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Entradas com Etiqueta ‘Argumento da ignorância’

FAQ: “O ateísmo / materialismo não explicam o amor / a amizade / o bem e o mal / a poesia / a beleza / os números irracionais na matemática / <outro exemplo de conceito humano abstracto>, logo estão errados / Deus existe!”

Quarta-feira, 10 de Março, 2010

Esta pergunta é, infelizmente, muito comum; tal como no caso da aposta de Pascal, a maior parte dos crentes põem esta questão com uma atitude de desafio (“responde lá a isto! aposto que não consegues!”), estando visivelmente na ilusão de que a pergunta é original, que o ateu nunca pensou nela, e que vai ser incapaz de lhe responder.

Surpresa: qualquer ateu que se interesse por discutir este tipo de temas pensou nessa questão, e detectou imediatamente vários problemas na mesma.

O primeiro problema é este: trata-se de um argumento da ignorância, já mencionado aqui e aqui. Esse argumento, neste contexto, resume-se a isto: “não sei / não entendo / não estou a ver como, logo foi Deus“. Já se trata de um péssimo argumento quando usado em relação a algo que ainda não é entendido ou explicado pela ciência (ex. a origem do universo), uma vez que não faz sentido que uma explicação sobrenatural ganhe simplesmente “por default”, mas demonstra ainda mais “tolice” quando usado relativamente a algo que já foi explicado e é entendido por muita gente, mas o crente em questão não conhece ou não entende — nem procurou conhecer ou entender — essas explicações. É como alguém nos dias de hoje pensar (como acontecia na pré-história) que uma trovoada é uma discussão entre “os deuses”.

Por outras palavras, é de uma tremenda ignorância — e preguiça intelectual — atribuir emoções ou a capacidade de alguém para o bem (ou o mal) a “Deus” quando podem ser explicadas pela evolução, psicologia, neurologia e filosofia. Mas aprender sobre tudo isso dá muito trabalho, não é?

Um segundo problema é a mentalidade dualista e anti-humana, que diz — e é assim culpada por tanto sofrimento ao longo da história — que tudo o que é profundo, marcante, importante ou “bom” tem de ter uma origem sobrenatural, exterior a nós, de um plano não alcançável pela inteligência e ciência humanas. Tal como a acusação de Keats a Newton por este ter “desvendado o arco-íris” e assim destruído a beleza e poesia do mesmo (como se só houvesse beleza e poesia na total ignorância…), essa é uma mentalidade anti-humana e anti-vida, que nos tira o melhor de nós próprios e diz que este só pode vir de um plano sobrenatural e incompreensível (seja “Deus”, seja qualquer coisa “new age” indefinida), porque se fosse compreendido e explicado em termos puramente humanos perderia assim todo o seu valor.

Isto, desculpem dizer, é absurdo. O amor de uma pessoa por outra não precisa de uma origem ou justificação externa ou sobrenatural para ter valor, para ter poesia e pureza. Pelo contrário, ao afirmarem que essas origens são necessárias, é que lhe estão a tirar valor. Aquilo que eu sinta por alguém — uma namorada, um familiar, um amigo — não precisa de justificação externa, não precisa de vir de um “plano espiritual”, não perde valor por vir “só” de mim — muito pelo contrário, perderia todo e qualquer valor se não viesse de mim, se não fosse meu.

Na verdade, o atribuir de tudo o que há de bom no ser humano a algo “extra-humano” só demonstra uma coisa: um total ódio à humanidade e a si mesmo. Algo bastante comum nas várias religiões populares, “coincidentalmente”.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

O problema de “Deus existe porque o universo existe”

Quarta-feira, 9 de Dezembro, 2009

Um argumento muito usado por apologistas religiosos quando confrontados com a necessidade de apresentar provas ou pelo menos evidências da existência da divindade em que acreditam, e não conseguem de outra forma citar nenhuma, é o seguinte: “a prova é só isto: o universo existe, e nós existimos nele. Logo, como é que existe algo em vez de nada? Deus!”

Espero com este post demonstrar porque é que esse argumento é falacioso e, pura e simplesmente, inválido.

  1. Trata-se de um argumento da ignorância, uma falácia lógica infelizmente muito comum. Dizer “não sei/sabemos explicar, logo foi Deus” (ou qualquer outra explicação sobrenatural) é, desculpem dizer, um argumento parvo, impensado e infantil. Pode ser difícil para quem tenha problemas em admitir que não tem todas as respostas ou em viver num mundo em que não há respostas simples para tudo, mas, se não sabemos algo, a única coisa correcta e honesta a dizer é “não sei/sabemos”. Mais nada. Caso contrário, não somos diferentes de homens das cavernas que inventavam constantemente explicações sobrenaturais para fenómenos (ex. uma tempestade é sinal de que “os deuses / espíritos estão zangados” (e o melhor é sacrificar alguém para os apaziguar)) hoje em dia perfeitamente explicados como naturais. Outro nome para este caso específico de argumento da ignorância é “god of the gaps” (o deus dos buracos); ou seja: “põe-se” (ou esconde-se) Deus nos “buracos” de conhecimento existentes… com o problema de que esses “buracos” vão constantemente diminuindo à medida que a ciência e o conhecimento humano progridem, e chega-se a um ponto em que já não resta praticamente nada para “Deus” fazer.
  2. Dizer “nada pode existir sem uma causa, logo o universo tem de ter uma, que foi Deus” tem o pequeno problema que é óbvio muitas vezes até para crianças na catequese ou outro tipo de aulas religiosas (e as faz fazer perguntas inconvenientes): então qual é a causa de Deus? Quem criou Deus? Argumentar, sem qualquer justificação para isso, que Deus é, sabe-se lá como, uma excepção à sua própria regra (de que tudo tem de ter uma causa) é obviamente intelectualmente desonesto: quem é o apologista para “decidir” que o universo requer uma causa, mas Deus já não?
  3. Finalmente, mesmo que as questões acima não existissem, ainda resta um problema: qual deus? Porque é que “tem de ter havido algo sobrenatural na origem do universo” (errado, como já referi, devido aos pontos anteriores) há de implicar “o deus mais popular na minha zona geográfica do planeta”, ou “o deus em cuja crença fui educado”? Porque é que não há de ser um deus completamente diferente, seja ele o de outra religião actual (mais ou menos popular), seja ele o de uma religião do passado, seja ele algo nunca concebido em toda a história da humanidade?
    Porquê um deus, e não vários? Porquê deus(es), e não algum outro tipo de criatura sobrenatural? Porquê necessariamente sobrenatural, e não algum tipo de tecnologia que ultrapasse o tempo e o espaço tais como os entendemos? E porque é que tal ser (ou seres) exigiria a nossa adoração, ou se importaria com o nosso comportamento, a nossa alimentação ou a nossa sexualidade?
    Não há nenhum caminho lógico entre “tem de ter havido uma causa sobrenatural para a existência do universo” e “Deus é assim e assado, e quer isto e aquilo de nós”. Por outras palavras, “tem de haver uma origem sobrenatural para o universo” não implica de forma alguma “o deus Cristão existe” (ou qualquer outro). Quem parta da primeira implicação e chegue de alguma forma à segunda, não o faz por nenhuma razão lógica, mas apenas cultural. E devia, seriamente, pensar um pouco sobre o facto de a sua crença não ser mais do que um acidente geográfico…

Agora já sabem como responder a alguém que vos diga, ingenuamente, “claro que Deus é real; caso contrário como é que tudo isto existe?”, como se isso fosse um argumento contra o qual não há resposta… :)

(Nota: comentários tipo “apesar de este ser o teu blog, não podes falar nele dos assuntos que quiseres”, ou tipo “estás obviamente errado, mas não te vou dizer como”, serão apagados. Os comentários existem para responder ao post… ou, claro, estão à vontade para o/me ignorar. :) )


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