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Arquivo da Categoria ‘Ateísmo’

FAQ: “O ateísmo não passa de mais uma religião!”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

Isso não é uma pergunta. :) Mas, respondendo, essa acusação (e, sim, é uma acusação — e um crente que a faça devia pensar um pouco no facto de ter acabado de usar “religião” como um insulto…) pode ter vários significados diferentes. Um deles é o comum “os ateus adoram / idolatram a ciência / Satanás / Darwin / a eles próprios”, que vai ser tratado numa entrada seguinte do FAQ.

Outra alternativa é que não acreditar em nenhum deus — isto é, acreditar num universo 100% natural, sem um criador — requer tanta fé como o Cristianismo ou qualquer outra religião. Isso também fica para uma entrada futura.

Finalmente, há o significado a ser abordado agora: que o ateísmo é uma religião no sentido em que é algo em que a pessoa acredita, com fé, com dogma a seguir, com “fiéis”, uma hierarquia, e afins.

O que é que define uma “religião”? Basicamente, uma religião é um sistema de crença, que inclui regras de comportamento, rituais, em muitos casos (não todos) um elemento sobrenatural (ex. milagres), afirmações sobre a origem do universo, sobre a razão de existirmos, o nosso propósito no mundo, e o que acontece depois de morrermos. Há normalmente também uma hierarquia, sobretudo no Catolicismo.

Bem, o ateísmo puro não inclui nada disso. O ateísmo é apenas a falta de crença num deus ou deuses; não há regras de conduta, rituais, afirmações sobre porque é que estamos aqui, ou sobre o que devemos fazer. Nem faz sentido falar de “crenças ateias”, porque a única coisa que os ateus têm em comum é que não acreditam em algo em que muita gente acredita. Na verdade, como já foi sugerido antes, a palavra “ateu” nem devia existir, já que não temos — ou precisamos de — palavras que signifiquem “pessoa que não acredita em astrologia” ou “pessoa que não acredita no Pai Natal”.

Enquanto as religiões, em geral, geram alguma homogeneidade entre os crentes de cada uma (por haver um livro sagrado comum, um conjunto de crenças em comum, um fundador, e assim por diante), o ateísmo não é nada assim. Alguns ateus (mas não todos) são cépticos, e chegam ao ateísmo simplesmente por não verem qualquer evidência da existência de qualquer deus. Outros terão outras razões (incluindo nunca terem pensado no assunto, o chamado “apateísmo”). Mas, fora essa não-crença, não temos realmente nada em comum. Da mesma forma que toda a gente que não colecciona selos não forma um grupo.

P.S. – se estás aqui a pensar algo como “ah, apanhei-te, acabaste de admitir que os ateus não têm qualquer código de conduta, de moralidade, etc.”, não foi isso que eu disse. Eu disse que o ateísmo não o tem, não que os ateus não o têm. O ateísmo é simplesmente uma não-crença em algo, não é suposto ser um sistema de moralidade. Não acreditar em Deus (por exemplo, no deus Cristão) não nos diz como agir no mundo, assim como não acreditar no coelhinho da Páscoa não nos dá regras morais… logo, temos de as ir buscar a outros sítios. O humanismo secular, do qual quero falar mais no futuro, é o sistema moral provavelmente mais comum entre os ateus (incluindo o autor deste blog), mas está longe de ser o único. E, sim, é possível ser um ateu e ser um monstro… tal como o crente mais devoto do mundo em qualquer religião (incluindo a tua) o pode ser.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Como é que podes ser ateu? Não consegues provar que Deus não existe!”

Segunda-feira, 15 de Fevereiro, 2010

Posso responder a essa pergunta de duas formas diferentes, e qualquer delas é suficiente.

1- Não é a mim que compete fazê-lo.

Provavelmente já ouviste ou leste em algum lado o termo “ónus da prova”. Neste contexto, funciona assim: quando alguém afirma algo novo, é responsabilidade dele provar esse algo, ou pelo menos fornecer evidências suficientes para esse algo ser, tanto quanto se sabe, mais provável do que o oposto. Não são os outros que têm de desprovar a afirmação. Por outras palavras, o ónus da prova pertence a quem faz a afirmação — sobretudo se for uma afirmação invulgar ou extraordinária.

Imagina que alguém te acusa de seres um extraterrestre disfarçado de humano. Irias sentir que tens obrigação de provar a ele e ao mundo que és um humano normal? É claro que não. É a outra pessoa que tem de provar o que afirmou, que tem de providenciar evidências para a sua afirmação. O mesmo para quem te acuse de teres cometido um crime.

Também é assim no caso de afirmações como “existe um deus, e ele é exactamente como eu acredito que ele é”. Quem faz a afirmação é que tem o ónus da prova. Uma pergunta como “podes provar que isto não aconteceu?” só funciona em filmes do Ed Wood. :)

2- Podes provar que X não existe, então?

Outra forma de nulificar a afirmação “não podes provar que Deus não existe” é responder com a mesma pergunta. Consegues provar que Zeus não existe? Afrodite? Odin? Thor? Alá? Kali? Nanabozho?

Terás de admitir que não consegues. E mais, poderias dedicar o resto da tua vida a tentar provar que qualquer um deles não existe, e irias falhar miseravelmente. Devo, então, assumir que acreditas em todos eles? Ou pelo menos que os consideras tão prováveis de existir como o deus em que acreditas?

Não? Então porque não? Acreditar em determinado deus porque não é possível provar que ele não existe, mas não aplicar a mesma lógica a todos os outros deuses, é um exemplo clássico de “standard duplo”… a atitude intelectualmente honesta seria aplicar o mesmo “standard” a qualquer tipo de deus… ou crença.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Porque é que odeias Deus?”

Segunda-feira, 15 de Fevereiro, 2010

Deixa-me responder com uma pergunta semelhante: Porque é que odeias Thor?1

Não odeias, pois não? Estás ciente de que Thor não existe, e é absurdo “odiar” algo que não é real.

Bem, para um ateu, é exactamente a mesma coisa. O teu deus, tanto quanto sabemos, é tão inexistente como Thor. É tão real como Thor. E ateus — da mesma forma que tu, aposto — não “odeiam” seres que acreditam ser fictícios.

Se por vezes notas raiva em ateus como eu, ela é provavelmente dirigida a certos crentes em particular, e aos seus actos, porque acreditamos que esses actos estão a prejudicar a humanidade em geral, a criar ou aumentar o sofrimento de inocentes, e a perpetuar uma ideia em relação ao mundo em que vivemos que simplesmente está errada. Não é dirigida a “Deus”. Não é preciso existir um deus para que os crentes (como os Cristãos, mas não apenas eles) sejam reais. E os seus actos também. E esses actos podem, em certos casos, revoltar-nos.

Da mesma forma, ateus não são “satânicos”: para nós, Satanás (Satã para os brasileiros) é tão fictício como qualquer divindade.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

  1. sim, devia ter linkado para este, mas, ei, sou fã da Marvel :) []

A seguir: FAQ de Ateísmo

Segunda-feira, 15 de Fevereiro, 2010

Hoje, e durante os próximos dias, vai ser elaborado aqui um FAQ sobre ateísmo: basicamente, uma lista de perguntas (frequentemente feitas por crentes, muitas vezes sob a forma de acusações), e respectivas respostas. Cada par pergunta/resposta será um post, que aparecerá normalmente no blog, mas haverá também uma página de “índice” dos mesmos (com links, é claro), na barra lateral do blog.

A ideia é quando, num post sobre qualquer assunto relacionado, algum crente, ignorando o post em si, fizer daqueles comentários que imagina serem incrivelmente originais e capazes de deixar qualquer ateu sem resposta, como “porque é que odeias Deus?” ou “como é que podes ser um ateu, se não é possível provar que Deus não existe?”, ou, tããão original, “se eu acreditar e estiver errado não me acontece nada, mas se tu estiveres errado tens uma eternidade de sofrimento; logo, mais vale acreditar”, eu poder responder simplesmente com o link para a resposta em questão, e poupar tempo e esforço.

Idealmente, os possíveis comentadores lerão a FAQ antes de comentar, para dessa forma não repetirem o que os seus últimos 20 colegas disseram… ideia muito ingénua da minha parte, eu sei, afinal isto é a Internet. :P

Peixes, ateísmo e intolerância

Sexta-feira, 12 de Fevereiro, 2010

Isto é um Ichthys, mais vulgarmente conhecido nos EUA por “Jesus Fish”, relativamente frequente em carros portugueses (ainda hoje reparei num a vir para o trabalho):

Jesus Fish

(Há variantes dele que não incluem a palavra “Jesus”, sendo totalmente “ocos”, ou que incluem outras palavras, como “Truth”.)

E isto é um “Darwin Fish”, obviamente uma paródia do anterior (reparem nas patas do peixe, referência à evolução das espécies):

Darwin Fish

Este último em geral é exclusivo dos EUA, já que lá a religião é muito associada ao Criacionismo, a ideia de que o Genesis da Bíblia deve ser interpretado literalmente, e por isso a evolução Darwiniana das espécies é falsa, porque os animais foram todos criados há uns 6000 anos tal como são, a humanidade começou com Adão e Eva, houve mesmo um dilúvio mundial, e outras baboseiras cuja falsidade está mais que provada pela geologia, biologia, história, etc..

De qualquer forma, assim como o primeiro pode ser associado a um Cristianismo “activo” (afinal, a pessoa está a comunicar ao mundo a sua crença — e note-se que não vejo mal nenhum nisso, por si só), o segundo pode provavelmente ser associado ao ateísmo.

Ponho agora a pergunta: qual dos dois, colado num carro, implica maiores probabilidades — implica quaisquer probabilidades — de o carro ser vandalizado por causa disso?

Penso que a resposta é óbvia.

Como já abordei nos posts anteriores, qualquer activismo ateu, por muito “leve” que seja — nem que seja simplesmente dizer “eu sou ateu”, sem vergonha ao fazê-lo –, incomoda as pessoas de uma forma que não é visível em nenhum outro campo.

Nenhum ateu, nem nenhum crente de outra religião (excepto talvez numa teocracia muçulmana) vai alguma vez vandalizar o carro de um cristão que tenha o autocolante do peixe. Assim como nenhum fã da Microsoft vai riscar ou partir o vidro de um carro com o autocolante de uma maçã (que é bem mais uma religião para os fãs da Apple do que o Cristianismo para muitos “católicos não-praticantes”… :) ). Mas o “sou ateu” perturba. Perturba até outros ateus, por alguma razão.

Opiniões?

P.S. – podia também perguntar o que é que isto diz sobre a moralidade de ambos os lados…

Porque é que falar sobre ateísmo incomoda tanto?

Quinta-feira, 11 de Fevereiro, 2010

Porque é que o activismo ateu – mesmo que limitado a escrever sobre o assunto no nosso próprio blog – incomoda tanto as pessoas… incluindo outros ateus?

Para qualquer outro tema – arte, música, videojogos, filmes, carros, motas, decoração, moda, economia, política, medicina, sociologia, desporto, ecologia, animais de estimação, literatura, ciência, filosofia, e, sim, religião, quem não se interessa passa ao lado. Uma pessoa pode concordar ou discordar, e pode fazê-lo de forma mais ou menos simpática, mas ninguém criticará o autor de um blog de futebol por só falar de futebol, e o mesmo acontece para qualquer outro tema. Qualquer ser humano interessa-se por um número relativamente limitado de temas, e isso é normal; nenhum ser racional e estável vai, por exemplo, a um blog de futebol dizer que o autor é estúpido, irritante, idiota, imoral, etc. por escrever tanto sobre futebol. É o tema do raio do blog, porra.

O mesmo para, por exemplo, política. Uma pessoa pode ter uma posição política ou outra, pode concordar ou discordar de determinado jornalista político, mas em ocasião alguma esse jornalista vai ser criticado simplesmente por escrever sobre política. Quem não se interessa por política simplesmente não irá ler o que ele escreve.

Eu não tenho um Mac nem um iPhone, e há quem escreva bem mais sobre eles do que eu sobre ateísmo ou religião, mas nunca me passou pela cabeça chatear certos membros do PlanetGeek por falarem tanto nisso. Em geral, limito-me a ler os posts em questão na diagonal (curiosidade nata…), ou a saltá-los se estiver cansado ou apressado.

Blogs de religião – seja ela qual for – em geral poderão ter comentários (quando estes não são apagados, o que acontece muito) a discordar do autor em pontos como a personalidade, os desejos ou mesmo a existência das divindades em que o autor acredita, mas nunca serão vistos comentários a dizer que o autor é um fanático não pelas suas posições, não pelos seus actos, mas apenas por escrever sobre religião, sobre as suas crenças.

Resumindo, em geral somos bastante aptos a – e não temos qualquer problema em – ignorar, “passar ao lado”, aquilo que não nos interessa. Não nos incomoda nada que exista “A Bola”, o “Jornal de Letras”, o jornal deste ou daquele partido, ou a Bíblia cristã.

Mas quem escreve sobre ateísmo é logo visto como um “fanático”, “pior do que os do 11 de Setembro”. Mesmo outros ateus têm nestas alturas todo o prazer e orgulho em proclamar o clássico “eu sou ateu, mas…”.

Porque é que este tema incomoda tanto? E não, não venham dizer que “é por falares tanto nisso”. Acabei de demonstrar que para qualquer outro tema – incluindo religião, no sentido crente — toda a gente é capaz de “passar ao lado” quando o assunto não lhe interessa minimamente. Há de haver outra razão.

E, já agora, aconselho a leitura de um post da Greta Christina, que já mencionei antes, também sobre esta questão.

"Se não acreditas, porque é que te importas tanto com o assunto?"

Quinta-feira, 11 de Fevereiro, 2010

Ou, mais especificamente:

“Se não acreditas em Deus, porque é que escreves tanto sobre o assunto? Para quê escrever tanto, gastar tanto esforço e tanto latim com algo em que não acreditas? Eu também não acredito no Pai Natal, mas nunca criaria um blog para dizer – de centenas de formas diferentes – que o Pai Natal não existe…”

Dito assim, a crítica até parece fazer sentido, não é? :)

A comparação que eu posso fazer, em resposta, é com o analfabetismo, ou, mais precisamente, o combate ao mesmo. Tu (sim, tu aí) não estás, imagino, realmente preocupado com a questão do analfabetismo no país / mundo (se bem que, ao contrário da religião, provavelmente não hesitarás em dizer que reduzi-lo é uma boa ideia). Não te afecta directamente. Não és analfabeto, as pessoas à tua volta quase de certeza que também não o são, e se tiveres filhos é claro que queres que eles aprendam a ler, mas não é uma questão pertinente. Não é, em resumo, uma preocupação tua. Não é algo em que alguma vez penses, a não ser que calhe leres ou ouvires uma notícia relacionada.

No entanto, apesar dessa tua falta de interesse directo, aposto que não contestarias a legitimidade da existência de uma organização – ou mesmo uma única pessoa – dedicada ao combate ao analfabetismo.

Se conheceres uma pessoa envolvida numa campanha de combate ao analfabetismo, não te vais rir na cara dela, dizendo-lhe “que preocupação parva que tens! Tu já sabes ler, porque é que te importas com essa questão? Se não és tu próprio analfabeto, como é que o analfabetismo te pode incomodar, ou até preocupar?”

A causa do combate ao analfabetismo pode não ser tua (e nem tem de ser, de forma alguma), mas não a criticarás nos outros, aposto. Ou seja, sem dúvida que não vais escrever um blog ou criar um site ou uma organização de combate ao analfabetismo… quase de certeza que nem vais ler ou participar num site desses… mas não vais criticar a legitimidade de tal site ou organização existir, pois não? Se por acaso fores parar a um site desses, aposto que não vais deixar lá um comentário que o autor é um maluquinho / fanático porque, afinal, já sabe ler – o que é que lhe importa que outros não saibam?

E, além disso, não vais (a não ser que sejas, desculpa dizer, um idiota) dizer que, como há problemas no mundo bem maiores que o analfabetismo, não é legítimo uma pessoa importar-se com esse problema e tentar fazer algo para o resolver. O típico “há criancinhas a morrer à fome, e tu importas-te com isso?!?” é algo absurdamente arrogante. É que nem tu, nem eu, nem ninguém tem autoridade moral para dizer a outra pessoa: “este aqui é o maior problema no mundo, logo é estúpido / imoral / whatever preocupares-te com qualquer outro, enquanto este existir.”

Ora, eu acho – isso é outra guerra, e posso estar certo ou estar errado, mas de uma forma ou de outra isso depende dos factos, da realidade – que a religião é um problema muito maior no mundo do que o analfabetismo. Não vou dizer aqui as minhas razões para achar isso (é só lerem outros posts), mas a questão é que o acho. Daí importar-me com a questão, e querer fazer alguma coisa.

Isto não me define. Não é a “causa da minha vida” (afinal, tenho blogs desde pelo menos 2004, e criei este só em 2010), não é a coisa mais importante nela. Tenho interesses, preocupações e “causas” que são mais importantes para mim do que isto. Mas não me digam que não é legítimo importar-me com esta questão, e que fazê-lo me torna um “fanático”, um “maluquinho que passa os seus dias a dizer para o mundo que não acredita no coelhinho da Páscoa”, ou coisas do género.

Saramago e a religião

Segunda-feira, 19 de Outubro, 2009

Tenho visto vários comentários, tanto no artigo do Público como em vários blogs portugueses, a criticar José Saramago por ter dito… bem, vejam o link anterior.

Comentários esses que chamam “banais” às afirmações de Saramago, insinuam que é preciso estudar teologia antes de se poder criticar a religião, dizem o chorrilho de disparates habitual sobre os ateus e o ateísmo, e… bem, já se sabe como é. O mais triste são os comentários de quem não tem qualquer crença religiosa, mas mesmo assim se sente chocado e ofendido com isto, porque caiu na lavagem cerebral de que a religião merece “paninhos quentes” e um respeito especial e inquestionável.

Como a paciência para estar sempre a corrigir os mesmos erros já não é muita, e me sinto enojado só por ler, quanto mais citar, certas coisas que já li hoje, prefiro comentar isto na forma de pequenos parágrafos, mais ou menos independentes uns dos outros. Nem todos se aplicam a todas as críticas, obviamente.

  • Não há qualquer tipo de evidências, provas, etc. da existência de qualquer tipo de deus. Nada. Nicles. Zero. Logo, a teologia é uma não-disciplina, tem tanto mérito e importância como a painatal-logia ou a gambozinologia. E, sim, caros teólogos, vocês desperdiçaram a totalidade das vossas vidas. Deal with it (se bem que sei que nunca o farão, é muito mais fácil manter uma ilusão confortável do que quebrá-la).
  • Chamar “banal” à afirmação de que Deus não existe é o mesmo que chamar “pouco sofisticado” a quem diz que 2+2=4, porque quem está num “nível espiritual mais elevado” tem “fé” de que 2+2=5, ou isso é verdade num plano espiritual tão ou mais importante do que o físico, ou para ele os números têm um significado “mais profundo”, ou outras baboseiras new-age sem significado. Dizer as coisas como elas são de forma simples e directa (como “o rei vai nu”, bem aplicável a este caso) não é “banal” ou “pouco sofisticado”.
  • Crenças religiosas não merecem mais respeito e consideração do que qualquer outro tipo de crenças (ex. “a Terra é redonda” ou “há ovnis a mutilar gado nos EUA”) apenas por serem religiosas. A única coisa que importa é: é verdade?
  • Hitler era católico! Párem lá de o incluir nessa absurda lista de “monstros ateus”. O facto de já terem sido corrigidos relativamente a isso centenas de vezes e mesmo assim o continuarem a fazer demonstra bem quanta importância dão a factos e à realidade… e quão honestos são.
  • Quanto aos outros, há muito de religião em sistemas como o Estalinismo: culto ao líder, rituais, “rezas”, livros “sagrados” (ex. o livro vermelho de Mao), supressão de ideias contrárias, controlo de “pureza” ideológica, irracionalidade, dogma acima de factos, e afins. Se perseguiam as religiões estabelecidas, era apenas porque não queriam competição. Religião e “Deus” não são a mesma coisa, e é possível haver uma sem crença no mesmo. Nenhum povo alguma vez sofreu por excesso de racionalidade e cepticismo.
  • De qualquer forma, quando dizem que “monstros ateus fizeram isto e isto”, querem dizer que o fizeram por não terem medo de um castigo divino. Já pensaram na hedionda distorção de moralidade que isso é? E estão, portanto, a dizer que vocês iriam para a rua roubar, violar e matar se neste momento perdessem a vossa fé, porque não vêem nenhuma razão para não fazer tais coisas, excepto o medo do inferno? O que é que isto diz sobre vocês?
  • Houve quem falasse da “necessidade do Homem para com a espiritualidade”. Isso tem outro nome quando se é mais jovem: “amigo imaginário”. Uma coisa não é real só porque se quer muito. Mesmo que a vida fosse cinzenta e sem sentido sem a existência de um deus e de vida depois da morte (não o é), isso não tornaria mais provável a sua existência.
  • Quem diz que “as críticas de Saramago à Bíblia só se aplicam relação ao Antigo Testamento, porque a mensagem do Novo é paz e amor” está a precisar de realmente ler a Bíblia (além de que Jesus supostamente disse que não vinha para mudar uma letra da lei antiga). Mas, tipicamente, os ateus conhecem-na melhor do que quem acredita que existe um livro escrito pelo criador do universo, do qual depende a sua salvação, mas mesmo assim nunca arranjou tempo para o ler…
  • Não me venham dizer que “mais vale acreditar, por via das dúvidas“, please. Isso é completamente idiota (pista: há mais do que uma religião no mundo…)

“You’re too stupid for me to argue with you.”

Terça-feira, 30 de Junho, 2009

“If it’s futile, then that’s unfortunate, but I don’t think it’s a reason for not even trying. I think it would be… defeatist and rather cowardly, and rather actually… well, almost condescending, almost contemptuous to say… “you’re too stupid for me to argue with you.” I would never wish to say that.”

– Richard Dawkins

Irlanda, Igreja Católica… “ah, pois, mas o ateísmo é que é o verdadeiro problema”

Segunda-feira, 25 de Maio, 2009

Acho que aqui não há muito a acrescentar a este post do Daylight Atheism, Catholicism’s Hollow Claims of Moral Authority.

O início do post:

The outgoing Archbishop of Westminster, Cormac Murphy-O’Connor, had some choice words for atheists at the ceremony this week to install his successor:

“What is most crucial is the prayer that we express every day in the Our Father, when we say ‘deliver us from evil’. The evil we ask to be delivered from is not essentially the evil of sin, though that is clear, but in the mind of Jesus it is more importantly a loss of faith. For Jesus, the inability to believe in God and to live by faith is the greatest of evils.

…You see the things that result from this are an affront to human dignity, destruction of trust between peoples, the rule of egoism and the loss of peace. One can never have true justice, true peace, if God becomes meaningless to people.”

Like others who came before him, this cardinal views atheism as “the greatest of evils”, literally the worst act a human being can possibly commit. Too bad for the cardinal that, at the time he gave this speech, an enormous counterexample was staring him in the face:

Tens of thousands of Irish children were sexually, physically and emotionally abused by nuns, priests and others over 60 years in a network of church-run residential schools meant to care for the poor, the vulnerable and the unwanted, according to a report released in Dublin on Wednesday.

Tens of thousands of children, suffering horrific abuse, degradation, and brutal assault both physical and sexual, over a period of decades. The sheer scope of the problem makes it impossible to explain away as the result of a few bad apples; cruelty this widespread and this institutionalized could only come about as the result of evil and corruption deeply entrenched in the hierarchy of church power.

Não acho que dê para acrescentar muito mais a isso.

E antes que me digam que isto não é representativo da Igreja Católica, eu lembro-vos do que a mesma fez enquanto tinha poder para tal: inquisição, tortura de “hereges”, queima de “bruxas”, censura de todos os livros por default (isto é, havia uma lista de livros permitidos, e não de livros censurados), cruzadas, e afins. E isso não parou por a Igreja ter pensado “espera aí, isto não está certo, é uma crueldade monstruosa, vamos parar e realmente tentar fazer algum bem ao mundo”. Não, parou quando deixaram de ter poder para isso. E acho que nunca devemos deixar de mencionar esse facto. Tal como os judeus dizem em relação ao Holocausto, “nunca mais.”

Abuso de crianças? “Trivialidades.” Tudo é justificável para um culto de morte que acredita que a vida terrena não tem qualquer importância, e que a única coisa que importa é salvar almas.


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