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Os dois tipos de “agnosticismo”

Sim, o meu último post, Definição de Agnosticismo, é intencionalmente provocativo. Mas alguém que por acaso tenha lido todos os posts neste blog (sim, eu gosto de imaginar que existe alguém assim) pode, talvez, lembrar-se de um post mais antigo, importado do blog pessoal, que se refere a um conceito de “agnosticismo” bastante diferente.

O que se passa, então? Estou-me a contradizer completamente? Mudei de ideias no último ano?

Nope. O que se passa é que “agnóstico” pode ter dois significados: o corrente, e o formal.

Pequeno “à-parte”: acontece algo parecido com o termo “teoria”: em linguagem corrente, dá a ideia de uma hipótese que levantámos entre a 3ª e a 4ª cerveja da noite, numa conversa de amigos. Cientificamente, é algo muito mais detalhado e formal, que é suposto 1) poder fazer previsões confirmáveis, e 2) ser desprovável1, mas não ter factos que a “desprovem”. Assim, quando um criacionista diz que “a evolução é só uma teoria”, ele está a ser ignorante (confundindo significados) ou, mais provavelmente, desonesto (já que de certeza que alguém já o esclareceu sobre o significado científico de “teoria”, mas ele continua intencionalmente a confundir as coisas).

Ou seja, se pensarmos em agnosticismo de forma formal, a única coisa que isso quer dizer é que a pessoa não reivindica um conhecimento total, perfeito, sobre a questão. Por outras palavras, em termos formais, eu não tenho a certeza absoluta, 100%, inabalável, de que não existe nenhum deus2, logo, por aí, sou tecnicamente “agnóstico“. Tal como toda a gente que não tenha uma crença dogmática o é. Segundo essa definição, os únicos “não-agnósticos” são crentes fundamentalistas fanáticos; nem os crentes “normais” nem os ateus o são.

Por outro lado, se não tenho a certeza absoluta, matematicamente 100%, da não-existência de nenhum deus, estou tão convencido dessa não-existência como estou da não-existência de duendes, lobisomens, o blue de chá de Russell, o Pai Natal ou o Monstro Voador de Esparguete. Isso faz de mim um “ateu“. Porquê? Porque “provas” é um conceito que só existe na matemática. Mas isso não implica que, por essa razão, não possamos ter certezas “para além de uma dúvida razoável” em relação a coisas não-matemáticas. A minha “certeza” de que não existe nenhum deus é equivalente à minha “certeza” de que, se largar uma moeda, ela cairá para baixo e não para cima; sim, as leis da física podem-se alterar no próximo segundo e, por isso, de uma forma matemática, a minha certeza tecnicamente não pode ser 100%, mas mesmo assim estou “para todos os efeitos” certo. Logo, sou um ateu, porque não estou “indeciso” em relação à questão.

Resumindo, sou tecnicamente um ateu agnóstico (e aqui os termos não se contradizem), mas para todos os efeitos sou simplesmente um ateu.

xkcd 774Agora, por outro lado, temos a definição corrente de “agnóstico”, que é bem diferente daquilo de que estive a falar neste post até agora. Em linguagem corrente, um “agnóstico” é alguém que está “no meio”, que acha que não se pode decidir nem pelo teísmo nem pelo ateísmo. Que pensa que, por não ser possível provar que não existe um deus, então não é possível racionalmente ser-se “ateu”, porque, para ele, não havendo provas nem num sentido nem no outro, qualquer uma das posições necessita de “fé”.

É com esse tipo de pensamento que eu tenho um problema. Para já, porque é ilógico e incoerente: uma pessoa, para qualquer outro assunto, não precisa de certezas a 100% (num sentido matemático); bastam-lhe certezas “para além de uma dúvida razoável”. O típico “agnóstico” ocidental nunca terá ido à China, e no entanto provavelmente não tem dúvidas sobre se a China existe (“afinal, não tenho provas, nunca a vi… e mesmo que lá fosse, tudo poderia ser uma ilusão de óptica! Aliás, podemos ser cérebros num frasco e estar tudo nas nossas mentes! Quem sou eu para saber alguma coisa???”3). Porque é que a existência ou não de um deus deverá ser diferente, ou exigir outro nível de “provas”?

Compreende-se que uma pessoa não se decida por não ter dados suficientes, mas daí até só se decidir tendo dados perfeitos, tendo provas totais e absolutas (que, mais uma vez, só existem na matemática), vai uma grande distância. E, como eu disse, em geral o “agnóstico” não o faz relativamente a outras questões.

É também uma atitude a meu ver desonesta, já que um “agnóstico” tipicamente recusa-se a admitir que, mesmo sem provas perfeitas, as evidências que há para cada uma das posições não são equivalentes. Muito pelo contrário, são como da noite para o dia. As evidências para a existência de um deus são zero (tipicamente nem passam de argumentos lógicos péssimos como “tem de haver uma primeira causa para isto tudo” ou “tem de haver Deus, senão a vida não faz sentido” ou “sem Deus, como é que pode haver certo e errado?” ou “os ateus é que têm a obrigação de provar que Deus não existe“), e a ausência das mesmas acaba por ser uma forte evidência contra essa hipótese. Por outro lado, as evidências para um universo 100% natural são imensas (entre muitas outras, há o facto de que durante toda a história, à medida que se aprende mais, explicações sobrenaturais têm vindo sistematicamente a ser substituídas por naturais, e o oposto nunca aconteceu). Um “agnóstico” típico recusa-se a admitir isso, o que é desonesto e ilógico da parte dele. Daí a minha última definição. E daí a minha antipatia — pela desonestidade e cobardia intelectuais inerentes — relativamente a esse tipo de “agnosticismo”.

  1. “foi Deus” não é desprovável, logo nunca pode ser uma teoria científica. []
  2. se bem que a tenho em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 monoteísmos, que são obviamente inventados e auto-contraditórios. []
  3. sim, há gente que diz coisas deste género, mas não agem assim na vida real; caso o fizessem, não poderiam sair de uma cela acolchoada. []

10 Comentários a “Os dois tipos de “agnosticismo””

  1. Carlos Descartes diz:

    Concordo 100% (mas é que é mesmo 100%), já há muito que não me identificava assim com algo que tenha lido. Não conhecia este site, vim cá pela primeira vez, vou começar a acompanhar.

  2. Thomas Varne diz:

    Não existe certo ou errado, ou “100%”. A certeza absoluta é só uma concepção, analiticamente inexistente. “Certezas absolutas” só criaram ilusões e utopias na história… e ainda crião.

    • Dario diz:

      Concordo quase* 100% com estes dois comentários.

      Ateus podem estar 100% de acordo com algo que foi dito, mas se esse algo indicar que o autor não tem certeza infinita (eu diria 100%), quem está de acordo também acredita que não há 100% de certeza, mas neste caso, é lógico ter certeza quase* 100% de que não existe nenhum deus, pela evidente falta de provas.

      *(Quase porque sentir 100% de certeza é criar uma “concepção, analiticamente inexistente”.)

  3. xuxanacrika diz:

    Voçês, Ateus, são do mais pátético que já vi e ouvi. Alguns de vós parecem-me mais Satanistas do que propriamente “ateus”, por favor deixem os “outros” ser livres de escolher em quem crer, pois se não vos agrada, PACIÊNCIA, não há nada a fazer, não pensem que são os únicos a ter os tiques de superioridade moral ou/e intelectual.
    A maioria de voçês estão fartos de estar bem na vida, dificilmente passaram dificuldades para viverem confortavélmente no vosso luxo! Mas lembrem-se, os vossos “antepassados” quando estavam com os “calos apertados”, iam direitinhos para as Igrejas, pedir mais prosperidade a DEUS

    • Insultos, “parecem mais Satanistas”, além do disparate de que só somos ateus porque estamos bem na vida e se as coisas se complicassem, voltar-nos-íamos imediatamente para Deus. Enfim… podia apagar o comentário (bastam os insultos, bem como o facto de não ter nada a ver com o tema do post), mas às vezes é bom deixar visível a forma como certas pessoas “pensam”.

    • Dario diz:

      “A maioria de voçês estão fartos de estar bem na vida, dificilmente passaram dificuldades para viverem confortavélmente no vosso luxo!”

      que eu saiba deus é bom e misericordioso (e mais algumas cenas), e se alguém está bem na vida, só tem razões para acreditar que deus existe. se alguém está mal, tem razão mais que suficiente para acreditar que deus não existe, pois se deus é bom e os deixa viver mal, ou é burro ou não existe. e duvido que alguém acredite que o deus omnipotente e omnipresente seja burro.

      os crentes insultam, chamam satanistas, não dão provas nenhumas e nós ateus é que nos achamos superiores. já agora somos illuminati, filhos de satanas, e que andamos a tentar fazer a cabeça aos crentes.

      por favor, acordem.

  4. débora diz:

    É incrível como o ser humano sempre arranja um jeito de brigar de descordar dos outros nós devimos aceitar as outras opiniões e nos sentir bem com isso em vez de nós aburrecer por causa da opinião do próxímo figuem bem ”’

    • Mais incrível ainda é como há quem confunde argumentar com “brigar”. Além de que, pela tua lógica, como discordas da minha atitude, estás a “brigar” comigo… 🙂

      • A sério, não entendo mesmo esse tipo de mentalidade. Se duas pessoas discordam sobre um assunto, estão proibidas de falar sobre ele, caso contrário estão a “brigar”? É preferível uma “paz” artificial, construída à volta de assuntos proibidos?

  5. anonima diz:

    Eu tive prova concreta de que deus nao existe.Um fato!E fatos sao fatos!!!E contra fatos,nao ha argumentos!!!!!!!!!

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