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"Se não acreditas, porque é que te importas tanto com o assunto?"

Ou, mais especificamente:

“Se não acreditas em Deus, porque é que escreves tanto sobre o assunto? Para quê escrever tanto, gastar tanto esforço e tanto latim com algo em que não acreditas? Eu também não acredito no Pai Natal, mas nunca criaria um blog para dizer – de centenas de formas diferentes – que o Pai Natal não existe…”

Dito assim, a crítica até parece fazer sentido, não é? 🙂

A comparação que eu posso fazer, em resposta, é com o analfabetismo, ou, mais precisamente, o combate ao mesmo. Tu (sim, tu aí) não estás, imagino, realmente preocupado com a questão do analfabetismo no país / mundo (se bem que, ao contrário da religião, provavelmente não hesitarás em dizer que reduzi-lo é uma boa ideia). Não te afecta directamente. Não és analfabeto, as pessoas à tua volta quase de certeza que também não o são, e se tiveres filhos é claro que queres que eles aprendam a ler, mas não é uma questão pertinente. Não é, em resumo, uma preocupação tua. Não é algo em que alguma vez penses, a não ser que calhe leres ou ouvires uma notícia relacionada.

No entanto, apesar dessa tua falta de interesse directo, aposto que não contestarias a legitimidade da existência de uma organização – ou mesmo uma única pessoa – dedicada ao combate ao analfabetismo.

Se conheceres uma pessoa envolvida numa campanha de combate ao analfabetismo, não te vais rir na cara dela, dizendo-lhe “que preocupação parva que tens! Tu já sabes ler, porque é que te importas com essa questão? Se não és tu próprio analfabeto, como é que o analfabetismo te pode incomodar, ou até preocupar?”

A causa do combate ao analfabetismo pode não ser tua (e nem tem de ser, de forma alguma), mas não a criticarás nos outros, aposto. Ou seja, sem dúvida que não vais escrever um blog ou criar um site ou uma organização de combate ao analfabetismo… quase de certeza que nem vais ler ou participar num site desses… mas não vais criticar a legitimidade de tal site ou organização existir, pois não? Se por acaso fores parar a um site desses, aposto que não vais deixar lá um comentário que o autor é um maluquinho / fanático porque, afinal, já sabe ler – o que é que lhe importa que outros não saibam?

E, além disso, não vais (a não ser que sejas, desculpa dizer, um idiota) dizer que, como há problemas no mundo bem maiores que o analfabetismo, não é legítimo uma pessoa importar-se com esse problema e tentar fazer algo para o resolver. O típico “há criancinhas a morrer à fome, e tu importas-te com isso?!?” é algo absurdamente arrogante. É que nem tu, nem eu, nem ninguém tem autoridade moral para dizer a outra pessoa: “este aqui é o maior problema no mundo, logo é estúpido / imoral / whatever preocupares-te com qualquer outro, enquanto este existir.”

Ora, eu acho – isso é outra guerra, e posso estar certo ou estar errado, mas de uma forma ou de outra isso depende dos factos, da realidade – que a religião é um problema muito maior no mundo do que o analfabetismo. Não vou dizer aqui as minhas razões para achar isso (é só lerem outros posts), mas a questão é que o acho. Daí importar-me com a questão, e querer fazer alguma coisa.

Isto não me define. Não é a “causa da minha vida” (afinal, tenho blogs desde pelo menos 2004, e criei este só em 2010), não é a coisa mais importante nela. Tenho interesses, preocupações e “causas” que são mais importantes para mim do que isto. Mas não me digam que não é legítimo importar-me com esta questão, e que fazê-lo me torna um “fanático”, um “maluquinho que passa os seus dias a dizer para o mundo que não acredita no coelhinho da Páscoa”, ou coisas do género.

2 Comentários a “"Se não acreditas, porque é que te importas tanto com o assunto?"”

  1. Repare-se, eu posso perfeitamente ir a um blog religioso e fazer um comentário (cortês – afinal, estou em “casa” alheia) a discordar do autor, a dizer-lhe porque é que acho que ele está errado e porquê. O que nunca faria era comentar que ele é isto ou aquilo pelo simples facto de escrever sobre o assunto.

  2. diogo diz:

    bem, deve-se falar principalmente quando nao se acredita para fornecer e ensinar a verdade a todos. viver numa mentira nunca é bom

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