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Entradas com Etiqueta ‘FAQ de Ateísmo’

FAQ: “Eu também sou ateu, mas as pessoas *precisam* de religião! Para onde é que se vão virar em alturas más?”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Eu podia responder dizendo que muito do suposto conforto vindo da religião não vem realmente da parte religiosa / metafísica da mesma: grande parte dos crentes usa a religião como uma fonte de comunidade, dando-lhe acesso a um grupo com interesses em geral comuns, encontros regulares, rituais, a sensação de “pertencer”, e, supostamente, apoio do grupo em alturas difíceis. É óbvio que isso pode ser encontrado num grupo não religioso.

Podia também argumentar contra o viver numa ilusão, contra o “wishful thinking”, e apelar a uma visão do mundo tão clara quanto seja possível pelas nossas capacidades. Ou seja, o facto de fazer a coisa certa ser difícil ou menos confortável não devia constituir razão para não fazer essa coisa. E a educação faz “milagres”. E sim, é possível lidar com a perda (ex. entes queridos) permanecendo no mundo real — isso é parte de ser adulto, de certa forma.

Mas acho que a minha resposta tem de se focar noutro ponto: que tremenda condescendência! Ao fazeres essa pergunta, estás basicamente a dizer o seguinte:

“Oh, é claro que eu e tu, como membros da elite, somos demasiado sofisticados, inteligentes e cultos para precisar de religião, mas o povinho, a ralé estúpida, o “rebanho”? É óbvio que precisam! Como é que aguentariam as vidinhas de miséria que têm sem acreditarem que um dia (mesmo que seja depois da morte) as coisas vão melhorar? Pessoas inteligentes e cultas vão ao psicólogo, mas o povinho vai à igreja! E como é que ficariam no seu lugar se não tivessem a autoridade de padres / pastores, e o medo do castigo divino? Achas que vão todos estudar ética e moralidade?”

Eu não quero que isto seja “wishful thinking” da minha parte — o tempo o dirá, se bem que provavelmente não no meu tempo de vida –, mas acredito que a humanidade é capaz de ser melhor do que isso, que as pessoas não são estúpidas e irracionais por razões “genéticas”, mas apenas de ignorância, de um anti-intelectualismo quase universalmente existente na sociedade, e de falta de educação. Acredito que o pensamento crítico pode ser ensinado, e pode ser aprendido por qualquer um. Acredito que o destino da religião é o mesmo da escravatura ou do racismo e sexismo institucionalizados: uma vergonha na História da humanidade, rejeitada em geral nos países civilizados (mais uma vez, não espero isso durante a minha vida, infelizmente). Em resumo, não aceito que se assuma que a maioria das pessoas é eterna e inevitavelmente ignorante e precisa de viver sob uma ilusão, uma mentira.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não me importam todos os teus argumentos; acreditar em Deus faz-me sentir bem, por isso acredito!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Seja. Se admites que não estás minimamente interessado no que é real e no que não é, que escolhes as tuas crenças simplesmente pelo conforto que elas te dão, e que não vês problema nenhum em acreditares em algo só porque queres que seja verdade…

… então não tenho mais nada a dizer-te. Lamento. Bom resto de vida.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Só estás a atacar as formas mais primitivas / literais da religião, ignorando toda a teologia sofisticada.”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Um problema aqui é que os “teólogos sofisticados” são uma minoria ínfima, sem influência ou poder (se bem que conseguem continuar a publicar livros), que virtualmente não afectam em nada as crenças da esmagadora maioria dos crentes. (Citando Richard Dawkins, quando um “teólogo sofisticado” diz numa igreja ou mosque que “não importa se Deus existe realmente ou não, o que importa é se ele é real para mim ou para ti”, os membros da congregação vão chamar-lhe ateu… e vão estar certos.)

E não são os “teólogos sofisticados” que exigem, e vão votar em, referendos para tirar direitos básicos a uma parte significativa da população, ou que cometem crimes violentos em nome do seu deus, ou que se opõem a ramos promissores da ciência por isso entrar em conflito com um livro escrito por primitivos pastores do deserto na Idade do Bronze.

Em resumo, “teólogos sofisticados” não me afectam, como ateu e como membro da sociedade. Não afectam a sociedade, ponto. E, a meu ver, não afectam sequer os outros crentes, incluindo tu próprio. São uma pseudo-elite a “brincar” numa brincadeira que só eles entendem, porque foram eles que a inventaram, a jogar um “jogo” que não passa para eles de uma masturbação intelectual, sem resultados práticos ou testáveis (alguém capaz de dizer que “Deus é o Deus para além de Deus” (Karen Armstrong) já deixou de se preocupar com o que é real e o que não é há um bom tempo).

Acuso-os também, já agora, de criar a sua própria religião (qualquer religião que não venha dos livros sagrados originais é criada pelos crentes actuais), um acto intelectualmente desonesto que já mencionei no passado.

E comparo a teologia à “painatalogia” ou à “gambozinologia”, o estudo detalhado de algo que não existe, e do qual os teólogos não sabem realmente mais do que o crente mais ignorante… ou do que o ateu típico; que forma têm eles de investigar, a não ser inventando?

De qualquer forma, se quiserem transmitir-me (comentando) alguma coisa brilhante dita por um “teólogo sofisticado” que achem que “dê a volta” às minhas críticas à religião, estejam à vontade.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O ateísmo causou a morte de milhões! Olhem para a Rússia Soviética!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

(Resistir… à piada óbvia… pelo menos até ao fim do post…)

Mais uma vez, não é uma pergunta, é uma acusação. A resposta óbvia é que o ateísmo não é um sistema de valores (o que é muito diferente de dizer que ateus não têm um sistema de valores), logo não há nada no ateísmo que leve a cometer qualquer acto — bom ou mau. É simplesmente a não-crença num ou mais deuses. Logo, um ateu — tal como um crente — pode ser a pessoa mais moral do mundo, ou o maior monstro.

A resposta típica de um crente aí é que aí uma relação, que o ateísmo, por uma ou mais razões, leva a massacres como esses, ou seja, que é, directamente, a causa dos mesmos. E que razões são essas?

A mais comum é que o ateu, ao não acreditar numa entidade superior que o punirá ou recompensará depois da morte, acha que “vale tudo”, que pode fazer tudo, sem consequências. Já respondi a isso em “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“, e reitero o que disse lá — que não só isso é extremamente ofensivo, como, ao sugerir isso, quem o diz está a admitir que não vê nenhuma razão para não roubar, violar e matar além da questão Céu/Inferno, e que se alguma vez perder a sua crença vai efectivamente cometer esses crimes, o que faz dele um psicopata. É esse o teu caso? Pensa lá bem.

Uma sugestão um pouco menos frequente é que o ateísmo, por não acreditar numa “alma” no sentido metafísico, que persiste depois da morte, “desvaloriza” o ser humano, tornando-o um mero conjunto de elementos químicos, e que por isso o ateu típico não dá qualquer valor à vida dos outros, considerando-os meras estatísticas.

O não dar valor à vida dos outros, no entanto, não tem nada a ver com a crença ou descrença em “almas”; é uma simples questão de egocentrismo, de falta de moralidade e de humanidade. A prova disso é que se pode ver esse mesmo comportamento em muitos crentes (Inquisição, mentiras sobre preservativos em África, protecção dos padres pedófilos, oposição a ramos da medicina, etc.), que supostamente acreditam em almas… mas isso não os impede de não dar qualquer valor à vida humana, de ver a morte de milhares ou milhões como uma mera estatística.

Na verdade, posso até argumentar que quem tem mais tendência para dar valor à vida humana são precisamente os ateus, pela simples razão de que são eles que acreditam que a vida que temos é a única, é finita, e por isso é preciosa. Ao invés disso, muitos crentes (não todos, repare-se) consideram a vida na Terra uma mera “passagem”, composta basicamente de sofrimento, cujo único propósito é determinar a salvação ou condenação da alma. Essa atitude tem o seu exemplo perfeito na célebre citação de Arnaud Amalric, que numa Cruzada em 1209, quando lhe perguntaram como distinguir os Católicos dos Catares hereges, respondeu “matem-nos todos; Deus conhecerá os seus”. É mais fácil não dar valor à vida humana quando se acredita que esta é um mero teste, que depois da morte é que começa a “verdadeira vida”, e que a única coisa que importa neste mundo é salvar almas.

Isso foi há 800 anos, dizem vocês, e as coisas mudaram? Errado. É exactamente essa mesma crença e essa mesma mentalidade que leva a que a Igreja Católica espalhe mentiras sobre os preservativos em África, entre populações que muitas vezes não têm outra fonte de informação além dos missionários, e dessa forma provoque a morte e sofrimento de milhões pela Sida. A atitude é simples: Deus detesta contraceptivos, logo mais vale sofrerem e morrerem mas terem uma hipótese de ir para o Céu, do que o contrário. A vida na Terra é vista como irrelevante, e a morte de milhões é vista como um mal menor. Isto é que é “dar valor à vida humana”?

E, como não resisto, tenho de o dizer: na Rússia Soviética, a Rússia Soviética olha para TI!! :)

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês só são ateus porque querem fazer o que vos der na gana, sem regras e sem prestar contas a ninguém!”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

A pergunta afirmação é ofensiva por várias razões, e talvez não merecesse uma resposta. Mas, como já fiz antes, vou ser generoso, e assumir que não acreditas realmente no que acabaste de dizer, e que estás simplesmente a repetir sem pensar algo que te disseram. E, sinceramente, se fosse a ti afastava-me de quem te disse tal coisa, porque não é, de certeza, uma pessoa honesta e de confiança, mas, pelo contrário, não tem quaisquer problemas em mentir e caluniar em proveito próprio. E desenvolveres um bocadinho de pensamento crítico, de forma a não acreditares em tudo o que ouves sem questionares nem pensares, também não te fazia mal nenhum.

Já comentei antes, neste FAQ, que o medo do castigo ou desejo de recompensa são péssimas razões para se ser moral (e sugere coisas nada simpáticas sobre quem acha essas razões válidas), e que a nossa moralidade não vem da religião, muito pelo contrário. Mas nesta entrada vou responder à implicação propriamente dita.

Essa implicação é a seguinte: que os ateus no fundo “sabem” que Deus existe, mas escolhem “fingir que não acreditam nele” para não terem de aceitar um ser superior, obedecer a regras de moralidade, etc..

Há tanta estupidez e tanta malícia nessa implicação que uma pessoa nem sabe por onde começar.

Primeiro, é sugerido que os ateus são desonestos, já que é implicado que a existência de Deus é auto-evidente e óbvia para todos, e portanto os ateus estão a mentir quando afirmam ter chegado ao ateísmo por falta de evidências a suportar as afirmações dos crentes. A acusação sugere que os ateus, no fundo, “sabem” que Deus existe (e é sempre o deus em que o acusador acredita, é claro, e nenhum outro), mas fingem não o saber; ou seja, que no fundo não são realmente ateus.

Segundo, é sugerido que os ateus são imorais, já que “escolhem” o ateísmo para não ter de obedecer a ninguém, ter regras de moralidade, etc., bem como para não “ter” ninguém superior a eles.

Terceiro, é sugerido que os ateus são completamente estúpidos, já que, se lá “bem no fundo” “soubessem” que existe um deus que impõe regras morais e pune quem não as segue, não faria qualquer sentido declarar-se ateus, já que isso não os livraria, de forma alguma, da eventual punição divina.

Tudo isto não é apenas falso, é intencionalmente falso (também conhecido por “desonesto”) e insultuoso.

A existência do teu deus não é óbvia (caso contrário, entre outras coisas, não haveria outras religiões, nem seria necessário haver apologistas religiosos — como houve em toda a História, e continuam a haver — a tentar “demonstrar” que Deus existe).

Ateus não “escolhem” ser ateus por quaisquer segundas intenções. Não acontece com todos, mas muitos de nós somo-lo porque foi a conclusão a que chegámos racionalmente, depois de olharmos para as evidências e para o mundo em que vivemos.

Ateus são tão ou mais morais, em média, do que crentes de qualquer religião. Sobretudo porque somos os únicos que não fazemos o bem à espera de ganharmos alguma coisa com isso depois de morrermos. E o “moral” é o escolhido, não o obedecido; a moralidade nunca pode vir simplesmente da obediência a determinado ser, ou do seguimento de determinadas regras, mas sim de escolhas de um ser consciente.

E ateus não são tão idiotas que acreditem na existência de algum deus, mas achem que o podem enganar fingindo não acreditar nele (!). Logo, se achaste que a afirmação no título desta entrada fazia sentido, espero que te estejas a sentir bastante envergonhado, neste momento.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Tem de existir Deus; caso contrário, qual é o sentido da vida, uma vez que morremos e tudo acaba?”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Nota: esta resposta não aborda a questão de as consequências serem ou não correctas (isto é, se, não havendo um deus, a vida (única e finita) faz ou não sentido, e assim por diante). Isso fica para uma entrada futura no FAQ.

Em vez disso, esta parte do FAQ destina-se a demonstrar como a questão propriamente dita implica um erro de lógica, e, assim sendo, constitui um argumento completamente inválido.

Resumindo-a à sua essência, a afirmação implícita na pergunta diz o seguinte:

– se Deus não existe, <algo mau>. Logo, Deus tem de existir.

O que é que há de errado com isso? Apenas isto: mesmo que as consequências fossem absolutamente correctas (não são, como demonstrarei futuramente neste FAQ), ou seja, mesmo que o resultado de “Deus não existe” fosse realmente mau, isso não afectaria de forma alguma a veracidade da proposição. Por outras palavras, a “desejabilidade” de uma possibilidade não tem qualquer influência sobre ela ser verdadeira ou não. As coisas ou são, ou não são, independentemente das consequências.

Mesmo que fosse absolutamente 100% verdade que “Deus não existe” significa “a vida não faz sentido”, isso teria um efeito nulo sobre a existência ou não-existência de Deus.

O erro de acreditar que algo é verdade só porque “caso contrário seria mau” é uma falácia lógica chamada apelo às consequências, uma forma comum de “wishful thinking”. As nossas crenças devem ser formadas tentando ver e entender a realidade até ao limite das nossas capacidades — e não simplesmente acreditando naquilo que queremos que seja verdade, que nos é confortável.

Mais uma vez, não estou de forma alguma a concordar com a premissa de que as supostas consequências são verdadeiras. A vida não deixa de fazer sentido por não existirem deuses, existe na mesma uma base para a moralidade, e assim por diante. A questão aqui é que mesmo que essas consequências fossem verdadeiras (e há outras consequências que efectivamente o são, como “somos apenas animais evoluídos”, ou “não existe vida depois da morte”, ou “não somos especiais no universo”), isso não teria qualquer influência na existência ou não-existência de um deus ou deuses.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Para dizer que não existe nenhum deus, é preciso tanta fé como para acreditar num.”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Transformando a acusação numa pergunta (já que isto é um FAQ): não somos omniscientes, não temos meios de olhar para todo o universo. Como é que podemos afirmar com certeza que não existe um deus em todo o universo, sem recorrer à — ou seja, crença sem evidência a suportá-la?

De certa forma, a resposta depende daquilo que queres dizer com “deus”. Referes-te “àquele” deus específico, ou a “qualquer” deus, de forma indefinida?

Considerando a língua em que este blog é escrito e a minha localização geográfica, é bem provável que, quando te referes a “deus”, queiras dizer o deus Judaico-Cristão, Yahweh, tal como descrito na Bíblia. Se é assim, posso responder a isso facilmente: precisas de fé para dizer que Odin não existe?

De certeza que não. Não tens razão nenhuma para acreditares em Odin, nem vês nenhuma evidência da sua existência. Além disso, Odin e os outros deuses nórdicos são claramente antropomórficos; isto é, são exactamente como humanos, mas “maiores” e mais poderosos. Têm as mesmas emoções, tipos de personalidade e desejos que os humanos. É seguro dizer que foram inventados pelos antigos Vikings.

A questão é que tudo isso adapta-se ao teu deus, também! A forma como Yahweh é retratado é com uma personalidade absolutamente humana — e com os vários defeitos humanos, também, como ciúmes, “birras”, e “embirrações” com coisas perfeitamente inofensivas, como certos tipos de alimentos, ou actos que não prejudicam ninguém. Para não falar do facto de só conseguir “perdoar” a humanidade depois de um sacrifício de sangue — mais uma vez demonstrando uma moralidade e desejos completamente primitivos e barbáricos, mas muito comuns no início da História. A explicação óbvia é que humanos primitivos transpuseram os seus desejos primitivos para um deus que inventaram. E Jesus Cristo é um aglomerar de mitos já existentes na altura (Mithras, etc.), que já tinham histórias praticamente indistinguíveis (nascidos de uma virgem, mortos e ressuscitados depois de 3 dias, etc.).

Além disso, há vários argumentos lógicos contra a existência de uma entidade omnipotente, omnisciente e “boa”, como o deus Judaico-Cristão. Por exemplo, o paradoxo da omnipotência (pode Deus criar uma pedra tão pesada que não a consiga levantar?), ou o problema do mal (se deus é todo-poderoso e bom, como é que existe tanto mal no mundo, incluindo muito que não é culpa da humanidade e não pode ser desculpado com o “livre arbítrio”, como por exemplo catástrofes naturais que matam milhares de crianças). O primeiro é logicamente auto-contraditório; o segundo exige desculpas tão labirínticas e “esfarrapadas” que rapidamente a coisa se torna ridícula (sugiro este link para explorar essas desculpas, e respostas às mesmas).

Mas talvez não tenhas querido dizer um deus como esses. Talvez te refiras a algo bem diferente de tudo o que já foi adorado pelo Homem: um ser cósmico vasto, que não criou o universo, mas é o universo. Um ser que, por não ter sido inventado por seres humanos, não tem de todo características humanas (francamente, exigir ser adorado? ciúmes? obsessão pela nossa sexualidade? Como é que alguém pode acreditar nisso?), para quem nem a humanidade nem o nosso planeta insignificante são o centro do universo e a razão do mesmo existir, que provavelmente, mesmo sendo consciente, não está sequer ciente da existência do nosso planeta, e que não está preocupado com trivialidades (no sentido cósmico) como “oração”, “pecado” ou “vida depois da morte”.

Tal divindade (ver mais detalhes aqui), se existisse, seria completamente indetectável por nós, não iria interferir de forma alguma nas nossas vidas, ou estar preocupada connosco. Em todos os sentidos possíveis (excepto no científico: seria fascinante descobrir e estudar um ser assim), é como se esse “deus” não existisse: nada que possamos fazer o afectaria de qualquer forma. Acaba por ser equivalente a questões como “será que vivemos numa simulação perfeita”: se a simulação é perfeita, é indistinguível e indetectável, e, de certa forma, irrelevante para as nossas vidas, porque não as afecta ou altera em nada (se bem que não há mal nenhum em ter curiosidade).

Em ambos os casos descritos acima, há ainda algo definitivo contra a posição de que “é preciso fé para dizer que algo não existe”: o ónus da prova. Este está sempre do lado de quem afirma que algo existe, e é ele que tem de provar a existência desse algo. Caso não o faça, a posição lógica é dizer que a afirmação é falsa, e não é preciso qualquer “fé” para isso.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O ateísmo não passa de mais uma religião!”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

Isso não é uma pergunta. :) Mas, respondendo, essa acusação (e, sim, é uma acusação — e um crente que a faça devia pensar um pouco no facto de ter acabado de usar “religião” como um insulto…) pode ter vários significados diferentes. Um deles é o comum “os ateus adoram / idolatram a ciência / Satanás / Darwin / a eles próprios”, que vai ser tratado numa entrada seguinte do FAQ.

Outra alternativa é que não acreditar em nenhum deus — isto é, acreditar num universo 100% natural, sem um criador — requer tanta fé como o Cristianismo ou qualquer outra religião. Isso também fica para uma entrada futura.

Finalmente, há o significado a ser abordado agora: que o ateísmo é uma religião no sentido em que é algo em que a pessoa acredita, com fé, com dogma a seguir, com “fiéis”, uma hierarquia, e afins.

O que é que define uma “religião”? Basicamente, uma religião é um sistema de crença, que inclui regras de comportamento, rituais, em muitos casos (não todos) um elemento sobrenatural (ex. milagres), afirmações sobre a origem do universo, sobre a razão de existirmos, o nosso propósito no mundo, e o que acontece depois de morrermos. Há normalmente também uma hierarquia, sobretudo no Catolicismo.

Bem, o ateísmo puro não inclui nada disso. O ateísmo é apenas a falta de crença num deus ou deuses; não há regras de conduta, rituais, afirmações sobre porque é que estamos aqui, ou sobre o que devemos fazer. Nem faz sentido falar de “crenças ateias”, porque a única coisa que os ateus têm em comum é que não acreditam em algo em que muita gente acredita. Na verdade, como já foi sugerido antes, a palavra “ateu” nem devia existir, já que não temos — ou precisamos de — palavras que signifiquem “pessoa que não acredita em astrologia” ou “pessoa que não acredita no Pai Natal”.

Enquanto as religiões, em geral, geram alguma homogeneidade entre os crentes de cada uma (por haver um livro sagrado comum, um conjunto de crenças em comum, um fundador, e assim por diante), o ateísmo não é nada assim. Alguns ateus (mas não todos) são cépticos, e chegam ao ateísmo simplesmente por não verem qualquer evidência da existência de qualquer deus. Outros terão outras razões (incluindo nunca terem pensado no assunto, o chamado “apateísmo”). Mas, fora essa não-crença, não temos realmente nada em comum. Da mesma forma que toda a gente que não colecciona selos não forma um grupo.

P.S. – se estás aqui a pensar algo como “ah, apanhei-te, acabaste de admitir que os ateus não têm qualquer código de conduta, de moralidade, etc.”, não foi isso que eu disse. Eu disse que o ateísmo não o tem, não que os ateus não o têm. O ateísmo é simplesmente uma não-crença em algo, não é suposto ser um sistema de moralidade. Não acreditar em Deus (por exemplo, no deus Cristão) não nos diz como agir no mundo, assim como não acreditar no coelhinho da Páscoa não nos dá regras morais… logo, temos de as ir buscar a outros sítios. O humanismo secular, do qual quero falar mais no futuro, é o sistema moral provavelmente mais comum entre os ateus (incluindo o autor deste blog), mas está longe de ser o único. E, sim, é possível ser um ateu e ser um monstro… tal como o crente mais devoto do mundo em qualquer religião (incluindo a tua) o pode ser.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado, não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

A tua questão é, essencialmente, aquilo que é conhecido como Aposta de Pascal (em inglês, Pascal’s Wager). Foi sugerida por Blaise Pascal, matemático francês do século XVII, e continua a ser repetida (e repetida, e repetida) por apologistas Cristãos, muitos dos quais, aparentemente, julgam que são os primeiros a atingir essa conclusão, já que fazem essa pergunta com uma atitude de “aposto que nunca pensaste nisto!”…

À primeira vista, parece fazer sentido. Afinal, um crente que esteja errado (i.e. afinal de contas Deus não existe) não perde, aparentemente, grande coisa (perda finita), mas um não-crente que esteja errado (i.e. afinal Deus existe) será condenado a uma eternidade de sofrimento no Inferno — punição infinita, e, por isso, perda infinita. Portanto, fará sentido “jogar pelo seguro” e acreditar… certo?

Não exactamente. Lembra-te de que Pascal sugeriu isto há cerca de 350 anos, uma altura em que, basicamente, havia uma religião à volta dele: o Catolicismo. Não é bem assim, hoje em dia… há centenas, se não milhares de variantes do Cristianismo, muitas das quais afirmam ser a única versão / interpretação válida, estando os crentes de todas as outras versões tão condenados como qualquer “infiel”. E isso é só o Cristianismo; outras religiões, como o Judaísmo (com todas as suas variantes) e o Islão (com todas as suas variantes) também incluem exigências de exclusividade (e descrevem os seus deuses como “ciumentos” — palavras deles!). Devido a essa exclusividade, não é permitido escolher várias religiões / deuses em simultâneo, “por via das dúvidas”. E, claro, há outras religiões no mundo além dos três monoteísmos.

Na verdade, se formos pela Aposta de Pascal, havendo tantas religiões, as probabilidades de escolher a religião errada, e dessa forma ser condenado, são bem acima de 99%, e para todos os efeitos indistinguíveis das chances de ir para o Inferno sendo um ateu (de acordo com a Aposta).

Ou, pondo a coisa de outra forma: vamos assumir que és um Cristão. Qualquer Muçulmano vai-te dizer que irás para um “lago de fogo” por não acreditares em Alá. Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Não estás a arriscar imenso por não acreditares em Alá? Mas se o fizeres, tens de rejeitar a divindade de Jesus Cristo (ambas as religiões exigem crenças incompatíveis), e, aí, se o Cristianismo estiver certo vais também para o Inferno.

Não podes escolher ambas. E a ideia de que “todos adoram o mesmo deus, e as várias interpretações são válidas” é um modernismo inventado recentemente, em nada suportado pelos livros sagrados, nem pela maioria dos crentes de ambas as religiões. O mesmo para a ideia de que “Deus é bom e não enviaria ninguém para um inferno”.

Há mais problemas com a Aposta de Pascal. Por exemplo, é realmente possível escolher as nossas crenças? Serias capaz de decidir amanhã que, por razões de segurança, não acreditas mais em Yahweh / Jesus, e que acreditas que Alá é o verdadeiro e único deus? Essa crença seria sincera? E, não sendo sincera, achas que algum deus realmente digno desse nome se deixaria enganar?

Também não é realmente verdade que um crente que esteja errado (isto é, acredite toda a sua vida, e afinal não exista qualquer deus) “não perde muito”. Isso será assunto para outro post neste blog, mas, resumindo muito, tal crente, em grande parte, desperdiçou a sua vida, traiu o seu intelecto e a realidade, promoveu uma mentira, combateu a educação e o avanço da ciência, provavelmente contribuiu para aumentar o sofrimento humano (crentes em geral são mais conservadores do que o resto da população, e por isso acham perfeitamente aceitável — e até virtuoso — tirar direitos básicos a outros (homossexuais, mulheres, etc.), ou propagar doenças proibindo o uso de preservativos e opondo-se à educação sexual, porque “Deus assim quer”), e aceitou a ignorância (encarnada na resposta “foi Deus”) em vez de tentar realmente entender o mundo em que vivemos. Em resumo, desperdiçou a sua vida em nome de uma mentira. O medo de admitir isto, infelizmente, mantém muitos crentes presos na sua crença, já que ninguém gosta de admitir que foi enganado e que desperdiçou anos ou décadas de uma vida que, afinal, é a única que tem.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Sem Deus / religião / a Bíblia, como é que pode haver moralidade?”

Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

(Nota: esta pergunta não é uma repetição da aparentemente semelhante “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“. Essa referia-se às pessoas “portarem-se bem” por medo de punição ou desejo de recompensa; esta aqui é sobre a crença comum da parte dos crentes (e, incrivelmente, de alguns não-crentes, também) de que as regras éticas da sociedade, a nossa moralidade, o nosso “standard” de certo e errado vêm de Deus / da religião / da Bíblia.)

Isto pode ser uma surpresa para ti, mas se és uma pessoa boa, atenciosa, altruísta no bom sentido, e que se importa com os outros, não retiraste isso da religião. Muito pelo contrário.

Se (muito comum nos países Católicos da Europa, como Portugal) a tua religião é simplesmente “acredito que Deus é como um pai que nos ama, e que quer que sejamos bons uns para os outros”, então, se por um lado és muito mais saudável e ético do que um enorme número de crentes, por outro lado inventaste essa religião. Criaste-a. Ou, em alternativa, o padre ou pastor que te instruiu sobre Deus e a religião inventou-a ele próprio.

Isto porque “simplesmente sejam bons uns para os outros” é uma filosofia que virtualmente não é suportada na Bíblia Cristã. Não é isso que o deus Cristão é retratado como sendo, ou como querendo — especialmente, mas não apenas, no Antigo Testamento. De forma alguma.

De acordo com a Bíblia — e, mais uma vez, se a ignoras, estás a inventar a tua própria religião –, Deus realmente acha que as mulheres são inferiores aos homens. Ele considera a escravatura aceitável. Ele acha que quem desobedeça a qualquer das suas muitas regras arbitrárias deve ser imediatamente morto pelos outros crentes. Ele acha que homossexuais, banqueiros, crianças desobedientes e pessoas que comam mariscos devem ser condenados à morte. E ele não tem quaisquer problemas relativamente ao genocídio — matar civilizações inteiras, incluíndo mulheres e crianças.

A maioria dos Cristãos, naturalmente, nunca tem a sua atenção dirigida (por padres, pastores, etc.) para o descrito acima. A maior parte dos que realmente são confrontados com isso são, em geral, suficientemente saudáveis mentalmente, e suficientemente morais, para repudiar esses ensinamentos (mais uma vez, criando assim a sua própria religião em “versão soft”). E aqueles que não o são tornam-se fundamentalistas: pregadores e agentes de intolerância, sofrimento e ódio, para quem tudo o que seja menos do que uma teocracia brutalmente repressiva não é aceitável.

O que eu quero dizer com isto é que, se és um crente moral, bondoso e que se importa com os outros, és assim apesar da tua religião, não graças a ela. Tens de ignorar não só a quase totalidade do teu livro sagrado, caso contrário provavelmente já estarias preso (por, por exemplo, apedrejares o teu filho até à morte por ele chegar tarde de uma festa). E além disso tens de rejeitar aquilo em que a tua igreja acreditou piamente durante quase toda a sua existência (e de certa forma ainda acredita, mas já tem alguma vergonha de o admitir): gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.

Como é que a tua moralidade pode vir da religião, se tens de ignorar quase todos os ensinamentos dessa religião para não seres um monstro?

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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