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FAQ: “Para dizer que não existe nenhum deus, é preciso tanta fé como para acreditar num.”

Transformando a acusação numa pergunta (já que isto é um FAQ): não somos omniscientes, não temos meios de olhar para todo o universo. Como é que podemos afirmar com certeza que não existe um deus em todo o universo, sem recorrer à — ou seja, crença sem evidência a suportá-la?

De certa forma, a resposta depende daquilo que queres dizer com “deus”. Referes-te “àquele” deus específico, ou a “qualquer” deus, de forma indefinida?

Considerando a língua em que este blog é escrito e a minha localização geográfica, é bem provável que, quando te referes a “deus”, queiras dizer o deus Judaico-Cristão, Yahweh, tal como descrito na Bíblia. Se é assim, posso responder a isso facilmente: precisas de fé para dizer que Odin não existe?

De certeza que não. Não tens razão nenhuma para acreditares em Odin, nem vês nenhuma evidência da sua existência. Além disso, Odin e os outros deuses nórdicos são claramente antropomórficos; isto é, são exactamente como humanos, mas “maiores” e mais poderosos. Têm as mesmas emoções, tipos de personalidade e desejos que os humanos. É seguro dizer que foram inventados pelos antigos Vikings.

A questão é que tudo isso adapta-se ao teu deus, também! A forma como Yahweh é retratado é com uma personalidade absolutamente humana — e com os vários defeitos humanos, também, como ciúmes, “birras”, e “embirrações” com coisas perfeitamente inofensivas, como certos tipos de alimentos, ou actos que não prejudicam ninguém. Para não falar do facto de só conseguir “perdoar” a humanidade depois de um sacrifício de sangue — mais uma vez demonstrando uma moralidade e desejos completamente primitivos e barbáricos, mas muito comuns no início da História. A explicação óbvia é que humanos primitivos transpuseram os seus desejos primitivos para um deus que inventaram. E Jesus Cristo é um aglomerar de mitos já existentes na altura (Mithras, etc.), que já tinham histórias praticamente indistinguíveis (nascidos de uma virgem, mortos e ressuscitados depois de 3 dias, etc.).

Além disso, há vários argumentos lógicos contra a existência de uma entidade omnipotente, omnisciente e “boa”, como o deus Judaico-Cristão. Por exemplo, o paradoxo da omnipotência (pode Deus criar uma pedra tão pesada que não a consiga levantar?), ou o problema do mal (se deus é todo-poderoso e bom, como é que existe tanto mal no mundo, incluindo muito que não é culpa da humanidade e não pode ser desculpado com o “livre arbítrio”, como por exemplo catástrofes naturais que matam milhares de crianças). O primeiro é logicamente auto-contraditório; o segundo exige desculpas tão labirínticas e “esfarrapadas” que rapidamente a coisa se torna ridícula (sugiro este link para explorar essas desculpas, e respostas às mesmas).

Mas talvez não tenhas querido dizer um deus como esses. Talvez te refiras a algo bem diferente de tudo o que já foi adorado pelo Homem: um ser cósmico vasto, que não criou o universo, mas é o universo. Um ser que, por não ter sido inventado por seres humanos, não tem de todo características humanas (francamente, exigir ser adorado? ciúmes? obsessão pela nossa sexualidade? Como é que alguém pode acreditar nisso?), para quem nem a humanidade nem o nosso planeta insignificante são o centro do universo e a razão do mesmo existir, que provavelmente, mesmo sendo consciente, não está sequer ciente da existência do nosso planeta, e que não está preocupado com trivialidades (no sentido cósmico) como “oração”, “pecado” ou “vida depois da morte”.

Tal divindade (ver mais detalhes aqui), se existisse, seria completamente indetectável por nós, não iria interferir de forma alguma nas nossas vidas, ou estar preocupada connosco. Em todos os sentidos possíveis (excepto no científico: seria fascinante descobrir e estudar um ser assim), é como se esse “deus” não existisse: nada que possamos fazer o afectaria de qualquer forma. Acaba por ser equivalente a questões como “será que vivemos numa simulação perfeita”: se a simulação é perfeita, é indistinguível e indetectável, e, de certa forma, irrelevante para as nossas vidas, porque não as afecta ou altera em nada (se bem que não há mal nenhum em ter curiosidade).

Em ambos os casos descritos acima, há ainda algo definitivo contra a posição de que “é preciso fé para dizer que algo não existe”: o ónus da prova. Este está sempre do lado de quem afirma que algo existe, e é ele que tem de provar a existência desse algo. Caso não o faça, a posição lógica é dizer que a afirmação é falsa, e não é preciso qualquer “fé” para isso.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

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