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Arquivo da Categoria ‘Religião’

FAQ: “Tive uma experiência que me prova que Deus existe.”

Sábado, 23 de Abril, 2011

Aviso: a tua memória dessa experiência é, quase de certeza, algo com o qual tens uma forte ligação emocional, e quaisquer argumentos contra a tua interpretação dessa experiência vão-te parecer um ataque pessoal. Não o são.

Este é um argumento relativamente comum. Há várias variantes possíveis:

  • “na altura pior da minha vida, quando nada parecia fazer sentido e não parecia haver esperança, senti a presença de Deus, o que me inspirou a endireitar a minha vida”
  • “numa altura de despero, pedi ajuda a Deus, e aconteceu algo invulgar demais para ser uma mera coincidência; acredito que foi um milagre”
  • “aconteceu algo que não consigo explicar, que não pode ter sido um fenómeno natural; logo, só pode ter sido um acto de Deus”

Possivelmente, o teu caso será igual ou semelhante a um dos acima (caso não seja, por favor conta-o, num comentário). E, mais uma vez, eu acredito que isto seja algo actualmente “especial” para ti, algo no qual tens um grande investimento emocional. Foi, possivelmente, como estares-te a afogar e sentires alguém a agarrar-te na mão e puxar-te para cima, e até hoje é a memória mais importante na tua vida. Acredites ou não, eu compreendo, melhor do que possivelmente imaginarás, como isto é importante para ti.

Mas também acredito que a realidade deve sempre estar acima de tudo; que devemos corrigir quaisquer crenças erradas que tenhamos, por muito bem que estas nos façam sentir. Estás à vontade para não concordar com isto. É um direito teu não questionares algo que te é confortável. Sendo assim, é melhor parares de ler agora.

Se ainda aí estás… peço-te que comeces por te perguntar o seguinte em relação à tua experiência: como é que sabes que a tua interpretação é a correcta? Suponho que não te aches infalível nem omnisciente, pelo que, sendo assim, te deverás indagar sobre porque é que sabes que o que se passou só pode ter origem “divina”, não sendo possível nenhuma outra explicação. Consideraste mesmo outras hipóteses? Consideraste de forma séria as possíveis explicações naturais antes de passares para uma sobrenatural? E, se não o fizeste, não achas que o devias ter feito?

“Sentir a presença de Deus” num momento de desespero — ou seja, de vulnerabilidade emocional — não é nada único, nem sequer incomum. É uma altura em que as nossas emoções estão ao de cima, e a nossa racionalidade e cepticismo estão ao mínimo; ou seja, é uma altura em que estamos desesperadamente a querer sentir algo, querer sentir uma presença, um toque confortador, sentir que, por muito que o mundo seja frio e cinzento, as pessoas não se importem, e a nossa vida esteja horrível, há “lá em cima” alguém que se importa, e que nunca nos trairá ou abandonará. Entre querer-se, desesperadamente, sentir isso, e sentir-se efectivamente isso, a distância é muito curta, não te parece?

Repara também no seguinte: os crentes de outras religiões têm sensações quase iguais. Até os não-crentes as podem ter, em determinadas situações. Isto sugere fortemente que elas não vêm de um deus específico, mas sim das nossas próprias mentes.

Relativamente a coincidências, elas acontecem frequentemente. A questão essencial, aqui, é esta: nós não nos apercebemos das vezes em que elas não acontecem. A maior parte das superstições surge de algo deste género. Por exemplo, um jogador de futebol faz um jogo bastante melhor do que o habitual, marcando vários golos e afins. No fim do desafio, ele repara no facto de (por exemplo) ter um buraco na meia direita. Imediatamente, essa torna-se a “meia da sorte” para ele. Possivelmente, já fez vários jogos medianos com essa mesma meia, mas ele esquece-se disso. Já terá tido jogos bons sem a mesma, mas não terá isso em mente. No futuro, terá jogos maus com a mesma meia, mas, mais uma vez, não reparará em tal facto. Mas, se voltar a ter um bom jogo com essa meia? “Vêem? A minha meia da sorte nunca falha!”

145.pngEm resumo: a mente humana é péssima a lidar com “coincidências”. A tendência é sempre repararmos nas vezes em que a nossa crença se parece confirmar, e ignorarmos as vezes em que ela é negada.

Por outras palavras: se um dia pediste algo possível a Deus (ex. “estou atrasado para o trabalho; Deus queira que não haja trânsito hoje”) e esse algo efectivamente acontece, lembrar-te-ás disso no futuro. Se não acontecer, esquecer-te-ás; nem sequer pensarás mais nisso. É assim que as nossas mentes funcionam, e não há que ter vergonha disso; mas, precisamente por isso, é bom prepararmo-nos para esses possíveis erros.

Finalmente, relativamente a supostos “milagres” (que não sejam meras “coincidências”, como as descritas acima), talvez o melhor seja descreveres o mesmo num comentário. Mas, mais uma vez, a mente humana é muito fácil de se enganar; visões, alucinações e sonhos “surreais” são do mais frequente que há.

Acrescento ainda que, mesmo que se demonstrasse conclusivamente que algum evento foi efectivamente sobrenatural (o que nunca aconteceu até hoje), daí apenas se poderia concluir que “o sobrenatural existe”. Nunca algo como “Deus existe”, e muito menos “o deus da religião em que fui educado existe”. Da primeira conclusão para as duas seguintes vai um salto bem maior do que provavelmente imaginas, e que não se pode logicamente dar.

Mais uma vez, se tiveste alguma experiência que não se enquadre nos 3 tipos que mencionei, ou que aches que seja possível de provar com factos e lógica (em vez de simplesmente “para mim é assim e pronto”), está à vontade para comentar.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Anne Rice: a saga continua

Sexta-feira, 30 de Julho, 2010

Mencionei ontem as actualizações de Anne Rice na página dela no Facebook, e, infelizmente, o que sugeri confirma-se: ela continua a ser tão crente como foi nos últimos anos, continua tão presa a superstições e “wishful thinking” como antes; simplesmente quer distanciar-se do ultra-conservadorismo que (sobretudo, mas não só, nos EUA) caracteriza tanto o Cristianismo.

Basta ver que, depois das duas actualizações citadas no post anterior, as seguintes foram simplesmente… citações da Bíblia. Não é exactamente um sinal de racionalidade ou clareza mental…

E ela continua a ser “Cristã” — “seguidora de Cristo” quer dizer exactamente isso. E aqui dou razão ao Hemant: o que ela fez é equivalente a um ateu conhecido dizer algo como: “eu era ateu, mas não concordo com as atitudes e posições políticas e sociais da maioria dos ateus (por exemplo, acho que são demasiado liberais, e sou contra os direitos dos homossexuais, não por causa de questões religiosas, mas apenas porque eles me enojam e porque negar-lhes direitos básicos faz-me sentir poderoso)… logo, a partir de hoje, já não sou ateu. Mas continuo a não ter qualquer tipo de crença num deus ou deuses.” Hmm, não. Não acreditas em deuses, logo és um ateu. É essa a definição do termo. Podes ser um ateu irracional, homofóbico, ultra-conservador… em resumo, um completo imbecil. Mas continuas a ser um ateu.

A última (à hora deste post) actualização dela também revela muito (ênfase meu):

My faith in Christ is central to my life. My conversion from a pessimistic atheist lost in a world I didn’t understand, to an optimistic believer in a universe created and sustained by a loving God is crucial to me. But following Christ does not mean following His followers. Christ is infinitely more important than Christianity and always will be, no matter what Christianity is, has been, or might become.

Aqui, senhoras e senhores, temos um exemplo clássico de “wishful thinking”. Ela acredita porque quer que seja verdade, não por ter evidências de que (provavelmente) o seja. A crença 1 fazia-la infeliz, a crença 2 fá-la sentir-se bem, logo isto é, para ela, motivo mais do que suficiente para ter a crença 2. A questão de qual é mais provavelmente a que corresponde à realidade não lhe interessa. A realidade “que se lixe”. Ela acredita no que lhe faz sentir bem, e pronto — um entorpecer da mente e do sentido de realidade não muito diferente do de um alcóolico ou um toxicodependente, que bebe ou droga-se para não ter de lidar com “a world I didn’t understand”.

E, por muito sofisticada que uma religião seja, por muito sofisticadas as palavras de um apologista, a religião nunca passa disto. Não há religião, nem ninguém é religioso, sem a desonestidade intelectual que é o “wishful thinking”.

Anne Rice “deixa” de ser cristã

Quinta-feira, 29 de Julho, 2010

Da sua página no Facebook:

For those who care, and I understand if you don’t: Today I quit being a Christian. I’m out. I remain committed to Christ as always but not to being “Christian” or to being part of Christianity. It’s simply impossible for me to “belong” to this quarrelsome, hostile, disputatious, and deservedly infamous group. For ten years, I’ve tried. I’ve failed. I’m an outsider. My conscience will allow nothing else.

… e, depois:

As I said below, I quit being a Christian. I’m out. In the name of Christ, I refuse to be anti-gay. I refuse to be anti-feminist. I refuse to be anti-artificial birth control. I refuse to be anti-Democrat. I refuse to be anti-secular humanism. I refuse to be anti-science. I refuse to be anti-life. In the name of Christ, I quit Christianity and being Christian. Amen.

Infelizmente, não voltou propriamente ao ateísmo — continua a praticar “wishful thinking” (acreditar em algo sem evidências só porque quer que seja verdade e/ou a crença lhe é confortável), a acreditar na parte “sobrenatural” da sua religião (nascimento a partir de uma virgem, milagres, ressurreição, etc.), a auto-declarar-se “seguidora de Jesus”, e essas coisas todas. Mas ao rejeitar o Cristianismo propriamente dito devido a todos os seus males (ela lista um bom número deles), ao deixar de se auto-descrever como “cristã”, e ao dizer ao mundo — e aos seus milhões de fãs — exactamente porque é que o faz, talvez “leve” outros com ela. Sem dúvida que o mundo estaria bem melhor se uma boa percentagem de cristãos se convertesse a uma versão mais “soft”, menos conservadora e anti-progresso, mais “vive e deixa viver” da sua religião.

E rejeitar a sua religião (mesmo continuando a “acreditar”) é muitas vezes um óptimo primeiro passo para uma vida racional e livre de “wishful thinking”. Talvez um dia ela e outros atinjam um nível suficiente de honestidade para admitir que estão a fazer isto, e que não é intelectualmente honesto fazê-lo.

Como não traumatizar crianças

Domingo, 18 de Julho, 2010

My young son asked me what happens after we die. I told him we get buried under a bunch of dirt and worms eat our bodies. I guess I should have told him the truth -that most of us go to Hell and burn eternally – but I didn’t want to upset him.

(fonte)

Vaticano: “mulheres padres são um crime tão grande como a violação de crianças”

Sexta-feira, 16 de Julho, 2010

Sim, foi exactamente isso que eles acabaram de dizer. As duas coisas estão, para eles, ao mesmo nível.

É preciso dizer mais?

(via Pharyngula)

Dia de desenhar Maomé

Quinta-feira, 20 de Maio, 2010

Hoje é o Dia de desenhar Maomé (link neste momento em baixo; não sei se será por excesso de acessos, ou porque o serviço de hosting se acobardou), que também tem um grupo no Facebook. Sendo assim, aqui vai a minha entrada, feita num minuto no Gimp:

Maomé

(se eu desaparecer nos próximos tempos, já sabem o que foi. 🙂 )

O meu objectivo com isto não é ofender ninguém, se bem que imagino que tal aconteça; é, apenas, dizer a certos elementos de certa religião que eles não conseguem calar o mundo inteiro com ameaças cobardes de violência. Em sociedades não-medievais, a liberdade de expressão é infinitamente mais importante do que o “direito” (que não existe) das pessoas não ouvirem ou verem nada que as ofenda. Até porque, se vamos por aí, também me ofendem — profundamente — as barbaridades que certos membros da “religião da paz” dizem e, sobretudo, fazem. Mas tomaria eu que tudo o que eles fizessem fosse ofender-me a mim e a outros…

Se quiserem mais exemplos do Dia de desenhar Maomé, vejam o Planet Atheism hoje (dia 20 de Maio), ou, se já tiver passado algum tempo, naveguem lá até esse dia. Há lá uns excelentes, tanto em termos artísticos (coisa que obviamente não acontece com o meu) como em termos de mensagem.

Sugiro também o Mohammed Image Archive, que tem imagens de todos os tipos — incluindo pinturas feitas durante a vida do referido. E não deixem de ver os emails que esse site já recebeu…

Ouvidos delicados

Quarta-feira, 12 de Maio, 2010

Até parece combinado, não é? Depois desta questão, e desta, e desta resposta às mesmas (à qual já respondi, no blog em questão), o sempre delicioso Jesus and Mo demonstra claramente a situação absurda actual…

Jesus and Mo - "Ears"

… em que qualquer crítica a uma crença religiosa é “estridente”, “militante”, “intolerante” e “pessoalmente ofensiva”, coisa que não aconteceria para qualquer outro assunto.

A religião em geral, cada religião individualmente, e cada crença religiosa especificamente, não passam de ideias, e não há nenhuma razão válida para estarem numa posição privilegiada acima de críticas, nem os crentes têm qualquer justificação para igualar críticas às suas crenças a ataques pessoais… ou direito de o fazer. É altura de retirar as crenças religiosas do “colo da mamã” onde continuam a ser injustamente protegidas e privilegiadas, e trazê-las para o mundo real, o “mundo dos crescidos”, onde todas as outras ideias já vivem há muito tempo.

P.S. – para não dizerem que “ponho tudo no mesmo saco”, se és crente mas não consideras que criticar crenças religiosas (tanto a tua como outras) é “blasfémia”, nem achas que tais crenças devam estar privilegiadamente acima de críticas, 1) obviamente, este post não te está a criticar a ti, e 2) parabéns, é pena a maioria dos crentes não ser como tu, neste aspecto. 🙂

Resposta a duas críticas

Terça-feira, 11 de Maio, 2010

Recebi, ontem e hoje, duas críticas relativamente a este blog através do Twitter, às quais já respondi, precisando de uns 7 tweets. Mas quero responder-lhes aqui também, com um pouco mais de espaço comparativamente ao Twitter, e de forma a que as respostas fiquem disponíveis no blog, já que é possível que as críticas em questão façam sentido para outros visitantes no futuro.

A primeira é esta: que o nome do site é incorrecto, porque ateísmo é apenas a ausência de crença em um deus ou deuses, e o que eu faço aqui é “activismo anti-religião”.

Relativamente a isso, sim, é um facto que a definição estrita de ateísmo é essa, mas também é válido ver-se a coisa de uma forma mais lacta. Para mim, bem como para muitos, o ateísmo está associado ao cepticismo, ao humanismo e à racionalidade, e o site dedica-se (entre outras coisas) a promover esses conceitos. “www.ateismo-humanismo-cepticismo-e-racionalidade-pt.com” seria demasiado longo 🙂 , além de que a ideia do nome de um site não é ser descritivo, é apenas um título, uma “marca”, uma designação.

A segunda crítica é que “uma coisa é criticar os actos feitos em nome de uma religião, ou através dela, mas pôr tudo dentro do mesmo saco é errado.”

Acho que aqui o autor da crítica está a confundir 1) críticas minhas a actos e instituições, onde claramente critico apenas os autores dos actos e/ou membros das instituições em questão, com 2) argumentação lógica contra crenças religiosas propriamente ditas, irracionalidade, “wishful thinking”, etc., em que, sim, estou a criticar as crenças de muita gente que nunca fez mal a ninguém por causa delas, mas criticar crenças — por muito “íntimas” que sejam — não é um ataque! Não é, sequer, uma condenação. É um simples “estás errado, porque…”, que para qualquer outro tema seria aceite (concordando ou discordando) sem problemas.

Quando argumento contra a “lógica” de determinadas crenças ou argumentos religiosos (por exemplo, “tem de existir Deus, caso contrário como é que o universo existe”, ou a Aposta de Pascal, ou menciono o facto de a crença de 99% dos crentes ser apenas produto de um acidente geográfico, ou critico a falta de cepticismo e racionalidade de alguém), não estou a “atacar” ou condenar ninguém, estou apenas a criticar ideias que considero erradas, justificando a minha crítica com factos e lógica (que podem muito bem estar errados, note-se). Da mesma forma que aceito perfeitamente que me digam que estou errado nalguma coisa.

O que não aceito é que as crenças religiosas exijam para si próprias uma posição especial, intocável, acima de qualquer crítica, ou que se torne essas crenças inseparáveis dos próprios crentes, de tal forma que qualquer crítica a uma crença ou ideia é vista como um ataque pessoal a todos os seus crentes. Isso não só não faz sentido, como é cobarde — é, de certa forma, uma admissão de que as crenças e ideias religiosas não são capazes de “ir à luta”, de se demonstrar logicamente coerentes, de competir no mercado de ideias, e que por isso precisam de protecção especial, quase criminalizando (em teocracias muçulmanas tira-se o “quase”) o mero acto de as questionar ou criticar.

E para aos crentes que estejam sempre prontos a ofender-se pessoalmente com uma simples crítica às suas crenças e ideias: se estivessem realmente confiantes relativamente às mesmas, não reagiriam assim. Pelo contrário, estariam prontos a “ir à luta” de ideias, confiantes em ter os factos e a lógica do vosso lado, não tendo necessidade de exigir protecção ou “respeito” especiais para as vossas crenças pelo simples facto de serem crenças religiosas. E isto devia fazer-vos pensar um pouco…

“Ateus são tão fanáticos e militantes como os crentes que criticam!”

Segunda-feira, 10 de Maio, 2010

Hoje voltei a ouvir (bem, ler) esta, num tweet de alguém cujas opiniões em geral até respeito (afinal, sigo-o no Twitter), e… apesar de ser incrivelmente comum, não consigo deixar de ficar surpreendido pelo facto de alguém ser capaz de afirmar — ou pensar — isso.

O que os ateus que criticam a religião fazem, em geral, divide-se em dois aspectos: 1) crítica a actos praticados por instituições religiosas ou em nome da religião (ex. propagação da SIDA em África devido à oposição aos preservativos, encobrimento institucionalizado da pedofilia1, opressão das mulheres em países muçulmanos, terrorismo religioso, anti-intelectualismo e oposição à ciência, etc.), e 2) crítica às crenças religiosas e ao pensamento religioso propriamente ditos, no âmbito da promoção da racionalidade e pensamento científico, no sentido de tornar o mundo melhor, em oposição a uma humanidade presa a crenças sobrenaturais que acabam por nunca passar de “wishful thinking”. Todos estes actos resumem-se a críticas — críticas de actos, críticas de pessoas, e críticas de ideias. Isto é que é “fanatismo miltante”?

A ideia das pessoas que fazem afirmações destas parece ser a seguinte: quem critica um acto condenável é “tão mau” como o autor desse acto, devido meramente ao acto da crítica.

Quem critique um político corrupto é tão condenável como ele. Quem exija justiça para um violador ou pedófilo é tão criminoso como se tivesse violado ou abusado de crianças. Quem chame a polícia a reportar um roubo é tão culpado como o ladrão. Quem se revolte com o racismo é tão condenável como o maior racista.

Isto faz algum sentido? É claro que não. É completamente absurdo para os exemplos acima, e é-o para qualquer outro exemplo em que possamos pensar.

Excepto a religião.

Já há muito que isto se faz notar, e muitos já o disseram no passado: é historicamente tão incomum criticar-se de alguma forma a religião — e, no caso de países como Portugal, a Igreja Católica –, e mesmo até há muito pouco tempo era tão invulgar que alguém o fizesse, que o mais leve sussurro soa a um grito estridente. E soa dessa forma até mesmo para quem não seja ele próprio crente.

Nada mais explica porque é que, independentemente dos abusos e até atrocidades feitos por organizações religiosas, ou feitos em nome da religião, a simples crítica em oposição aos mesmos seja absurdamente equiparada a esses abusos e atrocidades.

A quem diz coisas como no título do post, a minha sugestão é: pensa um pouco nesta questão. Porque é que a religião — sejas ou não crente — deve estar num pedestal especial, acima de qualquer crítica? E se não achas que deva estar, porque é que ages como se devesse?

  1. reparem que não os culpo da pedofilia propriamente dita; aí a culpa é só do indivíduo em questão, e não é preciso ser religioso para se ser pedófilo. Mas o crime do encobrimento e violação de outras crianças no futuro graças a esse encobrimento — em nome da “reputação da igreja universal” — é 100% culpável à Igreja Católica e à hierarquia da mesma. []

Bispo Católico: “eles QUEREM ser abusados!”

Quarta-feira, 7 de Abril, 2010

His comments were that there are youngsters who want to be abused, and he compared that abuse to homosexuality, describing them both as prejudicial to society. He said that on occasions the abuse happened because the there are children who consent to it.

‘There are 13 year old adolescents who are under age and who are perfectly in agreement with, and what’s more wanting it, and if you are careless they will even provoke you’, he said.

Acho que está tudo dito.

E recomendo também este excelente artigo de Paula Kirby no Washington Post. Vale a pena lê-lo todo, mas deixo-vos com esta parte:

How would I advise the Pope? Many people have been calling for his resignation, but I am not one of them. Resignation does not go nearly far enough, and the same goes for every single other person involved in this terrible business. Since when has justice been considered to have been done just because a criminal resigns from his job? No: my advice to the Pope would be to hand over every last priest who has been accused of child rape and every last church official — himself included — accused of covering up child rape to be tried in a proper criminal court, just like anyone else would be if they were accused of the same offenses; and to further ensure that the Church makes available, without obstruction, every single document required as evidence in these cases. Only properly conducted criminal trials, in proper courts of law, will bring an end to this scandal and – far more importantly – bring some peace and justice to the Church’s many victims.

He won’t do it, of course, because he clings to the disgraceful but mightily convenient doctrine that the Roman Catholic Church is above earthly law, answerable only to God.


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