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Arquivo da Categoria ‘Religião’

FAQ: “O ateísmo não passa de mais uma religião!”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

Isso não é uma pergunta. :) Mas, respondendo, essa acusação (e, sim, é uma acusação — e um crente que a faça devia pensar um pouco no facto de ter acabado de usar “religião” como um insulto…) pode ter vários significados diferentes. Um deles é o comum “os ateus adoram / idolatram a ciência / Satanás / Darwin / a eles próprios”, que vai ser tratado numa entrada seguinte do FAQ.

Outra alternativa é que não acreditar em nenhum deus — isto é, acreditar num universo 100% natural, sem um criador — requer tanta fé como o Cristianismo ou qualquer outra religião. Isso também fica para uma entrada futura.

Finalmente, há o significado a ser abordado agora: que o ateísmo é uma religião no sentido em que é algo em que a pessoa acredita, com fé, com dogma a seguir, com “fiéis”, uma hierarquia, e afins.

O que é que define uma “religião”? Basicamente, uma religião é um sistema de crença, que inclui regras de comportamento, rituais, em muitos casos (não todos) um elemento sobrenatural (ex. milagres), afirmações sobre a origem do universo, sobre a razão de existirmos, o nosso propósito no mundo, e o que acontece depois de morrermos. Há normalmente também uma hierarquia, sobretudo no Catolicismo.

Bem, o ateísmo puro não inclui nada disso. O ateísmo é apenas a falta de crença num deus ou deuses; não há regras de conduta, rituais, afirmações sobre porque é que estamos aqui, ou sobre o que devemos fazer. Nem faz sentido falar de “crenças ateias”, porque a única coisa que os ateus têm em comum é que não acreditam em algo em que muita gente acredita. Na verdade, como já foi sugerido antes, a palavra “ateu” nem devia existir, já que não temos — ou precisamos de — palavras que signifiquem “pessoa que não acredita em astrologia” ou “pessoa que não acredita no Pai Natal”.

Enquanto as religiões, em geral, geram alguma homogeneidade entre os crentes de cada uma (por haver um livro sagrado comum, um conjunto de crenças em comum, um fundador, e assim por diante), o ateísmo não é nada assim. Alguns ateus (mas não todos) são cépticos, e chegam ao ateísmo simplesmente por não verem qualquer evidência da existência de qualquer deus. Outros terão outras razões (incluindo nunca terem pensado no assunto, o chamado “apateísmo”). Mas, fora essa não-crença, não temos realmente nada em comum. Da mesma forma que toda a gente que não colecciona selos não forma um grupo.

P.S. – se estás aqui a pensar algo como “ah, apanhei-te, acabaste de admitir que os ateus não têm qualquer código de conduta, de moralidade, etc.”, não foi isso que eu disse. Eu disse que o ateísmo não o tem, não que os ateus não o têm. O ateísmo é simplesmente uma não-crença em algo, não é suposto ser um sistema de moralidade. Não acreditar em Deus (por exemplo, no deus Cristão) não nos diz como agir no mundo, assim como não acreditar no coelhinho da Páscoa não nos dá regras morais… logo, temos de as ir buscar a outros sítios. O humanismo secular, do qual quero falar mais no futuro, é o sistema moral provavelmente mais comum entre os ateus (incluindo o autor deste blog), mas está longe de ser o único. E, sim, é possível ser um ateu e ser um monstro… tal como o crente mais devoto do mundo em qualquer religião (incluindo a tua) o pode ser.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado, não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

A tua questão é, essencialmente, aquilo que é conhecido como Aposta de Pascal (em inglês, Pascal’s Wager). Foi sugerida por Blaise Pascal, matemático francês do século XVII, e continua a ser repetida (e repetida, e repetida) por apologistas Cristãos, muitos dos quais, aparentemente, julgam que são os primeiros a atingir essa conclusão, já que fazem essa pergunta com uma atitude de “aposto que nunca pensaste nisto!”…

À primeira vista, parece fazer sentido. Afinal, um crente que esteja errado (i.e. afinal de contas Deus não existe) não perde, aparentemente, grande coisa (perda finita), mas um não-crente que esteja errado (i.e. afinal Deus existe) será condenado a uma eternidade de sofrimento no Inferno — punição infinita, e, por isso, perda infinita. Portanto, fará sentido “jogar pelo seguro” e acreditar… certo?

Não exactamente. Lembra-te de que Pascal sugeriu isto há cerca de 350 anos, uma altura em que, basicamente, havia uma religião à volta dele: o Catolicismo. Não é bem assim, hoje em dia… há centenas, se não milhares de variantes do Cristianismo, muitas das quais afirmam ser a única versão / interpretação válida, estando os crentes de todas as outras versões tão condenados como qualquer “infiel”. E isso é só o Cristianismo; outras religiões, como o Judaísmo (com todas as suas variantes) e o Islão (com todas as suas variantes) também incluem exigências de exclusividade (e descrevem os seus deuses como “ciumentos” — palavras deles!). Devido a essa exclusividade, não é permitido escolher várias religiões / deuses em simultâneo, “por via das dúvidas”. E, claro, há outras religiões no mundo além dos três monoteísmos.

Na verdade, se formos pela Aposta de Pascal, havendo tantas religiões, as probabilidades de escolher a religião errada, e dessa forma ser condenado, são bem acima de 99%, e para todos os efeitos indistinguíveis das chances de ir para o Inferno sendo um ateu (de acordo com a Aposta).

Ou, pondo a coisa de outra forma: vamos assumir que és um Cristão. Qualquer Muçulmano vai-te dizer que irás para um “lago de fogo” por não acreditares em Alá, ou por acreditares que Deus teve um filho (parte da teologia Muçulmana é que quem tiver essa crença está condenado). Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Não estás a arriscar imenso por não acreditares em Alá? Mas se o fizeres, tens de rejeitar a divindade de Jesus Cristo (ambas as religiões exigem crenças incompatíveis), e, aí, se o Cristianismo estiver certo vais também para o Inferno.

Não podes escolher ambas. E a ideia de que “todos adoram o mesmo deus, e as várias interpretações são válidas” é um modernismo inventado recentemente, em nada suportado pelos livros sagrados, nem pela maioria dos crentes de ambas as religiões. O mesmo para a ideia de que “Deus é bom e não enviaria ninguém para um inferno”.

Há mais problemas com a Aposta de Pascal. Por exemplo, é realmente possível escolher as nossas crenças? Serias capaz de decidir amanhã que, por razões de segurança, não acreditas mais em Yahweh / Jesus, e que acreditas que Alá é o verdadeiro e único deus? Essa crença seria sincera? E, não sendo sincera, achas que algum deus realmente digno desse nome se deixaria enganar?

Também não é realmente verdade que um crente que esteja errado (isto é, acredite toda a sua vida, e afinal não exista qualquer deus) “não perde muito”. Isso será assunto para outro post neste blog, mas, resumindo muito, tal crente, em grande parte, desperdiçou a sua vida, traiu o seu intelecto e a realidade, promoveu uma mentira, combateu a educação e o avanço da ciência, provavelmente contribuiu para aumentar o sofrimento humano (crentes em geral são mais conservadores do que o resto da população, e por isso acham perfeitamente aceitável — e até virtuoso — tirar direitos básicos a outros (homossexuais, mulheres, etc.), ou propagar doenças proibindo o uso de preservativos e opondo-se à educação sexual, porque “Deus assim quer”), e aceitou a ignorância (encarnada na resposta “foi Deus”) em vez de tentar realmente entender o mundo em que vivemos. Em resumo, desperdiçou a sua vida em nome de uma mentira. O medo de admitir isto, infelizmente, mantém muitos crentes presos na sua crença, já que ninguém gosta de admitir que foi enganado e que desperdiçou anos ou décadas de uma vida que, afinal, é a única que tem.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Sem Deus / religião / a Bíblia, como é que pode haver moralidade?”

Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

(Nota: esta pergunta não é uma repetição da aparentemente semelhante “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“. Essa referia-se às pessoas “portarem-se bem” por medo de punição ou desejo de recompensa; esta aqui é sobre a crença comum da parte dos crentes (e, incrivelmente, de alguns não-crentes, também) de que as regras éticas da sociedade, a nossa moralidade, o nosso “standard” de certo e errado vêm de Deus / da religião / da Bíblia.)

Isto pode ser uma surpresa para ti, mas se és uma pessoa boa, atenciosa, altruísta no bom sentido, e que se importa com os outros, não retiraste isso da religião. Muito pelo contrário.

Se (muito comum nos países Católicos da Europa, como Portugal) a tua religião é simplesmente “acredito que Deus é como um pai que nos ama, e que quer que sejamos bons uns para os outros”, então, se por um lado és muito mais saudável e ético do que um enorme número de crentes, por outro lado inventaste essa religião. Criaste-a. Ou, em alternativa, o padre ou pastor que te instruiu sobre Deus e a religião inventou-a ele próprio.

Isto porque “simplesmente sejam bons uns para os outros” é uma filosofia que virtualmente não é suportada na Bíblia Cristã. Não é isso que o deus Cristão é retratado como sendo, ou como querendo — especialmente, mas não apenas, no Antigo Testamento. De forma alguma.

De acordo com a Bíblia — e, mais uma vez, se a ignoras, estás a inventar a tua própria religião –, Deus realmente acha que as mulheres são inferiores aos homens. Ele considera a escravatura aceitável. Ele acha que quem desobedeça a qualquer das suas muitas regras arbitrárias deve ser imediatamente morto pelos outros crentes. Ele acha que homossexuais, banqueiros, crianças desobedientes e pessoas que comam mariscos devem ser condenados à morte. E ele não tem quaisquer problemas relativamente ao genocídio — matar civilizações inteiras, incluíndo mulheres e crianças.

A maioria dos Cristãos, naturalmente, nunca tem a sua atenção dirigida (por padres, pastores, etc.) para o descrito acima. A maior parte dos que realmente são confrontados com isso são, em geral, suficientemente saudáveis mentalmente, e suficientemente morais, para repudiar esses ensinamentos (mais uma vez, criando assim a sua própria religião em “versão soft”). E aqueles que não o são tornam-se fundamentalistas: pregadores e agentes de intolerância, sofrimento e ódio, para quem tudo o que seja menos do que uma teocracia brutalmente repressiva não é aceitável.

O que eu quero dizer com isto é que, se és um crente moral, bondoso e que se importa com os outros, és assim apesar da tua religião, não graças a ela. Tens de ignorar não só a quase totalidade do teu livro sagrado, caso contrário provavelmente já estarias preso (por, por exemplo, apedrejares o teu filho até à morte por ele chegar tarde de uma festa). E além disso tens de rejeitar aquilo em que a tua igreja acreditou piamente durante quase toda a sua existência (e de certa forma ainda acredita, mas já tem alguma vergonha de o admitir): gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.

Como é que a tua moralidade pode vir da religião, se tens de ignorar quase todos os ensinamentos dessa religião para não seres um monstro?

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Crenças, evidências e “wishful thinking”

Segunda-feira, 15 de Fevereiro, 2010

Consideremos as seguintes proposições:

  1. As evidências para a existência de um deus — qualquer deus — são zero.
  2. A crença em algo deve escalar de acordo com as evidências para esse algo. Logo, para zero evidências, zero crença. Tudo o resto é “wishful thinking”: acreditar em algo apenas porque queremos muito que isso seja verdade.
  3. Assim sendo, o ateísmo é a única posição racional; qualquer tipo de crença é “wishful thinking”.

Quando confrontados com este argumento, os crentes normalmente respondem com um dos seguintes argumentos, ou ambos:

  • “As evidências para a existência de um deus (normalmente, do meu deus, ao invés de todos os outros) não são zero.”
    Isto é em geral composto por argumentos da ignorância: “não tenho nenhuma explicação, logo foi Deus” (referente, por exemplo, à origem / existência do universo). Por vezes, também incluem experiências pessoais subjectivas (“sinto Deus no meu coração”, “rezei para conseguir algo e consegui”, etc.). Desculpem lá, mas nada disto constitui “evidências”. Uma prova disso é que não aceitam o mesmo tipo de “evidências” como razões válidas para acreditar noutras religiões.
  • “As crenças não devem escalar com as evidências.”
    Nunca ouviram um crente dizer isto? Então que tal a versão mais comum: “a fé é uma virtude”?
    Nenhuma religião actual promove o cepticismo, ou o vê como uma virtude — apesar de alguns crentes mais sofisticados alegarem o oposto. Pelo contrário, há um enorme conjunto de explicações / racionalizações para a existência de um deus ou deuses não ser óbvia, em geral todas à volta do “livre arbítrio”: se Deus provasse a sua existência, toda a gente acreditaria nele, e por qualquer razão não é isso que ele quer. O “teste”, portanto, é conseguir acreditar sem evidências — ou, melhor ainda, na presença de evidências em contrário.
    Porém, não escalar as crenças com as evidências é uma péssima ideia: é esse “escalanço” que nos protege de sermos enganados e roubados por vigaristas, por exemplo; e é também o que nos permite abrir os olhos, e ver e entender o mundo tal como ele é. Mais uma vez, a maior parte dos crentes (infelizmente, não todos) não pratica a credulidade em relação a coisas “terrenas”… ou, se o faz, rapidamente acaba na pobreza, já que é vulnerável ao primeiro vigarista que lhe apareça à frente.

Escapou-me algum? Opiniões?

O problema de “Deus existe porque o universo existe”

Quarta-feira, 9 de Dezembro, 2009

Um argumento muito usado por apologistas religiosos quando confrontados com a necessidade de apresentar provas ou pelo menos evidências da existência da divindade em que acreditam, e não conseguem de outra forma citar nenhuma, é o seguinte: “a prova é só isto: o universo existe, e nós existimos nele. Logo, como é que existe algo em vez de nada? Deus!”

Espero com este post demonstrar porque é que esse argumento é falacioso e, pura e simplesmente, inválido.

  1. Trata-se de um argumento da ignorância, uma falácia lógica infelizmente muito comum. Dizer “não sei/sabemos explicar, logo foi Deus” (ou qualquer outra explicação sobrenatural) é, desculpem dizer, um argumento parvo, impensado e infantil. Pode ser difícil para quem tenha problemas em admitir que não tem todas as respostas ou em viver num mundo em que não há respostas simples para tudo, mas, se não sabemos algo, a única coisa correcta e honesta a dizer é “não sei/sabemos”. Mais nada. Caso contrário, não somos diferentes de homens das cavernas que inventavam constantemente explicações sobrenaturais para fenómenos (ex. uma tempestade é sinal de que “os deuses / espíritos estão zangados” (e o melhor é sacrificar alguém para os apaziguar)) hoje em dia perfeitamente explicados como naturais. Outro nome para este caso específico de argumento da ignorância é “god of the gaps” (o deus dos buracos); ou seja: “põe-se” (ou esconde-se) Deus nos “buracos” de conhecimento existentes… com o problema de que esses “buracos” vão constantemente diminuindo à medida que a ciência e o conhecimento humano progridem, e chega-se a um ponto em que já não resta praticamente nada para “Deus” fazer.
  2. Dizer “nada pode existir sem uma causa, logo o universo tem de ter uma, que foi Deus” tem o pequeno problema que é óbvio muitas vezes até para crianças na catequese ou outro tipo de aulas religiosas (e as faz fazer perguntas inconvenientes): então qual é a causa de Deus? Quem criou Deus? Argumentar, sem qualquer justificação para isso, que Deus é, sabe-se lá como, uma excepção à sua própria regra (de que tudo tem de ter uma causa) é obviamente intelectualmente desonesto: quem é o apologista para “decidir” que o universo requer uma causa, mas Deus já não?
  3. Finalmente, mesmo que as questões acima não existissem, ainda resta um problema: qual deus? Porque é que “tem de ter havido algo sobrenatural na origem do universo” (errado, como já referi, devido aos pontos anteriores) há de implicar “o deus mais popular na minha zona geográfica do planeta”, ou “o deus em cuja crença fui educado”? Porque é que não há de ser um deus completamente diferente, seja ele o de outra religião actual (mais ou menos popular), seja ele o de uma religião do passado, seja ele algo nunca concebido em toda a história da humanidade?
    Porquê um deus, e não vários? Porquê deus(es), e não algum outro tipo de criatura sobrenatural? Porquê necessariamente sobrenatural, e não algum tipo de tecnologia que ultrapasse o tempo e o espaço tais como os entendemos? E porque é que tal ser (ou seres) exigiria a nossa adoração, ou se importaria com o nosso comportamento, a nossa alimentação ou a nossa sexualidade?
    Não há nenhum caminho lógico entre “tem de ter havido uma causa sobrenatural para a existência do universo” e “Deus é assim e assado, e quer isto e aquilo de nós”. Por outras palavras, “tem de haver uma origem sobrenatural para o universo” não implica de forma alguma “o deus Cristão existe” (ou qualquer outro). Quem parta da primeira implicação e chegue de alguma forma à segunda, não o faz por nenhuma razão lógica, mas apenas cultural. E devia, seriamente, pensar um pouco sobre o facto de a sua crença não ser mais do que um acidente geográfico…

Agora já sabem como responder a alguém que vos diga, ingenuamente, “claro que Deus é real; caso contrário como é que tudo isto existe?”, como se isso fosse um argumento contra o qual não há resposta… :)

(Nota: comentários tipo “apesar de este ser o teu blog, não podes falar nele dos assuntos que quiseres”, ou tipo “estás obviamente errado, mas não te vou dizer como”, serão apagados. Os comentários existem para responder ao post… ou, claro, estão à vontade para o/me ignorar. :) )

Debate: a Igreja Católica é uma força para o bem no mundo?

Segunda-feira, 9 de Novembro, 2009
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Do lado “sim” temos o arcebispo John Onaiyekan da Nigéria, e Ann Widdecombe, política conservadora britânica. Do lado “não” estão Stephen Fry (sim, esse) e Christopher Hitchens.

O debate, como o nome diz, é mesmo sobre a Igreja Católica e o que ela fez e faz no mundo, de bom e de mau; não inclui temas como a existência ou não-existência de (um) Deus.

A audiência é “polled” sobre a questão antes e depois do debate, dando resultados interessantes… :)

Nota: se estás a ler isto num agregador e não vês qualquer vídeo, basta ir aqui.

Saramago e a religião

Segunda-feira, 19 de Outubro, 2009

Tenho visto vários comentários, tanto no artigo do Público como em vários blogs portugueses, a criticar José Saramago por ter dito… bem, vejam o link anterior.

Comentários esses que chamam “banais” às afirmações de Saramago, insinuam que é preciso estudar teologia antes de se poder criticar a religião, dizem o chorrilho de disparates habitual sobre os ateus e o ateísmo, e… bem, já se sabe como é. O mais triste são os comentários de quem não tem qualquer crença religiosa, mas mesmo assim se sente chocado e ofendido com isto, porque caiu na lavagem cerebral de que a religião merece “paninhos quentes” e um respeito especial e inquestionável.

Como a paciência para estar sempre a corrigir os mesmos erros já não é muita, e me sinto enojado só por ler, quanto mais citar, certas coisas que já li hoje, prefiro comentar isto na forma de pequenos parágrafos, mais ou menos independentes uns dos outros. Nem todos se aplicam a todas as críticas, obviamente.

  • Não há qualquer tipo de evidências, provas, etc. da existência de qualquer tipo de deus. Nada. Nicles. Zero. Logo, a teologia é uma não-disciplina, tem tanto mérito e importância como a painatal-logia ou a gambozinologia. E, sim, caros teólogos, vocês desperdiçaram a totalidade das vossas vidas. Deal with it (se bem que sei que nunca o farão, é muito mais fácil manter uma ilusão confortável do que quebrá-la).
  • Chamar “banal” à afirmação de que Deus não existe é o mesmo que chamar “pouco sofisticado” a quem diz que 2+2=4, porque quem está num “nível espiritual mais elevado” tem “fé” de que 2+2=5, ou isso é verdade num plano espiritual tão ou mais importante do que o físico, ou para ele os números têm um significado “mais profundo”, ou outras baboseiras new-age sem significado. Dizer as coisas como elas são de forma simples e directa (como “o rei vai nu”, bem aplicável a este caso) não é “banal” ou “pouco sofisticado”.
  • Crenças religiosas não merecem mais respeito e consideração do que qualquer outro tipo de crenças (ex. “a Terra é redonda” ou “há ovnis a mutilar gado nos EUA”) apenas por serem religiosas. A única coisa que importa é: é verdade?
  • Hitler era católico! Párem lá de o incluir nessa absurda lista de “monstros ateus”. O facto de já terem sido corrigidos relativamente a isso centenas de vezes e mesmo assim o continuarem a fazer demonstra bem quanta importância dão a factos e à realidade… e quão honestos são.
  • Quanto aos outros, há muito de religião em sistemas como o Estalinismo: culto ao líder, rituais, “rezas”, livros “sagrados” (ex. o livro vermelho de Mao), supressão de ideias contrárias, controlo de “pureza” ideológica, irracionalidade, dogma acima de factos, e afins. Se perseguiam as religiões estabelecidas, era apenas porque não queriam competição. Religião e “Deus” não são a mesma coisa, e é possível haver uma sem crença no mesmo. Nenhum povo alguma vez sofreu por excesso de racionalidade e cepticismo.
  • De qualquer forma, quando dizem que “monstros ateus fizeram isto e isto”, querem dizer que o fizeram por não terem medo de um castigo divino. Já pensaram na hedionda distorção de moralidade que isso é? E estão, portanto, a dizer que vocês iriam para a rua roubar, violar e matar se neste momento perdessem a vossa fé, porque não vêem nenhuma razão para não fazer tais coisas, excepto o medo do inferno? O que é que isto diz sobre vocês?
  • Houve quem falasse da “necessidade do Homem para com a espiritualidade”. Isso tem outro nome quando se é mais jovem: “amigo imaginário”. Uma coisa não é real só porque se quer muito. Mesmo que a vida fosse cinzenta e sem sentido sem a existência de um deus e de vida depois da morte (não o é), isso não tornaria mais provável a sua existência.
  • Quem diz que “as críticas de Saramago à Bíblia só se aplicam relação ao Antigo Testamento, porque a mensagem do Novo é paz e amor” está a precisar de realmente ler a Bíblia (além de que Jesus supostamente disse que não vinha para mudar uma letra da lei antiga). Mas, tipicamente, os ateus conhecem-na melhor do que quem acredita que existe um livro escrito pelo criador do universo, do qual depende a sua salvação, mas mesmo assim nunca arranjou tempo para o ler…
  • Não me venham dizer que “mais vale acreditar, por via das dúvidas“, please. Isso é completamente idiota (pista: há mais do que uma religião no mundo…)

Irlanda, Igreja Católica… “ah, pois, mas o ateísmo é que é o verdadeiro problema”

Segunda-feira, 25 de Maio, 2009

Acho que aqui não há muito a acrescentar a este post do Daylight Atheism, Catholicism’s Hollow Claims of Moral Authority.

O início do post:

The outgoing Archbishop of Westminster, Cormac Murphy-O’Connor, had some choice words for atheists at the ceremony this week to install his successor:

“What is most crucial is the prayer that we express every day in the Our Father, when we say ‘deliver us from evil’. The evil we ask to be delivered from is not essentially the evil of sin, though that is clear, but in the mind of Jesus it is more importantly a loss of faith. For Jesus, the inability to believe in God and to live by faith is the greatest of evils.

…You see the things that result from this are an affront to human dignity, destruction of trust between peoples, the rule of egoism and the loss of peace. One can never have true justice, true peace, if God becomes meaningless to people.”

Like others who came before him, this cardinal views atheism as “the greatest of evils”, literally the worst act a human being can possibly commit. Too bad for the cardinal that, at the time he gave this speech, an enormous counterexample was staring him in the face:

Tens of thousands of Irish children were sexually, physically and emotionally abused by nuns, priests and others over 60 years in a network of church-run residential schools meant to care for the poor, the vulnerable and the unwanted, according to a report released in Dublin on Wednesday.

Tens of thousands of children, suffering horrific abuse, degradation, and brutal assault both physical and sexual, over a period of decades. The sheer scope of the problem makes it impossible to explain away as the result of a few bad apples; cruelty this widespread and this institutionalized could only come about as the result of evil and corruption deeply entrenched in the hierarchy of church power.

Não acho que dê para acrescentar muito mais a isso.

E antes que me digam que isto não é representativo da Igreja Católica, eu lembro-vos do que a mesma fez enquanto tinha poder para tal: inquisição, tortura de “hereges”, queima de “bruxas”, censura de todos os livros por default (isto é, havia uma lista de livros permitidos, e não de livros censurados), cruzadas, e afins. E isso não parou por a Igreja ter pensado “espera aí, isto não está certo, é uma crueldade monstruosa, vamos parar e realmente tentar fazer algum bem ao mundo”. Não, parou quando deixaram de ter poder para isso. E acho que nunca devemos deixar de mencionar esse facto. Tal como os judeus dizem em relação ao Holocausto, “nunca mais.”

Abuso de crianças? “Trivialidades.” Tudo é justificável para um culto de morte que acredita que a vida terrena não tem qualquer importância, e que a única coisa que importa é salvar almas.

Greta Christina: “Não sou religioso, mas acredito em *algo*”

Quarta-feira, 6 de Maio, 2009

O segundo post da Greta Christina que estou a abordar nesta mini-série de três chama-se Not Religious, But Spiritual, e “ataca” precisamente quem tem esta forma de “religião diluída”, em que se rejeita qualquer religião organizada ou interpretação literal usada pelas mesmas, mas ao mesmo tempo se afirma ter uma ligação pessoal com algo “superior”, algo “mais elevado”, sem nunca se definir (ou pensar em) exactamente o quê.

People use it to mean they believe in something other than the physical world: they don’t know exactly what, but they’re pretty sure it’s something.

Já haveria muito que criticar aqui, mas já lá vamos. :)

Now, when I’m in a generous mood, I see this trope as coming from a totally valid desire to not be connected with the horrors of organized religion… while, at the same time, still feeling some sort of personal, emotional experience that the trope-holder thinks is a connection with God. (Or the Goddess, or the spirit world, or whatever.) The people who say it are trying to separate the wheat from the chaff; to take what they need and leave the rest. And while I think their interpretation of their experience is mistaken — I think it’s all chaff — I can certainly understand the impulse.

And sometimes, like deism, the "spiritual but not religious" trope is a gateway drug, a baby step out of religious belief. For people who are questioning religious belief but have been brought up to believe that religion is the source of all morality and meaning, "spiritual but not religious" can be a way to begin to let go of their beliefs without feeling like they’re stepping into the abyss. And I can definitely be generous about that.

Mas…

When I’m in a less generous mood, though, I see this trope as totally smug and superior, without anything to back it up. I see it as a way of saying, "I am so special and independent, of course I don’t have anything to do with that hidebound organized religion, I’m far too free a spirit for that… but I’m also special and sensitive, and in touch with the powerful sacred things beyond this mundane world."

E se isto fosse o pior…

O problema, tal como a primeira citação dela neste post o demonstra, é que tudo isto não passa de uma tremenda preguiça intelectual: “há algo superior, mas não sei o quê… nem quero saber.” O que é, não é importante. Eu acredito em “algo”, e pronto; isso faz-me sentir bem, faz-me sentir superior a quem não acredita, faz-me sentir que não sou limitado ao “materialismo frio” do mundo físico, e isso é tudo o que importa.

Isto acaba por ser pior do que uma religião formal: em vez de se acreditar em algo definido sem qualquer tipo de evidências, acredita-se em algo indefinido sem qualquer tipo de evidências. É ser “espiritual”, é “acreditar”, sem se saber exactamente no que é que se acredita.

Ela critica também (e muito bem) a ideia de que a moralidade vem do sobrenatural:

Rather more importantly, I think the "spiritual but not religious" trope completely plays into the idea that religious belief — excuse me, spiritual belief — makes you a finer, better person. There’s a defensiveness to it: like what the person is really saying is, "I don’t attend any religious services or practice any religious practice… but I’m not a bad person. Of course I still feel a connection to God/ the soul. I haven’t totally descended to the gutter. What do you take me for?" It gives aid and comfort to the idea that value and joy, transcendence and meaning, have to come from the spiritual — i.e. the world of the spirit, the world of the supernatural.

… o que já é suficientemente triste, além de imoral (a ideia de que a moralidade se resume à obediência aos caprichos de determinado ser, por muito poderoso que ele seja, é a maior corrupção da moralidade que pode existir).

Mas, mais do que tudo, esta atitude demonstra uma totalmente cobarde ausência de curiosidade em relação ao mundo em que vivemos… tão cobarde é ela que origina a rejeição desse mundo pelos crentes.

If being "spiritual but not religious" really does mean thinking of yourself as being in touch with the special sacred things beyond this mundane physical world… then I think that shows a piss- poor attitude towards the mundane physical world.
The physical world is anything but mundane. The physical world is black holes at the center of every spiral galaxy. It is billions of galaxies rushing away from each other at breakneck speed. It is solid matter that is anything but solid: particles that can’t be seen by even the strongest microscope, separated by gaping vastnesses of nothing. It is living things that are all related, all with the same great- great- great- to the power of a zillion grandmother. It is space that curves, continents that drift. It is cells of organic tissue that somehow generate consciousness and selfhood.

When you take the time to learn about the mundane physical world, you find that it is anything but mundane.

And I think that the "I don’t follow any organized religion, but I know that there has to be something more to life than what we see" is doing a serious disservice to the astonishing and complex vastness of what we see.

Eu acrescentaria ainda que uma pessoa realmente honesta – como parecem haver poucas, hoje em dia – facilmente reparará – ou admitirá, quando lhe apontarem isso – que o “eu acredito em algo mais elevado” quase sempre quer na verdade dizer “eu quero acreditar em algo mais elevado.” “Eu quero que exista algo mais elevado.” E não acham isto meio… infantil? Acreditar em algo só porque queremos que seja verdade, ou porque a crença nos é confortável?

“Mentes fechadas” e cepticismo

Segunda-feira, 6 de Abril, 2009

Este vídeo, que saiu há uma semana, é brilhante, e acho que toda a gente – sobretudo quem confunde “cepticismo” e “espírito crítico” com “ter a mente fechada” – o devia, sem falta, ver.


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