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Arquivo da Categoria ‘Religião’

Porque é que a América é tão religiosa?

Quinta-feira, 25 de Março, 2010

Esta é uma pergunta à qual muita gente já tentou responder, e agora é a minha vez de dissertar um pouco sobre o assunto. Afinal, para bem e para mal, os EUA são não só a única superpotência nos dias de hoje, mas também são o país mais influente do mundo, e o que acontece lá inevitavelmente influencia o resto do mundo, de uma forma ou de outra. Além disso, grande parte da cultura que “consumimos” (cinema, música, literatura, etc.) vem de lá.

Para quem não saiba, os EUA são — de longe — o país de “primeiro mundo” mais religioso do mundo; em geral a religiosidade de um país é inversamente proporcional ao desenvolvimento, à riqueza e ao acesso à educação no mesmo. Os Estados Unidos são a excepção, como este gráfico (fonte) mostra:

Relação entre a religiosidade e a riqueza dos diversos países

Reparem que a posição dos EUA “está a destoar” ali; tem a religiosidade que seria de esperar num país muito mais pobre e menos desenvolvido. Porque é que é assim?

Há duas explicações em geral sugeridas, e penso que a realidade é uma combinação de ambas. A primeira é que, ao contrário da maior parte dos outros países de “primeiro mundo” (Europa, Japão, etc.), os EUA não têm nem nunca tiveram uma religião oficial. Os “founding fathers” tiveram cuidado em prevenir precisamente isso — a famosa “separação entre igreja e estado” –, e é por isso que os EUA não são “um país Cristão”, pelo menos em termos oficiais, apesar de terem uma proporção de Cristãos praticantes bem maior do que, por exemplo, Portugal — oficialmente um país Cristão (na variante Católica), mas em que a esmagadora maioria do povo é não-praticante.

Isto parece contraditório, não parece? Um país fica mais religioso por não ter (nem nunca ter tido) religião oficial? Não seria de esperar o contrário?

A questão é que uma religião oficial provoca complacência, provoca conforto, torna a religião mais uma tradição que as pessoas têm, do que algo a ser levado realmente a sério.1 Em resumo, cria não-praticantes, exactamente como temos em Portugal, ou como é o caso na Inglaterra. Assume-se que toda a gente pertence à religião X (Católica, Anglicana, etc.) à nascença (ou no baptizado), e não se pensa muito mais nisso; os próprios baptizados, bem como os casamentos na igreja, são mais algo que se faz por tradição do que outra coisa (lembro-me de ir a um baptizado na família em que, estando a igreja cheia, provavelmente não havia lá nenhum crente abaixo dos 60…).

Ao invés disso, num país como os EUA, as várias religiões têm, e tiveram desde o início, de competir entre elas, aperfeiçoando ao longo das décadas os seus métodos de conquistar aderentes e de despertar paixão — em muitos casos, eu até diria fanatismo — neles. É uma espécie de evolução Darwiniana (ironicamente em quem em grande parte rejeita a realidade da mesma): as religiões que conseguiram sobreviver até hoje num ambiente tão competitivo são muito eficientes a angariar membros, e a fazê-los levar a coisa a sério.

A segunda causa é a seguinte: apesar de os EUA serem um país “rico”, os americanos são um povo que, na sua esmagadora maioria, vive com medo. Não vou entrar aqui em opiniões políticas, mas, devido ao seu conservadorismo e ao facto de serem um país muito mais “de direita” do que a maioria da Europa, os americanos são por natureza adversos a sistemas de segurança social (refiro-me aqui ao conceito, e não à Segurança Social (em maiúsculas) como serviço ou organização); uma pessoa pode muito mais facilmente ser despedida, sem “justa causa” ou indeminizações razoáveis (excepto no caso de executivos, é claro), e a qualquer momento uma pessoa pode perder tudo por causa de uma doença. E, repare-se, estou a falar da classe média, de famílias com casa e carro, não me estou a referir à verdadeira pobreza.

Sem contar com os verdadeiros “ricos”, a maior parte dos americanos vive com consciência de que pode perder tudo a qualquer momento, e por causas completamente fora do seu controlo. É natural que, vivendo sempre com certo nível de medo, incerteza e stress, as pessoas procurem segurança nalgum lado… e a ideia de uma divindade que se importa connosco, que “tem um plano para nós”, que estará lá sempre para nós mesmo que tudo o resto corra mal, é muito tentadora… e muito reconfortante.

Já dizia o vilão de “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco: sem medo, as pessoas não precisam de Deus (daí todo o “plot” para encobrir a existência de um livro de Aristóteles sobre a comédia, já que nada anula tão bem o medo como o riso). Talvez seja por isso que os elementos mais religiosos nos EUA — basicamente, o partido Republicano — se tenham sempre oposto a todo e qualquer tipo de segurança social — a Segurança Social propriamente dita em 1935 (introduzida por Franklin D. Roosevelt), o sistema Medicare em 1965 (de Lyndon B. Johnson), e agora a renovação do sistema de saúde (de Barack Obama; todos eles Democratas). Sem dúvida que grande parte da oposição é política, no sentido de prejudicar o governo Democrata de forma a este ser culpabilizado pelos problemas do país e os Republicanos ganharem votos, mas também se pode argumentar que uma sociedade em que haja muito mais segurança e estabilidade, em que as pessoas saibam que se caírem há uma “rede” que as segura, que nunca se vão totalmente abaixo e que não estão todos os dias da sua vida em risco de perder tudo aquilo pelo que trabalharam a vida inteira, é uma sociedade que “precisa” muito menos de “Deus”, e que por conseguinte terá tendência para se tornar menos religiosa com o tempo.

Aliás, é isso que eu espero que aconteça. :) Daí ter ficado contente pelo sucesso — até agora — da reforma do sistema de saúde nos EUA, que tudo indica ir mesmo para a frente.

E se esta ideia — que não sou eu o primeiro a sugerir — estiver correcta, então o gráfico acima pode-se interpretar de outra forma, na qual os Estatos Unidos já não são uma excepção “estranha” à regra. A proporção inversa não é entre a religiosidade e a riqueza / desenvolvimento, mas sim entre a religiosidade e a segurança que se tem em relação à vida. Insegurança implica medo implica mais religião. Logo, esperemos que mais segurança implique menos religião, no futuro.

  1. um pequeno à-parte: em conversas com amigos e conhecidos portugueses — tanto crentes como ateus — noto frequentemente uma grande dificuldade em acreditar / conceber a forma como os americanos levam a religião a sério; ouço comentários como “sim, eles dizem isto e aquilo, mas não acreditam mesmo no que estão a dizer, pois não?” Era bom que assim fosse… []

“Tem de existir algum tipo de deus, logo a minha religião está 100% certa!”

Sexta-feira, 12 de Março, 2010
Tem de existir um criador, logo esta religião específica está 100% certa!

Já mencionei em O problema de “Deus existe porque o universo existe” que a ideia de que a complexidade do universo implica algum tipo de criador não se reflecte de forma alguma em “Deus é assim” ou “quer assado” ou “Jesus morreu pelos nossos pecados”1 ou qualquer outra crença ou dogma das várias religiões existentes.

“Tem de existir algum tipo de deus / criador”, se fosse correcto (não é), implicaria apenas isso — que tem de haver algum tipo de deus. Não implicaria absolutamente nada sobre ele (ela? eles?), sobre a sua história, os seus desejos, a sua moralidade, ou mesmo o facto de ainda estar “vivo”; não implicaria, de forma alguma, que esta ou aquela religião estão certas, e chegar a essa conclusão não passa de desonestidade intelectual.

O comic acima, de ontem, demonstra bem esse erro, infelizmente muito típico…

  1. isto é, Deus teve de vir ao mundo e ser torturado e morto para nos conseguir perdoar []

Christopher Hitchens e os 10 Mandamentos

Sexta-feira, 5 de Março, 2010

Um vídeo curto, acessível e com algum humor, do sempre brilhante Hitch.

I saw you coveting right now - you have the right to remain silent.A quem ainda achar que os 10 Mandamentos da Bíblia são uma boa ideia e são (como alguns crentes costumam dizer) “a base da moralidade e da lei nos dias de hoje”, recomendo estes dois brilhantes artigos do site Ebon Musings:

- The Big 10 (comentário aos 10 originais)
- The New Ten Commandments (sugestão de “regras de vida” — o autor, e muito bem, não gosta do termo “mandamentos”, porque quem é qualquer um para comandar outro? –, de um ponto de vista laico e humanista)

O segundo teve a particularidade de ser citado por Richard Dawkins no livro “The God Delusion”.

Estudo liga religião a comportamento imoral

Quarta-feira, 24 de Fevereiro, 2010

Visto aqui, por exemplo. Inclui um vídeo de 2 minutos da MSNBC, e um PDF com o estudo propriamente dito.

Resumindo muito a coisa: ao contrário do que certos crentes — sobretudo nos países mais religiosos, como os EUA — esperariam, os países onde há menos crime, menos violência, menos pobreza, menos desigualdade, menos gravidezes na adolescência, e assim por diante, coincidem com os menos religiosos. Os EUA, em particular (país de “1º mundo” mais religioso) ficam bastante mal na comparação.

Agora, como qualquer pessoa com um vestígio de educação científica saberá, correlação não implica causalidade. Ou seja, o facto de “mais isto” coincidir com “mais aquilo” não implica que uma das coisas provoque a outra; pode haver uma 3ª variável desconhecida que provoque as outras duas, ou pode ser simplesmente coincidência, o que num estudo não suficientemente abrangente, detalhado e duradouro pode perfeitamente existir.

Por outras palavras, não podemos olhar para o estudo e imediatamente concluir que “a religião causa imoralidade”, ou que “a imoralidade causa o aumento da religiosidade” (ambas as hipóteses são possíveis, e devem ser consideradas; não podemos simplesmente assumir que a coisa acontece no primeiro sentido que nos vem à cabeça… caso aconteça, o que ainda está por demonstrar).

Para provar a causalidade, seria preciso muito mais dados, conseguidos ao longo de décadas — por exemplo, para cada país, verificar se aumentos ou diminuições da religiosidade se reflectem em aumentos ou diminuições da imoralidade, de forma linear. Se isso acontecer numa esmagadora maioria dos casos, e em ambos os sentidos (isto é, aumentos de uma coisa implicam aumentos de outra, e o mesmo para diminuições), então podemos aí assumir que há boas probabilidades de haver causalidade (se bem que resta investigar se não são ambas as coisas consequências de uma terceira).

(Se estão meio confusos porque é que ponho tantos “senãos” relativamente a tirar conclusões a partir de um estudo que aparentemente só favorece a minha posição, quando no meu lugar se imaginam a “abraçá-lo” imediatamente, bem-vindos ao vosso primeiro contacto com o método científico, em que quem sugere uma hipótese é o próprio a fazer tudo ao seu alcance para a falsificar, e só mantém a hipótese em aberto se não o conseguir. É por isto que a ciência não é “uma religião”, e não precisa de “fé” — ou seja, é de confiança. ;) )

Podemos, no entanto, concluir desde já uma coisa, que considero extremamente importante: a ideia de que a religião é essencial à moralidade humana é absolutamente falsa. Muitos crentes assumem — ou foram ensinados assim e nunca o questionaram — que a religião é a única coisa que torna as pessoas morais, e que uma sociedade que a perdesse transformar-se-ia rapidamente numa orgia de violência e caos… mas está demonstrado que não é o caso; sociedades menos religiosas são tão ou mais morais. Aliás, os dados sugerem o “mais”, mas convém investigar isso melhor, como disse.

Especulando um pouco — e não me levem muito a sério aqui –, eu diria que há várias razões para a alta religiosidade estar associada à imoralidade e a problemas sociais.

Primeiro, porque a religião é uma forma de as pessoas não pensarem em moralidade, por fornecer respostas fáceis (“Deus mandou isto”). Questões como o aborto ou a eutanásia devem ser estudadas e discutidas pela sociedade, considerando os efeitos prováveis das várias políticas possíveis, sobretudo em termos de sofrimento causado ou evitado e de progresso social… mas nada disso acontece quando nos limitamos a apontar para a reedição de uns pergaminhos escritos por pastores da Idade do Bronze como sendo o fim da discussão.

Segundo, porque uma sociedade muito religiosa é necessariamente uma sociedade onde o pensamento crítico não é muito apreciado, e portanto as pessoas têm menor capacidade de tomar decisões racionais e informadas (o que leva, por exemplo, a eleger maus políticos e a exigir más políticas).

Terceiro, porque quem acredita que esta vida é só um teste para determinar a salvação da alma irá dar-lhe necessariamente menos valor — ou apreciar menos o sofrimento dos outros — do que quem acredite que a vida que temos é única e finita.

Quarto, porque há muita imoralidade na base das religiões — basta olhar para os livros sagrados.

Quinto, porque as religiões tendem a ser ultra-conservadoras, anti-ciência e anti-educação (incluindo a educação sexual, a melhor forma de evitar gravidezes adolescentes e, por conseguinte, abortos); em qualquer questão social, as igrejas estão quase sempre do lado errado (ex. aborto, educação sexual, direitos de homossexuais, ensino da evolução das espécies (isto é mais nos EUA), igualdade de direitos entre os sexos, eutanásia, etc.).

A religiosidade não existe num vácuo; procede das religiões existentes, e elas têm muita, muita “culpa no cartório”, em termos de moralidade não só de actos, mas do que promovem.

Mas isto sou só eu a supor. :)

FAQ: “E se estiveres errado, e Deus existir? Isso não te preocupa?”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

(Nota: isto não é o mesmo que a pergunta já existente no FAQ, “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”. Essa entrada no FAQ é uma rejeição da Aposta de Pascal; esta aqui é uma resposta à possibilidade remota de que Deus, afinal de contas, exista.)

Esta é uma questão muitas vezes posta por crentes (especialmente Cristãos) a ateus. E se estivermos errados, se Deus afinal existir, e se depois de morrer, como se costuma dizer, nos encontrarmos com o nosso criador?

Primeiro, tenho de dizer que essa não é uma possibilidade que efectivamente me preocupe, já que tenho todas as razões para acreditar que não existe nenhum deus ou deuses. O universo aparenta ser 100% natural, e, se por um lado a ciência está longe de saber tudo, por outro lado não existe nada até hoje conhecido que absolutamente exija uma explicação sobrenatural, e que não possa — nunca — ser explicado em termos naturalísticos. Por outras palavras: uma total ausência de evidências “a favor” é, ela própria, uma evidência forte “contra” (e não é que a humanidade não tenha procurado, nos seus milénios de História), e, por isso, todas as evidências sugerem que o número de divindades no universo é zero.

Segundo, se houvesse um deus, seria mesmo assim virtualmente impossível que as religiões humanas estejam certas. Os seus deuses são pequenos, provinciais, territoriais, infantis, inseguros e tribais. E muito, muito humanos. Têm emoções humanas (incluindo uma boa dose de ciúmes, que por alguma razão neles nunca é visto como uma falha de carácter), têm um “povo escolhido”, supostamente criaram um universo que agora sabemos ser incrivelmente vasto e complexo (o que não se sabia quando as religiões apareceram), mas o nosso pequeno e insignificante planeta ainda é a única coisa que importa no universo — e as nossas vidas físicas neste mundo nem são o que realmente importa. (A ideia de um universo antigo (muito, muito mais do que a humanidade, ou mesmo que o nosso planeta), vasto e incrivelmente diverso, simplesmente como “cenário de fundo” de um teste para determinar se somos salvos ou não… é completamente espatafúrdia.) Os deuses antropomórficos das nossas religiões são tão obviamente criados por humanos, que não podem ser verdadeiros. Se houvesse “lá fora” um deus capaz de criar um universo, ele/ela seria provavelmente demasiado complexo/a para repararmos sequer nele/nela… e ele/ela de certeza que não se importaria connosco, a nossa moralidade, as nossas vidas sexuais :) , nem nos julgaria e criaria lugares para irmos depois da morte. Por outras palavras, se houvesse realmente um deus num sentido cósmico, não nos afectaria de forma alguma — e seria infinitamente maior (e menos “igual a nós mas mais poderoso”) do que as divindades inseguras, birrentas e obcecadas por órgãos genitais :) das nossas religiões.

Terceiro, e se, apesar de tudo o que foi dito acima, mesmo assim houvesse um deus, e ele/ela se importasse connosco, e nos julgasse de alguma forma depois das nossas mortes físicas? Bem, depende dos standards de julgamento. Talvez não se importasse com a nossa moralidade, ou com o facto de ser adorado/a ou não, mas sim com alguma coisa completamente diferente. Não temos forma de saber. Talvez, por exemplo, fosse uma divindade para quem a única coisa importante é tratarmos bem os nossos gatos de estimação (que toda a gente sabe que são divinos).

Mas vamos supor que realmente tal ser se importaria com os nossos actos, a nossa moralidade. Nesse caso, a questão final é: Deus é bom, ou mau? Rejeito desde já as corrupções habituais do significado de “bom”, tais como “aquilo que Deus quiser é por definição bom”. Tem de haver algum standard, além dos caprichos de um ser poderoso.

Desta forma:

  1. um deus bom — o que exclui o tirano inseguro e obcecado pela sexualidade no qual os três monoteísmos acreditam — recompensaria quem tivesse vivido uma boa vida, sendo em geral “fixe” para as outras pessoas, e cheio de curiosidade em descobrir e aprender coisas, seguindo as evidências disponíveis até à sua conclusão lógica. As evidências disponíveis não sugerem de forma alguma a existência de um deus, por isso, acreditar num apesar disso não é mais do que “wishful thinking” intelectualmente desonesto, o que não agradaria a tal divindade. Um deus bom recompensaria bons ateus e bons crentes, e puniria maus ateus e maus crentes — mas provavelmente ficaria um bocado decepcionado com a falta de curiosidade e honestidade da parte dos crentes (por outro lado, ele/ela teria também de se explicar — porquê esconder-se e criar o universo de forma que este implique a sua não-existência?). Um deus bom não seria inseguro ou imaturo, e não precisaria de, desejaria ou se importaria com a questão de ser adorado, ou qualquer outro tipo de massagens ao ego. Desta forma, não tenho qualquer medo de um deus bom.
  2. um deus mau — tal como Yahweh ou Alá (e se não concordas comigo, não andas a ler os teus livros sagrados, e estás a inventar “Deus” tu próprio) — seria em grande parte como um ditador brutal num regime totalitário. Ninguém está a salvo desse monstro; não vale a pena esperar justiça ou um tratamento previsível, imparcial e justo. Ele possui-te, és propriadade dele: um escravo, nada mais. “Dar-lhe graxa” pode resultar por algum tempo, mas ele pode sempre torturar-te ou matar-te por um capricho, porque, para ele, não és um ser humano com emoções, és uma ferramenta para usar, um brinquedo para brincar. Mesmo assim, “dar-lhe graxa” — isto é, adorá-lo, viver a vida em função dele, e obedecer-lhe cegamente, não importa o sofrimento causado a outros — será provavelmente a opção mais segura. É claro que tal opção, por outro lado, fará de ti um cobardezinho nojento, sem qualquer integridade moral. Esse deus é o tipo de ser que realmente criaria dois lugares para irmos depois de morrer — um para tormento eterno, o outro para lhe darmos ainda mais “graxa”. A única coisa moral a fazer na presença de tal monstro, ao sermos condenados por termos a moralidade que ele não tem, seria cuspir-lhe na cara, como acto final de desafio.

Felizmente, não acredito na existência de nada do que foi acima descrito. E isso só me faz sentir livre e vivo. :)

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Independentemente de Deus existir ou não, a igreja faz bem ao mundo, certo?”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Infelizmente, os factos sugerem o contrário.

Primeiro: relativamente à “igreja”, vou aqui incluir não só a igreja Católica, mas também as igrejas Protestantes em geral (muito influentes nos EUA), e as teocracias Muçulmanas.

Segundo: é importante distinguir os crimes feitos pela religião / igreja, ou por causa delas, ou em nome delas, de crimes feitos simplesmente por religiosos (ou mesmo membros dessas igrejas). Por outras palavras, não culpo o Cristianismo pelo Holocausto apesar de Hitler ter sido Católico, nem culpo a religião ou a própria igreja Católica directamente pela pedofilia dos padres — não há nada nem nos livros sagrados nem nos “estatutos” da igreja que leve a cometer tais crimes. Mas culpo a igreja em questão por dar muito mais importância à sua reputação do que à inocência e à vida de crianças inocentes, protegendo da lei os padres pedófilos e impedindo que estes sejam punidos pelos seus crimes, e movendo-os de paróquia em paróquia quando os seus actos são descobertos localmente. E, sim, culpo a igreja Católica por ter suportado em vários aspectos o regime Nazi.

Terceiro, não vou incluir aqui crimes limitados ao passado, como a Inquisição ou as Cruzadas. Faço notar apenas que a igreja Católica deixou de cometer essas atrocidades apenas quando perdeu o poder absoluto que tinha, e não por ter chegado à conclusão de que aquilo era errado e imoral. Acho que isso diz muito.

Quarto, reconheço que não é tudo mau — as várias igrejas / religiões fizeram e fazem efectivamente actos de caridade, sem dúvida louváveis, tanto em pequena como em grande escala. Qualifico isso, no entanto, com o facto de que muitas vezes trata-se mais de uma forma de espalhar a fé do que de caridade “desinteressada”, e, de qualquer forma, a religião está longe de ser necessária para se cometer actos de bondade humana.

De qualquer forma, acho que o balanço é completamente negativo.

Qual é, em termos humanos, o problema com a religião / igreja hoje em dia? Estes, para começar:

  • sexismo: desde os casos extremos nas teocracias Muçulmanas, em que as mulheres não têm acesso (sob pena de morte) a qualquer educação escolar, são elas próprias condenadas se forem violadas (muitas vezes não acontecendo nada ao violador), são demonizadas como seres “sexuais” que “tentam” os homens (inocentes, coitadinhos) e por isso são submetidas ao horror que é a mutilação genital forçada (a ideia é que, se perderem completamente a capacidade de ter prazer sexual, já não vão “seduzir” os homens…), e, fora do Islão, temos toda uma cultura ocidental conservadora que diz que o papel das mulheres é ter filhos e obedecer aos maridos… exactamente como diz na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento.
  • oposição ao uso de preservativos — incluindo através de mentiras, como “aumentam o risco de Sida” –, provocando o sofrimento e morte de milhões em África, por exemplo, já que em muitas zonas não há nenhuma fonte de informação além dos missionários. Seja por questões religiosas (“Deus odeia contraceptivos e/ou sexo por prazer”), seja por questões mais mundanas (aumentar ao máximo o número de crentes), este acto de quase genocídio é um crime imperdoável.
  • oposição (não se limitando a não o fazer eles próprios, mas tirando sempre que possível direitos aos outros) ao aborto, direitos dos homossexuais (vistos como um “mal moral”) e eutanásia
  • oposição à educação sexual — paradoxalmente, a melhor forma de reduzir o número de gravidezes indesejadas, e, por conseguinte, abortos.
  • visão do sexo (parte perfeitamente natural e saudável do que é ser-se humano) como algo “porco” e “imoral”.
  • oposição — por razões que não passam de superstição — a ramos promissores da medicina, como a investigação em células estaminais, clonagem de órgãos, etc..
  • guerras e ódios de origem religiosa — nem todos no Médio Oriente (ver Irlanda, por exemplo)
  • protecção dos padres pedófilos, que muitas vezes são simplesmente movidos de uma paróquia para outra, quando os seus actos se tornam conhecidos, demonstrando a total ausência de preocupação com as vítimas deles.
  • censura a oposições à religião, mesmo por não-crentes da mesma, devido à ideia de que a religião está acima de qualquer crítica (ex. a condenação pela parte de Cristãos (!) e até ateus (!!) à publicação dos cartoons de Maomé, quando a única condenação devia ter sido aos Muçulmanos que praticaram violência e intimidação).
  • crianças traumatizadas por descrições ultra-detalhadas do inferno.
  • atitude anti-intelectualismo, anti-educação e anti-ciência (por exemplo, a ideia de que se a razão e a fé entram em conflito, se deve preferir a fé, que a razão humana não é de confiança, e assim por diante).
  • anulação da curiosidade humana, por se dizer / achar que se tem todas as respostas (nem que estas sejam simplesmente “foi Deus”).
  • mentalidade de “morte em vida”, que diz que esta vida é só sofrimento e não é “the real thing”, que o nosso tempo neste mundo não passa de um teste para determinar a salvação ou não da nossa “alma”, que a vida a sério começa depois de morrermos, fazendo com que as pessoas aceitem a sua condição e não tentem melhorar o mundo em que vivem.
  • actos de violência e terror – sobretudo nas teocracias Muçulmanas, em que a “blasfémia” (“um crime sem vítima”, como já foi descrita) e a apostasia são punidas com a morte, mas também em países como os EUA, em que terroristas Cristãos explodem clínicas de aborto, assassinam médicos que trabalham nas mesmas, e não só.
  • mutilação do conceito de moralidade para passar a significar simplesmente “obedecer aos caprichos de um ser” — como se esse ser, caso existisse, estivesse acima da moralidade.
  • não-pagamento de impostos, tratando-se de algumas das organizações mais ricas do mundo, e estando a economia mundial como está.

FAQ: “Eu também sou ateu, mas as pessoas *precisam* de religião! Para onde é que se vão virar em alturas más?”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Eu podia responder dizendo que muito do suposto conforto vindo da religião não vem realmente da parte religiosa / metafísica da mesma: grande parte dos crentes usa a religião como uma fonte de comunidade, dando-lhe acesso a um grupo com interesses em geral comuns, encontros regulares, rituais, a sensação de “pertencer”, e, supostamente, apoio do grupo em alturas difíceis. É óbvio que isso pode ser encontrado num grupo não religioso.

Podia também argumentar contra o viver numa ilusão, contra o “wishful thinking”, e apelar a uma visão do mundo tão clara quanto seja possível pelas nossas capacidades. Ou seja, o facto de fazer a coisa certa ser difícil ou menos confortável não devia constituir razão para não fazer essa coisa. E a educação faz “milagres”. E sim, é possível lidar com a perda (ex. entes queridos) permanecendo no mundo real — isso é parte de ser adulto, de certa forma.

Mas acho que a minha resposta tem de se focar noutro ponto: que tremenda condescendência! Ao fazeres essa pergunta, estás basicamente a dizer o seguinte:

“Oh, é claro que eu e tu, como membros da elite, somos demasiado sofisticados, inteligentes e cultos para precisar de religião, mas o povinho, a ralé estúpida, o “rebanho”? É óbvio que precisam! Como é que aguentariam as vidinhas de miséria que têm sem acreditarem que um dia (mesmo que seja depois da morte) as coisas vão melhorar? Pessoas inteligentes e cultas vão ao psicólogo, mas o povinho vai à igreja! E como é que ficariam no seu lugar se não tivessem a autoridade de padres / pastores, e o medo do castigo divino? Achas que vão todos estudar ética e moralidade?”

Eu não quero que isto seja “wishful thinking” da minha parte — o tempo o dirá, se bem que provavelmente não no meu tempo de vida –, mas acredito que a humanidade é capaz de ser melhor do que isso, que as pessoas não são estúpidas e irracionais por razões “genéticas”, mas apenas de ignorância, de um anti-intelectualismo quase universalmente existente na sociedade, e de falta de educação. Acredito que o pensamento crítico pode ser ensinado, e pode ser aprendido por qualquer um. Acredito que o destino da religião é o mesmo da escravatura ou do racismo e sexismo institucionalizados: uma vergonha na História da humanidade, rejeitada em geral nos países civilizados (mais uma vez, não espero isso durante a minha vida, infelizmente). Em resumo, não aceito que se assuma que a maioria das pessoas é eterna e inevitavelmente ignorante e precisa de viver sob uma ilusão, uma mentira.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não me importam todos os teus argumentos; acreditar em Deus faz-me sentir bem, por isso acredito!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Seja. Se admites que não estás minimamente interessado no que é real e no que não é, que escolhes as tuas crenças simplesmente pelo conforto que elas te dão, e que não vês problema nenhum em acreditares em algo só porque queres que seja verdade…

… então não tenho mais nada a dizer-te. Lamento. Bom resto de vida.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Só estás a atacar as formas mais primitivas / literais da religião, ignorando toda a teologia sofisticada.”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Um problema aqui é que os “teólogos sofisticados” são uma minoria ínfima, sem influência ou poder (se bem que conseguem continuar a publicar livros), que virtualmente não afectam em nada as crenças da esmagadora maioria dos crentes. (Citando Richard Dawkins, quando um “teólogo sofisticado” diz numa igreja ou mosque que “não importa se Deus existe realmente ou não, o que importa é se ele é real para mim ou para ti”, os membros da congregação vão chamar-lhe ateu… e vão estar certos.)

E não são os “teólogos sofisticados” que exigem, e vão votar em, referendos para tirar direitos básicos a uma parte significativa da população, ou que cometem crimes violentos em nome do seu deus, ou que se opõem a ramos promissores da ciência por isso entrar em conflito com um livro escrito por primitivos pastores do deserto na Idade do Bronze.

Em resumo, “teólogos sofisticados” não me afectam, como ateu e como membro da sociedade. Não afectam a sociedade, ponto. E, a meu ver, não afectam sequer os outros crentes, incluindo tu próprio. São uma pseudo-elite a “brincar” numa brincadeira que só eles entendem, porque foram eles que a inventaram, a jogar um “jogo” que não passa para eles de uma masturbação intelectual, sem resultados práticos ou testáveis (alguém capaz de dizer que “Deus é o Deus para além de Deus” (Karen Armstrong) já deixou de se preocupar com o que é real e o que não é há um bom tempo).

Acuso-os também, já agora, de criar a sua própria religião (qualquer religião que não venha dos livros sagrados originais é criada pelos crentes actuais), um acto intelectualmente desonesto que já mencionei no passado.

E comparo a teologia à “painatalogia” ou à “gambozinologia”, o estudo detalhado de algo que não existe, e do qual os teólogos não sabem realmente mais do que o crente mais ignorante… ou do que o ateu típico; que forma têm eles de investigar, a não ser inventando?

De qualquer forma, se quiserem transmitir-me (comentando) alguma coisa brilhante dita por um “teólogo sofisticado” que achem que “dê a volta” às minhas críticas à religião, estejam à vontade.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês criticam muito a moralidade do deus da Bíblia, mas eu não me revejo nesse deus! O deus em que acredito é bom!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

“Não me… revejo“!? 8O Estás a falar de um espelho, certo?

OK, OK, vamos mais uma vez ser generosos, e assumir que o que querias realmente dizer era “não acredito nesse deus”, em vez de ser uma admissão de que ele é basicamente inventado por ti, uma construção da tua mente, que gosta do que tu gostas e detesta o que tu detestas, reforçando assim o que já pensas à partida. ;)

Põe-se, então, a questão óbvia: como é que sabes? Quem és tu para dizer que todos os crentes na tua religião, para não falar de outras religiões, estiveram sempre errados — mesmo quem viveu perto dos fundadores, e escreveu os livros sagrados — e continuam a estar, nos dias de hoje? Quem és tu para teres tido uma inspiração “divina” sobre a verdadeira personalidade de Deus que escapou, durante milhares de anos, a papas, rabbis, ayatollahs, e aos crentes mais devotos das várias religiões?

E depois dizem que os ateus são arrogantes…

Para pôr as coisas em perspectiva, vamos usar o exemplo do Cristianismo. Quem és tu para dizer que quem escreveu os Evangelhos estava errado, que S. Paulo estava errado, que todos os padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas nos últimos 2000 anos estiveram errados, que mais de 99% dos crentes de hoje em dia estão errados, porque tu e só tu sabes como Deus realmente é?

Quem és tu para decidir (não há outra palavra) que Deus “deve” ser bom, ou gostar disto, ou não gostar daquilo, ou assim ou assado? Que inteligência nunca vista, ou fonte misteriosa de conhecimento, tens tu para conseguir determinar isso? Como é que tu, mero mortal que és, podes decidir como é que o criador do universo “deve” e “não deve” ser?

Como ateu, eu acredito (e faço-o por ter razões para isso, não por um belo dia o ter decidido) que todas as religiões estão erradas, e que os livros sagrados não são mais do que a imaginação e os preconceitos dos autores. Porém, para quem não tenha estudado a origem dos mesmos (isso é outra longa história), é vagamente viável que eles realmente definam a religião, ou o ser que é a base dessa religião (ignorando todas as contradições, é claro). Mas ignorá-los e dizer “não, afinal Deus é assim, porque é assim que eu acho que Deus deve ser”… é de uma arrogância nunca vista. E o mais incrível é que quem afirma isso (ouço-o praticamente em todas as discussões sobre religião, incluindo uma ainda no início desta semana) não percebe o que está realmente a dizer.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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