Hoje voltei a ouvir (bem, ler) esta, num tweet de alguém cujas opiniões em geral até respeito (afinal, sigo-o no Twitter), e… apesar de ser incrivelmente comum, não consigo deixar de ficar surpreendido pelo facto de alguém ser capaz de afirmar — ou pensar — isso.
O que os ateus que criticam a religião fazem, em geral, divide-se em dois aspectos: 1) crítica a actos praticados por instituições religiosas ou em nome da religião (ex. propagação da SIDA em África devido à oposição aos preservativos, encobrimento institucionalizado da pedofilia1, opressão das mulheres em países muçulmanos, terrorismo religioso, anti-intelectualismo e oposição à ciência, etc.), e 2) crítica às crenças religiosas e ao pensamento religioso propriamente ditos, no âmbito da promoção da racionalidade e pensamento científico, no sentido de tornar o mundo melhor, em oposição a uma humanidade presa a crenças sobrenaturais que acabam por nunca passar de “wishful thinking”. Todos estes actos resumem-se a críticas — críticas de actos, críticas de pessoas, e críticas de ideias. Isto é que é “fanatismo miltante”?
A ideia das pessoas que fazem afirmações destas parece ser a seguinte: quem critica um acto condenável é “tão mau” como o autor desse acto, devido meramente ao acto da crítica.
Quem critique um político corrupto é tão condenável como ele. Quem exija justiça para um violador ou pedófilo é tão criminoso como se tivesse violado ou abusado de crianças. Quem chame a polícia a reportar um roubo é tão culpado como o ladrão. Quem se revolte com o racismo é tão condenável como o maior racista.
Isto faz algum sentido? É claro que não. É completamente absurdo para os exemplos acima, e é-o para qualquer outro exemplo em que possamos pensar.
Excepto a religião.
Já há muito que isto se faz notar, e muitos já o disseram no passado: é historicamente tão incomum criticar-se de alguma forma a religião — e, no caso de países como Portugal, a Igreja Católica –, e mesmo até há muito pouco tempo era tão invulgar que alguém o fizesse, que o mais leve sussurro soa a um grito estridente. E soa dessa forma até mesmo para quem não seja ele próprio crente.
Nada mais explica porque é que, independentemente dos abusos e até atrocidades feitos por organizações religiosas, ou feitos em nome da religião, a simples crítica em oposição aos mesmos seja absurdamente equiparada a esses abusos e atrocidades.
A quem diz coisas como no título do post, a minha sugestão é: pensa um pouco nesta questão. Porque é que a religião — sejas ou não crente — deve estar num pedestal especial, acima de qualquer crítica? E se não achas que deva estar, porque é que ages como se devesse?
- reparem que não os culpo da pedofilia propriamente dita; aí a culpa é só do indivíduo em questão, e não é preciso ser religioso para se ser pedófilo. Mas o crime do encobrimento e violação de outras crianças no futuro graças a esse encobrimento — em nome da “reputação da igreja universal” — é 100% culpável à Igreja Católica e à hierarquia da mesma. [↩]
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Etiquetas: "Ateus fanáticos", "Ateus militantes", Crítica à religião



























Distorceu completamente o sentido da afirmação, “inventando” uma lógica ilógica pra justificar seu posicionamento.
Não tem nada a ver uma coisa com a outra, em relação ao que você comparou.
Simplesmente ateus são tão fanáticos quanto crentes, pelo fato de negarem a existência de algo, sem as mínimas evidências para tanto. Ocorre o inverso por parte dos crentes: afirmam a existência de algo, sem portarem mínimas evidências para que a afirmação seja, pelo menos, algo PRÓXIMO de uma VERDADE RELATIVA.
Ateus, em geral, são “crentes ao contrário”, pelo simples fato de terem a MESMÍSSIMA natureza de ação, diferindo-se em relação aos pólos defendidos. Cada um está em um extremo.
E mais.
Se são “ateus que criticam a religião”, o nome “ATEU” está incorretamente aplicado para vosso grupo. Atentem-se para o prefixo e sufixo do vocábulo que, possivelmente de forma incorreta, lhes denomina.
Ateu é quem opõe-se à existência de um Theo, e não quem critica “atos de determinada instutuição religiosa”.
Com todo o respeito, seu discurso está um tanto quanto contraditório.
E só pra constar, defendo o ponto de vista de que os ateus e fanáticos religiosos possuem o mesmo tipo de comportamento, porém, em pólos distintos e extremamente opostos.
Abraços,
Desculpa, mas acho que não leste o post; estás simplesmente a responder ao título. As respostas a virtualmente tudo o que afirmas estão no post.
Além de que estás a fazer um straw man: estás a criar a tua própria definição de ateu (“negarem a existência de algo, sem as mínimas evidências”, “crentes ao contrário”, “mesmíssima natureza de acção”, “extremo”, etc.) bem diferente da real, mas mais fácil de contestar, e depois, como a contestas com aparente sucesso, assumes que contestaste a “real”.
Se queres definir “ateu” como alguém com uma certeza dogmática, imune a evidências e lógica, de que não existem deuses, és livre de o fazer… mas não isso que um ateu é. Não é isso que eu sou, nem são assim os mais de 200 bloggers ateus cujos blogs leio diariamente.
Quanto à definição da palavra, o “a” não significa necessariamente o oposto polar, pode significar a mera “ausência de”.
Mas, ei, foi mesmo assim a melhor tentativa de contestação que já vi neste blog (já que os insultos, ameaças de inferno, “não percebes nada disto”, divagações enormes cheias de palavras em maiúsculas e comentários offtopic vão sendo apagados). Obrigado.