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Entradas com Etiqueta ‘Religião’

FAQ: “Sem Deus / religião / a Bíblia, como é que pode haver moralidade?”

Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

(Nota: esta pergunta não é uma repetição da aparentemente semelhante “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“. Essa referia-se às pessoas “portarem-se bem” por medo de punição ou desejo de recompensa; esta aqui é sobre a crença comum da parte dos crentes (e, incrivelmente, de alguns não-crentes, também) de que as regras éticas da sociedade, a nossa moralidade, o nosso “standard” de certo e errado vêm de Deus / da religião / da Bíblia.)

Isto pode ser uma surpresa para ti, mas se és uma pessoa boa, atenciosa, altruísta no bom sentido, e que se importa com os outros, não retiraste isso da religião. Muito pelo contrário.

Se (muito comum nos países Católicos da Europa, como Portugal) a tua religião é simplesmente “acredito que Deus é como um pai que nos ama, e que quer que sejamos bons uns para os outros”, então, se por um lado és muito mais saudável e ético do que um enorme número de crentes, por outro lado inventaste essa religião. Criaste-a. Ou, em alternativa, o padre ou pastor que te instruiu sobre Deus e a religião inventou-a ele próprio.

Isto porque “simplesmente sejam bons uns para os outros” é uma filosofia que virtualmente não é suportada na Bíblia Cristã. Não é isso que o deus Cristão é retratado como sendo, ou como querendo — especialmente, mas não apenas, no Antigo Testamento. De forma alguma.

De acordo com a Bíblia — e, mais uma vez, se a ignoras, estás a inventar a tua própria religião –, Deus realmente acha que as mulheres são inferiores aos homens. Ele considera a escravatura aceitável. Ele acha que quem desobedeça a qualquer das suas muitas regras arbitrárias deve ser imediatamente morto pelos outros crentes. Ele acha que homossexuais, banqueiros, crianças desobedientes e pessoas que comam mariscos devem ser condenados à morte. E ele não tem quaisquer problemas relativamente ao genocídio — matar civilizações inteiras, incluíndo mulheres e crianças.

A maioria dos Cristãos, naturalmente, nunca tem a sua atenção dirigida (por padres, pastores, etc.) para o descrito acima. A maior parte dos que realmente são confrontados com isso são, em geral, suficientemente saudáveis mentalmente, e suficientemente morais, para repudiar esses ensinamentos (mais uma vez, criando assim a sua própria religião em “versão soft”). E aqueles que não o são tornam-se fundamentalistas: pregadores e agentes de intolerância, sofrimento e ódio, para quem tudo o que seja menos do que uma teocracia brutalmente repressiva não é aceitável.

O que eu quero dizer com isto é que, se és um crente moral, bondoso e que se importa com os outros, és assim apesar da tua religião, não graças a ela. Tens de ignorar não só a quase totalidade do teu livro sagrado, caso contrário provavelmente já estarias preso (por, por exemplo, apedrejares o teu filho até à morte por ele chegar tarde de uma festa). E além disso tens de rejeitar aquilo em que a tua igreja acreditou piamente durante quase toda a sua existência (e de certa forma ainda acredita, mas já tem alguma vergonha de o admitir): gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.

Como é que a tua moralidade pode vir da religião, se tens de ignorar quase todos os ensinamentos dessa religião para não seres um monstro?

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Ateus, crentes, agnósticos, gnósticos e “apateus”

Quinta-feira, 5 de Fevereiro, 2009

A Sara, simpaticamente, disse num comentário:

Eu não sou religiosa, sou agnóstica, não porque jogo pelo seguro, mas porque não me importa de uma maneira ou outra. Não dou importância a qualquer deus ou religião para perder tempo a achar se existe ou não, simplesmente passa-me ao lado. Se existir, parabéns sr. deus/deusa/deuses, se não existir é-me irrelevante.

O que vou escrever agora não é a discordar da Sara, de forma alguma; é só uma dissertação sobre as várias definições, já que acho que há muita gente que as confunde, e/ou não as conhece todas. Sara, isto não é especificamente para ti, OK? :)

Então é assim: há muita gente que vê as coisas como Ateu —- Agnóstico —- Crente, equivalendo esses nomes a diferentes “níveis” de crença num ou mais deuses. Mas isso é uma simplificação exagerada, um bocado como o “Esquerda —- Direita” em política. Tal como neste último exemplo, o melhor é pensar em duas medidas diferentes, que poderiam ser demonstradas num gráfico em duas dimensões:

  “Não dá para saber” “Dá para saber”
“Deus não existe” Ateísmo Agnóstico Ateísmo Gnóstico
“Deus existe” Teísmo Agnóstico Teísmo Gnóstico

Exemplos:

  • qualquer crente fanático / fundamentalista é um crente gnóstico (há algum equivalente em Português a “theist”? “Teu” não me parece ser uma boa tradução… :) )
  • a maioria dos crentes por tradição (comuns nos países europeus com religião estatal, como Portugal) são crentes agnósticos (acreditam que há um Deus, mas nunca poriam as mãos no fogo por isso, nem se preocupam muito com o assunto), ou então “apateus” (já lá vamos)
  • a posição que considero ser racional para um céptico, que só acredita em afirmações quando há evidência, é ser um misto de ateu agnóstico e gnóstico; ou seja, eu sou agnóstico em relação a algum deus, mas sou gnóstico – isto é, afirmo convictamente que não existem – em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 grandes monoteísmos na Terra, que têm características específicas e muitas vezes auto-contraditórias, e cujas afirmações em relação a eles, tanto históricas como científicas, são completamente destruídas, you guessed it, pela História e pela Ciência.

Já agora, muita gente auto-descreve-se como agnóstica quando na verdade é “apateísta”. “Agnóstico” significa “é impossível saber se sim ou sopas”, mas não é isso, pois não? “Apateísmo”, vindo de “apatia”, significa “estou-me nas tintas para se existe um deus ou não”. E esse é o caso de quase todos os auto-proclamados agnósticos. Não é que achem impossível saber; simplesmente, não estão realmente interessados no assunto, one way or another.

Por último, uma coisa em que em geral as pessoas não pensam: tanto os “apateus” como os verdadeiros ateus agnósticos são ateus “de facto”, isto é, vivem toda a sua vida no pressuposto de que não há nenhum deus. A diferença principal entre eles e um “verdadeiro” ateu é que não pensaram muito no assunto, não o consideram importante, e nem fazem qualquer tipo de activismo (que se pode limitar a escrever sobre o assunto). Mas, na totalidade das suas vidas, agem exactamente como ateus. Acho importante ter isto em conta, sobretudo quando acusam os ateus de “fanatismo” ou de “precisarmos de tanta fé como os crentes”.

Já agora, a Sara — como suspeito ser verdade para a maioria dos portugueses, pelo menos abaixo dos 60 — é claramente uma “apateia”. :)

Cristianismo sem a Bíblia

Quarta-feira, 15 de Novembro, 2006

Para um Cristão tradicional, a Bíblia é a “palavra de Deus”. Penso que até aí ninguém discorda. :) Mas, obviamente, as coisas não são assim tão simples…

Em Portugal, onde o Cristianismo é quase sempre Catolicismo, e as pessoas são Católicas mais por tradição do que por fé, participando nos rituais (baptismo, 1ª comunhão, missa ao domingo, casamento pela igreja, etc.) mas não levando realmente “a coisa” a sério, isto não é normalmente um grande problema. Mas em sociedades mais fundamentalistas, como os Estados Unidos, é comum uma grande parte da população acreditar na Bíblia à letra. Mundo criado em 6 dias, Adão, Eva e uma cobra, a patecice completa da Arca de Noé, Jesus Cristo a fazer milagres, ser crucificado e ressuscitar, o Universo existir apenas há cerca de 6000 anos, a evolução ser uma fantasia de cientistas, etc..

Como disse, a Bíblia não é tão “levada a sério” no Catolicismo tradicional (a maior parte dos Católicos, acredito, nunca a terá sequer lido). Mas será que isso faz sentido? Eu (já agora, sou ateu, para quem esteja aqui pela primeira vez :) ) penso que não.

Se pensarmos um pouco, só há 3 hipóteses: ou a Bíblia é 100% divinamente inspirada, ou é parcialmente divinamente inspirada, ou não o é de todo (isto é, não tem nada a ver com qualquer deus (ou deuses) que exista). Bem, vamos ser honestos, e adicionar uma 4ª possibilidade: Deus não existe. :)

Vamos, então, explorar cada uma das hipóteses, e os problemas que cada uma levanta:

1- Deus existe, e toda a Bíblia é divinamente inspirada.

Problema: Isto inclui, então, as partes que dizem que as mulheres são propriedade dos homens, as partes de sacrifício de animais, as partes que dizem para matar quem acredita noutros deuses, as partes que condenam à morte quem trabalha no sábado, as partes de genocídio de outros povos, as partes de regras alimentares ultra-rígidas, e, claro, as partes que contradizem outras partes.

2- Deus existe, mas somente algumas partes da Bíblia são divinamente inspiradas.

Problema: Não é possível determinar quais partes. Pergunta a dez crentes, e provavelmente obterás dez respostas diferentes. A maioria das pessoas escolherá aquelas partes com as quais já concorda como sendo divinamente inspiradas, e as partes com que não concorda como sendo obviamente produto de seres humanos comuns. (Por exemplo, um homem sexista provavelmente escolherá as partes sexistas; quem não o seja, não concordará com ele.)

Mas o que é que faz as tuas partes preferidas divinamente inspiradas, e as do tipo ao lado não? Objectivamente, não podes ter a certeza (“eu sinto Deus nestas partes” não é objectivo!). Qualquer um pode achar algo na Bíblia que justifique as suas acções.

Assim, se acreditas que só parte da Bíblia vem de Deus, então não achas arriscado obedecer a alguma parte? Afinal, podes estar a seguir a parte errada, e a ignorar algo que realmente é a vontade de Deus… E, se a tua alma imortal está em jogo, então é, simplesmente, um risco grande demais tentares, como ser humano falível que és, “adivinhar” que partes vêm de Deus. É como jogar aos dados com a alma.

3- Deus existe, mas a Bíblia não tem nada a ver com ele.

Problema: OK. Mas, então, como é que conheces Deus? Como é que sabes alguma coisa sobre ele? Como é que sabes que existiu um tipo chamado Jesus que era o filho de Deus e morreu pelos teus pecados? Não há nenhum registo contemporâneo da vida de Jesus, fora da Bíblia. “Sinto isto no meu coração” é algo completamente subjectivo; outra pessoa pode sentir “no seu coração” algo completamente oposto, e, objectivamente, não tens maneira de saber que os teus sentimentos vêm de Deus, enquanto o outro tipo está simplesmente a imaginar coisas. Afinal, ele está, provavelmente, igualmente certo de que os seus sentimentos têm origem divina. Se Deus realmente comunicasse através de sentimentos ou sensações, então todos nós — ou pelo menos uma grande maioria — sentiríamos exactamente as mesmas coisas; Deus não iria transmitir mensagens tão diferentes e contraditórias. Mas isso não acontece. Não há uniformidade no que “sentimos cá dentro”.

4- Deus não existe, o que implica que a Bíblia vem apenas da imaginação humana.

Problema: Nenhum, que eu veja. :) Esta é a mais simples e mais provável das hipóteses, na minha opinião.


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