Brilhante, como sempre. Eu já o disse aqui, mas o autor do comic fá-lo com menos palavras e com mais piada.
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Jesus and Mo e o papa
Quinta-feira, 1 de Abril, 2010Pedofilia e as desculpas repugnantes da Igreja Católica
Segunda-feira, 29 de Março, 2010
Com toda a polémica relativamente ao abuso de crianças por todo o mundo pela parte da Igreja Católica e o seu encobrimento pela hierarquia da igreja, naturalmente — afinal, trata-se de uma organização ainda poderosíssima e com influência em todo o mundo — tem havido quem a tente defender. Várias defesas têm sido do tipo “o Papa não sabia!”, o que parece muito improvável, mas a defesa mais incrível, mais supreendente, mais chocante é esta: “os outros também o fazem”!
“Os outros também o fazem”. Como se isso desculpasse minimamente a violação de crianças; afinal “não somos só nós”.
Mas aquilo que torna a Igreja Católica totalmente corrupta e imoral, e a hierarquia da mesma culpada de crimes hediondos pelos quais devia pagar com prisão ou pior, não é, acreditem ou não, o “mero” facto de um bom número deles violar e torturar crianças há décadas. E, sim, isto acontece em maior proporção do que na sociedade em geral — não que eles fossem minimamente desculpáveis se a proporção fosse idêntica.
Nem é “só” o facto de eles afirmarem ser a única fonte de moralidade na Terra, os representantes do criador do universo. De eles afirmarem repetidamente que são moralmente superiores aos crentes de outras religiões, já para não falar dos não-crentes.
Nem é “só” o facto de que o abuso de crianças pela parte de padres é ainda mais condenável por ser feito por quem numa posição de autoridade e confiança para com essas crianças — sendo um abuso dessa autoridade e uma traição completa dessa confiança.
Não, a parte verdadeiramente criminosa, e que condena toda a hierarquia da Igreja, incluindo o actual papa, mesmo os membros da hierarquia que nunca tenham tocado numa criança, é esta: eles tentam encobrir isto há décadas. A hierarquia Católica tem tido conhecimento de inúmeros casos de abuso de crianças pela parte de padres ao redor do mundo, e a única preocupação da mesma tem sido auto-proteger-se. Proteger a sua reputação. Não a protecção das crianças. Não a obtenção de justiça.
Nos inúmeros casos ao longo de décadas, tendo de escolher entre a protecção de crianças inocentes e a protecção da reputação da Igreja, esta escolheu sempre a segunda hipótese. Sempre que há queixas contra um padre, as queixas não chegam à polícia, nem o padre é expulso da Igreja; é simplesmente transferido para outra paróquia, onde lhe serão inocentemente confiadas novas crianças para violar. Repetir conforme necessário.
Isto é monstruoso e imperdoável. Torna toda a hierarquia Católica cúmplice das inúmeras violações de crianças. E torna a Igreja uma das organizações mais moralmente podres em todo o mundo.
Convenção Global Ateísta
Terça-feira, 16 de Março, 2010Via Portal Ateu: aparentemente a Convenção Global Ateísta foi não só um sucesso (esgotou completamente) como um espectáculo. O post acima refere um artigo no The Australian que resume bem a convenção, e, mais importante, não faz juízos de valor, nem insulta os ateus, como certos outros jornais repugnantes fazem.
Algumas citações do artigo do The Australian:
Sobre a convenção:
“But what will you talk about – nothing?” someone had asked David Nicholls, president of the Atheist Foundation of Australia and co-convener of the conference. Far from it: most sessions ended before the audience was ready to let the speaker go.
Sobre o Islão:
The Bangladeshi writer and women’s rights activist, who was exiled from her homeland 14 years ago, then physically attacked in India when she sought refuge in Bengal, placed under house arrest and finally hounded out of there too, still has several fatwas hanging over her and a price on her head. India, the country that likes to think of itself as the largest democracy in the world, she pointed out, placed the religious rights of its Muslim minority above her freedom of expression.
She recalled her doubts about religion as a child, and how she troubled her mother with questions: why do we have to pray in Arabic – if God is omniscient, can’t he understand our prayers in Bengali?
She was six when her mother told her her tongue would fall off if she said anything against God. Already the empirical scientist (she is a doctor), she locked herself in the bathroom, said “God is a son of a bitch”, “God is a pig” and other choice Bengali epithets, and then waited in front of the mirror. After a few minutes, she knew that what her mother said wasn’t true.
She saw through the inconsistencies in the Koran, she said, the first time she read it, in translation in Bengali. “All religion, but particularly Islam, is for the interests and comfort of men,” she said, “Why would women believe in any religion?”
Sobre o absurdo de se achar que a Bíblia Cristã foi inspirada por um ser omnisciente:
Myers took issue with the notion of a good and all-knowing God, suggesting that if “God is so powerful he refuses to be bound by some arbitrary demand like he make a goddamn difference in the world”, couldn’t he have given us some useful suggestions at least? “Like `Wash your hands’? We waited till the 19th century for doctors to learn that. Instead we got in the Bible a detailed order to snip off the ends of our penises.”
Sobre a ideia de que crentes são mais morais, importam-se mais com o próximo, e fazem mais pelos pobres:
As for the more rigorous rules of the New Testament, such as the order that the rich give away their possessions to the poor, there are a lot of very rich Christians around who are clearly giving little thought to the future of their souls, he said. Americans who, according to polling, are far more religious than Europeans, don’t even approach the welfare measures largely secular Scandinavian societies take to protect the vulnerable in their society.
Singer also pointed out that three of the four great philanthropists of the 20th century were professed atheists: Bill Gates, Warren Buffet and Andrew Carnegie. (The exception was Nelson D. Rockefeller, a Protestant.)
E, por último, sobre o financiamento da convenção:
Speaking of money, no tier of government funded the conference: the organisers and speakers worked gratis and depended on the charity of well-wishers for the unavoidable costs. Much was made of this by some speakers: the federal government gave $20 million towards the Catholic World Youth Day last year, and the Victorian government gave $4.5m towards the Parliament of World Religions – but in this supposedly secular society, requests for funding an atheist conference were turned down.
Esta última parte, já agora, é absolutamente revoltante: governos supostamente laicos usam milhões de dólares do dinheiro de contribuintes — independentemente da crença ou não-crença destes — para financiar eventos religiosos, mas não contribuem um cêntimo para um evento pró-racionalismo e pró-realidade. Não quero com isto dizer que o governo tivesse obrigação de financiar seja o que for, mas se o faz a uns, devia fazê-lo a todos…
Para terminar, Richard Dawkins sobre o Islão (para aqueles que dizem que ele só critica o Cristianismo):
As for dialogue with Islamists, he said it was “a remarkably effective tactic to say `If you try to argue against me, I’ll cut your head off’ “, but that the argument came from a position of intellectual weakness.
“I don’t think we should go out of our way to insult Islam because it doesn’t do any good to get your head cut off,” he continued. “But we should always say that I may refrain from publishing a cartoon of the Prophet Mohammed, but it’s because I fear you. Don’t for one moment think it’s because I respect you.”
Neozelandeza vende “fantasmas” por quase 2000 dólares
Segunda-feira, 15 de Março, 2010The rare spirits that went under the gavel at a recent online auction in New Zealand weren’t aged brandies or hard-to-find liqueurs.
Instead, two glass vials purportedly containing the ghosts of two dead people sold for $2,830 New Zealand dollars ($1,983) at an auction that ended Monday night.
The “ghosts” were put up for bidding by Avie Woodbury from the southern city of Christchurch. She said they were captured in her house and stored in glass vials with stoppers and dipped in holy water, which she says “dulls the spirits’ energy.”
Portanto, ela pôs à venda dois frascos com água, e houve idiotas dispostos a pagar por isso. E não foi pouco.
Às vezes quase que tenho pena de ser um tipo com alguma honestidade e sentido de moralidade… Afinal, para quê trabalhar, quando se pode ganhar a vida a enganar “tansos”?
E criar uma nova religião seria tão fácil…
Fonte: Associated Press (via Irreligion)
Filipinas: Igreja Católica tenta causar demissão de ministra da saúde por esta tentar combater a SIDA
Segunda-feira, 1 de Março, 2010Notícia aqui. Alguns “highlights”:
Archbishop Ramon Arguelles said on the Church-run Radio Veritas: “It is immoral for a government official to support the distribution of condoms which we know do not really reduce or stop the spread of HIV-AIDS.”
“Sabem”? Mentirosos. Sabem muito bem que é exactamente ao contrário. O problema é que, sendo o culto da morte que são, estão-se nas tintas para o sofrimento humano; a única coisa que importa é “salvar almas”.
Another bishop, Dinualdo Gutierrez, joined the attack when he said Cabral should not remain as health secretary. Gutierrez said Cabral was not a good Catholic — if she was one in the first place — if she backs the distribution of the prophylactics.
Naturalmente. Se não é uma boa Católica, não pode nunca ser ministra seja do que for — afinal, aquilo é uma teocracia. Que importam as qualificações para fazer o seu trabalho — a única coisa que importa é o quanto ela obedece à Igreja e ao Papa.
Oh, esperem… não estamos a falar da versão Católica da Arábia Saudita; trata-se, sim, de um país supostamente laico. Erro meu, desculpem. Nem sei como pude fazer tão confusão.
Ms Cabral responded by saying that the Catholic Church can be “vicious” at times, but she intended to continue defying it. “Of course, I am afraid of the Church. They are very powerful and they can sometimes be very vicious. I’m not exactly one who likes to live dangerously,” Cabral told a local TV station.
“Viver perigosamente”. Parece que estamos a falar de alguém que se atreveu a testemunhar contra a Máfia, e está nalgum programa de protecção de testemunhas, sempre a olhar por detrás do ombro. Não era suposto a Igreja ser uma promessa de paz e de alívio, em vez de uma fonte de medo neste mundo? E não era suposto ela não interferir na política e na governação de uma nação? Voltámos à Idade Média?
However, she said that she’d rather live dangerously than do nothing against the very alarming rise in the number of HIV/AIDS cases in the Philippines.
Felizmente, ainda há pessoas no mundo capazes de fazer frente aos “padrinhos” — porque há vidas demais em jogo para que uma pessoa com algum vestígio de moralidade possa ficar calada. Mesmo assim, o facto de uma ministra ter medo de ser demitida, ou pelo menos prejudicada e vilificada, por causa da Igreja é assustador.
Ateus: a minoria mais detestada nos EUA
Sexta-feira, 26 de Fevereiro, 2010
Quem vive em países maioritariamente compostos por crentes “não praticantes”, como é o caso de Portugal, provavelmente não faz qualquer ideia do que acontece num certo país, que não é o Irão, a Arábia Saudita ou o Afeganistão, mas sim os Estados Unidos da América. Uma nação supostamente laica, que, ao contrário da maioria dos países da Europa (todos?), não tem sequer religião oficial, estatal… e, no entanto, a religiosidade — maioritariamente Cristãos Protestantes, mas há de tudo — é a mais alta entre países de “1º mundo”, e inquérito após inquérito continua a demonstrar que os ateus — cerca de 10% do país — são a minoria mais odiada, mais considerada “anti-Americana” e mais considerada não confiável. Um candidato (assumidamente) ateu a qualquer cargo político é virtualmente inelegível, e ateus sofrem discriminação na escola, no trabalho e nas próprias vizinhanças — por vezes chegando a vandalismo e violência física.
Mas não vão pelo que eu digo (afinal, nunca lá estive, apesar de ler diariamente blogs e notícias de lá), vão pelo que Mike Clawson (blog), um Cristão (liberal, daqueles que não dizem que Deus odeia gays e que os não-Cristãos vão todos ser torturados eternamente depois da morte, mas Cristão na mesma), escreveu numa tese (link para o Google Docs) que fez para o seu seminário, sobre a situação dos ateus nos EUA. São umas 20 páginas, mas o texto é em letras relativamente grandes e bastante espaçado, pelo que se lê facilmente em menos de 5 minutos.
A sério, vale a pena.
Depois pensem, se quiserem, um pouco sobre a legitimidade de discriminar, ostracizar, demonizar, insultar constantemente e maltratar — às vezes chegando à violência — uma parte significativa da população simplesmente por não terem as mesmas crenças do que eles. E pensem também no que isso diz sobre a “superior” moralidade Cristã.
O facto de ter sido um Cristão a escrever aquilo, e tê-lo feito depois de falar com ateus no blog Friendly Atheist (tipicamente, isso não acontece — como ele diz no texto, crentes dizem — mesmo na TV — impunemente barbaridades sobre ateus, sem haver sequer um destes presente para poder responder), é no entanto um alívio reconfortante: é possível Cristãos ultrapassarem os seus preconceitos — e grande parte da “moralidade” da Bíblia, também. É um princípio…
(via: Friendly Atheist)
Estudo liga religião a comportamento imoral
Quarta-feira, 24 de Fevereiro, 2010Visto aqui, por exemplo. Inclui um vídeo de 2 minutos da MSNBC, e um PDF com o estudo propriamente dito.
Resumindo muito a coisa: ao contrário do que certos crentes — sobretudo nos países mais religiosos, como os EUA — esperariam, os países onde há menos crime, menos violência, menos pobreza, menos desigualdade, menos gravidezes na adolescência, e assim por diante, coincidem com os menos religiosos. Os EUA, em particular (país de “1º mundo” mais religioso) ficam bastante mal na comparação.
Agora, como qualquer pessoa com um vestígio de educação científica saberá, correlação não implica causalidade. Ou seja, o facto de “mais isto” coincidir com “mais aquilo” não implica que uma das coisas provoque a outra; pode haver uma 3ª variável desconhecida que provoque as outras duas, ou pode ser simplesmente coincidência, o que num estudo não suficientemente abrangente, detalhado e duradouro pode perfeitamente existir.
Por outras palavras, não podemos olhar para o estudo e imediatamente concluir que “a religião causa imoralidade”, ou que “a imoralidade causa o aumento da religiosidade” (ambas as hipóteses são possíveis, e devem ser consideradas; não podemos simplesmente assumir que a coisa acontece no primeiro sentido que nos vem à cabeça… caso aconteça, o que ainda está por demonstrar).
Para provar a causalidade, seria preciso muito mais dados, conseguidos ao longo de décadas — por exemplo, para cada país, verificar se aumentos ou diminuições da religiosidade se reflectem em aumentos ou diminuições da imoralidade, de forma linear. Se isso acontecer numa esmagadora maioria dos casos, e em ambos os sentidos (isto é, aumentos de uma coisa implicam aumentos de outra, e o mesmo para diminuições), então podemos aí assumir que há boas probabilidades de haver causalidade (se bem que resta investigar se não são ambas as coisas consequências de uma terceira).
(Se estão meio confusos porque é que ponho tantos “senãos” relativamente a tirar conclusões a partir de um estudo que aparentemente só favorece a minha posição, quando no meu lugar se imaginam a “abraçá-lo” imediatamente, bem-vindos ao vosso primeiro contacto com o método científico, em que quem sugere uma hipótese é o próprio a fazer tudo ao seu alcance para a falsificar, e só mantém a hipótese em aberto se não o conseguir. É por isto que a ciência não é “uma religião”, e não precisa de “fé” — ou seja, é de confiança.
)
Podemos, no entanto, concluir desde já uma coisa, que considero extremamente importante: a ideia de que a religião é essencial à moralidade humana é absolutamente falsa. Muitos crentes assumem — ou foram ensinados assim e nunca o questionaram — que a religião é a única coisa que torna as pessoas morais, e que uma sociedade que a perdesse transformar-se-ia rapidamente numa orgia de violência e caos… mas está demonstrado que não é o caso; sociedades menos religiosas são tão ou mais morais. Aliás, os dados sugerem o “mais”, mas convém investigar isso melhor, como disse.
Especulando um pouco — e não me levem muito a sério aqui –, eu diria que há várias razões para a alta religiosidade estar associada à imoralidade e a problemas sociais.
Primeiro, porque a religião é uma forma de as pessoas não pensarem em moralidade, por fornecer respostas fáceis (“Deus mandou isto”). Questões como o aborto ou a eutanásia devem ser estudadas e discutidas pela sociedade, considerando os efeitos prováveis das várias políticas possíveis, sobretudo em termos de sofrimento causado ou evitado e de progresso social… mas nada disso acontece quando nos limitamos a apontar para a reedição de uns pergaminhos escritos por pastores da Idade do Bronze como sendo o fim da discussão.
Segundo, porque uma sociedade muito religiosa é necessariamente uma sociedade onde o pensamento crítico não é muito apreciado, e portanto as pessoas têm menor capacidade de tomar decisões racionais e informadas (o que leva, por exemplo, a eleger maus políticos e a exigir más políticas).
Terceiro, porque quem acredita que esta vida é só um teste para determinar a salvação da alma irá dar-lhe necessariamente menos valor — ou apreciar menos o sofrimento dos outros — do que quem acredite que a vida que temos é única e finita.
Quarto, porque há muita imoralidade na base das religiões — basta olhar para os livros sagrados.
Quinto, porque as religiões tendem a ser ultra-conservadoras, anti-ciência e anti-educação (incluindo a educação sexual, a melhor forma de evitar gravidezes adolescentes e, por conseguinte, abortos); em qualquer questão social, as igrejas estão quase sempre do lado errado (ex. aborto, educação sexual, direitos de homossexuais, ensino da evolução das espécies (isto é mais nos EUA), igualdade de direitos entre os sexos, eutanásia, etc.).
A religiosidade não existe num vácuo; procede das religiões existentes, e elas têm muita, muita “culpa no cartório”, em termos de moralidade não só de actos, mas do que promovem.
Mas isto sou só eu a supor.
Tudo o que precisam de saber em relação ao aquecimento global
Terça-feira, 15 de Dezembro, 2009
(Nota: para quem ache isto tão óbvio que nem precisava de ser mencionado, considerem que, nos EUA, quase metade da população acredita que o aquecimento global é uma mentira, uma ficção anti-americana criada por cientistas e outros “ultra-liberais”, destinada a destruir as empresas nacionais e a competitividade das mesmas a nível mundial. Estamos, é claro, a falar do mesmo país em que mais de metade da população rejeita a realidade da evolução darwinista das espécies – conhecida há mais de 150 anos –, e acredita que as mesmas foram criadas magicamente há uns 6000 anos… altura em que os Sumérios já tinham inventado a cola há cerca de um milhar de anos.)
Saramago e a religião
Segunda-feira, 19 de Outubro, 2009Tenho visto vários comentários, tanto no artigo do Público como em vários blogs portugueses, a criticar José Saramago por ter dito… bem, vejam o link anterior.
Comentários esses que chamam “banais” às afirmações de Saramago, insinuam que é preciso estudar teologia antes de se poder criticar a religião, dizem o chorrilho de disparates habitual sobre os ateus e o ateísmo, e… bem, já se sabe como é. O mais triste são os comentários de quem não tem qualquer crença religiosa, mas mesmo assim se sente chocado e ofendido com isto, porque caiu na lavagem cerebral de que a religião merece “paninhos quentes” e um respeito especial e inquestionável.
Como a paciência para estar sempre a corrigir os mesmos erros já não é muita, e me sinto enojado só por ler, quanto mais citar, certas coisas que já li hoje, prefiro comentar isto na forma de pequenos parágrafos, mais ou menos independentes uns dos outros. Nem todos se aplicam a todas as críticas, obviamente.
- Não há qualquer tipo de evidências, provas, etc. da existência de qualquer tipo de deus. Nada. Nicles. Zero. Logo, a teologia é uma não-disciplina, tem tanto mérito e importância como a painatal-logia ou a gambozinologia. E, sim, caros teólogos, vocês desperdiçaram a totalidade das vossas vidas. Deal with it (se bem que sei que nunca o farão, é muito mais fácil manter uma ilusão confortável do que quebrá-la).
- Chamar “banal” à afirmação de que Deus não existe é o mesmo que chamar “pouco sofisticado” a quem diz que 2+2=4, porque quem está num “nível espiritual mais elevado” tem “fé” de que 2+2=5, ou isso é verdade num plano espiritual tão ou mais importante do que o físico, ou para ele os números têm um significado “mais profundo”, ou outras baboseiras new-age sem significado. Dizer as coisas como elas são de forma simples e directa (como “o rei vai nu”, bem aplicável a este caso) não é “banal” ou “pouco sofisticado”.
- Crenças religiosas não merecem mais respeito e consideração do que qualquer outro tipo de crenças (ex. “a Terra é redonda” ou “há ovnis a mutilar gado nos EUA”) apenas por serem religiosas. A única coisa que importa é: é verdade?
- Hitler era católico! Párem lá de o incluir nessa absurda lista de “monstros ateus”. O facto de já terem sido corrigidos relativamente a isso centenas de vezes e mesmo assim o continuarem a fazer demonstra bem quanta importância dão a factos e à realidade… e quão honestos são.
- Quanto aos outros, há muito de religião em sistemas como o Estalinismo: culto ao líder, rituais, “rezas”, livros “sagrados” (ex. o livro vermelho de Mao), supressão de ideias contrárias, controlo de “pureza” ideológica, irracionalidade, dogma acima de factos, e afins. Se perseguiam as religiões estabelecidas, era apenas porque não queriam competição. Religião e “Deus” não são a mesma coisa, e é possível haver uma sem crença no mesmo. Nenhum povo alguma vez sofreu por excesso de racionalidade e cepticismo.
- De qualquer forma, quando dizem que “monstros ateus fizeram isto e isto”, querem dizer que o fizeram por não terem medo de um castigo divino. Já pensaram na hedionda distorção de moralidade que isso é? E estão, portanto, a dizer que vocês iriam para a rua roubar, violar e matar se neste momento perdessem a vossa fé, porque não vêem nenhuma razão para não fazer tais coisas, excepto o medo do inferno? O que é que isto diz sobre vocês?
- Houve quem falasse da “necessidade do Homem para com a espiritualidade”. Isso tem outro nome quando se é mais jovem: “amigo imaginário”. Uma coisa não é real só porque se quer muito. Mesmo que a vida fosse cinzenta e sem sentido sem a existência de um deus e de vida depois da morte (não o é), isso não tornaria mais provável a sua existência.
- Quem diz que “as críticas de Saramago à Bíblia só se aplicam relação ao Antigo Testamento, porque a mensagem do Novo é paz e amor” está a precisar de realmente ler a Bíblia (além de que Jesus supostamente disse que não vinha para mudar uma letra da lei antiga). Mas, tipicamente, os ateus conhecem-na melhor do que quem acredita que existe um livro escrito pelo criador do universo, do qual depende a sua salvação, mas mesmo assim nunca arranjou tempo para o ler…
- Não me venham dizer que “mais vale acreditar, por via das dúvidas“, please. Isso é completamente idiota (pista: há mais do que uma religião no mundo…)
Irlanda, Igreja Católica… “ah, pois, mas o ateísmo é que é o verdadeiro problema”
Segunda-feira, 25 de Maio, 2009Acho que aqui não há muito a acrescentar a este post do Daylight Atheism, Catholicism’s Hollow Claims of Moral Authority.
O início do post:
The outgoing Archbishop of Westminster, Cormac Murphy-O’Connor, had some choice words for atheists at the ceremony this week to install his successor:
“What is most crucial is the prayer that we express every day in the Our Father, when we say ‘deliver us from evil’. The evil we ask to be delivered from is not essentially the evil of sin, though that is clear, but in the mind of Jesus it is more importantly a loss of faith. For Jesus, the inability to believe in God and to live by faith is the greatest of evils.
…You see the things that result from this are an affront to human dignity, destruction of trust between peoples, the rule of egoism and the loss of peace. One can never have true justice, true peace, if God becomes meaningless to people.”
Like others who came before him, this cardinal views atheism as “the greatest of evils”, literally the worst act a human being can possibly commit. Too bad for the cardinal that, at the time he gave this speech, an enormous counterexample was staring him in the face:
Tens of thousands of Irish children were sexually, physically and emotionally abused by nuns, priests and others over 60 years in a network of church-run residential schools meant to care for the poor, the vulnerable and the unwanted, according to a report released in Dublin on Wednesday.
Tens of thousands of children, suffering horrific abuse, degradation, and brutal assault both physical and sexual, over a period of decades. The sheer scope of the problem makes it impossible to explain away as the result of a few bad apples; cruelty this widespread and this institutionalized could only come about as the result of evil and corruption deeply entrenched in the hierarchy of church power.
Não acho que dê para acrescentar muito mais a isso.
E antes que me digam que isto não é representativo da Igreja Católica, eu lembro-vos do que a mesma fez enquanto tinha poder para tal: inquisição, tortura de “hereges”, queima de “bruxas”, censura de todos os livros por default (isto é, havia uma lista de livros permitidos, e não de livros censurados), cruzadas, e afins. E isso não parou por a Igreja ter pensado “espera aí, isto não está certo, é uma crueldade monstruosa, vamos parar e realmente tentar fazer algum bem ao mundo”. Não, parou quando deixaram de ter poder para isso. E acho que nunca devemos deixar de mencionar esse facto. Tal como os judeus dizem em relação ao Holocausto, “nunca mais.”
Abuso de crianças? “Trivialidades.” Tudo é justificável para um culto de morte que acredita que a vida terrena não tem qualquer importância, e que a única coisa que importa é salvar almas.


