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Entradas com Etiqueta ‘Crítica à religião’

Ouvidos delicados

Quarta-feira, 12 de Maio, 2010

Até parece combinado, não é? Depois desta questão, e desta, e desta resposta às mesmas (à qual já respondi, no blog em questão), o sempre delicioso Jesus and Mo demonstra claramente a situação absurda actual…

Jesus and Mo - "Ears"

… em que qualquer crítica a uma crença religiosa é “estridente”, “militante”, “intolerante” e “pessoalmente ofensiva”, coisa que não aconteceria para qualquer outro assunto.

A religião em geral, cada religião individualmente, e cada crença religiosa especificamente, não passam de ideias, e não há nenhuma razão válida para estarem numa posição privilegiada acima de críticas, nem os crentes têm qualquer justificação para igualar críticas às suas crenças a ataques pessoais… ou direito de o fazer. É altura de retirar as crenças religiosas do “colo da mamã” onde continuam a ser injustamente protegidas e privilegiadas, e trazê-las para o mundo real, o “mundo dos crescidos”, onde todas as outras ideias já vivem há muito tempo.

P.S. – para não dizerem que “ponho tudo no mesmo saco”, se és crente mas não consideras que criticar crenças religiosas (tanto a tua como outras) é “blasfémia”, nem achas que tais crenças devam estar privilegiadamente acima de críticas, 1) obviamente, este post não te está a criticar a ti, e 2) parabéns, é pena a maioria dos crentes não ser como tu, neste aspecto. :)

“Ateus são tão fanáticos e militantes como os crentes que criticam!”

Segunda-feira, 10 de Maio, 2010

Hoje voltei a ouvir (bem, ler) esta, num tweet de alguém cujas opiniões em geral até respeito (afinal, sigo-o no Twitter), e… apesar de ser incrivelmente comum, não consigo deixar de ficar surpreendido pelo facto de alguém ser capaz de afirmar — ou pensar — isso.

O que os ateus que criticam a religião fazem, em geral, divide-se em dois aspectos: 1) crítica a actos praticados por instituições religiosas ou em nome da religião (ex. propagação da SIDA em África devido à oposição aos preservativos, encobrimento institucionalizado da pedofilia1, opressão das mulheres em países muçulmanos, terrorismo religioso, anti-intelectualismo e oposição à ciência, etc.), e 2) crítica às crenças religiosas e ao pensamento religioso propriamente ditos, no âmbito da promoção da racionalidade e pensamento científico, no sentido de tornar o mundo melhor, em oposição a uma humanidade presa a crenças sobrenaturais que acabam por nunca passar de “wishful thinking”. Todos estes actos resumem-se a críticas — críticas de actos, críticas de pessoas, e críticas de ideias. Isto é que é “fanatismo miltante”?

A ideia das pessoas que fazem afirmações destas parece ser a seguinte: quem critica um acto condenável é “tão mau” como o autor desse acto, devido meramente ao acto da crítica.

Quem critique um político corrupto é tão condenável como ele. Quem exija justiça para um violador ou pedófilo é tão criminoso como se tivesse violado ou abusado de crianças. Quem chame a polícia a reportar um roubo é tão culpado como o ladrão. Quem se revolte com o racismo é tão condenável como o maior racista.

Isto faz algum sentido? É claro que não. É completamente absurdo para os exemplos acima, e é-o para qualquer outro exemplo em que possamos pensar.

Excepto a religião.

Já há muito que isto se faz notar, e muitos já o disseram no passado: é historicamente tão incomum criticar-se de alguma forma a religião — e, no caso de países como Portugal, a Igreja Católica –, e mesmo até há muito pouco tempo era tão invulgar que alguém o fizesse, que o mais leve sussurro soa a um grito estridente. E soa dessa forma até mesmo para quem não seja ele próprio crente.

Nada mais explica porque é que, independentemente dos abusos e até atrocidades feitos por organizações religiosas, ou feitos em nome da religião, a simples crítica em oposição aos mesmos seja absurdamente equiparada a esses abusos e atrocidades.

A quem diz coisas como no título do post, a minha sugestão é: pensa um pouco nesta questão. Porque é que a religião — sejas ou não crente — deve estar num pedestal especial, acima de qualquer crítica? E se não achas que deva estar, porque é que ages como se devesse?

  1. reparem que não os culpo da pedofilia propriamente dita; aí a culpa é só do indivíduo em questão, e não é preciso ser religioso para se ser pedófilo. Mas o crime do encobrimento e violação de outras crianças no futuro graças a esse encobrimento — em nome da “reputação da igreja universal” — é 100% culpável à Igreja Católica e à hierarquia da mesma. []

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