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Arquivo da Categoria ‘Wishful thinking’

Anne Rice: a saga continua

Sexta-feira, 30 de Julho, 2010

Mencionei ontem as actualizações de Anne Rice na página dela no Facebook, e, infelizmente, o que sugeri confirma-se: ela continua a ser tão crente como foi nos últimos anos, continua tão presa a superstições e “wishful thinking” como antes; simplesmente quer distanciar-se do ultra-conservadorismo que (sobretudo, mas não só, nos EUA) caracteriza tanto o Cristianismo.

Basta ver que, depois das duas actualizações citadas no post anterior, as seguintes foram simplesmente… citações da Bíblia. Não é exactamente um sinal de racionalidade ou clareza mental…

E ela continua a ser “Cristã” — “seguidora de Cristo” quer dizer exactamente isso. E aqui dou razão ao Hemant: o que ela fez é equivalente a um ateu conhecido dizer algo como: “eu era ateu, mas não concordo com as atitudes e posições políticas e sociais da maioria dos ateus (por exemplo, acho que são demasiado liberais, e sou contra os direitos dos homossexuais, não por causa de questões religiosas, mas apenas porque eles me enojam e porque negar-lhes direitos básicos faz-me sentir poderoso)… logo, a partir de hoje, já não sou ateu. Mas continuo a não ter qualquer tipo de crença num deus ou deuses.” Hmm, não. Não acreditas em deuses, logo és um ateu. É essa a definição do termo. Podes ser um ateu irracional, homofóbico, ultra-conservador… em resumo, um completo imbecil. Mas continuas a ser um ateu.

A última (à hora deste post) actualização dela também revela muito (ênfase meu):

My faith in Christ is central to my life. My conversion from a pessimistic atheist lost in a world I didn’t understand, to an optimistic believer in a universe created and sustained by a loving God is crucial to me. But following Christ does not mean following His followers. Christ is infinitely more important than Christianity and always will be, no matter what Christianity is, has been, or might become.

Aqui, senhoras e senhores, temos um exemplo clássico de “wishful thinking”. Ela acredita porque quer que seja verdade, não por ter evidências de que (provavelmente) o seja. A crença 1 fazia-la infeliz, a crença 2 fá-la sentir-se bem, logo isto é, para ela, motivo mais do que suficiente para ter a crença 2. A questão de qual é mais provavelmente a que corresponde à realidade não lhe interessa. A realidade “que se lixe”. Ela acredita no que lhe faz sentir bem, e pronto — um entorpecer da mente e do sentido de realidade não muito diferente do de um alcóolico ou um toxicodependente, que bebe ou droga-se para não ter de lidar com “a world I didn’t understand”.

E, por muito sofisticada que uma religião seja, por muito sofisticadas as palavras de um apologista, a religião nunca passa disto. Não há religião, nem ninguém é religioso, sem a desonestidade intelectual que é o “wishful thinking”.

Realismo como alternativa ao “pensamento positivo”

Sexta-feira, 16 de Julho, 2010
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Vale a pena ver. Depois de o fazerem, considerem o seguinte:

Relativamente à questão do “pensamento positivo”, imagino que há quem pense algo tipo “mas estás-me a dizer que pensar positivamente, ser optimista, etc. não são boas ideias? Que devemos andar pessimistas e deprimidos?” É claro que não é essa a ideia (e o vídeo menciona-o, de passagem). A questão aqui, a meu ver, é que há duas interpretações bem distintas do significado de “pensamento positivo”, e os “new agers” em geral fazem tudo para misturar as duas, tratando-as como inseparáveis.

“Pensamento positivo”, isto é, viver a vida de uma forma optimista e sem medos paralisantes, tentando ver sempre que possível o lado bom das coisas e evitando ao máximo que os problemas / stresses do dia-a-dia nos deitem abaixo, é uma boa ideia, e faz diferença na nossa vida, em termos do nosso bem-estar psicológico, da nossa atitude perante problemas e perante outras pessoas, e afins. Torna-nos pessoas menos stressadas e mais agradáveis — e, por conseguinte, mais “populares”, o que não só tende a aumentar ainda mais o nosso bem-estar, como ajuda relativamente ao sucesso na vida — ou seja, acaba por ser, de certa forma, um círculo virtuoso: optimismo provoca sucesso que provoca mais optimismo que provoca mais sucesso que provoca…

Mas não é isso que os “new agers” promovem (se bem que, desonestamente, recuam para esse significado mais básico quando os criticamos). O que eles promovem, em livros como o estupidamente best-seller “O Segredo”, mencionado no vídeo, é a ideia de que os nossos pensamentos e as nossas emoções afectam directamente o universo, incluindo de forma física e à distância; que a realidade é fluida e subjectiva, construída por cada um de nós nas nossas cabeças (e que uma árvore a cair numa floresta sem ninguém ao pé pode não fazer som, precisamente porque a realidade é subjectiva); que para ter sucesso e sorte basta “acreditar” nesse sucesso e sorte e dessa forma atraí-los. Que para conseguir algo basta “querer muito”.

E, portanto, que quem fracassa, quem sofre alguma catástrofe (mesmo uma catástrofe natural), é porque não queria suficientemente o sucesso, e, dessa forma, atraiu as desgraças. Ou seja, a culpa é sempre da vítima. Mais obsceno do que o “cada um tem o que merece”, aqui a ideia é “cada um tem o que quer“. Os pobres são pobres porque querem (ou porque não querem suficientemente a riqueza), os doentes são doentes porque “não acreditam” na sua saúde, e as vítimas de um terramoto ou vulcão têm a culpa disso porque os seus “pensamentos negativos” atraíram a catástrofe.

Isto, senhoras e senhores, é do mais doentio que pode haver.

FAQ: “Eu também sou ateu, mas as pessoas *precisam* de religião! Para onde é que se vão virar em alturas más?”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Eu podia responder dizendo que muito do suposto conforto vindo da religião não vem realmente da parte religiosa / metafísica da mesma: grande parte dos crentes usa a religião como uma fonte de comunidade, dando-lhe acesso a um grupo com interesses em geral comuns, encontros regulares, rituais, a sensação de “pertencer”, e, supostamente, apoio do grupo em alturas difíceis. É óbvio que isso pode ser encontrado num grupo não religioso.

Podia também argumentar contra o viver numa ilusão, contra o “wishful thinking”, e apelar a uma visão do mundo tão clara quanto seja possível pelas nossas capacidades. Ou seja, o facto de fazer a coisa certa ser difícil ou menos confortável não devia constituir razão para não fazer essa coisa. E a educação faz “milagres”. E sim, é possível lidar com a perda (ex. entes queridos) permanecendo no mundo real — isso é parte de ser adulto, de certa forma.

Mas acho que a minha resposta tem de se focar noutro ponto: que tremenda condescendência! Ao fazeres essa pergunta, estás basicamente a dizer o seguinte:

“Oh, é claro que eu e tu, como membros da elite, somos demasiado sofisticados, inteligentes e cultos para precisar de religião, mas o povinho, a ralé estúpida, o “rebanho”? É óbvio que precisam! Como é que aguentariam as vidinhas de miséria que têm sem acreditarem que um dia (mesmo que seja depois da morte) as coisas vão melhorar? Pessoas inteligentes e cultas vão ao psicólogo, mas o povinho vai à igreja! E como é que ficariam no seu lugar se não tivessem a autoridade de padres / pastores, e o medo do castigo divino? Achas que vão todos estudar ética e moralidade?”

Eu não quero que isto seja “wishful thinking” da minha parte — o tempo o dirá, se bem que provavelmente não no meu tempo de vida –, mas acredito que a humanidade é capaz de ser melhor do que isso, que as pessoas não são estúpidas e irracionais por razões “genéticas”, mas apenas de ignorância, de um anti-intelectualismo quase universalmente existente na sociedade, e de falta de educação. Acredito que o pensamento crítico pode ser ensinado, e pode ser aprendido por qualquer um. Acredito que o destino da religião é o mesmo da escravatura ou do racismo e sexismo institucionalizados: uma vergonha na História da humanidade, rejeitada em geral nos países civilizados (mais uma vez, não espero isso durante a minha vida, infelizmente). Em resumo, não aceito que se assuma que a maioria das pessoas é eterna e inevitavelmente ignorante e precisa de viver sob uma ilusão, uma mentira.

(resposta inspirada em parte no prefácio da edição “paperback” do “The God Delusion”, de Richard Dawkins)

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não me importam todos os teus argumentos; acreditar em Deus faz-me sentir bem, por isso acredito!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

(versão alternativa: “para mim é assim e pronto!”)

Seja. Se admites que não estás minimamente interessado no que é real e no que não é, que escolhes as tuas crenças simplesmente pelo conforto que elas te dão, e que não vês problema nenhum em acreditares em algo só porque queres que seja verdade…

… então não tenho mais nada a dizer-te. Lamento. Bom resto de vida.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Tem de existir Deus; caso contrário, qual é o sentido da vida, uma vez que morremos e tudo acaba?”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Nota: esta resposta não aborda a questão de as consequências serem ou não correctas (isto é, se, não havendo um deus, a vida (única e finita) faz ou não sentido, e assim por diante). Isso fica para uma entrada futura no FAQ.

Em vez disso, esta parte do FAQ destina-se a demonstrar como a questão propriamente dita implica um erro de lógica, e, assim sendo, constitui um argumento completamente inválido.

Resumindo-a à sua essência, a afirmação implícita na pergunta diz o seguinte:

– se Deus não existe, <algo mau>. Logo, Deus tem de existir.

O que é que há de errado com isso? Apenas isto: mesmo que as consequências fossem absolutamente correctas (não são, como demonstrarei futuramente neste FAQ), ou seja, mesmo que o resultado de “Deus não existe” fosse realmente mau, isso não afectaria de forma alguma a veracidade da proposição. Por outras palavras, a “desejabilidade” de uma possibilidade não tem qualquer influência sobre ela ser verdadeira ou não. As coisas ou são, ou não são, independentemente das consequências.

Mesmo que fosse absolutamente 100% verdade que “Deus não existe” significa “a vida não faz sentido”, isso teria um efeito nulo sobre a existência ou não-existência de Deus.

O erro de acreditar que algo é verdade só porque “caso contrário seria mau” é uma falácia lógica chamada apelo às consequências, uma forma comum de “wishful thinking”. As nossas crenças devem ser formadas tentando ver e entender a realidade até ao limite das nossas capacidades — e não simplesmente acreditando naquilo que queremos que seja verdade, que nos é confortável.

Mais uma vez, não estou de forma alguma a concordar com a premissa de que as supostas consequências são verdadeiras. A vida não deixa de fazer sentido por não existirem deuses, existe na mesma uma base para a moralidade, e assim por diante. A questão aqui é que mesmo que essas consequências fossem verdadeiras (e há outras consequências que efectivamente o são, como “somos apenas animais evoluídos”, ou “não existe vida depois da morte”, ou “não somos especiais no universo”), isso não teria qualquer influência na existência ou não-existência de um deus ou deuses.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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