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Arquivo da Categoria ‘FAQ de Ateísmo’

FAQ: “Se não acreditas em Deus, porque é que falas tanto nele?”

Sábado, 20 de Fevereiro, 2010

Para começar, há que distinguir “falar de Deus” e “falar de religião“. Se o significado da pergunta é: porque é que eu me importo com isto, porque é que gasto tempo e esforço a criticar a religião, sugiro a leitura destes dois posts:

O mais provável é que a resposta esteja nos posts acima indicados, e provavelmente podia ficar por aqui. No entanto, se levarmos a pergunta à letra, ela não se refere a importar-me com a religião, mas sim a “falar de Deus”, sendo “Deus” provavelmente a versão mais popular nestas bandas, o deus Judaico-Cristão. A acusação implícita na pergunta é que, se falo tanto nele, se calhar é porque lá no fundo até acredito que ele existe…

Porém, quem leia realmente o que escrevo neste blog, em vez de simplesmente assumir coisas em relação a mim por me auto-declarar ateu (o nome do blog é uma boa pista…), verá que é raro falar propriamente de “Deus”, e que, quando o faço, é óbvio que estou a falar de um ser que considero fictício, tal como posso falar do Homem-Aranha num blog ou fórum sobre comics, sem que venha logo algum parvinho perguntar-me se, aos 35 anos, acredito que o Peter Parker existe…

Ao contrário do Homem-Aranha, no entanto, há realmente muita gente no mundo a acreditar no deus Cristão — cerca de dois mil milhões, ou seja, 1/3 do planeta –, gente essa que o considera real, e que vive em função dos supostos desejos (e muitas vezes caprichos) desse ser. E é a moralidade desse ser — tal como descrita nos livros sagrados, e/ou nas crenças dos crentes, se bem que estas últimas tendem a ser inventadas pelos mesmos para serem um reflexo deles próprios — que eu critico, no sentido de “vocês seguem um ser com estas características; o que é que isso diz sobre vocês? Ou nunca pensaram sequer nisso? Não têm problemas em seguir um ser que ou é 1) ciumento, inseguro, sexista, homofóbico, sádico e birrento, ou é 2) obviamente acabado de inventar por vocês?” Nada disto sugere minimamente que eu “acredite” nele de alguma forma… mas se os crentes acreditam, acho bem que sejam confrontados com a personalidade que eles próprios lhe dão.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Eu também sou ateu, mas as pessoas *precisam* de religião! Para onde é que se vão virar em alturas más?”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Eu podia responder dizendo que muito do suposto conforto vindo da religião não vem realmente da parte religiosa / metafísica da mesma: grande parte dos crentes usa a religião como uma fonte de comunidade, dando-lhe acesso a um grupo com interesses em geral comuns, encontros regulares, rituais, a sensação de “pertencer”, e, supostamente, apoio do grupo em alturas difíceis. É óbvio que isso pode ser encontrado num grupo não religioso.

Podia também argumentar contra o viver numa ilusão, contra o “wishful thinking”, e apelar a uma visão do mundo tão clara quanto seja possível pelas nossas capacidades. Ou seja, o facto de fazer a coisa certa ser difícil ou menos confortável não devia constituir razão para não fazer essa coisa. E a educação faz “milagres”. E sim, é possível lidar com a perda (ex. entes queridos) permanecendo no mundo real — isso é parte de ser adulto, de certa forma.

Mas acho que a minha resposta tem de se focar noutro ponto: que tremenda condescendência! Ao fazeres essa pergunta, estás basicamente a dizer o seguinte:

“Oh, é claro que eu e tu, como membros da elite, somos demasiado sofisticados, inteligentes e cultos para precisar de religião, mas o povinho, a ralé estúpida, o “rebanho”? É óbvio que precisam! Como é que aguentariam as vidinhas de miséria que têm sem acreditarem que um dia (mesmo que seja depois da morte) as coisas vão melhorar? Pessoas inteligentes e cultas vão ao psicólogo, mas o povinho vai à igreja! E como é que ficariam no seu lugar se não tivessem a autoridade de padres / pastores, e o medo do castigo divino? Achas que vão todos estudar ética e moralidade?”

Eu não quero que isto seja “wishful thinking” da minha parte — o tempo o dirá, se bem que provavelmente não no meu tempo de vida –, mas acredito que a humanidade é capaz de ser melhor do que isso, que as pessoas não são estúpidas e irracionais por razões “genéticas”, mas apenas de ignorância, de um anti-intelectualismo quase universalmente existente na sociedade, e de falta de educação. Acredito que o pensamento crítico pode ser ensinado, e pode ser aprendido por qualquer um. Acredito que o destino da religião é o mesmo da escravatura ou do racismo e sexismo institucionalizados: uma vergonha na História da humanidade, rejeitada em geral nos países civilizados (mais uma vez, não espero isso durante a minha vida, infelizmente). Em resumo, não aceito que se assuma que a maioria das pessoas é eterna e inevitavelmente ignorante e precisa de viver sob uma ilusão, uma mentira.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Não me importam todos os teus argumentos; acreditar em Deus faz-me sentir bem, por isso acredito!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Seja. Se admites que não estás minimamente interessado no que é real e no que não é, que escolhes as tuas crenças simplesmente pelo conforto que elas te dão, e que não vês problema nenhum em acreditares em algo só porque queres que seja verdade…

… então não tenho mais nada a dizer-te. Lamento. Bom resto de vida.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Só estás a atacar as formas mais primitivas / literais da religião, ignorando toda a teologia sofisticada.”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

Um problema aqui é que os “teólogos sofisticados” são uma minoria ínfima, sem influência ou poder (se bem que conseguem continuar a publicar livros), que virtualmente não afectam em nada as crenças da esmagadora maioria dos crentes. (Citando Richard Dawkins, quando um “teólogo sofisticado” diz numa igreja ou mosque que “não importa se Deus existe realmente ou não, o que importa é se ele é real para mim ou para ti”, os membros da congregação vão chamar-lhe ateu… e vão estar certos.)

E não são os “teólogos sofisticados” que exigem, e vão votar em, referendos para tirar direitos básicos a uma parte significativa da população, ou que cometem crimes violentos em nome do seu deus, ou que se opõem a ramos promissores da ciência por isso entrar em conflito com um livro escrito por primitivos pastores do deserto na Idade do Bronze.

Em resumo, “teólogos sofisticados” não me afectam, como ateu e como membro da sociedade. Não afectam a sociedade, ponto. E, a meu ver, não afectam sequer os outros crentes, incluindo tu próprio. São uma pseudo-elite a “brincar” numa brincadeira que só eles entendem, porque foram eles que a inventaram, a jogar um “jogo” que não passa para eles de uma masturbação intelectual, sem resultados práticos ou testáveis (alguém capaz de dizer que “Deus é o Deus para além de Deus” (Karen Armstrong) já deixou de se preocupar com o que é real e o que não é há um bom tempo).

Acuso-os também, já agora, de criar a sua própria religião (qualquer religião que não venha dos livros sagrados originais é criada pelos crentes actuais), um acto intelectualmente desonesto que já mencionei no passado.

E comparo a teologia à “painatalogia” ou à “gambozinologia”, o estudo detalhado de algo que não existe, e do qual os teólogos não sabem realmente mais do que o crente mais ignorante… ou do que o ateu típico; que forma têm eles de investigar, a não ser inventando?

De qualquer forma, se quiserem transmitir-me (comentando) alguma coisa brilhante dita por um “teólogo sofisticado” que achem que “dê a volta” às minhas críticas à religião, estejam à vontade.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês criticam muito a moralidade do deus da Bíblia, mas eu não me revejo nesse deus! O deus em que acredito é bom!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

“Não me… revejo“!? 8O Estás a falar de um espelho, certo?

OK, OK, vamos mais uma vez ser generosos, e assumir que o que querias realmente dizer era “não acredito nesse deus”, em vez de ser uma admissão de que ele é basicamente inventado por ti, uma construção da tua mente, que gosta do que tu gostas e detesta o que tu detestas, reforçando assim o que já pensas à partida. ;)

Põe-se, então, a questão óbvia: como é que sabes? Quem és tu para dizer que todos os crentes na tua religião, para não falar de outras religiões, estiveram sempre errados — mesmo quem viveu perto dos fundadores, e escreveu os livros sagrados — e continuam a estar, nos dias de hoje? Quem és tu para teres tido uma inspiração “divina” sobre a verdadeira personalidade de Deus que escapou, durante milhares de anos, a papas, rabbis, ayatollahs, e aos crentes mais devotos das várias religiões?

E depois dizem que os ateus são arrogantes…

Para pôr as coisas em perspectiva, vamos usar o exemplo do Cristianismo. Quem és tu para dizer que quem escreveu os Evangelhos estava errado, que S. Paulo estava errado, que todos os padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas nos últimos 2000 anos estiveram errados, que mais de 99% dos crentes de hoje em dia estão errados, porque tu e só tu sabes como Deus realmente é?

Quem és tu para decidir (não há outra palavra) que Deus “deve” ser bom, ou gostar disto, ou não gostar daquilo, ou assim ou assado? Que inteligência nunca vista, ou fonte misteriosa de conhecimento, tens tu para conseguir determinar isso? Como é que tu, mero mortal que és, podes decidir como é que o criador do universo “deve” e “não deve” ser?

Como ateu, eu acredito (e faço-o por ter razões para isso, não por um belo dia o ter decidido) que todas as religiões estão erradas, e que os livros sagrados não são mais do que a imaginação e os preconceitos dos autores. Porém, para quem não tenha estudado a origem dos mesmos (isso é outra longa história), é vagamente viável que eles realmente definam a religião, ou o ser que é a base dessa religião (ignorando todas as contradições, é claro). Mas ignorá-los e dizer “não, afinal Deus é assim, porque é assim que eu acho que Deus deve ser”… é de uma arrogância nunca vista. E o mais incrível é que quem afirma isso (ouço-o praticamente em todas as discussões sobre religião, incluindo uma ainda no início desta semana) não percebe o que está realmente a dizer.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O ateísmo causou a morte de milhões! Olhem para a Rússia Soviética!”

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2010

(Resistir… à piada óbvia… pelo menos até ao fim do post…)

Mais uma vez, não é uma pergunta, é uma acusação. A resposta óbvia é que o ateísmo não é um sistema de valores (o que é muito diferente de dizer que ateus não têm um sistema de valores), logo não há nada no ateísmo que leve a cometer qualquer acto — bom ou mau. É simplesmente a não-crença num ou mais deuses. Logo, um ateu — tal como um crente — pode ser a pessoa mais moral do mundo, ou o maior monstro.

A resposta típica de um crente aí é que aí uma relação, que o ateísmo, por uma ou mais razões, leva a massacres como esses, ou seja, que é, directamente, a causa dos mesmos. E que razões são essas?

A mais comum é que o ateu, ao não acreditar numa entidade superior que o punirá ou recompensará depois da morte, acha que “vale tudo”, que pode fazer tudo, sem consequências. Já respondi a isso em “Sem crença numa recompensa ou castigo eternos, como é que é possível ser-se moral?“, e reitero o que disse lá — que não só isso é extremamente ofensivo, como, ao sugerir isso, quem o diz está a admitir que não vê nenhuma razão para não roubar, violar e matar além da questão Céu/Inferno, e que se alguma vez perder a sua crença vai efectivamente cometer esses crimes, o que faz dele um psicopata. É esse o teu caso? Pensa lá bem.

Uma sugestão um pouco menos frequente é que o ateísmo, por não acreditar numa “alma” no sentido metafísico, que persiste depois da morte, “desvaloriza” o ser humano, tornando-o um mero conjunto de elementos químicos, e que por isso o ateu típico não dá qualquer valor à vida dos outros, considerando-os meras estatísticas.

O não dar valor à vida dos outros, no entanto, não tem nada a ver com a crença ou descrença em “almas”; é uma simples questão de egocentrismo, de falta de moralidade e de humanidade. A prova disso é que se pode ver esse mesmo comportamento em muitos crentes (Inquisição, mentiras sobre preservativos em África, protecção dos padres pedófilos, oposição a ramos da medicina, etc.), que supostamente acreditam em almas… mas isso não os impede de não dar qualquer valor à vida humana, de ver a morte de milhares ou milhões como uma mera estatística.

Na verdade, posso até argumentar que quem tem mais tendência para dar valor à vida humana são precisamente os ateus, pela simples razão de que são eles que acreditam que a vida que temos é a única, é finita, e por isso é preciosa. Ao invés disso, muitos crentes (não todos, repare-se) consideram a vida na Terra uma mera “passagem”, composta basicamente de sofrimento, cujo único propósito é determinar a salvação ou condenação da alma. Essa atitude tem o seu exemplo perfeito na célebre citação de Arnaud Amalric, que numa Cruzada em 1209, quando lhe perguntaram como distinguir os Católicos dos Catares hereges, respondeu “matem-nos todos; Deus conhecerá os seus”. É mais fácil não dar valor à vida humana quando se acredita que esta é um mero teste, que depois da morte é que começa a “verdadeira vida”, e que a única coisa que importa neste mundo é salvar almas.

Isso foi há 800 anos, dizem vocês, e as coisas mudaram? Errado. É exactamente essa mesma crença e essa mesma mentalidade que leva a que a Igreja Católica espalhe mentiras sobre os preservativos em África, entre populações que muitas vezes não têm outra fonte de informação além dos missionários, e dessa forma provoque a morte e sofrimento de milhões pela Sida. A atitude é simples: Deus detesta contraceptivos, logo mais vale sofrerem e morrerem mas terem uma hipótese de ir para o Céu, do que o contrário. A vida na Terra é vista como irrelevante, e a morte de milhões é vista como um mal menor. Isto é que é “dar valor à vida humana”?

E, como não resisto, tenho de o dizer: na Rússia Soviética, a Rússia Soviética olha para TI!! :)

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Vocês só são ateus porque querem fazer o que vos der na gana, sem regras e sem prestar contas a ninguém!”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

A pergunta afirmação é ofensiva por várias razões, e talvez não merecesse uma resposta. Mas, como já fiz antes, vou ser generoso, e assumir que não acreditas realmente no que acabaste de dizer, e que estás simplesmente a repetir sem pensar algo que te disseram. E, sinceramente, se fosse a ti afastava-me de quem te disse tal coisa, porque não é, de certeza, uma pessoa honesta e de confiança, mas, pelo contrário, não tem quaisquer problemas em mentir e caluniar em proveito próprio. E desenvolveres um bocadinho de pensamento crítico, de forma a não acreditares em tudo o que ouves sem questionares nem pensares, também não te fazia mal nenhum.

Já comentei antes, neste FAQ, que o medo do castigo ou desejo de recompensa são péssimas razões para se ser moral (e sugere coisas nada simpáticas sobre quem acha essas razões válidas), e que a nossa moralidade não vem da religião, muito pelo contrário. Mas nesta entrada vou responder à implicação propriamente dita.

Essa implicação é a seguinte: que os ateus no fundo “sabem” que Deus existe, mas escolhem “fingir que não acreditam nele” para não terem de aceitar um ser superior, obedecer a regras de moralidade, etc..

Há tanta estupidez e tanta malícia nessa implicação que uma pessoa nem sabe por onde começar.

Primeiro, é sugerido que os ateus são desonestos, já que é implicado que a existência de Deus é auto-evidente e óbvia para todos, e portanto os ateus estão a mentir quando afirmam ter chegado ao ateísmo por falta de evidências a suportar as afirmações dos crentes. A acusação sugere que os ateus, no fundo, “sabem” que Deus existe (e é sempre o deus em que o acusador acredita, é claro, e nenhum outro), mas fingem não o saber; ou seja, que no fundo não são realmente ateus.

Segundo, é sugerido que os ateus são imorais, já que “escolhem” o ateísmo para não ter de obedecer a ninguém, ter regras de moralidade, etc., bem como para não “ter” ninguém superior a eles.

Terceiro, é sugerido que os ateus são completamente estúpidos, já que, se lá “bem no fundo” “soubessem” que existe um deus que impõe regras morais e pune quem não as segue, não faria qualquer sentido declarar-se ateus, já que isso não os livraria, de forma alguma, da eventual punição divina.

Tudo isto não é apenas falso, é intencionalmente falso (também conhecido por “desonesto”) e insultuoso.

A existência do teu deus não é óbvia (caso contrário, entre outras coisas, não haveria outras religiões, nem seria necessário haver apologistas religiosos — como houve em toda a História, e continuam a haver — a tentar “demonstrar” que Deus existe).

Ateus não “escolhem” ser ateus por quaisquer segundas intenções. Não acontece com todos, mas muitos de nós somo-lo porque foi a conclusão a que chegámos racionalmente, depois de olharmos para as evidências e para o mundo em que vivemos.

Ateus são tão ou mais morais, em média, do que crentes de qualquer religião. Sobretudo porque somos os únicos que não fazemos o bem à espera de ganharmos alguma coisa com isso depois de morrermos. E o “moral” é o escolhido, não o obedecido; a moralidade nunca pode vir simplesmente da obediência a determinado ser, ou do seguimento de determinadas regras, mas sim de escolhas de um ser consciente.

E ateus não são tão idiotas que acreditem na existência de algum deus, mas achem que o podem enganar fingindo não acreditar nele (!). Logo, se achaste que a afirmação no título desta entrada fazia sentido, espero que te estejas a sentir bastante envergonhado, neste momento.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Tem de existir Deus; caso contrário, qual é o sentido da vida, uma vez que morremos e tudo acaba?”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Nota: esta resposta não aborda a questão de as consequências serem ou não correctas (isto é, se, não havendo um deus, a vida (única e finita) faz ou não sentido, e assim por diante). Isso fica para uma entrada futura no FAQ.

Em vez disso, esta parte do FAQ destina-se a demonstrar como a questão propriamente dita implica um erro de lógica, e, assim sendo, constitui um argumento completamente inválido.

Resumindo-a à sua essência, a afirmação implícita na pergunta diz o seguinte:

– se Deus não existe, <algo mau>. Logo, Deus tem de existir.

O que é que há de errado com isso? Apenas isto: mesmo que as consequências fossem absolutamente correctas (não são, como demonstrarei futuramente neste FAQ), ou seja, mesmo que o resultado de “Deus não existe” fosse realmente mau, isso não afectaria de forma alguma a veracidade da proposição. Por outras palavras, a “desejabilidade” de uma possibilidade não tem qualquer influência sobre ela ser verdadeira ou não. As coisas ou são, ou não são, independentemente das consequências.

Mesmo que fosse absolutamente 100% verdade que “Deus não existe” significa “a vida não faz sentido”, isso teria um efeito nulo sobre a existência ou não-existência de Deus.

O erro de acreditar que algo é verdade só porque “caso contrário seria mau” é uma falácia lógica chamada apelo às consequências, uma forma comum de “wishful thinking”. As nossas crenças devem ser formadas tentando ver e entender a realidade até ao limite das nossas capacidades — e não simplesmente acreditando naquilo que queremos que seja verdade, que nos é confortável.

Mais uma vez, não estou de forma alguma a concordar com a premissa de que as supostas consequências são verdadeiras. A vida não deixa de fazer sentido por não existirem deuses, existe na mesma uma base para a moralidade, e assim por diante. A questão aqui é que mesmo que essas consequências fossem verdadeiras (e há outras consequências que efectivamente o são, como “somos apenas animais evoluídos”, ou “não existe vida depois da morte”, ou “não somos especiais no universo”), isso não teria qualquer influência na existência ou não-existência de um deus ou deuses.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “Para dizer que não existe nenhum deus, é preciso tanta fé como para acreditar num.”

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Transformando a acusação numa pergunta (já que isto é um FAQ): não somos omniscientes, não temos meios de olhar para todo o universo. Como é que podemos afirmar com certeza que não existe um deus em todo o universo, sem recorrer à — ou seja, crença sem evidência a suportá-la?

De certa forma, a resposta depende daquilo que queres dizer com “deus”. Referes-te “àquele” deus específico, ou a “qualquer” deus, de forma indefinida?

Considerando a língua em que este blog é escrito e a minha localização geográfica, é bem provável que, quando te referes a “deus”, queiras dizer o deus Judaico-Cristão, Yahweh, tal como descrito na Bíblia. Se é assim, posso responder a isso facilmente: precisas de fé para dizer que Odin não existe?

De certeza que não. Não tens razão nenhuma para acreditares em Odin, nem vês nenhuma evidência da sua existência. Além disso, Odin e os outros deuses nórdicos são claramente antropomórficos; isto é, são exactamente como humanos, mas “maiores” e mais poderosos. Têm as mesmas emoções, tipos de personalidade e desejos que os humanos. É seguro dizer que foram inventados pelos antigos Vikings.

A questão é que tudo isso adapta-se ao teu deus, também! A forma como Yahweh é retratado é com uma personalidade absolutamente humana — e com os vários defeitos humanos, também, como ciúmes, “birras”, e “embirrações” com coisas perfeitamente inofensivas, como certos tipos de alimentos, ou actos que não prejudicam ninguém. Para não falar do facto de só conseguir “perdoar” a humanidade depois de um sacrifício de sangue — mais uma vez demonstrando uma moralidade e desejos completamente primitivos e barbáricos, mas muito comuns no início da História. A explicação óbvia é que humanos primitivos transpuseram os seus desejos primitivos para um deus que inventaram. E Jesus Cristo é um aglomerar de mitos já existentes na altura (Mithras, etc.), que já tinham histórias praticamente indistinguíveis (nascidos de uma virgem, mortos e ressuscitados depois de 3 dias, etc.).

Além disso, há vários argumentos lógicos contra a existência de uma entidade omnipotente, omnisciente e “boa”, como o deus Judaico-Cristão. Por exemplo, o paradoxo da omnipotência (pode Deus criar uma pedra tão pesada que não a consiga levantar?), ou o problema do mal (se deus é todo-poderoso e bom, como é que existe tanto mal no mundo, incluindo muito que não é culpa da humanidade e não pode ser desculpado com o “livre arbítrio”, como por exemplo catástrofes naturais que matam milhares de crianças). O primeiro é logicamente auto-contraditório; o segundo exige desculpas tão labirínticas e “esfarrapadas” que rapidamente a coisa se torna ridícula (sugiro este link para explorar essas desculpas, e respostas às mesmas).

Mas talvez não tenhas querido dizer um deus como esses. Talvez te refiras a algo bem diferente de tudo o que já foi adorado pelo Homem: um ser cósmico vasto, que não criou o universo, mas é o universo. Um ser que, por não ter sido inventado por seres humanos, não tem de todo características humanas (francamente, exigir ser adorado? ciúmes? obsessão pela nossa sexualidade? Como é que alguém pode acreditar nisso?), para quem nem a humanidade nem o nosso planeta insignificante são o centro do universo e a razão do mesmo existir, que provavelmente, mesmo sendo consciente, não está sequer ciente da existência do nosso planeta, e que não está preocupado com trivialidades (no sentido cósmico) como “oração”, “pecado” ou “vida depois da morte”.

Tal divindade (ver mais detalhes aqui), se existisse, seria completamente indetectável por nós, não iria interferir de forma alguma nas nossas vidas, ou estar preocupada connosco. Em todos os sentidos possíveis (excepto no científico: seria fascinante descobrir e estudar um ser assim), é como se esse “deus” não existisse: nada que possamos fazer o afectaria de qualquer forma. Acaba por ser equivalente a questões como “será que vivemos numa simulação perfeita”: se a simulação é perfeita, é indistinguível e indetectável, e, de certa forma, irrelevante para as nossas vidas, porque não as afecta ou altera em nada (se bem que não há mal nenhum em ter curiosidade).

Em ambos os casos descritos acima, há ainda algo definitivo contra a posição de que “é preciso fé para dizer que algo não existe”: o ónus da prova. Este está sempre do lado de quem afirma que algo existe, e é ele que tem de provar a existência desse algo. Caso não o faça, a posição lógica é dizer que a afirmação é falsa, e não é preciso qualquer “fé” para isso.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)

FAQ: “O que é que os ateus adoram, então?”

Quarta-feira, 17 de Fevereiro, 2010

Depende do que queres dizer com “adorar”. Se te referes a admirar, respeitar, tentar emular, ou acreditar em, eu não posso responder a essa questão, já que cada ateu é diferente. Não há nada na etiqueta “ateu” que especifique nenhuma dessas coisas em relação a uma pessoa.

Se queres dizer num sentido religioso, a resposta é simples: nada.

A fonte de dúvida aqui é que muitos crentes são ensinados desde pequenos que o “adorar” é algo essencial e universal nos seres humanos; por outras palavras, que toda a gente adora alguém ou algo. Como os ateus não acreditam em deuses — e, mais especificamente, não acreditam no teu deus –, talvez te tenham ensinado, ou talvez tenhas concluído, que os ateus simplesmente adoram algo ou alguém diferente. É comum os ateus serem acusados de adorar:

  • eles próprios
  • a humanidade
  • Charles Darwin
  • o materialismo
  • o dinheiro
  • a ciência
  • a razão / a mente
  • a natureza
  • o comunismo
  • Richard Dawkins
  • o niilismo
  • outros deuses que não o teu (o que contradiz a definição de “ateu”, mas não nos vamos preocupar com isso agora…)
  • Satanás (!)

e outros.

Como é óbvio e nem devia precisar de ser mencionado, todas essas afirmações são falsas. Ateus não “adoram”, no sentido religioso. Podemos respeitar, podemos admirar, podemos até sentir reverência (e muitos de nós sentimos, por exemplo, pela natureza, ou por uma obra de arte). Mas “adoração” implica algo diferente. E o adorar de algo, tal como ter uma religião, ou ter um carro, não são uma parte essencial do que é ser um ser humano.

(Nota: por favor, restringe quaisquer comentário que faças à pergunta e resposta anteriores, e não a outros assuntos, como a existência ou não-existência de Deus. Obrigado.)


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