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Entradas com Etiqueta ‘Moralidade’

FAQ: “Se não acreditas em Deus, porque é que falas tanto nele?”

Sábado, 20 de Fevereiro, 2010

Para começar, há que distinguir “falar de Deus” e “falar de religião“. Se o significado da pergunta é: porque é que eu me importo com isto, porque é que gasto tempo e esforço a criticar a religião, sugiro a leitura destes dois posts:

O mais provável é que a resposta esteja nos posts acima indicados, e provavelmente podia ficar por aqui. No entanto, se levarmos a pergunta à letra, ela não se refere a importar-me com a religião, mas sim a “falar de Deus”, sendo “Deus” provavelmente a versão mais popular nestas bandas, o deus Judaico-Cristão. A acusação implícita na pergunta é que, se falo tanto nele, se calhar é porque lá no fundo até acredito que ele existe…

Porém, quem leia realmente o que escrevo neste blog, em vez de simplesmente assumir coisas em relação a mim por me auto-declarar ateu (o nome do blog é uma boa pista…), verá que é raro falar propriamente de “Deus”, e que, quando o faço, é óbvio que estou a falar de um ser que considero fictício, tal como posso falar do Homem-Aranha num blog ou fórum sobre comics, sem que venha logo algum parvinho perguntar-me se, aos 35 anos, acredito que o Peter Parker existe…

Ao contrário do Homem-Aranha, no entanto, há realmente muita gente no mundo a acreditar no deus Cristão — cerca de dois mil milhões, ou seja, 1/3 do planeta –, gente essa que o considera real, e que vive em função dos supostos desejos (e muitas vezes caprichos) desse ser. E é a moralidade desse ser — tal como descrita nos livros sagrados, e/ou nas crenças dos crentes, se bem que estas últimas tendem a ser inventadas pelos mesmos para serem um reflexo deles próprios — que eu critico, no sentido de “vocês seguem um ser com estas características; o que é que isso diz sobre vocês? Ou nunca pensaram sequer nisso? Não têm problemas em seguir um ser que ou é 1) ciumento, inseguro, sexista, homofóbico, sádico e birrento, ou é 2) obviamente acabado de inventar por vocês?” Nada disto sugere minimamente que eu “acredite” nele de alguma forma… mas se os crentes acreditam, acho bem que sejam confrontados com a personalidade que eles próprios lhe dão.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês só são ateus porque querem fazer o que vos der na gana, sem regras e sem prestar contas a ninguém!”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

A pergunta afirmação é ofensiva por várias razões, e talvez não merecesse uma resposta. Mas, como já fiz antes, vou ser generoso, e assumir que não acreditas realmente no que acabaste de dizer, e que estás simplesmente a repetir sem pensar algo que te disseram. E, sinceramente, se fosse a ti afastava-me de quem te disse tal coisa, porque não é, de certeza, uma pessoa honesta e de confiança, mas, pelo contrário, não tem quaisquer problemas em mentir e caluniar em proveito próprio. E desenvolveres um bocadinho de pensamento crítico, de forma a não acreditares em tudo o que ouves sem questionares nem pensares, também não te fazia mal nenhum.

Já comentei antes, neste FAQ, que o medo do castigo ou desejo de recompensa são péssimas razões para se ser moral (e sugere coisas nada simpáticas sobre quem acha essas razões válidas), e que a nossa moralidade não vem da religião, muito pelo contrário. Mas nesta entrada vou responder à implicação propriamente dita.

Essa implicação é a seguinte: que os ateus no fundo “sabem” que Deus existe, mas escolhem “fingir que não acreditam nele” para não terem de aceitar um ser superior, obedecer a regras de moralidade, etc..

Há tanta estupidez e tanta malícia nessa implicação que uma pessoa nem sabe por onde começar.

Primeiro, é sugerido que os ateus são desonestos, já que é implicado que a existência de Deus é auto-evidente e óbvia para todos, e portanto os ateus estão a mentir quando afirmam ter chegado ao ateísmo por falta de evidências a suportar as afirmações dos crentes. A acusação sugere que os ateus, no fundo, “sabem” que Deus existe (e é sempre o deus em que o acusador acredita, é claro, e nenhum outro), mas fingem não o saber; ou seja, que no fundo não são realmente ateus.

Segundo, é sugerido que os ateus são imorais, já que “escolhem” o ateísmo para não ter de obedecer a ninguém, ter regras de moralidade, etc., bem como para não “ter” ninguém superior a eles.

Terceiro, é sugerido que os ateus são completamente estúpidos, já que, se lá “bem no fundo” “soubessem” que existe um deus que impõe regras morais e pune quem não as segue, não faria qualquer sentido declarar-se ateus, já que isso não os livraria, de forma alguma, da eventual punição divina.

Tudo isto não é apenas falso, é intencionalmente falso (também conhecido por “desonesto”) e insultuoso.

A existência do teu deus não é óbvia (caso contrário, entre outras coisas, não haveria outras religiões, nem seria necessário haver apologistas religiosos — como houve em toda a História, e continuam a haver — a tentar “demonstrar” que Deus existe).

Ateus não “escolhem” ser ateus por quaisquer segundas intenções. Não acontece com todos, mas muitos de nós somo-lo porque foi a conclusão a que chegámos racionalmente, depois de olharmos para as evidências e para o mundo em que vivemos.

Ateus são tão ou mais morais, em média, do que crentes de qualquer religião. Sobretudo porque somos os únicos que não fazemos o bem à espera de ganharmos alguma coisa com isso depois de morrermos. E o “moral” é o escolhido, não o obedecido; a moralidade nunca pode vir simplesmente da obediência a determinado ser, ou do seguimento de determinadas regras, mas sim de escolhas de um ser consciente.

E ateus não são tão idiotas que acreditem na existência de algum deus, mas achem que o podem enganar fingindo não acreditar nele (!). Logo, se achaste que a afirmação no título desta entrada fazia sentido, espero que te estejas a sentir bastante envergonhado, neste momento.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Sem Deus / religião / a Bíblia, como é que pode haver moralidade?”

Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

(Nota: esta pergunta não é uma repetição da aparentemente semelhante “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“. Essa referia-se às pessoas “portarem-se bem” por medo de punição ou desejo de recompensa; esta aqui é sobre a crença comum da parte dos crentes (e, incrivelmente, de alguns não-crentes, também) de que as regras éticas da sociedade, a nossa moralidade, o nosso “standard” de certo e errado vêm de Deus / da religião / da Bíblia.)

Isto pode ser uma surpresa para ti, mas se és uma pessoa boa, atenciosa, altruísta no bom sentido, e que se importa com os outros, não retiraste isso da religião. Muito pelo contrário.

Se (muito comum nos países Católicos da Europa, como Portugal) a tua religião é simplesmente “acredito que Deus é como um pai que nos ama, e que quer que sejamos bons uns para os outros”, então, se por um lado és muito mais saudável e ético do que um enorme número de crentes, por outro lado inventaste essa religião. Criaste-a. Ou, em alternativa, o padre ou pastor que te instruiu sobre Deus e a religião inventou-a ele próprio.

Isto porque “simplesmente sejam bons uns para os outros” é uma filosofia que virtualmente não é suportada na Bíblia Cristã. Não é isso que o deus Cristão é retratado como sendo, ou como querendo — especialmente, mas não apenas, no Antigo Testamento. De forma alguma.

De acordo com a Bíblia — e, mais uma vez, se a ignoras, estás a inventar a tua própria religião –, Deus realmente acha que as mulheres são inferiores aos homens. Ele considera a escravatura aceitável. Ele acha que quem desobedeça a qualquer das suas muitas regras arbitrárias deve ser imediatamente morto pelos outros crentes. Ele acha que homossexuais, banqueiros, crianças desobedientes e pessoas que comam mariscos devem ser condenados à morte. E ele não tem quaisquer problemas relativamente ao genocídio — matar civilizações inteiras, incluíndo mulheres e crianças.

A maioria dos Cristãos, naturalmente, nunca tem a sua atenção dirigida (por padres, pastores, etc.) para o descrito acima. A maior parte dos que realmente são confrontados com isso são, em geral, suficientemente saudáveis mentalmente, e suficientemente morais, para repudiar esses ensinamentos (mais uma vez, criando assim a sua própria religião em “versão soft”). E aqueles que não o são tornam-se fundamentalistas: pregadores e agentes de intolerância, sofrimento e ódio, para quem tudo o que seja menos do que uma teocracia brutalmente repressiva não é aceitável.

O que eu quero dizer com isto é que, se és um crente moral, bondoso e que se importa com os outros, és assim apesar da tua religião, não graças a ela. Tens de ignorar não só a quase totalidade do teu livro sagrado, caso contrário provavelmente já estarias preso (por, por exemplo, apedrejares o teu filho até à morte por ele chegar tarde de uma festa). E além disso tens de rejeitar aquilo em que a tua igreja acreditou piamente durante quase toda a sua existência (e de certa forma ainda acredita, mas já tem alguma vergonha de o admitir): gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.

Como é que a tua moralidade pode vir da religião, se tens de ignorar quase todos os ensinamentos dessa religião para não seres um monstro?

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?”

Segunda-feira, 15 de Fevereiro, 2010

De certa forma, eu nem devia responder a essa questão.

A implicação lógica de perguntares isso, de achares que a pergunta faz sentido, é esta: a única razão pela qual tu não roubas, violas ou matas é o medo do Inferno e/ou desejo do Céu. Se visses qualquer outra razão válida para não o fazeres, nunca farias tal pergunta.

E, pior que isso, se alguma vez perderes a crença actual, vais efectivamente roubar, violar e matar, já que é só essa crença que actualmente te prende. A palavra “psicopata” vem-me à cabeça por qualquer razão.

Mas vou ser generoso, e assumir que não és realmente assim, e que simplesmente repetiste algo que te ensinaram, sem pensares nas implicações (o que nunca é boa ideia).

Pensa em duas crianças. Uma delas “porta-se bem” porque foi bem criada e educada, porque se importa em fazer a coisa certa, porque tem princípios morais. A outra “porta-se bem” apenas porque não quer apanhar uma sova. Qual das crianças achas que é a “melhor”? A mais moral?

Ou pensa simplesmente nisto: o que dirias de alguém que só não comete crimes quando a polícia está perto?

Há muitas razões possíveis e válidas para nos importarmos com outras pessoas. Empatia, por exemplo. Cooperação. Comunidade. Acreditarmos nos outros. Amizade. Amor. Respeito. Um sentido de justiça. Querer tornar o mundo melhor. Com tudo isso, é ainda preciso uma ameaça de tortura eterna?

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Aborto: a vingança parte II

Quarta-feira, 31 de Janeiro, 2007

(ei, já vi títulos piores!)

Nota: o seguinte é adaptado e um pouco expandido de um comentário que fiz no blog do Mário Lopes. Uma boa parte do que se segue já foi dito noutros posts, recentemente, aqui, mas não exactamente por estas palavras… e nem tudo é repetido.

Tento, também, responder, finalmente, à questão do Samuel: “O que é que é um ser humano? Quando é que um feto se torna um ser humano?”, se bem que o comentário-tornado-post, em geral, não foi escrito para responder a essa questão, mas sim ao tal post do Mário Lopes. Daí ser expandido, e não copiado. :)

Without further ado…

(mais…)

Mais aborto… agora, outras opiniões

Terça-feira, 23 de Janeiro, 2007

Do meu lado, acho que não vou acrescentar muito mais à questão. Já fui insultado por ter a minha opinião, por ter pensado nela, e por estar certo da mesma, quando hoje em dia é considerado “arrogante” ter uma opinão forte baseada no pensamento; só se aceita uma opinião forte baseada em emoções. Ou em autoridade, ou em religião, ou… Bah.

De qualquer forma, se alguém quiser comentar os meus posts anteriores, e, para variar, quiser responder ao que eu escrevi (em vez de se limitar a dizer que “sou muito agressivo”), tal será apreciado.

Neste post, vou apenas mencionar o que outros disseram (fora deste blog) sobre esta questão.

Primeiro, um post da namorada, chamado A Interrupção Voluntária da Gravidez…. É um bocado mais detalhado do que os meus, e acho que mostra bem os dois lados da questão. Vá, leiam e comentem. :) Inclui argumentos como este:

Para quem não sabe, até às 10 semanas há muitas mulheres que nem têm uma gravidez confirmada e que têm aborto espontâneo sem que soubessem que estavam grávidas. O próprio corpo se encarrega de “expulsar” fetos com problemas graves, é parte da “selecção natural” de Darwin, a não-sobrevivência dos fracos, dos inviáveis.

Logo, segundo a moralidade dos “nãos” (que confundem um ser humano com um aglomerado de células que é um potencial ser humano), quase todas as mulheres com vida sexual são “mass murderers” e nem o sabem…

Depois, quero mostrar um post que considero ser totalmente ridículo. Vem de um partido americano, “America First Party”, que é basicamente mais republicano do que os Republicanos. O post chama-se… wait for it… Abortion Leads to Nuclear War. Sim, parece que a Madre Teresa (que pode ter sido muitas coisas, mas não era, de certeza, uma pessoa inteligente ou culta – ou então era muito mentirosa, porque sem dúvida dizia grandes disparates) disse algo desse género, e os fanáticos de todo o mundo pegam nisso. Portanto, já sabem – não querem ver cogumelos enormes no horizonte, não abortem. Ah, e…

It is abhorrent that abortion supporters choose to hide behind the term ‘choice’ to mask their goal of destroying unborn children and promoting immoral behavior without responsibility

Destruir crianças! Que horror! Que tipo de monstro desumano e cruel quereria alguma vez fazer tal acto hediondo? :shock:

É claro que as coisas não são bem assim. Sugiro-vos esta alternativa… deixem se ser um aglomerado irracional e disforme de emoções, e sejam humanos: pensem um pouco. Como este post, em resposta ao comunicado anterior, diz,

nuclear bombs have been used once in war, and I seriously doubt the bombing of Hiroshima and Nagasaki had anything to do with abortion, considering it wasn’t legal in the US in 1945.

E, em resposta à idiotice de “destruir crianças” citada anteriormente,

Let me tell you right now, no one wants to destroy children. It’s just that sometimes an abortion is the only option a mother may have to keep from ruining her life or the lives of her future children. Life is not always fair or simple. That’s the way it is. I wish we could all live in a dream world of magic, but we don’t, and trying to legislate it into reality won’t make it so.

Não teria dito melhor.


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