditar, pensamento positivo e ter fé não fazem as coisas acontecerem?
4) Esta vida é a única que existe ou existiu ou existirá?
5) Não há destino nem almas gémeas nem déjà vu?
6) Não existe karma?
7) Mitologia e simbologia são assuntos aborrecidos?
8) Não existem realidades alternativas?
9) Faz sentido pensar no significado da vida?

Respostas a seguir:
(mais…)

“O ónus da prova pertence aos ateus”?

Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010

Uma coisa a que acho piada fazer relativamente aos sites que mantenho é olhar para as estatísticas e ver que termos (palavras ou frases) as pessoas estão a introduzir nos motores de busca de forma a vir parar aqui. Uma em que reparei ontem é esta: “o ônus da prova pertence aos ateus” (dizia “ônus” por ser em Português do Brasil; cá em Portugal seria “ónus”).

Não há forma de saber se era uma pergunta ou uma afirmação, já que mesmo tratando-se do primeiro caso em geral um utilizador típico não introduz sinais de pontuação nas pesquisas que faz. Mas já vi essa mesma afirmação ser feita mais que uma vez, e por isso quero aqui responder-lhe.

Para começar, a resposta “standard”, que já mencionei no FAQ: quem sugere algo, quem diz que algo existe, é que tem o ónus da prova. Ou seja, se eu digo que existe um monstro voador de esparguete que criou o universo e adora piratas, sou eu que tenho de apresentar evidências e provas disso, não és tu que terás a responsabilidade de o “desprovar”. Se dizes que Deus existe — seja qual for a versão dele em que acreditas — é tua responsabilidade prová-lo, ou pelo menos fornecer evidências suficientes para a probabilidade do “existe” ser superior à do “não existe”. Se estivermos a falar de questões criminais, isto chama-se “inocente até prova da culpa”, que, terás de admitir, faz todo o sentido. Quem afirma (e não, não tentes dar a volta com algo tipo “estás a afirmar a não-existência!”) é que tem de apresentar evidências “para além da dúvida razoável”.

Uma resposta que alguns crentes dão aqui é esta: tu é que estás a afirmar a existência de algo muito mais fantástico para mim: um universo 100% natural, sem um criador ou uma criação sobrenatural, que de alguma forma surgiu a partir do nada, e apareceram estrelas, planetas, e vida pelo menos no nosso. Tudo naturalmente. Como? Explica-o. Prova-o.”

Parece fazer sentido. Até se pôr por palavras a lógica inerente a esse tipo de raciocínio, que é a seguinte: para não acreditar em Deus, um ateu tem de explicar tudo em detalhe, como a origem do universo, evolução, etc., e qualquer vestígio de “isto ainda não sabemos” torna imediatamente essa explicação inválida e “prova” o “foi Deus”. Ou seja, mesmo que o ateu — ou a ciência — explique 99%, a falta de explicação neste momento para o 1% restante imediatamente “prova” que não pode ter sido como o ateu está a sugerir, “prova” que o universo não pode ser 100% natural, e “foi Deus” “ganha” “por default”. (3 coisas seguidas entre aspas; tenho mesmo uma mente estranha…)

Porquê esse “default”? Porque é que o ateu tem de explicar tudo e provar tudo, e, se falhar na mais pequena coisa, o crente “ganha” automaticamente, sem ter de explicar ele próprio nada? Eu suponho que seja por uma questão de hábito: quem tenha aprendido desde criança que Deus existe e criou tudo e que isso é auto-evidente, verá tudo isso como algo perfeitamente normal e óbvio, e uma explicação alternativa que vá contra aquilo em que sempre acreditou — mesmo sendo uma explicação que não envolva seres sobrenaturais e “milagres” — vai-lhe parecer totalmente estranha, absurda e surreal.

Além disso, o crente está habituado a uma explicação aparentemente perfeita e final: “foi Deus”. A ciência está em constante evolução, e não tem problemas em admitir que há muita coisa ainda por explicar, muito ainda por entender. Logo, o crente sentirá — e isso é compreensível — que os ateus lhe estão a pedir que substitua uma explicação simples, completa e (para ele) óbvia por uma explicação complexa, incompleta e (para ele) fantástica.

O problema é que “foi Deus” não explica absolutamente nada, simplesmente move o mistério um degrau para cima. Ou seja, a ciência tenta explicar, por exemplo, a origem do universo de uma forma natural, mas ainda não o consegue fazer completamente, se bem que há várias hipóteses em aberto. O crente aí retorque: “ah, vocês não sabem, mas eu sei: foi Deus”. Mas não explica como, como é que ele o sabe, nem qual Deus, e nem o mais importante de tudo: de onde vem Deus? Quem criou Deus? A resposta “ninguém, Deus sempre existiu” é um “special pleading“: porque é que Deus há de ser uma excepção à regra de que tem de haver um criador para tudo? Se Deus não precisa de um criador, então porque não considerar que talvez o universo não precise de um criador? Se Deus sempre existiu, porque não o universo? E assim por diante.

Por outras palavras, se explicas algo como “foi magia”, então ou explicas essa magia (degrau seguinte), ou isso não é de todo uma explicação. Como os crentes nunca explicam — nem têm formas de explicar — “a magia” / Deus, no fundo não explicam absolutamente nada, enquanto a ciência o faz — a pouco e pouco, mas faz. E a ideia de que a ciência tem de ser perfeita e completa ou “foi Deus” “ganha” automaticamente não faz qualquer sentido; é o equivalente a, numa investigação criminal, dizer-se a um detective que este tem de arranjar provas completas, finais e perfeitas de que o criminoso é X, caso contrário o criminoso é Y… mesmo sem qualquer vestígio de evidência a apontar para Y.


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