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Entradas com Etiqueta ‘Deus’

FAQ: “Deus ama-te!”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

A ideia dessa exclamação é em geral esta: “Deus ama-te, e tu não só o rejeitas, como te recusas sequer a admitir a sua existência!? Que ingratidão! Como é que és capaz?” Chantagem emocional, portanto.

A resposta óbvia é a habitual: “como é que sabes?”. Ou seja, sem evidências, não há razão nenhuma para acreditar naquilo que a outra pessoa me está a dizer, e muito menos para me “sentir culpado” pela minha suposta ingradidão e insensibilidade.

Mas há outra maneira de responder a essa quase-acusação: de certa forma, isso favorece a minha posição.

Se me dissesses “Deus existe, mas está-se nas tintas para ti e para todos nós”, a não-existência dele não seria tão óbvia (se bem que ainda haveria diversos argumentos contra a mesma, começando, mais uma vez, com a pergunta “como é que sabes?”). Mas ao dizeres que ele “me ama”, ou “ama toda a gente”, estás só a demonstrar que não só ele não “me ama”, como quase de certeza não existe… e ainda bem. Ao dares-lhe essa característica, estás a tornar ainda mais improvável a sua existência, a dar-me argumentos contra ela — como se o facto de não haver evidências da mesma não fosse já suficiente.

Por outras palavras, um deus que “me ama” e se esconde é ainda menos provável — e mais difícil de acreditar em — do que um deus para quem eu sou totalmente indiferente (se é que ele sabe que eu existo).

Sabes, é que “amor” não é algo que se sente apenas à distância, sem fazer qualquer tentativa de contacto. Se sinto “amor” por alguém — seja amor romântico, fraternal, de grande amizade, etc. –, quero em geral estar e conviver com esse alguém. Nunca me passaria pela cabeça ser tão doente que, em vez de procurar o contacto, nunca me revelasse, mas enviasse tipos de ar duvidoso a casa da pessoa “amada” para lhe dizerem que existo e a amo, mas que ela nunca me vai poder ver directamente, e usar a crença ou não-crença na minha existência como indicador do seu amor por mim.

“Amor” — mesmo que seja o que se sente por um familiar ou um grande amigo, por alguém com quem nos importamos e a quem desejamos o mellhor possível — não é isso. Pelo contrário, o tipo de “amor” que atribuis ao deus em que acreditas é das coisas mais doentias, mais manipuladoras e mais abusivas que já ouvi.

E não adoraria — nem sequer respeitaria no sentido mais básico da palavra — um sádico doentio desses, mesmo que ele existisse. Felizmente, as razões para acreditar em tal criatura continuam a ser nulas.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Se não acreditas em Deus, porque é que falas tanto nele?”

Sábado, 20 de Fevereiro, 2010

Para começar, há que distinguir “falar de Deus” e “falar de religião“. Se o significado da pergunta é: porque é que eu me importo com isto, porque é que gasto tempo e esforço a criticar a religião, sugiro a leitura destes dois posts:

O mais provável é que a resposta esteja nos posts acima indicados, e provavelmente podia ficar por aqui. No entanto, se levarmos a pergunta à letra, ela não se refere a importar-me com a religião, mas sim a “falar de Deus”, sendo “Deus” provavelmente a versão mais popular nestas bandas, o deus Judaico-Cristão. A acusação implícita na pergunta é que, se falo tanto nele, se calhar é porque lá no fundo até acredito que ele existe…

Porém, quem leia realmente o que escrevo neste blog, em vez de simplesmente assumir coisas em relação a mim por me auto-declarar ateu (o nome do blog é uma boa pista…), verá que é raro falar propriamente de “Deus”, e que, quando o faço, é óbvio que estou a falar de um ser que considero fictício, tal como posso falar do Homem-Aranha num blog ou fórum sobre comics, sem que venha logo algum parvinho perguntar-me se, aos 35 anos, acredito que o Peter Parker existe…

Ao contrário do Homem-Aranha, no entanto, há realmente muita gente no mundo a acreditar no deus Cristão — cerca de dois mil milhões, ou seja, 1/3 do planeta –, gente essa que o considera real, e que vive em função dos supostos desejos (e muitas vezes caprichos) desse ser. E é a moralidade desse ser — tal como descrita nos livros sagrados, e/ou nas crenças dos crentes, se bem que estas últimas tendem a ser inventadas pelos mesmos para serem um reflexo deles próprios — que eu critico, no sentido de “vocês seguem um ser com estas características; o que é que isso diz sobre vocês? Ou nunca pensaram sequer nisso? Não têm problemas em seguir um ser que ou é 1) ciumento, inseguro, sexista, homofóbico, sádico e birrento, ou é 2) obviamente acabado de inventar por vocês?” Nada disto sugere minimamente que eu “acredite” nele de alguma forma… mas se os crentes acreditam, acho bem que sejam confrontados com a personalidade que eles próprios lhe dão.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Sem Deus / religião / a Bíblia, como é que pode haver moralidade?”

Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

(Nota: esta pergunta não é uma repetição da aparentemente semelhante “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“. Essa referia-se às pessoas “portarem-se bem” por medo de punição ou desejo de recompensa; esta aqui é sobre a crença comum da parte dos crentes (e, incrivelmente, de alguns não-crentes, também) de que as regras éticas da sociedade, a nossa moralidade, o nosso “standard” de certo e errado vêm de Deus / da religião / da Bíblia.)

Isto pode ser uma surpresa para ti, mas se és uma pessoa boa, atenciosa, altruísta no bom sentido, e que se importa com os outros, não retiraste isso da religião. Muito pelo contrário.

Se (muito comum nos países Católicos da Europa, como Portugal) a tua religião é simplesmente “acredito que Deus é como um pai que nos ama, e que quer que sejamos bons uns para os outros”, então, se por um lado és muito mais saudável e ético do que um enorme número de crentes, por outro lado inventaste essa religião. Criaste-a. Ou, em alternativa, o padre ou pastor que te instruiu sobre Deus e a religião inventou-a ele próprio.

Isto porque “simplesmente sejam bons uns para os outros” é uma filosofia que virtualmente não é suportada na Bíblia Cristã. Não é isso que o deus Cristão é retratado como sendo, ou como querendo — especialmente, mas não apenas, no Antigo Testamento. De forma alguma.

De acordo com a Bíblia — e, mais uma vez, se a ignoras, estás a inventar a tua própria religião –, Deus realmente acha que as mulheres são inferiores aos homens. Ele considera a escravatura aceitável. Ele acha que quem desobedeça a qualquer das suas muitas regras arbitrárias deve ser imediatamente morto pelos outros crentes. Ele acha que homossexuais, banqueiros, crianças desobedientes e pessoas que comam mariscos devem ser condenados à morte. E ele não tem quaisquer problemas relativamente ao genocídio — matar civilizações inteiras, incluíndo mulheres e crianças.

A maioria dos Cristãos, naturalmente, nunca tem a sua atenção dirigida (por padres, pastores, etc.) para o descrito acima. A maior parte dos que realmente são confrontados com isso são, em geral, suficientemente saudáveis mentalmente, e suficientemente morais, para repudiar esses ensinamentos (mais uma vez, criando assim a sua própria religião em “versão soft”). E aqueles que não o são tornam-se fundamentalistas: pregadores e agentes de intolerância, sofrimento e ódio, para quem tudo o que seja menos do que uma teocracia brutalmente repressiva não é aceitável.

O que eu quero dizer com isto é que, se és um crente moral, bondoso e que se importa com os outros, és assim apesar da tua religião, não graças a ela. Tens de ignorar não só a quase totalidade do teu livro sagrado, caso contrário provavelmente já estarias preso (por, por exemplo, apedrejares o teu filho até à morte por ele chegar tarde de uma festa). E além disso tens de rejeitar aquilo em que a tua igreja acreditou piamente durante quase toda a sua existência (e de certa forma ainda acredita, mas já tem alguma vergonha de o admitir): gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.

Como é que a tua moralidade pode vir da religião, se tens de ignorar quase todos os ensinamentos dessa religião para não seres um monstro?

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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