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Arquivo da Categoria ‘Cristianismo’

Filipinas: Igreja Católica tenta causar demissão de ministra da saúde por esta tentar combater a SIDA

Segunda-feira, 1 de Março, 2010

Notícia aqui. Alguns “highlights”:Preservativos -- o maior pesadelo do Papa

Archbishop Ramon Arguelles said on the Church-run Radio Veritas: “It is immoral for a government official to support the distribution of condoms which we know do not really reduce or stop the spread of HIV-AIDS.”

“Sabem”? Mentirosos. Sabem muito bem que é exactamente ao contrário. O problema é que, sendo o culto da morte que são, estão-se nas tintas para o sofrimento humano; a única coisa que importa é “salvar almas”.

Another bishop, Dinualdo Gutierrez, joined the attack when he said Cabral should not remain as health secretary. Gutierrez said Cabral was not a good Catholic — if she was one in the first place — if she backs the distribution of the prophylactics.

Naturalmente. Se não é uma boa Católica, não pode nunca ser ministra seja do que for — afinal, aquilo é uma teocracia. Que importam as qualificações para fazer o seu trabalho — a única coisa que importa é o quanto ela obedece à Igreja e ao Papa.

Oh, esperem… não estamos a falar da versão Católica da Arábia Saudita; trata-se, sim, de um país supostamente laico. Erro meu, desculpem. Nem sei como pude fazer tão confusão.

Ms Cabral responded by saying that the Catholic Church can be “vicious” at times, but she intended to continue defying it. “Of course, I am afraid of the Church. They are very powerful and they can sometimes be very vicious. I’m not exactly one who likes to live dangerously,” Cabral told a local TV station.

“Viver perigosamente”. Parece que estamos a falar de alguém que se atreveu a testemunhar contra a Máfia, e está nalgum programa de protecção de testemunhas, sempre a olhar por detrás do ombro. Não era suposto a Igreja ser uma promessa de paz e de alívio, em vez de uma fonte de medo neste mundo? E não era suposto ela não interferir na política e na governação de uma nação? Voltámos à Idade Média?

However, she said that she’d rather live dangerously than do nothing against the very alarming rise in the number of HIV/AIDS cases in the Philippines.

Felizmente, ainda há pessoas no mundo capazes de fazer frente aos “padrinhos” — porque há vidas demais em jogo para que uma pessoa com algum vestígio de moralidade possa ficar calada. Mesmo assim, o facto de uma ministra ter medo de ser demitida, ou pelo menos prejudicada e vilificada, por causa da Igreja é assustador.

FAQ: “E se estiveres errado, e Deus existir? Isso não te preocupa?”

Terça-feira, 23 de Fevereiro, 2010

(Nota: isto não é o mesmo que a pergunta já existente no FAQ, “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”. Essa entrada no FAQ é uma rejeição da Aposta de Pascal; esta aqui é uma resposta à possibilidade remota de que Deus, afinal de contas, exista.)

Esta é uma questão muitas vezes posta por crentes (especialmente Cristãos) a ateus. E se estivermos errados, se Deus afinal existir, e se depois de morrer, como se costuma dizer, nos encontrarmos com o nosso criador?

Primeiro, tenho de dizer que essa não é uma possibilidade que efectivamente me preocupe, já que tenho todas as razões para acreditar que não existe nenhum deus ou deuses. O universo aparenta ser 100% natural, e, se por um lado a ciência está longe de saber tudo, por outro lado não existe nada até hoje conhecido que absolutamente exija uma explicação sobrenatural, e que não possa — nunca — ser explicado em termos naturalísticos. Por outras palavras: uma total ausência de evidências “a favor” é, ela própria, uma evidência forte “contra” (e não é que a humanidade não tenha procurado, nos seus milénios de História), e, por isso, todas as evidências sugerem que o número de divindades no universo é zero.

Segundo, se houvesse um deus, seria mesmo assim virtualmente impossível que as religiões humanas estejam certas. Os seus deuses são pequenos, provinciais, territoriais, infantis, inseguros e tribais. E muito, muito humanos. Têm emoções humanas (incluindo uma boa dose de ciúmes, que por alguma razão neles nunca é visto como uma falha de carácter), têm um “povo escolhido”, supostamente criaram um universo que agora sabemos ser incrivelmente vasto e complexo (o que não se sabia quando as religiões apareceram), mas o nosso pequeno e insignificante planeta ainda é a única coisa que importa no universo — e as nossas vidas físicas neste mundo nem são o que realmente importa. (A ideia de um universo antigo (muito, muito mais do que a humanidade, ou mesmo que o nosso planeta), vasto e incrivelmente diverso, simplesmente como “cenário de fundo” de um teste para determinar se somos salvos ou não… é completamente espatafúrdia.) Os deuses antropomórficos das nossas religiões são tão obviamente criados por humanos, que não podem ser verdadeiros. Se houvesse “lá fora” um deus capaz de criar um universo, ele/ela seria provavelmente demasiado complexo/a para repararmos sequer nele/nela… e ele/ela de certeza que não se importaria connosco, a nossa moralidade, as nossas vidas sexuais :) , nem nos julgaria e criaria lugares para irmos depois da morte. Por outras palavras, se houvesse realmente um deus num sentido cósmico, não nos afectaria de forma alguma — e seria infinitamente maior (e menos “igual a nós mas mais poderoso”) do que as divindades inseguras, birrentas e obcecadas por órgãos genitais :) das nossas religiões.

Terceiro, e se, apesar de tudo o que foi dito acima, mesmo assim houvesse um deus, e ele/ela se importasse connosco, e nos julgasse de alguma forma depois das nossas mortes físicas? Bem, depende dos standards de julgamento. Talvez não se importasse com a nossa moralidade, ou com o facto de ser adorado/a ou não, mas sim com alguma coisa completamente diferente. Não temos forma de saber. Talvez, por exemplo, fosse uma divindade para quem a única coisa importante é tratarmos bem os nossos gatos de estimação (que toda a gente sabe que são divinos).

Mas vamos supor que realmente tal ser se importaria com os nossos actos, a nossa moralidade. Nesse caso, a questão final é: Deus é bom, ou mau? Rejeito desde já as corrupções habituais do significado de “bom”, tais como “aquilo que Deus quiser é por definição bom”. Tem de haver algum standard, além dos caprichos de um ser poderoso.

Desta forma:

  1. um deus bom — o que exclui o tirano inseguro e obcecado pela sexualidade no qual os três monoteísmos acreditam — recompensaria quem tivesse vivido uma boa vida, sendo em geral “fixe” para as outras pessoas, e cheio de curiosidade em descobrir e aprender coisas, seguindo as evidências disponíveis até à sua conclusão lógica. As evidências disponíveis não sugerem de forma alguma a existência de um deus, por isso, acreditar num apesar disso não é mais do que “wishful thinking” intelectualmente desonesto, o que não agradaria a tal divindade. Um deus bom recompensaria bons ateus e bons crentes, e puniria maus ateus e maus crentes — mas provavelmente ficaria um bocado decepcionado com a falta de curiosidade e honestidade da parte dos crentes (por outro lado, ele/ela teria também de se explicar — porquê esconder-se e criar o universo de forma que este implique a sua não-existência?). Um deus bom não seria inseguro ou imaturo, e não precisaria de, desejaria ou se importaria com a questão de ser adorado, ou qualquer outro tipo de massagens ao ego. Desta forma, não tenho qualquer medo de um deus bom.
  2. um deus mau — tal como Yahweh ou Alá (e se não concordas comigo, não andas a ler os teus livros sagrados, e estás a inventar “Deus” tu próprio) — seria em grande parte como um ditador brutal num regime totalitário. Ninguém está a salvo desse monstro; não vale a pena esperar justiça ou um tratamento previsível, imparcial e justo. Ele possui-te, és propriadade dele: um escravo, nada mais. “Dar-lhe graxa” pode resultar por algum tempo, mas ele pode sempre torturar-te ou matar-te por um capricho, porque, para ele, não és um ser humano com emoções, és uma ferramenta para usar, um brinquedo para brincar. Mesmo assim, “dar-lhe graxa” — isto é, adorá-lo, viver a vida em função dele, e obedecer-lhe cegamente, não importa o sofrimento causado a outros — será provavelmente a opção mais segura. É claro que tal opção, por outro lado, fará de ti um cobardezinho nojento, sem qualquer integridade moral. Esse deus é o tipo de ser que realmente criaria dois lugares para irmos depois de morrer — um para tormento eterno, o outro para lhe darmos ainda mais “graxa”. A única coisa moral a fazer na presença de tal monstro, ao sermos condenados por termos a moralidade que ele não tem, seria cuspir-lhe na cara, como acto final de desafio.

Felizmente, não acredito na existência de nada do que foi acima descrito. E isso só me faz sentir livre e vivo. :)

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Independentemente de Deus existir ou não, a igreja faz bem ao mundo, certo?”

Segunda-feira, 22 de Fevereiro, 2010

Infelizmente, os factos sugerem o contrário.

Primeiro: relativamente à “igreja”, vou aqui incluir não só a igreja Católica, mas também as igrejas Protestantes em geral (muito influentes nos EUA), e as teocracias Muçulmanas.

Segundo: é importante distinguir os crimes feitos pela religião / igreja, ou por causa delas, ou em nome delas, de crimes feitos simplesmente por religiosos (ou mesmo membros dessas igrejas). Por outras palavras, não culpo o Cristianismo pelo Holocausto apesar de Hitler ter sido Católico, nem culpo a religião ou a própria igreja Católica directamente pela pedofilia dos padres — não há nada nem nos livros sagrados nem nos “estatutos” da igreja que leve a cometer tais crimes. Mas culpo a igreja em questão por dar muito mais importância à sua reputação do que à inocência e à vida de crianças inocentes, protegendo da lei os padres pedófilos e impedindo que estes sejam punidos pelos seus crimes, e movendo-os de paróquia em paróquia quando os seus actos são descobertos localmente. E, sim, culpo a igreja Católica por ter suportado em vários aspectos o regime Nazi.

Terceiro, não vou incluir aqui crimes limitados ao passado, como a Inquisição ou as Cruzadas. Faço notar apenas que a igreja Católica deixou de cometer essas atrocidades apenas quando perdeu o poder absoluto que tinha, e não por ter chegado à conclusão de que aquilo era errado e imoral. Acho que isso diz muito.

Quarto, reconheço que não é tudo mau — as várias igrejas / religiões fizeram e fazem efectivamente actos de caridade, sem dúvida louváveis, tanto em pequena como em grande escala. Qualifico isso, no entanto, com o facto de que muitas vezes trata-se mais de uma forma de espalhar a fé do que de caridade “desinteressada”, e, de qualquer forma, a religião está longe de ser necessária para se cometer actos de bondade humana.

De qualquer forma, acho que o balanço é completamente negativo.

Qual é, em termos humanos, o problema com a religião / igreja hoje em dia? Estes, para começar:

  • sexismo: desde os casos extremos nas teocracias Muçulmanas, em que as mulheres não têm acesso (sob pena de morte) a qualquer educação escolar, são elas próprias condenadas se forem violadas (muitas vezes não acontecendo nada ao violador), são demonizadas como seres “sexuais” que “tentam” os homens (inocentes, coitadinhos) e por isso são submetidas ao horror que é a mutilação genital forçada (a ideia é que, se perderem completamente a capacidade de ter prazer sexual, já não vão “seduzir” os homens…), e, fora do Islão, temos toda uma cultura ocidental conservadora que diz que o papel das mulheres é ter filhos e obedecer aos maridos… exactamente como diz na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento.
  • oposição ao uso de preservativos — incluindo através de mentiras, como “aumentam o risco de Sida” –, provocando o sofrimento e morte de milhões em África, por exemplo, já que em muitas zonas não há nenhuma fonte de informação além dos missionários. Seja por questões religiosas (“Deus odeia contraceptivos e/ou sexo por prazer”), seja por questões mais mundanas (aumentar ao máximo o número de crentes), este acto de quase genocídio é um crime imperdoável.
  • oposição (não se limitando a não o fazer eles próprios, mas tirando sempre que possível direitos aos outros) ao aborto, direitos dos homossexuais (vistos como um “mal moral”) e eutanásia
  • oposição à educação sexual — paradoxalmente, a melhor forma de reduzir o número de gravidezes indesejadas, e, por conseguinte, abortos.
  • visão do sexo (parte perfeitamente natural e saudável do que é ser-se humano) como algo “porco” e “imoral”.
  • oposição — por razões que não passam de superstição — a ramos promissores da medicina, como a investigação em células estaminais, clonagem de órgãos, etc..
  • guerras e ódios de origem religiosa — nem todos no Médio Oriente (ver Irlanda, por exemplo)
  • protecção dos padres pedófilos, que muitas vezes são simplesmente movidos de uma paróquia para outra, quando os seus actos se tornam conhecidos, demonstrando a total ausência de preocupação com as vítimas deles.
  • censura a oposições à religião, mesmo por não-crentes da mesma, devido à ideia de que a religião está acima de qualquer crítica (ex. a condenação pela parte de Cristãos (!) e até ateus (!!) à publicação dos cartoons de Maomé, quando a única condenação devia ter sido aos Muçulmanos que praticaram violência e intimidação).
  • crianças traumatizadas por descrições ultra-detalhadas do inferno.
  • atitude anti-intelectualismo, anti-educação e anti-ciência (por exemplo, a ideia de que se a razão e a fé entram em conflito, se deve preferir a fé, que a razão humana não é de confiança, e assim por diante).
  • anulação da curiosidade humana, por se dizer / achar que se tem todas as respostas (nem que estas sejam simplesmente “foi Deus”).
  • mentalidade de “morte em vida”, que diz que esta vida é só sofrimento e não é “the real thing”, que o nosso tempo neste mundo não passa de um teste para determinar a salvação ou não da nossa “alma”, que a vida a sério começa depois de morrermos, fazendo com que as pessoas aceitem a sua condição e não tentem melhorar o mundo em que vivem.
  • actos de violência e terror – sobretudo nas teocracias Muçulmanas, em que a “blasfémia” (“um crime sem vítima”, como já foi descrita) e a apostasia são punidas com a morte, mas também em países como os EUA, em que terroristas Cristãos explodem clínicas de aborto, assassinam médicos que trabalham nas mesmas, e não só.
  • mutilação do conceito de moralidade para passar a significar simplesmente “obedecer aos caprichos de um ser” — como se esse ser, caso existisse, estivesse acima da moralidade.
  • não-pagamento de impostos, tratando-se de algumas das organizações mais ricas do mundo, e estando a economia mundial como está.

FAQ: “Vocês criticam muito a moralidade do deus da Bíblia, mas eu não me revejo nesse deus! O deus em que acredito é bom!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

“Não me… revejo“!? 8O Estás a falar de um espelho, certo?

OK, OK, vamos mais uma vez ser generosos, e assumir que o que querias realmente dizer era “não acredito nesse deus”, em vez de ser uma admissão de que ele é basicamente inventado por ti, uma construção da tua mente, que gosta do que tu gostas e detesta o que tu detestas, reforçando assim o que já pensas à partida. ;)

Põe-se, então, a questão óbvia: como é que sabes? Quem és tu para dizer que todos os crentes na tua religião, para não falar de outras religiões, estiveram sempre errados — mesmo quem viveu perto dos fundadores, e escreveu os livros sagrados — e continuam a estar, nos dias de hoje? Quem és tu para teres tido uma inspiração “divina” sobre a verdadeira personalidade de Deus que escapou, durante milhares de anos, a papas, rabbis, ayatollahs, e aos crentes mais devotos das várias religiões?

E depois dizem que os ateus são arrogantes…

Para pôr as coisas em perspectiva, vamos usar o exemplo do Cristianismo. Quem és tu para dizer que quem escreveu os Evangelhos estava errado, que S. Paulo estava errado, que todos os padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas nos últimos 2000 anos estiveram errados, que mais de 99% dos crentes de hoje em dia estão errados, porque tu e só tu sabes como Deus realmente é?

Quem és tu para decidir (não há outra palavra) que Deus “deve” ser bom, ou gostar disto, ou não gostar daquilo, ou assim ou assado? Que inteligência nunca vista, ou fonte misteriosa de conhecimento, tens tu para conseguir determinar isso? Como é que tu, mero mortal que és, podes decidir como é que o criador do universo “deve” e “não deve” ser?

Como ateu, eu acredito (e faço-o por ter razões para isso, não por um belo dia o ter decidido) que todas as religiões estão erradas, e que os livros sagrados não são mais do que a imaginação e os preconceitos dos autores. Porém, para quem não tenha estudado a origem dos mesmos (isso é outra longa história), é vagamente viável que eles realmente definam a religião, ou o ser que é a base dessa religião (ignorando todas as contradições, é claro). Mas ignorá-los e dizer “não, afinal Deus é assim, porque é assim que eu acho que Deus deve ser”… é de uma arrogância nunca vista. E o mais incrível é que quem afirma isso (ouço-o praticamente em todas as discussões sobre religião, incluindo uma ainda no início desta semana) não percebe o que está realmente a dizer.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Afinal, se eu estiver errado, não perco grande coisa, mas se tu estiveres errado…”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

A tua questão é, essencialmente, aquilo que é conhecido como Aposta de Pascal (em inglês, Pascal’s Wager). Foi sugerida por Blaise Pascal, matemático francês do século XVII, e continua a ser repetida (e repetida, e repetida) por apologistas Cristãos, muitos dos quais, aparentemente, julgam que são os primeiros a atingir essa conclusão, já que fazem essa pergunta com uma atitude de “aposto que nunca pensaste nisto!”…

À primeira vista, parece fazer sentido. Afinal, um crente que esteja errado (i.e. afinal de contas Deus não existe) não perde, aparentemente, grande coisa (perda finita), mas um não-crente que esteja errado (i.e. afinal Deus existe) será condenado a uma eternidade de sofrimento no Inferno — punição infinita, e, por isso, perda infinita. Portanto, fará sentido “jogar pelo seguro” e acreditar… certo?

Não exactamente. Lembra-te de que Pascal sugeriu isto há cerca de 350 anos, uma altura em que, basicamente, havia uma religião à volta dele: o Catolicismo. Não é bem assim, hoje em dia… há centenas, se não milhares de variantes do Cristianismo, muitas das quais afirmam ser a única versão / interpretação válida, estando os crentes de todas as outras versões tão condenados como qualquer “infiel”. E isso é só o Cristianismo; outras religiões, como o Judaísmo (com todas as suas variantes) e o Islão (com todas as suas variantes) também incluem exigências de exclusividade (e descrevem os seus deuses como “ciumentos” — palavras deles!). Devido a essa exclusividade, não é permitido escolher várias religiões / deuses em simultâneo, “por via das dúvidas”. E, claro, há outras religiões no mundo além dos três monoteísmos.

Na verdade, se formos pela Aposta de Pascal, havendo tantas religiões, as probabilidades de escolher a religião errada, e dessa forma ser condenado, são bem acima de 99%, e para todos os efeitos indistinguíveis das chances de ir para o Inferno sendo um ateu (de acordo com a Aposta).

Ou, pondo a coisa de outra forma: vamos assumir que és um Cristão. Qualquer Muçulmano vai-te dizer que irás para um “lago de fogo” por não acreditares em Alá. Não é melhor acreditar, por via das dúvidas? Não estás a arriscar imenso por não acreditares em Alá? Mas se o fizeres, tens de rejeitar a divindade de Jesus Cristo (ambas as religiões exigem crenças incompatíveis), e, aí, se o Cristianismo estiver certo vais também para o Inferno.

Não podes escolher ambas. E a ideia de que “todos adoram o mesmo deus, e as várias interpretações são válidas” é um modernismo inventado recentemente, em nada suportado pelos livros sagrados, nem pela maioria dos crentes de ambas as religiões. O mesmo para a ideia de que “Deus é bom e não enviaria ninguém para um inferno”.

Há mais problemas com a Aposta de Pascal. Por exemplo, é realmente possível escolher as nossas crenças? Serias capaz de decidir amanhã que, por razões de segurança, não acreditas mais em Yahweh / Jesus, e que acreditas que Alá é o verdadeiro e único deus? Essa crença seria sincera? E, não sendo sincera, achas que algum deus realmente digno desse nome se deixaria enganar?

Também não é realmente verdade que um crente que esteja errado (isto é, acredite toda a sua vida, e afinal não exista qualquer deus) “não perde muito”. Isso será assunto para outro post neste blog, mas, resumindo muito, tal crente, em grande parte, desperdiçou a sua vida, traiu o seu intelecto e a realidade, promoveu uma mentira, combateu a educação e o avanço da ciência, provavelmente contribuiu para aumentar o sofrimento humano (crentes em geral são mais conservadores do que o resto da população, e por isso acham perfeitamente aceitável — e até virtuoso — tirar direitos básicos a outros (homossexuais, mulheres, etc.), ou propagar doenças proibindo o uso de preservativos e opondo-se à educação sexual, porque “Deus assim quer”), e aceitou a ignorância (encarnada na resposta “foi Deus”) em vez de tentar realmente entender o mundo em que vivemos. Em resumo, desperdiçou a sua vida em nome de uma mentira. O medo de admitir isto, infelizmente, mantém muitos crentes presos na sua crença, já que ninguém gosta de admitir que foi enganado e que desperdiçou anos ou décadas de uma vida que, afinal, é a única que tem.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Sem Deus / religião / a Bíblia, como é que pode haver moralidade?”

Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

(Nota: esta pergunta não é uma repetição da aparentemente semelhante “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“. Essa referia-se às pessoas “portarem-se bem” por medo de punição ou desejo de recompensa; esta aqui é sobre a crença comum da parte dos crentes (e, incrivelmente, de alguns não-crentes, também) de que as regras éticas da sociedade, a nossa moralidade, o nosso “standard” de certo e errado vêm de Deus / da religião / da Bíblia.)

Isto pode ser uma surpresa para ti, mas se és uma pessoa boa, atenciosa, altruísta no bom sentido, e que se importa com os outros, não retiraste isso da religião. Muito pelo contrário.

Se (muito comum nos países Católicos da Europa, como Portugal) a tua religião é simplesmente “acredito que Deus é como um pai que nos ama, e que quer que sejamos bons uns para os outros”, então, se por um lado és muito mais saudável e ético do que um enorme número de crentes, por outro lado inventaste essa religião. Criaste-a. Ou, em alternativa, o padre ou pastor que te instruiu sobre Deus e a religião inventou-a ele próprio.

Isto porque “simplesmente sejam bons uns para os outros” é uma filosofia que virtualmente não é suportada na Bíblia Cristã. Não é isso que o deus Cristão é retratado como sendo, ou como querendo — especialmente, mas não apenas, no Antigo Testamento. De forma alguma.

De acordo com a Bíblia — e, mais uma vez, se a ignoras, estás a inventar a tua própria religião –, Deus realmente acha que as mulheres são inferiores aos homens. Ele considera a escravatura aceitável. Ele acha que quem desobedeça a qualquer das suas muitas regras arbitrárias deve ser imediatamente morto pelos outros crentes. Ele acha que homossexuais, banqueiros, crianças desobedientes e pessoas que comam mariscos devem ser condenados à morte. E ele não tem quaisquer problemas relativamente ao genocídio — matar civilizações inteiras, incluíndo mulheres e crianças.

A maioria dos Cristãos, naturalmente, nunca tem a sua atenção dirigida (por padres, pastores, etc.) para o descrito acima. A maior parte dos que realmente são confrontados com isso são, em geral, suficientemente saudáveis mentalmente, e suficientemente morais, para repudiar esses ensinamentos (mais uma vez, criando assim a sua própria religião em “versão soft”). E aqueles que não o são tornam-se fundamentalistas: pregadores e agentes de intolerância, sofrimento e ódio, para quem tudo o que seja menos do que uma teocracia brutalmente repressiva não é aceitável.

O que eu quero dizer com isto é que, se és um crente moral, bondoso e que se importa com os outros, és assim apesar da tua religião, não graças a ela. Tens de ignorar não só a quase totalidade do teu livro sagrado, caso contrário provavelmente já estarias preso (por, por exemplo, apedrejares o teu filho até à morte por ele chegar tarde de uma festa). E além disso tens de rejeitar aquilo em que a tua igreja acreditou piamente durante quase toda a sua existência (e de certa forma ainda acredita, mas já tem alguma vergonha de o admitir): gays são uma abominação, mulheres são inferiores e devem obedecer aos maridos, e assim por diante.

Como é que a tua moralidade pode vir da religião, se tens de ignorar quase todos os ensinamentos dessa religião para não seres um monstro?

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

Irlanda, Igreja Católica… “ah, pois, mas o ateísmo é que é o verdadeiro problema”

Segunda-feira, 25 de Maio, 2009

Acho que aqui não há muito a acrescentar a este post do Daylight Atheism, Catholicism’s Hollow Claims of Moral Authority.

O início do post:

The outgoing Archbishop of Westminster, Cormac Murphy-O’Connor, had some choice words for atheists at the ceremony this week to install his successor:

“What is most crucial is the prayer that we express every day in the Our Father, when we say ‘deliver us from evil’. The evil we ask to be delivered from is not essentially the evil of sin, though that is clear, but in the mind of Jesus it is more importantly a loss of faith. For Jesus, the inability to believe in God and to live by faith is the greatest of evils.

…You see the things that result from this are an affront to human dignity, destruction of trust between peoples, the rule of egoism and the loss of peace. One can never have true justice, true peace, if God becomes meaningless to people.”

Like others who came before him, this cardinal views atheism as “the greatest of evils”, literally the worst act a human being can possibly commit. Too bad for the cardinal that, at the time he gave this speech, an enormous counterexample was staring him in the face:

Tens of thousands of Irish children were sexually, physically and emotionally abused by nuns, priests and others over 60 years in a network of church-run residential schools meant to care for the poor, the vulnerable and the unwanted, according to a report released in Dublin on Wednesday.

Tens of thousands of children, suffering horrific abuse, degradation, and brutal assault both physical and sexual, over a period of decades. The sheer scope of the problem makes it impossible to explain away as the result of a few bad apples; cruelty this widespread and this institutionalized could only come about as the result of evil and corruption deeply entrenched in the hierarchy of church power.

Não acho que dê para acrescentar muito mais a isso.

E antes que me digam que isto não é representativo da Igreja Católica, eu lembro-vos do que a mesma fez enquanto tinha poder para tal: inquisição, tortura de “hereges”, queima de “bruxas”, censura de todos os livros por default (isto é, havia uma lista de livros permitidos, e não de livros censurados), cruzadas, e afins. E isso não parou por a Igreja ter pensado “espera aí, isto não está certo, é uma crueldade monstruosa, vamos parar e realmente tentar fazer algum bem ao mundo”. Não, parou quando deixaram de ter poder para isso. E acho que nunca devemos deixar de mencionar esse facto. Tal como os judeus dizem em relação ao Holocausto, “nunca mais.”

Abuso de crianças? “Trivialidades.” Tudo é justificável para um culto de morte que acredita que a vida terrena não tem qualquer importância, e que a única coisa que importa é salvar almas.

O regresso da vingança do Papa parte II

Quarta-feira, 1 de Abril, 2009

Visto num comentário no Pharyngula:

Given the other stuff he believes, his stand on condoms makes perfect sense. They do “make the situation worse,” when you understand that for him a baby dying of AIDS is not as bad as people having sex while paying no price whatsoever.

É o que eu já disse aqui, mas de forma muito mais sucinta e directa. Acho que tenho de ler mais. :)

Papa: preservativos *pioram* o problema da sida

Terça-feira, 17 de Março, 2009

Fonte: Times Online

Aids “is a tragedy that cannot be overcome by money alone, and that cannot be overcome through the distribution of condoms, which even aggravates the problems”.

Agrava? Como?

Nope, ele não diz. Mas, claro, propõe uma “solução”…

He said the “traditional teaching of the Church” on chastity outside marriage and fidelity within it had proved to be “the only sure way of preventing the spread of HIV and Aids”.

Claro. Uma solução que não venha deles, por muito eficaz que seja, não é solução. Se a deles é irrealista e está provado que é ineficaz… paciência. Admitir que há uma opção melhor era abdicar do controlo que ainda têm sobre grande parte do mundo. E é impressionante como não têm problemas em provocar o sofrimento e a morte de milhões. Bem, quando se acredita que o sofrimento em vida é irrelevante – ou seja, quando se é um culto da morte –, isto faz todo o sentido.

E, ei, pelo menos são coerentes

Como lidar com literalistas bíblicos

Domingo, 15 de Fevereiro, 2009

Adorei este artigo.

Se por um lado não desejaria que tal praga entrasse no meu país (felizmente, parece ser um fenómeno Americano, pelo menos a versão Cristã – o caso do Islão é outra história), por outro lado quase que tenho pena de não encontrar uns por cá, e, como o autor do artigo fez, fazê-los passar por uma merecida humilhação em público. Afinal, se eles dizem que a Bíblia é 100% a palavra de Deus, sem excepções nem contradições…

Lucas 6:30, palavras de Jesus:

Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames.

Curiosamente, não estou a ver nenhum líder evangélico a dar-me o seu avião particular, ou as suas limusinas, ou os biliões ganhos em dízimos, só porque eu lhe peça. Lá se foi o literalismo bíblico… :)


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